QUANDO O SOL SE FOR
1 Prólogo
Notas iniciais
No princípio, havia apenas água e trovão. Duas forças que a todo segundo se sobrepujavam em uma dança desconhecida e impronunciada. De seu toque surgiu a terra. Íngremes e escarpadas, depois planas e verdejantes. O seu amor produziu o dia e a noite, as estações, e a perfeição da natureza em sua totalidade. Do seu ódio, por outro lado, surgiram criaturas. De todas as formas e dons, e a Vida e a Morte. Água e Trovão eram inseparáveis em seu próprio furacão tempestuoso, e rodavam por todo o planeta em sua dança eterna. Então veio o Guardião. A balança entre suas irmãs opostas. O equilíbrio quase perfeito. E existia paz.
Mas essas criaturas ganharam consciência. E se desenvolveram, e evoluíram, e chamaram atenção do Guardião, que vivia perdido, até reconhecer uma alma saltitante. Uma mulher que morava perto do mar. Uma noite, enquanto ela se banhava em uma cachoeira brilhante, ele desceu à terra para olhá-la, admirá-la. Desde então, tudo era sobre ela. Cada momento de luz era preenchido com visões de seu dia a dia, e pouco a pouco, o Guardião caiu do céu para encontrá-la. Ela não o reconhecia, mas era impossível não se apaixonar pela aparência mais bela em todo o mundo. Aquele corpo de homem parecia esculpido em beleza mais selvagem, em contraste com toda a desgraça que existia naquela terra. Eles fizeram amor.
E desse amor, pequenas partes de suas almas se descolaram para criar outros amores. E foram amor até serem descobertos. Trovão ficou revolto. Água estava fora de si quando afundou aquelas terras. Raios queimaram as plantações, e as aldeias foram inundadas. Amores se perderam, se espalharam. Guardião até tentou salvar todos aqueles seres, mas a maioria se foi como o vento de amargura. Sua mulher, aquela mulher, nunca mais foi vista. Ele a procurou quando o dilúvio passou, clamou para que aqueles seres a encontrassem, mas a terra estava em sono profundo. Quase morta.
Então, o deus procurou a única capaz de trazer vida para aquele mundo azul. Sua irmã fez nascer terras saudáveis, criaturas belas como a noite e acalmou os oceanos por um tempo. Guardião despejou seus seres nessa terra, e eles encantaram aquele novo mundo. Ele chorou e chorou, e dessa água nasceram os rios. O caos dos gigantes primordiais ficava retido aos oceanos quando se chocavam vez ou outra, e as tempestades era passageiras. E, por um tempo, as coisas ficaram boas. A mulher nunca mais foi vista, e as más línguas dizem que esta foi feita prisioneira em um castelo abaixo do mar mais frio, longe de luz e liberdade. E de amor.
Milênios se passaram, e aqueles seres feitos de Vida cresceram e se abundavam da terra, mesmo que suas vivências pouco importassem sua criadora. Morte sempre as olhava, ávida para ver um pouco mais de agitação em um ambiente tão rarefeito quando o lugar que viviam. Era a pura plenitude naquele canto além do Muro das Imperfeições. O céu agitado ainda era comandado pelo pai, mas aquele cantinho imperturbável era o presente de Guardião para as irmãs que doaram tanto por si. Ainda assim, o deus já não tinha mais olhos brilhantes voltados para a terra, porque nada mais ali lhe interessava. Os gigantes já tinham se certificado de manter seu foco em equilíbrio, o que parecia significar afastamento daquelas criaturas mundanas.
Enquanto isso, na Terra, nasciam herdeiros. Em uma ilha especial, com pessoas especiais, estava para cair o mundo.
De uma guerra do outro lado do oceano que levou a flor mais bela do reino, e das consequências de um amor que derrubava montanhas, que por acaso estavam sentadas em tronos de mármore. E a história estava para se repetir.
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