A noite chegou e todos os campistas estavam na Fogueira. Todos conversavam e riam, menos ela; as pessoas agiam como se ela não estivesse ali. Não que Carollyn estivesse mostrando-se muito triste com esse fato, ela tinha cara enfiada num livro. A capa estava escrita em grego antigo, tão antigo que demorei um pouco mais para traduzir.

Divinas Maldições e Suas Quebras.

Franzi a testa.

- Atenção, campistas! – disse Quíron sorridente – Então... Primeiro dia do verão! Animados?

Os campistas gritaram com animação e Sr. D revirou os olhos.

- Amanhã, às seis e meia da manhã, teremos aulas de canoagem, com nosso amigo Percy! – apontou Quíron para o meu cunhado – E depois, esgrima com Clarisse!

Os filhos de Hermes gemeram de desgosto. Eles já haviam aprendido: Clarisse treinadora = Filhos de Hermes na enfermaria. As pessoas continuaram conversando e brincando entre si, e ela continuou quieta lendo num canto.

- Eu já volto – disse para Josh, que estava ocupado cantando uma filha de Afrodite.

Levantei-me e andei hesitante até ela. Como é que os caras conseguem ser tão confiantes nos livros? Estou chegando a acreditar que – apesar de ser filho da deusa da sabedoria – eu sou um idiota. Conhecia-a hoje (Correção: Eu só a vi hoje) e já estou me derretendo desse jeito? Patético!

- Oi – disse sentando-me em sua frente.

Carollyn ergueu os olhos do livro que lia e me encarou. A cor daqueles olhos era impressionante; era azul, evidentemente, porém ele cintilava quase sobrenaturalmente mesmo no escuro. Eles eram de um azul tão intenso que chego a pensar que seria necessário criar uma cor nova para definir precisamente a cor deles.

- Olá – ela respondeu e voltou sua atenção para o livro.

- Hãn... – pigarreei – Está gostando do acampamento?

- Sim – Carollyn respondeu virando uma página do livro e continuando sua leitura – É um lugar... Muito interessante.

Ouvi a ironia transbordar de suas palavras.

- O Acampamento Meio Sangue é um ótimo lugar – falei – Temos muitas atividades. Você só ainda não teve a oportunidade de aproveitar, já que é o primeiro dia do verão...

Ela assentiu e continuou lendo, me ignorando.

- Sobre oque você está lendo, afinal? – perguntei já irritado.

- Nada de mais – ela respondeu fechando o livro e colocando-o sobre o colo – Desculpe, não sei o seu nome.

- Ah, é – eu disse sorrindo. Acho que sofro de distúrbio bipolar, é a única explicação – Meu nome é Daniel Jones, filho de Atena.

Os olhos dela brilharam com curiosidade.

- Filho da deusa da sabedoria? – perguntou Carollyn e eu assenti – Então deve ter muitos livros a sua disposição, estou certa?

- Isso mesmo – concordei – O Chalé 6 é mais uma biblioteca do que um chalé, para falar a verdade.

Carollyn deu um sorriso encantador.

- Será que posso ver esses livros? – ela perguntou com a voz mais doce do que mel – Preciso deles para... Uma pesquisa.

Era como se minhas pernas estivessem movimentando-se sozinhas e as palavras saíssem da minha boca por vontade própria.

- Claro, venha comigo.

Ao longo do caminho até o Chalé 6, Carollyn foi conversando comigo e eu me senti vulnerável. Não que ela estivesse me ameaçando, mas porque eu sentia que poderia contar qualquer coisa no mundo para ela. Abri a porta do chalé e Carollyn foi diretamente para os livros mais antigos.

- Vocês têm algo que tenha vindo direta e especificamente da Grécia Antiga? – perguntou.

Meu cérebro queria perguntar o motivo de tanta curiosidade com livros antigos, mas infelizmente meu cérebro e minhas ações não estavam coexistindo muito bem, então respondi debilmente:

- Hãn ham.

Após minutos de procura, ela tirou um livro da prateleira. Meu cérebro ainda estava um pouco ativo, porque conseguiu ler o título.

Contrários de Hécate.

- Obrigada, Daniel – agradeceu Carollyn sorrindo ao folhear o livro – Isso vai me ajudar muito. Tenha uma boa noite.

E assim, ela saiu do chalé.

* * *

Na manhã seguinte, eu ainda não entendia o motivo para estar agindo como uma marionete na noite anterior. Eu sou filho de Atena, caramba! Presume-se que eu sou inteligente e não me deixo ser controlado como um boneco!

Eu estava sentado na mesa do Chalé 6 comendo panquecas. Meus irmãos ainda não tinham acordado, então eu estava sentado sozinho vendo o movimento do Refeitório.

Aí que eu vi o problema se aproximando. Quando digo isso, quero dizer literalmente vi o problema se aproximando. E o melhor de tudo, o problema tem nome e sobrenome.

Samantha Hellthorne, filha de Ares.

Sammy é legal e tudo mais, porém digamos que ela nunca aceita um não como resposta (Connor Stoll que o diga; ele ficou um mês na enfermaria por não dividir o sorvete com ela)

Eu a vi caminhando na minha direção. Sammy pode ser considerada a filha de Ares mais elegante do Acampamento, principalmente porque ela nunca desce do salto quando vai quebrar a cara de alguém. O rabo de cavalo ruivo balançava de um lado para o outro e ela carregava um livro velho embaixo do braço.

- Qual é a tua? Quer morrer? – ela perguntou sentando-se na minha mesa.

- Bom dia para você também, Sammy – respondi tomando um gole de suco de laranja.

- É sério, Daniel – disse Sammy tirando os óculos escuros e revelando os olhos verdes – Ontem eu vi você e a Carollyn indo para o Chalé 6.

Senti minhas bochechas quentes.

- Nós não...

- Eu sei que vocês não fizeram nada de indecente – disse Sammy revirando os olhos – Carollyn chegou ontem e ela nunca ia olhar para você mesmo. Eu só quero te avisar que, apesar de ser amiga dela, aquela filha de Hécate é perigosa.

- Perigosa como, Sammy? – debochei – Ela vai chamar o Voldemort para nos lançar Avada Kedavras?

- Não diga o nome dele! – exclamou.

Ergui a sobrancelha.

- Enfim – Sammy pigarreou. Ela colocou o livro – com uma capa de couro preto e gasto — na mesa e o abriu – Todo filho de Hécate faz magia e controla todas as esferas mágicas, porém cada um nasce com um dom em especial. A nossa querida Carollyn, por exemplo, é uma Sirena.

- Desculpe? – perguntei confuso, oque é bem incomum, porque como filho de Atena, geralmente sou eu quem deixa os outros confusos.

- Existem vários “poderes mágicos” que os filhos de Hécate podem desenvolver – disse Sammy – Palimpsesto, que pode ver o passado de um lugar e achar passagens secretas; Sibila, que vê os segredos e mentiras de uma pessoa só pelo seu rosto; Ilusionista, alguém que pode fazer as pessoas verem algo como não é; Transmutador, que muda a natureza de objetos ou pessoas; Natural, que controla o clima e os quatro elementos...

- Tipo um filho dos Três Grandes? – perguntei.

- Não – respondeu Sammy – Percy, por exemplo, só pode controlar a água. Um filho de Hécate Natural pode fazer chover, nevar, fazer algo entrar em combustão, aumentar a velocidade do vento... Enfim, muita coisa, mas isso não vem ao caso agora, vamos voltar ao assunto principal: Sirena.

Sammy virou uma página no livro velho e amarelado.

- Sabe o mito das sereias? – perguntou ela e eu assenti – É basicamente isso. Uma Sirena tem o poder principal da sedução, controlar as pessoas com sua voz e colocá-las em um transe onde elas não têm controle sobre si. Basicamente, se ela mandar você pular de um penhasco, você pula sem hesitação.

Fiquei encarando a ruiva sem expressão. É por isso que eu não consegui agir normalmente ontem, eu estava enfeitiçado.

- Ela... Pode mandar as pessoas fazerem qualquer coisa? – perguntei.

- É – respondeu Sammy fechando o livro – Por isso, cuidado.

Enquanto Sammy levantava-se e andava para longe, eu chamei.

- Hey! Sammy!

Ela se virou.

- Oque?

- Como você sabe tanto sobre magia? Onde pegou esse livro?

Sammy deu um sorriso sinistro e recolocou os óculos escuros.

- Cada resposta ao seu devido tempo, meu caro.

Notas finais
Lembrando que os nomes das habilidades dos filhos de Hécate não são de minha autoria, são do livro Dezesseis Luas.
E aí? Oque acharam do capítulo?