QI: Quociente de inteligência
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“Quem não aprende com a história, irá repeti-la”, é isso que está escrito em um grande letreiro logo acima da louça. Essa frase deveria ser um incentivo para que os estudantes lembrassem da importância de aprender história: uma matéria que a maioria considera inútil.
Já eu considero fascinante. Não sei por que, talvez seja porque ver os erros do passado faz com que os meus não pareçam tão ruins.
As palavras parecem manuscritas, apesar de ninguém mais escrever. É claro que aprendemos logo que iniciamos a escola, mas a maioria nunca teve curiosidade de usar as canetas mesmo, então logo após o primeiro ano eles voltam usar o teclado e agora sempre que tentam escrever suas letras não passam de garrancho, embora ainda haja aqueles que achem legal fazer as curvas do “c” ou bolas do “g” – como eu que tenho a mesa rabiscada com palavras aleatórias que meus colegas não conseguem entender. Eles nunca entendem o que não há propósito ou padrão.
— Maya?
Eu tiro os olhos da mesa, o computador pessoal de lado não usado – uma tela holográfica vinda de um pequeno retângulo cinza — e encaro a professora nos olhos.
— Desculpe, o que disse? – alguns dos meus colegas riem, eles não entendem como eu posso estar presente e não conseguir ouvir.
A professora dá um sorriso solidário e repete a pergunta:
— Pode me dizer quem foi o primeiro a ocupar o cargo de Primeiro Marechal?
— Foi Carlos Henrique Nobre.
Ela sorri, um sorriso caloroso.
— Muito bem – e então continua a apontar para a matéria no quadro.
Eu sei por que ela sorri, é porque ela me entende. Diferente das outras matérias, cujo propósito é óbvio, história é negligenciada – parece com educação física, que só serve para nos manter saudáveis.
É claro, houve uma época em que os “esportes” eram populares, não esportes mentais como xadrez, mas esportes físicos. E todos ficavam deslumbrados com que o corpo dos “atletas” podia fazer – eles inventavam regras próprias e então tentavam de tudo para cumpri-las.
E tinha vários! Futebol, voleibol, tênis – quase todos envolviam uma bola e uma vez a cada quatro anos o mundo todo parava o que estava fazendo para assisti-los “jogando”! Se chamava “olimpíada”. Ouvi dizer que eles ganhavam dinheiro com isso! Muito!
Se eu tivesse nascido vários anos antes, talvez eu também pudesse ser uma “atleta”, mas aqui no País Entidade de Hawking – nome dado em homenagem a um grande cientista – as coisas não funcionam assim: aqui tudo o que importa é o seu QI.
Um teste que avalia o quão inteligente você é e te dá um número a partir de cento e trinta. Bom, quando o teste foi inventado existiam números abaixo, mas conforme os normais foram se unindo e procriando, os chamados “medíocres” foram sendo incentivados a não ter mais filhos.
Eles pareceram perceber isso, porque logo o número foi reduzido e os medíocres foram extintos – os professores dizem que só graças a isso nós temos o país entidade de hoje, onde a expectativa de vida é maior, a qualidade é melhor e temos tecnologias que os nossos antepassados só sonhavam.
Eles escreviam livros inteiros, feitos de papel, só com coisas criadas pela própria mente, sem qualquer propósito de ensinar – era só pra... se divertir, sem aprender nada! Penso que os livros daquele tempo deviam ser mais interessantes dos que os meus.
É claro, história é um pouco divertida. Eu gosto de passar o dedo e mudar folhas no holograma – somente nessa hora aprender é suportável, nas outras é horrível.
Meu computador pessoal emite uma mensagem avisando o fim da aula e passo o dedo em frente a tela “descendo o aviso” para mostrar a lista interminável de leitura para a próxima aula.
Eu fecho a mão e tela some, como se entrasse de volta no pequeno retângulo que restou logo abaixo – eu o dobro ao meio e o coloco em minha mochila, passo a mão por cima do sensor óptico que me oferece as opções de “Descanso” ou “Ativo”, eu seleciono a segunda e a mochila se ergue do chão e me segue conforme me levanto da mesa, colocando a caneta em um dos bolsos da saia e deixando para trás a mesa rabiscada.
Porém eu pareço ser a única que só caminha até a próxima aula, os outros ativam seus portáteis no pulso já lendo livros das próximas aulas ou verificando notícias sobre alguma nova descoberta.
Ouço Tay, meu antigo amigo de infância e agora aquele amigo que finge que você não existe, excitado com as novidades da ciência:
— Você viu? Criaram uma vacina para prevenção do câncer! Assim que começarem os testes, eu vou me inscrever.
Eu quase me contenho, mas acabo falando:
— Você não tem medo?
Ele vira a cabeça de súbito, como se não tivesse notado que eu estava ali, talvez não tivesse notado mesmo.
— Medo de que? – ele pergunta quase rindo, uma das “perguntas estranhas da Maya” estão por vir.
— E se der errado? E você acabar doente?
Ele e o amigo, Lucas, começam a rir juntos – na minha escola as pessoas só riem quando debocham das outras.
— Está maluca? – ele finalmente recupera o fôlego pra falar – se já saiu pra testes é porque já funciona! Os cientistas nunca erram.
— Além disso – completa Lucas – se acontecer alguma coisa eles dão um jeito.
Eu viro de costas, ainda seguida pela minha mochila, enquanto eles nem se dão o trabalho de falar baixo:
— Esquisita.
Mas é assim mesmo, desde que eu era criança eu sempre fui considerada “esquisita”, a que gosta de correr, enquanto os outros estão contando os segundos para acabar, a que tem que estudar para a prova para conseguir tirar um sete, enquanto a média da escola é um perfeito cem.
Aqui as pessoas não duvidam da sua capacidade, elas só te incentivam – mas no meu caso, está mais para empurrar para frente.
Meu portátil, um quadrado branco fixado no meu pulso esquerdo – sou destra – vibra e eu toco nele para que a interface holográfica apareça indicando uma mensagem nova:
“Cara Senhora Maya Dewins, peço encarecidamente que compareça a diretoria da escola antes do horário escolar, às sete horas em ponto, junto a seus pais para discutir seus encargos futuros”.
Assim que eu deslizo o dedo o software me informa que a mesma mensagem foi encaminhada para meus pais, eu suspiro de frustração antes de fechar a mão. Eu caminho com passos rápidos, desviando das pessoas no caminho – dando trabalho para minha mochila me seguir aos tropeços.
A maioria dos pais dos alunos aqui nem sequer sabe como é a escola – ela está constantemente sendo reformada e completamente diferente de como era quando eles estudavam aqui. Lembro que li em algum lugar que no passado havia as escolas públicas, oferecidas pelo governo e as particulares, onde você pagava para estudar.
Bom, aqui todas são públicas e iguais – tudo que é ensinado em um lugar é ensinado em outro com o mesmo cronograma – mesmo alguns alunos querendo a matéria fosse dada mais rápida, enquanto eu mal consigo acompanhar.
Eu paro por um segundo: há alguns dias houve um texto surpresa de QI, eu havia implorado para que a professora me deixasse estudar pelo menos um dia, mas ela disse que para este tipos de testes não se estuda enquanto meus colegas riam do meu pedido estúpido.
Meus pais foram incontáveis vezes na escola por causa das minhas notas inferiores, o que rendia um grande sermão assim que eu chegasse em casa.
— Como pode tirar um oito? Não leu os livros? – meu pai gritava – Tudo bem estudar, eu fazia isso de vez em quando, mas quando eu estava na faculdade! Se não consegue lidar com as matérias de uma escola, o que vai fazer da vida? Vai acabar em um laborátó...
— Henry! – chamou minha mãe.
E meu pai imediatamente parou o que estava dizendo e me mandou para o meu quarto enquanto eu chorava. Nunca me perguntei o que significava as palavras dele, talvez uma analogia antiga que se usava para chamar alguém de “burro” – xingamento usado para ofender qualquer um hoje em dia, mesmo não tendo nada a ver com o desempenho acadêmico.
Eu me pergunto o que meu pai fará quando chegar em casa. Ele é médico, um curso que leva três anos de estudo, muito em comparação com outros, mas, por alguma motivo, ele se apaixonou por uma simples professora – mesmo num mundo onde qualquer pode se tornar isso, basta um curso de três meses.
Eu sou a estranha da escola e isso torna ainda mais obvio enquanto divago, caminhando até a saída das portas sensoriais, que se abrem logo que me aproximo – meu portável vibra novamente, provavelmente me relembrando da leitura dos próximos dias.
O dia está ensolarado como sempre, o meteorologistas já avisa avisado que haviam programado um tempo parcialmente nublado para hoje – o que meio que me irrita. O que é de divertido em sempre saber o que vai acontecer? Assim que acordo recebo uma notificação do meu fixo, na minha cabeceira, informando o clima programado para o dia e eu sempre olho, não sei por que. A hora em que ele me desperta é a mesma e eu sei que vou ver o clima do dia logo abaixo.
Por um dia, apenas, eu queria largar esse meu instinto e ser surpreendida pelo clima, mesmo que eu tenha que me molhar na chuva.
Eu ando até o ponto de transporte – não muito longe da escola – e me sento enquanto espero o Veiculo Funcional Inteligente (VFI) chegar. Um número aparece no chão, a minha frente, notando a minha presença, indicando os minutos até ele chegar.
A minha mochila, finalmente, sobe pela rampa até parar do meu lado e eu aproveito os dois minutos sobrando para ativar meu portátil: a tela aparece imediatamente, com um interface me relembrando do clima – Aff – o relógio e uma pequena pasta, onde eu sei que dá acesso aos livros, mas eu ignoro tudo isso e com meu dedo deslizo até uma pasta mais abaixo, que personalizei o ícone para parecer um livro antigo. Eu clico nele e sorrio quando eu vejo meus reais livros armazenados, histórias de como era o mundo antes da Renovação, antes dos medíocres serem extintos.
Eles eram muito mais interessantes do que nós, não tentavam racionalizar suas emoções, iam lá e faziam! De acordo com meu professor de Convivência Social e Cívica, seu QI baixo indicava uma falta de controle sobre os próprios impulsos, o que resultava em ondas de crimes e de vidas turbulentas.
Mas, sinceramente, por mais feliz que possamos ser agora com nossas rotinas chatas e perfeita, o que há de tão interessante nelas? Quem digitaria livros sobre nós? Por outro lado incontáveis pessoas sentiam prazer em descrever suas vidas descontroladas e emocionantes! E as vezes eles só imaginavam e escreviam e eu, assim como eles faziam, me delicio com suas aventuras teóricas, mesmo que elas só vivam na imaginação – um termo que entrou em extinção conforme nossa sociedade progredia.
Me perguntou qual ler... Harry Potter? Orgulho e preconceito? Um homem de sorte? Pra ser honesta já li todos eles, mas quando os dias ficam ruins, eu gosto de lê-los de novo.
Decido pelo primeiro, e começo “O menino que sobreviveu” e não paro até quando VFI chega e eu entro dentro da cabine posicionada perfeitamente a minha frente e sento em um banco acolchoado, que se adapta a curvatura.
Minha mochila se encaixa no compartimento embaixo do banco – como ela foi programada a fazer – e enquanto os outros leem as notícias em seus portáteis ou na tele holográfica de frente para o banco, eu leio. Não porque eu tenho, não para aprender, mas só porque eu gosto. E isso é tão ilógico que ninguém a não ser um medíocre poderia me entender.
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