Pária
4 Verdade
Notas iniciais
Não consegui dormir a noite toda. Se ser inteligente tem uma desvantagem, é essa: Você não consegue dormir até resolver a questão pendente. Fiquei rolando na cama durante horas e horas, até que amanheceu e eu ouvi a corneta do Acampamento.
Sentei-me na cama e esfreguei os olhos.
- Nossa, Daniel – disse Annabeth bocejando e franzindo a testa ao me ver – Que cara horrível. Não conseguiu dormir?
- Não.
- Insônia pode ser causada por ansiedade ou ser uma doença crônica – disse Annabeth como se alguém não soubesse disso – Ansioso?
- Digamos que sim.
- Tente não fazer nada muito importante hoje – aconselhou a loira descendo de sua cama – Não terá disposição.
- Eu sei.
- Não me responda com eu sei, mocinho.
- Você está me repreendendo? Nós temos a mesma idade!
Annabeth me deu um olhar medonho, que me fez calar a boca. Fui até o banheiro e tomei um banho gelado para despertar; coloquei jeans e a camiseta do Acampamento e fui determinado em direção ao Chalé 20. Não pude deixar de admirar a arquitetura do lugar ao amanhecer.
O Chalé de Hécate fica praticamente nas fronteiras com a floresta e recebe toda a luz ao amanhecer e ao entardecer; feito de grandes blocos de pedra, todos com símbolos mágicos em várias línguas – novas e antigas. A porta, feita de madeira negra, é toda detalhada com desenhos de luas em ouro, igualmente às janelas.
Quando eu me aproximei do chalé, praticamente pude sentir a magia do local formigando a minha pele.
Carollyn abriu a porta e saiu. Ela vestia jeans pretos, casaco com estampa militar, jeans e botas de corrida. Andei até ela, segurei seu ombro e empurrei contra a parede, prensando-a.
- Oque você pensa que... – ela exclamou, mas eu a cortei.
- Escuta aqui – disse em voz baixa – Eu não gosto de usar a ignorância, mas você vai me escutar. Que papo era aquele de a Sammy estar morta? E como assim você só tem 53 dias?
Seus olhos azuis me fitaram com raiva.
- Não te devo nenhuma explicação, filho de Atena – ela disse e deu um empurrão bruto no meu peito; ela era mais forte do que parecia – Porque eu tenho que te dizer algo? Você é só mais um desses semideuses que vivem a vida normalmente! Mata um monstro aqui, paquera uma filha de Afrodite ali e mima ela...
- O termo correto é “mima-a”, não “mima ela” – disse quase que automaticamente.
- Você tem a cara de pau de me corrigir?! – ela explodiu.
Eu devo ter me encolhido um pouco. Carollyn revirou os olhos e colocou uma mecha do cabelo castanho atrás da orelha, prendendo a minha atenção.
- Eu poderia simplesmente ordenar que você esquecesse esse assunto – disse ela pensativa – Mas... Acho que se eu não falar com alguém eu explodo...
- É impossível alguém entrar em explosão espontânea – eu disse casualmente – Existem estudos que comprovam que...
- Êta garoto chato, viu? – disse Carollyn me encarando – É o seguinte, Nerd: Encontrei-me nos Campos de Morango na hora do almoço.
Assenti e ela saiu andando em direção ao Refeitório. Josh se aproximou olhando para ela, depois olhou para mim.
- Pegando a pária, cara? – ele perguntou – Tudo bem que ela é bonita, mas é problema.
- É – concordei inalando profundamente. Rosas e canela – Uma garota problema, isso sim.
* * *
A manhã passou devagar demais. Poderia ser minha ansiedade crescente, meu déficit de atenção, não sei, só sei que a manhã demorou demais. Quando a corneta do almoço tocou, eu praticamente corri para os Campos de Morango e esbarrei com Josh.
- Oque você está fazendo aqui?! – praticamente berrei.
Ele me olhou como se eu fosse louco.
- Filho de Deméter, Campos de Morango... Porque eu não estaria aqui? – perguntou Josh.
Engoli em seco e sorri.
- Estou brincando, cara – disse dando-lhe um soquinho – Eu vim... Descontrair um pouco, sabe?
- Hãn... – Josh franziu a testa, mas acabou sorrindo – Tudo bem! Venha! Eu sempre quis te mostrar esses campos!
- Na verdade – disse rapidamente – Eu quero... Ficar sozinho.
Isso pareceu desanimá-lo.
- Ah, tudo bem então...
Adentrei nos campos de morango e fiquei caminhando por uns cinco minutos, até vê-la deitada no meio dos morangos. O cheiro de rosas, canela e morango se misturavam e me deixaram momentaneamente desnorteado.
- Sente-se aí – mandou Carollyn olhando para o céu – Mas devo avisar, se eu te contar a verdade, terei que te matar.
Eu a encarei temeroso. A filha de Hécate caiu na risada.
- É brincadeira! Eu sempre quis dizer isso! – falou.
Sentei-me ao seu lado. Ela resmungou quando a luz bateu em seus olhos, fez um aceno com a mão e uma nuvem entrou na frente do sol.
- Então... Por onde quer que eu comece? – perguntou ela.
Pigarreei.
- Carollyn, eu...
- Pode me chamar de Carol, truta.
Dessa vez, fui eu que gargalhei.
- Truta? – perguntei – Em que ano estamos? 1960?
Carol me olhou com seus olhos azuis e fez um biquinho. Tive que conter um suspiro.
- Eu gosto de gírias, velhas e novas – disse ela sentando-se – São legais, valou? Além de que eu sou a rainha da cocada preta e os mlk são tudo arregão, flw?
Nós dois gargalhamos.
- Como eu dizia – falei – Comece a explicar sobre a Sammy. Ela está morta?
- Sim e não – respondeu Carol – Sammy é, por falta de termo melhor, uma zumbi vidente.
Franzi a testa.
- Não entendi – falei. Nunca pensei que diria essas palavras na minha vida!
- Sammy é (ou foi, tanto faz) uma filha de Ares que possui o dom da clarividência e de conversar com os espíritos – explicou – Ela foi morta na Guerra Civil dos Estados Unidos, no ano de1864. Eu soube que ela foi a última que tinha esse poder, e achei que a poderia me ajudar; então tirei-a do Mundo Inferior. Sammy voltou à vida com seus mesmo poderes; porém, agora ela tem olhos dourados e é obrigada a me servir eternamente.
- O jeito que você fala da Sammy dá a entender que vocês se conhecem a muito tempo – falei – Com quantos anos você a trouxe de volta?
- Eu a convoquei de volta no meu aniversário de 14 anos – respondeu – E Sammy morreu só 11 meses mais velha do que eu.
- E como você simplesmente a tirou do Mundo Inferior? – perguntei – Tântalos não viu isso?
Carol deu um sorriso irônico.
- Ora essa, Nerdzinho, esqueceu-se do que eu sou? – perguntou ela – Os poderes de uma Sirena são muito poderosos; fala mansa e um sorriso doce já foi suficiente para Tântalos nem se dar conta que Sammy voltou para a vida.
Assenti.
- Espera – falei – Então você já tinha sido reclamada antes de vir para o Acampamento?
A expressão de Carol tornou-se amarga e fria.
- Eu fui reclamada no dia que nasci, Nerd – disse ela – Hécate entregou-me para um abrigo, mandou meu pai pro Hades (literalmente) e deixou um pedaço de pergaminho explicando toda a maldição. Todo filho de Hécate faz uma escolha aos 16 anos: Escolher se vão usar seus poderes para a Luz ou para as Trevas...
- Tipo o Lado Branco e o Lado Negro da Força? – perguntei rindo. Ela me encarou e calei a boca.
- Como eu dizia, Sr. Skywalker – disse Carol – Os filhos de Hécate escolhem se são do bem ou do mal. Porém, minha “querida” mãe jogou uma pequena maldição (ou macumba, você escolhe) em mim. No meu aniversário de 16 anos, eu serei Invocada para a Luz ou para as Trevas. A escolha não é minha, eu não poderei controlar oque acontecerá com a minha vida. Isso – ela ergueu a mão esquerda. 52 – é o número de dias que me restam.
- Mas porque Hécate fez isso com você? – perguntei.
- Isso é pior! Eu não tenho a menor ideia! – exclamou frustrada – Eu nunca fiz nada para ela!
Ela abraçou as pernas e apoiou a cabeça nos joelhos. De novo, senti borboletas no estômago. Sim, isso soou muito clichê, mas é exatamente isso que eu sinto. Se é os feitiços de Sirena ou se é real, eu não tenho a menor ideia.
Como eu não sabia oque fazer, coloquei minha mão afetuosamente em seu braço. Foi como ter colocado minha mão diretamente na tomada, uma sensação eletrizante passou por todo o meu braço e chegou até o meu coração, que aqueceu-se como nunca havia feito.
Obviamente, tudo isso não passa de um efeito psicológico. Não é ciência, muito menos é solidamente real. Mas... É bom.
Carol pegou minha mão e começou a brincar com ela.
- Eu só estou cansada de fugir e fugir de algo que não tem escapatória – disse ela suspirando — É cansativo. Acho que vou embora do Acampamento...
- Oque?! – exclamei alto – Você não pode ir embora!
Ela ergueu os olhos azuis e me encarou. Agora, pensando bem, acho que Carollyn me é familiar. Como se eu a conhecesse de algum lugar.
- Porque não? – ela perguntou baixo.
- Por que... – engoli em seco e apertei sua mão – Por que... Ah, pense! Você ainda tem 52 dias! Isso são dois meses, praticamente o verão inteiro! Fique aqui e aproveite seu tempo.
- Como vou fazer isso se todos me odeiam?
Eu não odeio.
- Você pode não ser exatamente a pessoa mais popular – Carol riu com o eufemismo – Mas você tem alguns amigos... Sammy, por exemplo! – me apressei em acrescentar.
- E você? – perguntou Carollyn me olhando profundamente nos olhos – Eu já aprendi que na vida, as pessoas só se interessam por sua vida por dois motivos: Ou ela realmente gosta de você ou ela algo que lhe interessa.
Corei.
- Primeira opção – disse baixinho.
Ela sorriu. Não era um daqueles sorrisos sedutores de Sirena nem um maligno de gênio do mal, era um sorriso normal. Um sorriso de uma adolescente feliz.
- Legal – disse Carol – Bem... Acho que temos agora que voltar para o Acampamento...
- É... – concordei sem a menor vontade de sair dali.
E ficamos ali sentados de mãos dadas. Queria achar algum assunto para quebrar aquele clima.
- Hãn... Então você tem todos os poderes de todos os meios sangues? – perguntei.
- Hum? Ah, sim. É, eu acho que é isso mesmo – concordou Carol soltando minha mão e quebrando aquela corrente elétrica – Com magia posso controlar as plantas, água, fogo, ar, as pessoas, um pouco do clima... Infinitas possibilidades. Mas Hogwarts que é bom, nada.
Olhei para ela tão rapidamente que praticamente pude ouvir meu pescoço estalando.
- Você gosta de Harry Potter? – perguntei animado.
- Eu sou uma bruxa, querido – disse Carol – Hum... Literalmente... Mas você entendeu, trouxa!
- Eu não sou trouxa – respondi – Sou mestiço da Corvinal!
- E eu sou uma sangue puro da Sonserina. Vai encarar, nerd?
Nós dois rimos. Era bom saber que poderia conversar com ela sobre livros, geralmente eu só tenho meus irmãos para conversar, ter outros semideuses também é legal.
Arrumei um jeito e nossas mãos se tocaram de novo. A corrente de eletricidade voltou e Carollyn olhou primeiro para a sua mão, depois para mim.
- Você realmente não se incomoda por eu ser A Esquisitona, A Bruxa, A...
- A Pária – terminei.
Ela assentiu.
- Não, não me incomodo – respondi segurando suas mãos entre as minhas e sorri – “Duvida da luz dos astros, de que o sol tenha calor, duvida até da verdade, mas confia em meu amor” – William Shakespeare.
Carollyn riu e soltou minhas mãos.
- Amor – ela debochou da palavra – Até parece.
- Você não acredita em amor? – perguntei. Eu sempre acreditei; cresci vendo o relacionamento do meu pai e minha madrasta, eles se amam muito. Claro, meu pai amou minha mãe, mas agora... Nem sei se ainda gosta dela.
- Se você tivesse sido criado sendo chutado de orfanato em orfanato, tenho certeza que também não acreditaria – disse Carollyn deitando-se no chão, colocando as mãos atrás da cabeça e olhando para o céu.
E por um momento, fiquei tentado a responder.
Mas eu vou te fazer acreditar de novo no amor, Carollyn.
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