Pós-epílogo
1 Capítulo único
Notas iniciais
Espero que goste! :)
Jem acordou e suspirou brutalmente, como se aspirasse o ar após perdê-lo por algum tempo.
Olhou ao redor. Estava em uma sala vazia, preta e pequena, que continha duas portas brancas à sua frente.
Ele se levantou, ainda um pouco confuso com o que estava acontecendo. Observou as portas idênticas e algo dentro dele, como um instinto, o impulsionava a escolher a da direita. Foi até ela e empurrou a porta.
À sua frente, estava o Instituto de Londres, imponente. O ar era carregado e tinha cheiro de poeira. Seus pés se direcionaram automaticamente para as portas do Instituto, até chegar frente à sala de treinamento. Era como se estivesse sendo conduzido por uma mão invisível. Tentou abrir a porta, mas não conseguiu. Subitamente, uma mão pegou a sua gentilmente e a tirou da maçaneta; quando Jem olhou para cima, viu Charlotte sorrindo para ele. Ela não estava com os cabelos brancos e rugas da última vez que a vira, mas com a aparência de seus anos como Consulesa.
Sem uma palavra, Charlotte abriu a porta e Jem entrou, agradecendo-a. Ela acenou com a cabeça, ainda sorrindo, e fechou a porta.
A ansiedade que Jem sentia desde que acordara se intensificava a cada segundo, apesar de não saber o porquê.
- Finalmente. — disse uma voz extremamente conhecida. — Após tantos anos sem alguém para treinar comigo, voltei a ser um péssimo atirador de facas.
Jem voltou-se para a direção da voz e viu Will com seu sorriso sarcástico e olhos azuis brilhantes, a aparência jovem, em seus 18 anos, com a vestimenta dos Caçadores de Sombras do século XIX. Jem perguntou-se, sentindo-se um pouco tonto, se todos aqueles 185 anos tinham sido um sonho.
- Eu sabia que ia escolher a porta certa, Jem. — a voz de Will estava ansiosa e um pouco embargada. — Afinal, onde tu fores, também irei; não é o que diz o juramento parabatai?
Uma lembrança invadiu a mente de Jem: sua respiração fraca, a cabeça de Tessa encostada em seus ombros, as mãos dadas.
Jem, num impulso, foi até Will e abraçou o parabatai.
- Eu cheguei, Will. — sussurrou, ainda inacreditando que o que estava acontecendo era real. — Após tantos anos pensando que seria imortal... Pensando que nunca mais nos veríamos novamente.
- Cá estamos. — respondeu Will, se afastando e olhando para o amigo. — E vejo que recuperou sua aparência lunar.
- O quê? — Jem olhou-se no reflexo da janela. Tinha cabelos e olhos prateados, e aparentava ter a mesma idade de Will. — Pelo Anjo... — e tocou o próprio rosto.
O peito esquerdo de Jem ardeu fortemente e, quando observou, notou que seu símbolo de parabatai estava enegrecido novamente.
- Até além da morte. — citou Will, sorrindo.
Jem sentiu um alívio repentino e forte, como se um fardo tivesse sido tirado de seus ombros; foi quando um rosto veio à sua mente e seu coração se apertou com dor ao perceber que a tinha perdido para sempre — de novo.
- Tessa. — murmurou, a voz vacilante.
Will encarou-o, ansioso.
- Eu... estava a ponto de perguntar sobre isso. Ela... — ele respirou fundo. — Ela veio com você?
Jem percebeu a nota desesperada e ansiosa na voz de Will, mesmo que ele tentasse escondê-la. Olhou o amigo com compaixão, colocou a mão em seu ombro e tentou estabilizar a própria voz.
- Não... Ela não veio, Will. — Will vacilou e sentou-se no chão, claramente perturbado. — Ela ainda tem missões lá. — tentou tranquilizá-lo e, talvez, a si mesmo, mas o parabatai já havia começado a chorar.
Jem compreendia muito bem o que Will estava sentindo — uma sensação de incompletude, o insuportável pensamento de nunca mais poder tocar — nem mesmo olhar — Tessa novamente.
Will levantou a cabeça e encarou Jem com olhos avermelhados.
- Desculpe-me, Jem. — fungou. — É que... sinto tanta falta dela.
- Eu também sinto. — e sentou-se ao lado do amigo.
Ficaram um tempo em silêncio, apreciando a companhia que há tantos anos tinha se perdido.
- Jem? — a voz de Will estava mais controlada, mas ainda fraca.
- Sim?
- Ainda existem patos?
Jem riu, aquela risada que ajudava Will a ter esperanças de que um dia tudo poderia dar certo, e riu também.
E os dois começaram a conversar como se nunca tivessem sido separados, confortando um ao outro, rindo um com o outro, cuidando um do outro.
Nunca mais sozinhos.
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Tessa fechou os olhos e as mãos com força, mordendo os lábios. Jem estava ao seu lado, imóvel, o corpo velho e pesado, os cabelos grisalhos roçando seu rosto, as mãos frias.
Um Irmão do Silêncio a encarava, mas não era em uma tentativa de conforto ou por compaixão. Ele não tocou nenhuma música, nem pegou em sua mão.
Aquilo era inevitável, ela sabia, e se preparou para não sofrer tanto quanto já tinha, mas era impossível conter a escuridão que parecia crescer em torno dela.
Era egoísmo, ela sabia — afinal, eles estavam juntos agora, melhores do que ela jamais estaria.
Olhou para um canto do quarto onde um exemplar velhíssimo e surrado de "Um conto de duas cidades" e um violino estavam sobre uma mesa, lado e lado, e a sensação de vaguidez que a tomava parecia sufocá-la cada vez mais.
Tessa abraçou o próprio corpo com força, como se fosse quebrar.
O Irmão do Silêncio recolheu o corpo de Jem e se foi.
E, desta vez, estava sozinha.
Para sempre.
Notas finais
Bem, os "185 anos" que o Jem se refere é a uma data que vi em uma fanpic (mesmo não querendo T_T), que seria a contagem de 1878 até o ano de sua morte. Ai.
Obrigada por ler, espero que tenha apreciado a leitura! :D
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