Páginas de um diário sem fim.
6 Capítulo cinco. - Patience
Notas iniciais
– Então ela disse que vocês seriam só amigos e te beijou?- Rick perguntou no caminho da escola enquanto comia uma torrada.
– Isso.- respondi.
– Sabe, isso tá parecendo aquele filme... 500 days of winter...?
– 500 days of Summer. — corrigi.
– Isso aí.- ele disse com a boca cheia.
– Por que essas coisas acontecem comigo, Rick? Qual é o meu problema.- ele riu quando falei isso e contraiu os ombros.
Quando chegamos no colégio, nossos amigos já nos esperavam sentados no mesmo lugar usual. Kick estava focado no celular, sorrindo como se estivesse fazendo a coisa mais interessante do mundo, nem se quer falou algo quando chegamos.
– To acabado.- reclamou Travis.
– Onde está seu irmão?- eu perguntei.
– Não vem hoje, ele ficou doente ontem. Tossiu a noite toda, eu praticamente não dormi.- ele disse apoiando a cabeça nos joelhos.
– Tadinho.- disse uma voz atrás de mim, eu nem mesmo precisei virar para saber quem era.
– Relaxa, Bel. Amanhã ele já está bem de novo.- disse Travis para Annabel, que se sentou ao meu lado.
– E vocês, tudo bem?- Rick assentiu com a cabeça e eu nem mesmo respondi.
– Você sumiu.- Kick falou de relance, sem desgrudar os olhos do celular.
– Estava fazendo amigos do meu ano, mas vocês são de longe mais legais.- ela riu.
– Ah, mas disso até eu já sabia.- Rick respondeu. Enquanto todos riam e conversavam tudo que eu fazia era observar Annabel interagir com meus amigos e nem se quer olhar para mim, ou fazer algum tipo de referência à minha pessoa. Nada, absolutamente nada. Eu era um puto, nada mais nada menos que um puto.
O restante do dia foi cheio de Annabel sem olhar na minha cara,estava frio e ensolarado. Ela andava para lá e para cá com meus amigos e eu, mas não falou comigo. Nem se quer na hora de ir embora. Segui meu caminho para casa cansado e bravo, Rick tinha ido para a casa de sua avó e eu pretendia dormir até o dia seguinte. Quando estava próximo de casa uma BMW X5 preta parou ao meu lado e buzinou, o vidro de trás abriu e Annabel sorria para mim com um óculos de sol que era grande demais para o seu rosto.
– Christian!
– Annabel?
– Rogers estava me levando para casa e te vi andando pelo caminho, entra aí.- ela abriu a porta do carro e deu um pulinho para o lado.
– Mas eu nem avisei minha mãe...
– Estou ligando para ela agora.- ela levou o celular até a orelha. ''Annabel, você tem o número da minha mãe?''
– Tá legal.- entrei no carro e fechei a porta. Annabel vestia um shorts branco e um moletom enorme e largo, que cobria quase todo o shorts, usava botas pretas e peludas. Qual o sentido e usar shorts e bota?
– Oi, Katie. Aqui é a Annabel... Sim, e com a senhora? ...- ela olhou para mim e sorriu.- É sobre ele mesmo, nós podemos dar uma volta hoje?... Não, imagina... Obrigada você, até mais.- ela desligou o celular e sorriu para mim, me olhando por debaixo dos óculos. Um homem careca dirigia o carro, ele usava um paletó.
– A senhorita deseja ir diretamente para casa?
– As bicicletas já chegaram?- ela perguntou
– Sim, senhorita. Estão todas no depósito.
– Entendi,- ela pegou o celular e discou um número que atendeu rapidamente.- Oi Lala, aqui é a Annabel... Isso, você pode preparar duas bicicletas para mim? Chego em casa em mais ou menos dez minutos... Ok, obrigada. — ela desligou e continuou mexendo no celular.
– Annabel?
– Sim. — ela respondeu.
– Onde vamos?
– Passear, ué. — ela deu uma risadinha.
– Passear aonde?
– Você faz muitas perguntas, Christian. — ela me encarou rapidamente. Fiquei incomodado, quase quis sair do carro e voltar andando para casa, mas minha curiosidade era maior que meu orgulho e perto de Annabel, meu ego praticamente não existia.
Quando chegamos em sua casa, nem mesmo entramos. Ela entregou nossas mochilas para o tal Rogers e me puxou pelo braço até o jardim, onde estava duas bicicletas, uma era azul clara e tinha uma cestinha pendurada no guidão e a outra era cinza escuro. Ela entrou e voltou com um chapéu de palha, que caiu muito bem.
– Vamos? — ela disse empurrando a bicicleta pelo jardim.
– Você não vai nem perguntar se sei andar de bicicleta?
– Você sabe andar de bicicleta?
– Sei.
Nós pedalamos até uma trilha de barro e grama, onde era um pouco mais complicado para a direção da bike, mas era divertido. Estávamos num bosque aberto e Annabel estava sempre ao meu lado, em silêncio. Comecei a assobiar a introdução da música Patience.
– Shed a tear 'cause I'm missing you, I'm still alright to smile. — ela começou a cantar, sua voz era linda, eu quase perdi o controle da bicicleta. Era uma voz doce, adorável. Ela parou de cantar, então eu continuei:
– Girl, I think about you every day now,was a time when I wasn't sure but you set my mind at ease there is no doubt you're in my heart now...– ela olhou para mim e sorriu.
– Said, woman, take it slow and it'll work itself out fine. All we need is just a little patience...– cantamos juntos a música toda, eu fazia os solos e Annabel os vocais, era engraçado mas eu adorei ouvi-la cantar, estava realmente encantado.
Chegamos num campo cheio de flores com umas três árvores enormes. Annabel desceu da bicicleta e eu fiz a mesma coisa, ela segurou na minha mão e me guiou até uma árvore onde sentamos numa sombra agradável.
– Aqui é lindo.
– Eu sei.- ela respondeu apoiando a cabeça no meu ombro. — Mas essa árvore é especial.
– Especial como?- perguntei.
– Olha para aquele galho. — ela apontou para cima e pendurado na ponta de um dos galhos da árvore, havia um casulo.
– O que é isso?
– Um casulo de lagarta. A metamorfose dela está completa, ela pode virar borboleta qualquer hora. Por isso venho aqui todos os dias agora.
– E me escolheu para fazer companhia hoje?
– Isso mesmo. — ela nem mesmo perguntou se tinha algum problema ou qualquer coisa do tipo, simplesmente respondeu e depois me deu um beijinho no rosto. Eu estava prestes a protestar, até que o casulo começou a se mexer, eu veria uma lagartinha saindo do casulo ao vivo!
A borboleta era branca e grande, suas asas saíram amassadas do casulo e desamassaram devagar até que quando estava pronta, saiu voando.
– Que lindo. — falei baixinho.
– Você já virou borboleta, Christian?
– Como assim?
– Todos nós temos nossa fase de lagarta e borboleta. Quando você não sabe onde ir, nem o que fazer, você é uma lagarta. Quando sabe o que fazer e está trabalhando para isso, você está no casulo.
– E borboleta?
– Não sei como é ser uma borboleta ainda. — ela disse. — Por isso perguntei para você, se caso for uma borboleta, eu adoraria saber a sensação.
– Acho que ainda sou uma lagarta, Annabel... — ela ficou delirando sobre esse assunto por mais uns vinte minutos, eu escutava cada palavra com atenção, ela era sensacional, poderia ouvi-la falar por horas.
– Christian?
– Hm? — eu estava de olhos fechados, Annabel e eu, deitamos na grama.
– Já volto, vou fazer uma coisa.
– Tá. — então ela rolou para cima de mim e me beijou. Eu entrelacei meus dedos em seus cabelos e puxei-os, num movimento brusco, afastando nossos lábios. Ela me olhou com seus grandes olhos verdes e um sorriso brotou no canto da sua boca.
– Annabel... — antes que eu pudesse continuar ela me beijou de novo, e eu repeti o movimento, puxando seus cabelos novamente, eu não podia mais fazer isso ou ficaria louco, mas observei o contorno de seus lábios e a maneira de que seus olhos imploravam por mim, toquei seu rosto como se fosse possível sentir cada detalhe e contornei sua boca com a ponta do dedo indicador, movi minha outra mão para seu maxilar e aproximei lentamente seu rosto do meu ficando bem perto, ela avançou e levemente mordeu meu lábio inferior e nos beijamos por umas três horas, sem parar.
Hoje a noite meus amigos e eu iriamos no Red Lobster,comer lagosta e camarões, comemorar a volta às aulas, mesmo não fazendo sentido nenhum. Meus amigos sempre arranjavam algum motivo aleatório para ir jantar ou sair quando não tinhamos motivo algum. Cheguei no Red Lobster com a cabeça longe, tudo que eu pensava era em Annabel. Rick e Travis estavam sentados em uma mesa, esperando por Kick e eu, Travis acabara de desligar de uma ligação.
– E aí? — eu disse, me sentando.
– Kick vai trazer uma garota com ele. — respondeu Travis.
– Entendi, e qual é o problema? — perguntei.
– Nenhum, é só uma namorada nova. — Rick falou. Kick trocava de namorada mensalmente, sempre trazia alguma garota para conhecer a gente mas se livrava dela rapidamente.
– Ele vai demorar para chegar? — perguntei e quase instantaneamente, a porta se abriu e eu quase vomitei. Kick estava entrando de mãos dadas com minha ex-namorada, Lindsey.
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