Páginas de um diário sem fim.
4 Capítulo três.- Toque
Notas iniciais
– Babaca.- eu virei o pequeno copo de tequila, que desceu queimando minha garganta.
Quatro meninas estavam sentadas em puffs que ficavam espalhados pelo chão. Uma delas era Selena, do segundo ano, loira de cabelos longos e olhos intensos e negros, ela sorriu quando me viu.
– Chris!- disse levantando e pendurando um dos braços ao redor do meu pescoço. — Tudo bem?
– Tudo sim, e aí? — perguntei olhando de relance para Annabel que estava com Kick, rindo de alguma coisa que ele mostrava em seu celular.
– Também, como é ser sênior? — Selena me puxou pelo braço me levando até a cozinha, ela pegou um copo e encheu metade com vodca e a outra metade com refrigerante, ela tagarelava sem parar, mal dava tempo de responder suas perguntas. Ela colocou o copo em minha mão e eu dei um gole, fazendo uma careta em seguida.
– Coloquei muita vodca? — ela perguntou mordendo o lábio inferior.
– Não, relaxa. — eu respondi. Ela sorriu e continuou falando, pegou meu braço novamente e me levou para a sala, sentando em um dos puffs e fazendo sinal para que eu sentasse ao seu lado. Enquanto eu ouvia Selena falar sem parar e fingia prestar atenção em alguma coisa, Kick brincava com o cabelo de Annabel e ela preparava um baseado, rindo e assentindo com a cabeça, ela passou a língua gentilmente para selar o cigarro, deu uma última conferida e mostrou para Kick, exibindo-se.
– Em Chris? — Selena me cutucou.
– Oi? — perguntei.
– O que você acha disso?
– Ah eu... — antes que eu pudesse responder, fui interrompido (graças aos Deuses) por Travis que colocou a música Teenagers do My Chemical Romance, muito alto. Ele levantou um copo e cambaleou.
– Travis, já tá bêbado? — perguntei me levantando, conseguindo escapar de Selena.
– Eu amo essa música, cara.- eu abaixei o volume.
– Ok, percebi isso. Tava muito alto, podem acabar chamando a polícia.
– Tem razão, foi mal...- ele parou por um segundo e puxou pelo braço uma das meninas que passava ao seu lado, ela tinha cabelos castanhos enrolados, olhos azuis e sardas no nariz. Ela sorriu quando olhou para Travis. — Essa menina não é a coisa mais linda que você já viu?
– Claro.- eu dei risada, fazendo-a rir também.
– Eu sei.- Travis colocou os braços da garota ao redor do seu pescoço e beijou gentilmente seu rosto.
Tomei de uma vez a vodca com refrigerante que Selena fizera pra mim, entrei na cozinha para beber alguma coisa que não tivesse um gosto tão horrível.
– Christian.- chamou Annabel, entrando na cozinha. — Quer ir lá fora com a gente? — disse ela com um sorriso no canto da boca.
– Com quem?
– Comigo e com o Kick. — quando ela falou isso me lembrei de Lindsey, ela abominava qualquer droga, abominava maconha e sempre disse que se eu fumasse ela terminaria comigo, me ameaçava bastante com isso. Um dia, chamei Lindsey para jantar, mas ela disse que ficaria em casa, estava doente e precisava descansar, logo depois, fui para casa do Kick e ele decidiu me levar na festa da prima dele, eu hesitei, não gostava de sair sem minha ex-namorada, só que não queria ficar em casa. A festa era gigante, cheia de pessoas que nunca vira na minha vida, Kick encontrou uma menina e acabei ficando sozinho, resolvi voltar para casa, ao procurar Kick para avisar que estava indo embora, encontrei Lindsey, com uma menina e dois meninos, fumando um baseado gigante.
– Quero.- respondi para Annabel. Depois de flagrar Lindsey, ela ainda ficou brava comigo, por ter ido atrás dela, dissera que eu não tinha direito de me intrometer na vida dela dessa maneira ''Se eu te disse que ficaria em casa, você não tinha que ter vindo atrás de mim'' ela disse, ainda ficou sem falar comigo durante semanas. Sinceramente, não me lembro quantas vezes tive que me desculpar por causa disso.
Seguimos em direção ao quintal enorme dos gêmeos, demos a volta na piscina chegando numa área coberta, onde tinha uma churrasqueira e uma mesa de madeira.
– Não tem problema da gente fumar aqui? — Annabel perguntou, enquanto sentávamos a mesa.
– Não.- Kick e eu respondemos juntos.
– Eles nem ligam pra essas coisas. — Kick falou. Antes que Annabel pudesse pegar seu isqueiro, o celular de Kick começou a tocar, ele fez uma careta ao olhar para o visor.
– Tá tudo bem? — Annabel perguntou.
– Eu preciso atender. — ele disse levantando. Ficou alguns minutos no telefone e voltou correndo com uma cara nada boa.
– O que aconteceu? — perguntei.
– Depois explico, tenho que ir.- ele beijou o rosto de Annabel e saiu correndo. Observei Kick desaparecer no jardim.
– E agora?
– Agora vai sobrar mais pra gente.- Annabel tirou seu isqueiro e levou o baseado até os lábios, acendendo rapidamente e dando um longo trago. Ela me passou o baseado e eu tossi quando traguei, fazendo-a rir.
– Não tô acostumado com essas coisas... — eu disse, sem graça.
– É sua primeira vez?
– Talvez.- ela riu de novo com minha resposta, me ensinou a fumar sem parecer um idiota. Cheguei a acreditar que não faria efeito, mas em poucos minutos meu corpo começou a formigar e tudo parecia mais lento ao meu redor. Annabel levantou foi andando pelo jardim.
– Onde você vai? — perguntei.
– Vem comigo, Christian.- Eu a segui sem nem mesmo questionar, ela seguiu para trás da piscina e se deitou na grama, fiquei olhando por um segundo e ela fez sinal para que eu me deitasse ao seu lado. Ficamos olhando para o céu escuro sem falar nada por um tempo, até que Annabel pegou minha mão.
– Sente isso.- ela entrelaçou os dedos nos meus e usou a outra mão para acariciar meu braço.- Fecha os olhos e presta atenção só no que você tá sentindo, como se estivesse em outra dimensão.
– Fechar os olhos?
– É, fecha logo.- obedeci. O contato estava diferente, a sensação era muito diferente, era quase inexplicável, me deixei levar por aquela sensação, o toque da minha pela com a dela parecia surreal
– Nossa.- consegui falar.
– É bom, né?
– Muito.- eu disse abrindo os olhos e me deparando com os olhos verdes de Annabel, ela deu um meio sorriso e transferiu uma das mãos para o meu cabelo, entrelaçando os dedos de uma forma ritmada. Eu queria beijá-la.
– As vezes o contato acaba descartando qualquer forma de expressão verbal. — ela fechou os olhos. — As pessoas dão pouco valor pra isso.
– Eu gosto.- falei, hipnotizado.
– Eu também. Gosto de tocar.
– Gosto do seu toque.- ela abriu os olhos e me encarou, não desviei o olhar. Ficamos o restante da festa deitados na grama, um observando o outro, eu sentia como se ela pudesse tocar minha alma, como se tampasse temporariamente o buraco que Lindsey fizera. Essa era de longe a melhor festa dos gêmeos de todas. Cheguei em casa sonolento e quase sóbrio, dormi rapidamente.
Acordei tarde no dia seguinte, tomei um banho demorado e quando saí minha mãe mandara uma mensagem, avisando que viria me buscar as cinco horas da tarde, para tomar um chá na casa de Danna, o que me deixou bem feliz pelo fato que eu veria Annabel. Passei a tarde arrumando meu quarto, limpei toda a sujeira e coloquei muita roupa para lavar, eu estava ansioso para ver Annabel, a noite passada repetia como um loop na minha mente.
– Filho, vamos! — minha mãe me chamava na sala, já eram cinco e meia, desci as escadas animado. Minha mãe sorriu ao me ver. — Está bonito, Chris.
– Obrigado, mãe. — eu respondi sorrindo.
O caminho para a casa de Annabel parecia mil vezes mais longo. Danna nos recebeu com o mesmo sorriso amigável.
– Por quê você não sobe lá, Chris? — Danna disse assim que entramos no hall. — Annabel está na sala com um amigo.
– Ah sim, vou subir. — com um amigo? Como assim com um amigo? Subi as escadas rápido, pulando degraus no meio do caminho, ouvi uma risada conhecida vindo do fim do corredor, ''Ok, minha vez'' pude ouvir Annabel dizer. Quando me aproximei da porta da sala de TV me deparei com a cena de Kick sentado no chão envolvendo Annabel no meio de suas pernas, os dois jogavam GTA 5, na base do ''morreu, passa''. Annabel sorriu ao me ver.
– Christian! Não sabia que viria.
– E aí, Chris. — Kick falou com um meio sorriso. Eu estava com raiva dele, com raiva de um dos meus melhores amigos. Como ele pode se aproximar de Annabel dessa forma?
– E aí. — falei sentindo todo o meu ânimo desaparecer. Sentei-me no sofá e fiquei observando os dois jogarem.
– Quer jogar? — Annabel perguntou.
– Não, tô tranquilo.- respondi, enfiando a cara no meu celular. Fiquei lendo mensagens antigas e fuçando em redes sociais, como se eu precisasse desesperadamente de uma distração. As risadinhas aleatórias de Annabel me irritavam, eu não sabia do que ela ria tanto, mas Kick ria junto.
– Vou ao banheiro. — ela disse levantando-se. Kick me olhou e deu um sorriso forçado, retribuí da mesma forma.
– Que horas você vai embora?- ele me perguntou. Eu hesitei em responder, queria socar a cara dele, era possível perceber o olhar desprezível dele, seu cabelo castanho estava desajeitado e suas bochechas, coradas.
– O que muda?
– Sei lá, talvez eu quisesse ficar sozinho com a Annabel.- ele coçou a nuca e sorriu.
– Que pena. — se depender de mim, você nunca vai ficar sozinho com ela, idiota.
– Que pena? — ele rosnou e levantou uma sobrancelha, me desafiando. O que eu estava fazendo? Brigando com um amigo por causa de Annabel?
– Quero dizer, eu não sei quanto tempo vou ficar aqui, Kick. Vim junto com a minha mãe.- ele se aproximou
– Não tem como você ficar lá com ela? — ele sussurrou. Antes que eu pudesse responder Annabel voltou do banheiro e se aconchegou entre as pernas de Kick novamente, mas ele não desviou o olhar de mim, como se ainda esperasse uma resposta.
– Eu já volto.- falei e desci as escadas, minha mãe estava sentada com Danna na sala de estar, onde havia vários petiscos numa mesa de centro e algumas xícaras.
– Olha quem está aí.- disse Danna sorrindo.
– Chris, está tudo bem? — minha mãe perguntou.
– Claro, eu só... Só fiquei com fome...
– Sente-se.- disse Danna.- Quer um pedaço de bolo de morango?
– Lógico.- eu disse me sentando ao lado de minha mãe. Danna cortou uma fatia grande de um bolo maravilhoso e me serviu. Enquanto comia, fiquei reparando nos detalhes dos talheres, em todo o acabamento, imaginei seu processo de formação, me desligando assim de qualquer tipo de conversa que elas tinham.
O tempo ainda passava devagar agora, eu queria ir embora de lá. Até que fui surpreso por Kick que desceu as escadas rapidamente, olhou para mim ao chegar na sala.
– Danna, tenho que ir. — ele disse.
– Mas, já? — ela perguntou.- Quer um pedaço de bolo?
– Não, obrigado. Eu preciso mesmo ir. — ele não dirigiu a palavra a mim.
– Ah, que pena. — Danna disse, educadamente. — Volte mais vezes.
– Pode deixar, até mais Katie.- ele disse se retirando.
– Até.- minha mãe respondeu, amigável. Ele nem se quer falou comigo, era como se estivesse declarando guerra. Eu não subi as escadas até receber uma mensagem de Annabel, '' Christian, aproxime-se''.
– Tá tudo bem? — perguntei quando entrei na sala de TV.
– Tudo bem. — ela respondeu e eu me sentei no chão, ao seu lado. Ficamos em silêncio, eu precisava saber o que tinha acontecido.
– Tá tudo bem? — perguntei de novo, involuntariamente.
– O que quer saber, Christian? — ela me encarou, sua expressão era séria.
– Nada eu...
– Seu amigo é um idiota. — fiquei sem reação. Se ela estava daquela forma com um idiota, eu precisava me tornar um idiota. Rápido.
– O que houve?- ela se deitou de barriga para baixo no sofá, deixando seu rosto perto do meu.
– Ele tentou me beijar, e quando eu me afastei, ele foi embora.
– Annabel. Você acha que ele está sendo legal com você só para jogar GTA? — ela mordeu o lábio inferior.
– Seu amigo é um idiota.- ela repetiu.
– Eu sei.- eu sorri. Ela baixou o olhar com uma expressão um tanto quanto triste, mas isso passou incrivelmente rápido.
– Vem comigo. — ela me puxou pelo braço me levando até a segunda porta do corredor, quando abriu a porta tudo estava escuro, eu não enxergava absolutamente nada. Ela largou meu braço.
– Annabel?
– Só um minuto. — ela disse. Ouvi que ela estava mexendo em alguma coisa, até ela voltar pegar no meu braço e me puxar. Eu bati a canela em alguma coisa.
– Aí! — reclamei
– Cuidado com a mesa. — ela disse rindo. Me puxou até uma superfície macia e confortável, me fez deitar e minha cabeça se apoiou num travesseiro.
– Onde estamos?
– Espera.- pude sentir ela se deitar ao meu lado. — Pronto! — ouvi um clique e de repente luzes se acenderam no teto como se fossem estrelas, elas acendiam e apagavam lentamente iluminando parcialmente o lugar. Eu estava no quarto de Annabel, era enorme e diferente, eu estava deitado numa cama de casal.
– Nossa.– eu falei.- Isso é lindo.
– Legal né? — ela falou. — Gosto de me sentir olhando para as estrelas, eu não tinha isso lá no Arizona.
– Tá vendo? Temos aí uma vantagem. — ela riu.
– Você está sendo legal comigo só para me beijar? — ela perguntou rolando para cima de mim. Tive que me concentrar muito para responder.
– Não.- eu movi minhas mãos para o seu quadril.
– Então você não quer me beijar?
– Não...
– Isso quer dizer que se eu quiser te beijar, eu não posso?
– Exatamente.- respondi.
– Que pena. — ela falou e me beijou. Eu não podia, sabia que estava errado. Essa história só aumentava e aumentava, eu não queria iludir Annabel, muito menos me iludir, mas qualquer lucidez desapareceu quando ela me beijou. Eu me deixei levar por aquela sensação e fiquei vulnerável com o contraste de seus lábios nos meus.
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