Páginas em Branco
1 Afaste-se de mim, solidão.
Ninguém poderá me ver aqui. Ninguém poderá ver minhas lágrimas contidas, minhas unhas roídas pelo nervosismo e minha postura insegura. Absolutamente ninguém.
Sinto uma barreira separando-me das outras pessoas. Uma barreira invisível mas, apesar disso, uma barreira. Algo que não consigo atravessar; algo brutal, que me destrói a cada segundo. Estou reclusa em minha prisão invisível, presa às algemas que tanto me machucam.
Meus olhos fitam o outro lado da barreira. Vejo pessoas contentes, rindo e fazendo piadas. Mas não me vejo ali, pois simplesmente não pertenço a elas.
Tento contar até três. Isso me acalma às vezes. Sinto que, se eu tentar diminuir o tempo, o sofrimento acabará mais rápido. Meus pensamentos ecoam em minha mente, dizendo-me que a contagem está prestes a começar. Tudo bem, estou pronta.
Será mesmo? Será que estou preparada para a vida, para sofrer, para ser forte?
Ouço uma voz parecida comigo dizendo em minha mente o número um. Respiro bem fundo e roo as unhas novamente, abrindo feridas cada vez mais profundas em meus dedos e em meu coração. Dois. Preciso ser forte, sei que preciso. Mas sou fraca, e nada posso fazer para mudar isso. Por que não tenho amigos? Por que estou tão sozinha? Três. Encaro com tristeza as pessoas do outro lado da barreira, e finalmente concluo que eu definitivamente não pertenço a elas.
A contagem acaba, mas continuo inquieta. Ultimamente tenho pensando bastante no futuro, e como será minha vida daqui para frente. Tudo que consigo imaginar é uma página em branco, e uma mão fraca segurando um lápis perto dela. Não quero que minha vida seja sempre uma página em branco. Não quero.
Levanto-me da cadeira e liberto-me das algemas. Tento reunir toda a força que sobrou-me para atravessar a barreira. E consigo.
Olho para o chão enquanto ando, como se a minha alma estivesse pronta para sair do meu corpo e voar para bem longe a qualquer momento.Hoje você ficará ao meu lado, alma.— sussurro , com uma voz praticamente inaudível.
Olho para as pessoas a minha frente. Nenhuma delas percebe a minha presença, mas posso dizer que já estou acostumada a esse fato. As pessoas podem ser muito cruéis, mesmo que sem querer.
Percebo uma presença ao meu lado. Viro a cabeça e vejo um garoto alto, uns dez centímetros maior que eu. Suas mãos seguram meus ombros gentilmente, e sua voz diz:
— Venha sentar-se conosco.
Quase posso enxergar um sorriso tímido surgir em meu rosto. Escondo minhas unhas roídas nos bolsos de meu grande casaco branco. Sento-me numa das cadeiras vazias e percebo que não paro de sorrir. Minha voz soa mais madura. Já não sinto mais medo de dizer algo. Sinto algo quente aquecendo-me, uma sensação de pleno regozijo formar-se em meu coração gelado.
Preciso preencher as páginas em branco da minha vida.
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