Pão de Mel

3 3. Família


Notas iniciais
Olá, pequenos unicórnios! Se vocês chegaram até aqui devem estar achando que a história é, pelo menos, legível. Então, por favorzinho, deixa um comentário ou voto pra me fazer feliz e incentivar a continuar ♥

O quarto de Laura era o ambiente mais bem iluminado da casa. Uma janela que ocupava metade da parede deixava a luz do sol da tarde entrar. As outras paredes eram decoradas com quadros, fotos, nichos e um quadro para anotações, tudo em tons de lilás e azul.

Cecília estava esparramada na cama da amiga, tinha tirado as botas para não sujar a colcha e fazia anotações em um caderno. Bart estava sentado na cadeira branca de tecido fofinho com o notebook no colo. Laura andava de um lado para o outro, encarando a tela do celular.

—O salão tá decidido, então — ela falou. — Vamos ter que contratar o buffet do centro, galera.

—O que? — Cecília falou, indignada. — O que aconteceu com o da formatura da irmã do Bart? A comida era maravilhosa!

A irmã de Bart tinha se formado alguns anos antes e os três, que estavam lá por insistência dos pais do rapaz, decidiram que queriam aquele buffet quando fosse a vez deles de se formar.

—Não temos dinheiro suficiente. Eles são melhores, mas os pacotes têm mais coisas e cobram mais. Teríamos que conseguir, tipo, uns dois mil reais em poucos meses — ela explicou.

—Não podemos pelo menos tentar? — Bart abaixou a tela do notebook.

—Nós precisamos. Todo mundo tinha concordado com esse!

—Quando? — Laura perguntou.

—Quando eu saí perguntando — Cecília deu de ombros. — Podemos pelo menos perguntar pro resto do pessoal?

—Claro. Vamos marcar uma reunião com todos da comissão na segunda — respondeu, distraída.

—Até com o seu príncipe preso na torre? — Bart abriu um sorrisinho malicioso.

—Quem? — ela se virou para ele sem entender.

Cecília riu e se sentou na cama.

—E ela ainda pergunta. Não vai me dizer que esqueceu da sua cena com o Guilherme Almeida na sala sexta — Cecília também sorriu.

—Ah, pelo amor de Deus. O que vocês queriam que eu fizesse se ele tava certo?

A sexta-feira era dia de aula de Geografia. O professor era bem tradicional, gostava de tudo do jeito dele e não tolerava desobediência. Nem Laura gostava dele, — e ela gostava da maioria dos professores — apesar de ser sua aluna favorita, isso porque tirava as melhores notas e sempre entregava os trabalhos na data marcada.

Guilherme tinha deitado a cabeça na carteira no começo da primeira aula e quando chegou a hora da segunda, de Geografia, nem o barulho do sinal o acordou. O professor passou algumas coisas no quadro, pediu para abrirem o livro e começou a explicar a matéria. Ele aguentou uns quinze minutos antes de andar até o fundo da sala e chacoalhar Guilherme para acordá-lo.

—Você não tem um pingo de respeito por ninguém, não é, garoto? — o homem falara. Todos os alunos prestavam atenção na cena. — Eu estou tentando te ensinar alguma coisa, seu marginalzinho, o mínimo que você podia fazer é ficar acordado. Se você me disser uma característica do fascismo, eu te deixo com a nota azul esse bimestre.

Guilherme não parecia abalado, bocejou e esfregou os olhos antes de responder.

—Censura? — falou.

—Estão vendo? Nem se eu literalmente te der nota você vai conseguir se formar, garoto.

Nesse momento, Laura trocou um olhar com os amigos, deu de ombros e ergueu a mão. Não gostava de se meter nos assuntos dos outros, mas gostava ainda menos de injustiças.

—Professor? — chamou.

—Laura, você pode esperar um pouco? Estou tentando provar um ponto aqui.

—Anh… É que ele tá certo — ela falou.

Alguns alunos riram, os que já sabiam daquilo confirmaram e, pouco depois, alguém achou a informação no livro didático. O professor ficou sem graça e tentou explicar que não podia simplesmente dar pontos sem mais nem menos, apesar dos protestos dos alunos.

—Bom, por sua causa ele vai passar em Geografia — Bart falou e ajeitou o computador no colo.

—Nesse bimestre. Provavelmente. Enfim, temos que chamar ele, sim, mas, pra isso, precisamos conseguir o número do celular.

—Vou ver se consigo — Cecília falou. — Reunião oficial na segunda, então?

—Isso aí — ela confirmou e desligou a tela do celular. — Vamos comer agora ?

Deixaram as coisas no quarto e foram para a cozinha, Laura deixou os dois na mesa e foi pegar a torta no forno. Não que fosse recém assada, a mãe tinha comprado na padaria mais cedo e a moça deixara lá para preservar a temperatura, agora devia estar morna.

—Querem suco ou refrigerante, crianças? — a mãe de Laura entrou pela porta dos fundos carregando Davi, o filho de um ano, nos braços.

Fernanda conhecera o pai de Davi em uma viagem. Ele desapareceu assim que soube da gravidez e deixou bem claro que não queria ter nada a ver com a criança.

—Suco — Cecília pediu.

—Refrigerante — os outros dois responderam.

—Vai com a Laurinha — a mulher disse para o menino e o entregou para Laura.

—Obrigado, tia Fernanda — Bart agradeceu.

Fernanda levou Davi para brincar na sala — separada da cozinha por um balcão — enquanto ela preenchia alguns relatórios do trabalho e os três jovens comiam e conversavam. A mulher ligou o rádio e uma música antiga começou a tocar, para tristeza da filha, que já tinha ouvido aquela música tantas vezes que passara o odiá-la.

—Tenho que sair pra resolver umas coisas — avisou a mulher.

—Agora?

—Agora — Fernanda pegou a bolsa e colocou uns relatórios dentro. — Se comportem.

—Eu estou indo, na verdade — Cecília falou assim que a mãe da amiga saiu. — Tenho outro compromisso.

—Olha isso, Laura, tá trocando a gente — Bart cruzou os braços, rindo, e pegou outro pedaço de torta.

—Tô mesmo — Cecília colocou a bolsa nos ombros e deixou seu prato na pia. — As árvores me dão oxigênio pra respirar, vocês dois só me dão problema, no máximo.

Cecília estava sempre envolvida em protestos pela natureza e pela liberdade, às vezes conseguia arrastar os amigos junto, mas esses eram eventos raros. Bart ficou de olho em Davi enquanto Laura acompanhava a amiga até o portão.

—Sua última foto do Instagram tá com dez mil curtidas, sabia? — Bart comentou.

—É mesmo? — Laura desligou a música e pegou o celular para checar.

Era verdade, a menina tinha muitos seguidores por causa das fotos bonitas que postava. Nesta ela estava na frente da janela do quarto, virada de lado e raios de sol batiam em seu rosto sorridente. A legenda era sobre ser feliz e fazer o dia dos outros feliz também, Cecília que escolhera.

Bart não demorou muito para ir embora, deixando Laura sozinha com o irmão. Ela tinha uma pilha enorme de trabalhos da escola para fazer, mas preferiu brincar com ele, podia fazer os trabalhos à noite. Teria que se preparar para a reunião também.

—Quem quer brincar com os fantoches? — ela perguntou e Davi riu para ela.