Pássaros no Asfalto
1 Capítulo Único
“Minha Vermelha,
Sinto muito não ter ido ao nosso encontro hoje à tarde, como havíamos combinado. Você nunca foi de esperar muito por ninguém, então presumo que, após quinze minutos, tenha ido embora. Espero, na verdade, que tenha sido desta forma. Não me apetece a ideia de deixa-la plantada em qualquer lugar, ainda mais neste mundo louco em que vivemos. Mas, caso o tenha feito, saiba que não foi minha intenção.
Você, melhor do que ninguém, conhece todos meus rodeios e floreios para poder deixar a mansão. Hoje foi um daqueles dias de reunião e só Merlin sabe o quanto eu desejei que acabasse logo. Porém, essas coisas fogem do meu controle. Se te anima um pouco saber, pensei em nós dois o tempo todo. Não é mais segredo para você que eu só encontro forças para continuar quando lembro do seu sorriso.
Por falar em sorriso, estive pensando muito naquele feriado em Brighton. Você lembra de como nós nos sentimos? Acho que foi a maior maluquice que já fizemos, mas certamente é a minha melhor memória. Às vezes eu sonho com o barulho do mar e da sua risada despreocupada. Você ainda tem aquele maiô preto, Ginevra? A cicatriz que você causou quando me acertou com a raquete quase já sumiu. Acho que devíamos escapar de novo, um dia desses. O que você acha? Eu nunca conheci a Ilha de Wight...
Semana passada eu estive no jardim, observando a rua. Acho que você gostaria de poder vir aqui sob a luz do dia e não correndo, no meio da noite, como costuma ser. Tenho quase certeza que gostaria de ver as plantas, as flores, a fonte... penso que ia achar os pavões, no mínimo, interessantes e exagerados, mas o lobisomem acabou com todos. O fato é que senti muito sua falta esses dias, a ponto de ficar remoendo sob o sol o fato de não poder te oferecer nada melhor que essa vida que temos. De esconderijo, segredo e sussurros. Pois é disso, Vermelha, que nos nutrimos durante todo esse tempo.
As horas passam devagar por aqui, então não sei quanto tempo fiquei sentado no jardim. E me dei conta de que havia um trio de pássaros no asfalto. Ciscando inutilmente na calçada, procurando por migalhas onde não encontrariam. Tentando sobreviver acima de tudo, sem diferenciar mais o que lhes serve e ingerindo tudo, até as pedras. Você não fica triste, Ginevra, quando os vê? Me sinto meio responsável, pensando que haveria um grande campo para eles se não fosse a mansão. E na grama, tenho certeza, encontrariam o que procuram. Mas, às vezes, penso que somos exatamente como os pombos.
Estamos tão habituados com essa vida tortuosa, nesse caminho duro, feito de pedras, que ingerimos sem sentir coisas que não deveríamos. Nós nos mantemos esperançosos, minha Vermelha, de que dias melhores virão por que é simplesmente difícil virarmos as costas para as raras guloseimas que a vida nos dá quando estamos juntos. Damos e soltamos as mãos, corremos, fingimos, mentimos e encobrimos. E fazemos tudo de novo e de novo, conforme a situação exija. Mas no fundo, sabemos que as coisas não precisavam ser assim.
Contudo, há uma amarra invisível, mas forte como aço, que me prende ao teu calcanhar. De modo que, mesmo sabendo que o caminho mais fácil pudesse ser longe da tua vermelhidão, eu opto por te seguir por onde for. Eu opto por permanecer contigo mesmo sabendo das consequências dessa nossa infração aos “bons costumes”, como eles gostam de chamar. E sei que suas escolhas se embaraçam nas minhas, especialmente de madrugada.
Voltando aos pássaros, após engolir meia dúzia de impropriedades, ciscaram mais um pouco e, aparentemente cansados, bateram suas asas e se foram. Rumaram para o azul do céu parecendo até que moravam nele. Como se o ar fosse leve demais para eles. Como se o mundo fosse pequeno demais. E isso, Ginevra... isso me fez escrever essa carta para você (além do meu pequeno contratempo em comparecer ao nosso encontro).
Como você se sente em relação à Londres? Particularmente, essa não é minha estação do ano favorita. Gosto muito mais do outono e da primavera, pois evito as temperaturas extremas, como você bem sabe. O único fogo que me interessa, querida, é o teu. De modo que existem ao menos duas dúzias de lugares neste mundo que certamente ainda não perderam a graça (e, honestamente, com você até Hogwarts parece rejuvenescida). Você me disse uma vez que gostaria de conhecer Roma e, bem, eu tenho galeões o suficiente para isso.
De modo que, caso esteja de acordo, podemos partir essa noite. Você sempre me disse para ser espontâneo, certo? Mas sei que você tem sua família, amigos e todas essas coisas que possam lhe pesar e fazê-la querer ficar. Além, é claro, de todos os seus admiráveis princípios. E digo admiráveis sem qualquer ironia, Ginevra, porque eu não tenho nenhum princípio. Eles tornam a vida muito pesada e o sono muito leve. Por isso, deixo essas questões morais com você. Mas, se isso ajudar de alguma forma, pense que não será um “adeus”. Trata-se de um singelo “até breve”.
Eu estarei te esperando às dez e meia na bilheteria da King’s Cross, com toda minha bagagem e nossos sonhos juvenis. Mas você sabe que não vou a lugar algum sem você. De forma que, se resolver não aparecer, eu vou compreender sua posição e poderemos seguir nosso romance como se esse episódio não houvesse acontecido. Sinto que vai ser exatamente isso que acontecerá, para ser bem sincero. Posso imaginar seus olhos de amêndoa desaprovando cada palavra, refutando cada argumento. Mas, bem, me sentiria um idiota se nem ao menos tentasse.
Entretanto, se por algum milagre do divino, você decidir acatar, leve aquele maiô preto. Pode levar também seu mini-pufe, por mais que eu ache que um gato lhe seria uma companhia mais apropriada.
Com amor,
D.M.”
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Ela dobrou a carta em vários quadradinhos e guardou no bolso da calça. Ali, do pomar, dava para ver melhor a noite, a lua e as estrelas. Sorriu cansada, observando A Toca, convencendo-se de que não seria a última vez. Sua casa nunca lhe pareceu tão bonita quanto estava naquela noite. Certamente sentiria saudades, muitas, e por isso acreditava que voltaria, assim que possível.
De uma vez ela montou na vassoura. Os dedos firmemente agarrados ao cabo. Chegava a sentir as mãos começando a suar, de pura ansiedade. As borboletas de seu estômago estavam alvoroçadas, com medo de alguma coisa dar errado, mas seu coração saltava gritando que tudo estaria bem dali em diante.
Então fechou os olhos e respirou fundo.
Se impulsionou para cima com os pés e voou.
Gina não olhou para trás.
Notas finais
Tive essa ideia enquanto caminhava hoje e não deu para ignorar. Foi-se o tempo que eu ficava com uma fanfic me torturando por meses. Agora é assim, ideia veio, vai pro papel hahahaha.
Será que essa oneshot vale a pena um review? Eu acho que vale, eim? :D
Espero que tenham gostado!
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