Página virada

1 Capítulo único


Notas iniciais
Boa leitura!

PÁGINA VIRADA

* * *

Após o fim da Quarta Grande Guerra Ninja, Sakura foi nomeada Médica Chefe do Hospital de Konoha, Naruto enfim tornou-se Hokage e Sasuke teve permissão de voltar à Aldeia na condição de ajudar a reconstrui-la.

Eventualmente o moreno também fora convidado a ser braço direito do loiro hiperativo, coisa que de início, não o agradou muito, apesar de não ter hesitado em aceitar a proposta.

Depois do regresso de Sasuke, Sakura só o vira em pequenos esbarrões durante a reconstrução da Vila e idas ocasionais a sala do Hokage, o que totalizou muito pouco.

A Haruno não era capaz de descrever os sentimentos do jovem Uchiha, mas os seus ainda lhe eram perfeitamente claros. Sakura já havia percebido há muito tempo, que não importava quanto, ou o que, havia se passado. Ela o amava e sempre o amaria.

Tinha esperanças de ter um futuro com o moreno, ainda assim, não mais o procuraria. Sasuke se acostumara a tê-la sempre aos seus pés como um maldito cachorrinho e isso precisava mudar. Sakura queria vê-lo refletir obre suas atitudes para com ela. Queria vê-lo se importar. Procurá-la ao menos uma vez; só uma. E, para isso, esperaria quieta e distante pelo tempo que fosse necessário.

* * *

“Maldição!

Não sei mais o que fazer!

Por que ela não sai da minha cabeça?

Desde que voltei para aldeia, Sakura Haruno vem atormentando meus sonhos e pensamentos. Não consigo esquecer seus traços. Seu sorriso.

Hunf!

O triste, e ainda mais irritante do que pensei ser possível, é que ela nem ao menos sorri mais. Pelo menos não para mim. Também não me dirige uma única palavra e isso é angustiante.

Sei que a desprezei a vida toda e a fiz sofrer em inúmeras ocasiões, mas...

Pff.

Agora finalmente consigo ver o quanto estava errado. Finalmente me importo.

Droga!

Acho que... eu a amo...

E contra todos os erros que cometi com ela só me resta torcer para que não seja tarde demais.”

***

— Ah! — berrei ao sentir o filete de sangue escorrer por meu abdômen e cair em gotas pelo chão de terra.

Estava tão perdido em meus pensamentos sobre a irritante kunoichi de cabelos rosa que acabei por me apunhalar com minha própria katana.

Céus, como sou burro!

Tratei de tentar estancar o sangue com a ajuda da camisa branca que vestia e falhei vergonhosamente.

Frustrado, percebi que não daria conta do maldito arranhão sozinho.

(…)

Ter de me apresentar ao hospital por um ferimento auto infligido era uma agressão ao meu orgulho Uchiha.

Por outro lado, esse buraco em meu corpo talvez me fosse útil, afinal, Sakura era médica. Esse acidente seria um motivo perfeito para obrigá-la a interagir comigo.

Ansioso, não pude deixar de pensar que meu dia ainda não estava perdido, afinal.

(…)

Adentrei o prédio a passos apressados. O sangramento diminuíra bastante, mas não havia parado e mesmo que não me sentisse tonto pela perda de sangue, ou algo do tipo, minha cintura começava a formigar.

Caminhei por uma série de corredores com suspiros femininos (meu peitoral estava exposto) e olhares preocupados (a camisa que usava para cobrir o ferimento estava totalmente coberta com o meu sangue) a me seguir, até avistar o setor de emergência onde tratei de perguntar pela Dr. Haruno.

Após receber a resposta que queria e dispensar ajuda para me mover, rumei para a sala de Sakura.

A porta não emitiu som algum ao ser aberta. A um canto, atrás de sua mesa, minha rosada se encontrava genuinamente concentrada ao analisar o que parecia uma extensa pilha de prontuários. Ela estava linda.

Escorado ao batente de entrada com certa dificuldade, após alguns minutos, aceitei que Sakura não perceberia minha presença ali e, portanto, tive de me fazer notar.

Soltei um pigarro baixo.

A kunoichi de cabelos rosa deixou que os papeis caíssem por sobre a mesa, sobressaltada com o repentino barulho.

Ao pousar seus olhos em mim, sua pele pareceu ficar alguns tons mais pálida. Analisando-me brevemente, as esmeraldas pareceram saltar das órbitas ao notarem todo o sangue em mim. Seu rosto aparentava uma imensa surpresa somada a sua genuína preocupação.

— Céus, o que aconteceu com você? — perguntou de forma rápida ao correr ao meu encontro; sua postura médica assumindo o perfeito controle da situação.

— Acidente de treino — limitei-me a responder.

— Hum, sei... — arqueou uma sobrancelha em minha direção após espiar o corte. — Por que não se senta ali?! — apontou uma maca a um canto — para eu dar uma olhada nisso.

Fiz o que ela pediu e observei pacientemente que ela me examinasse, permitindo que suas mãos forçassem meu corpo a se deitar sobre a maca, gentilmente.

— Fez bem em estancar o corte com o tecido da camisa — observou. — Você não aparenta estar muito mais pálido do que o normal e como chegou até aqui andando sem dificuldade, devo presumir que não perdeu nenhuma quantidade significativa de sangue, certo? — Encarou-me por um instante.

Assenti em sua direção e Sakura dedicou-se a minha ferida outra vez.

Um sorriso de canto bem discreto se formou em meus lábios ao notar o quão desconfortável ela parecia estar por ter de tocar meu abdômen descoberto.

Ao perceber meu contentamento, seu desconforto deu lugar a uma breve irritação e os dedos delicados que percorriam os ferimentos tornaram-se pesados e mais insistentes.

Estreitei os olhos em sua direção, indignado pela dor que o remexer de seus dedos em meu corte me proporcionava.

— Como eu imaginei — retirou suas mãos de meu ferimento de forma brusca e dolorida — o que te apunhalou não atingiu nada importante. — Vou te curar rapidinho — anunciou indiferente.

Reprimi o impulso de revirar os olhos e apenas concordei com um meneio simples de cabeça.

Seguido a meu gesto, Sakura posicionou as mãos por cima do corte e começou a emitir chakra por entre os delicados dedos. Em segundos me senti novo em folha.

Logo que terminou seu trabalho a rosada caminhou alguns passos para trás, posicionando-se a uma distância que julgasse segura.

— Já pode vestir sua camisa — apontou o pedaço de pano caído a um canto no chão. — Está um pouco manchada, mas tenho certeza de que ainda cumpre o objetivo — cruzou os braços.

— Ciúmes? — Provoquei em tom de deboche; um sorriso cínico brincando em meus lábios.

Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa por minha súbita provocação. Meu sorriso se alargou e posso dizer que também me espantei com meu comportamento.

Sua expressão fechou ao dar-se conta de que eu a estava provocando seriamente.

— Vá para o inferno! — Retrucou ofendida.

Ri pelo nariz e revirei os olhos.

Estava surpreso em descobrir que tirar Sakura Haruno do sério poderia ser muito, muito divertido.

— Você já está em perfeito estado e, portanto, de alta — indicou a saída com um gesto amplo de um dos braços. — Por favor, bata a porta ao sair — virou-me as costas ao caminhar de volta a sua pilha de prontuários, dando minha “consulta” como encerrada.

Chateado por não a ver ceder, perdi totalmente a vontade de brincar, ou provocá-la.

Independente de tê-la desprezado a vida inteira; enquanto um Uchiha, eu não aceitaria ser dispensado.

Esse maldito comportamento precisava acabar e ponto final.

— Por quê? — Cuspi a pergunta antes que pudesse me conter, surpreso por me ver agarrando-a pelo braço, num gesto bruto e impaciente.

— Por que, o quê? — Devolveu no mesmo tom, quase como se me desafiasse; seus olhos alternando-se entre meu rosto e a mão que a segurava com ignorância.

Por baixo da postura firme era visível seu ar receoso perante meu súbito comportamento.

— Por que tem sido tão mais irritante que o normal? Por que tem me evitado? — Perguntei ressentido.

Sakura pareceu desnorteada e surpresa por um momento.

— Não sei do que está falando — desconversou ao tentar inutilmente soltar-se de mim.

Lhe lancei um sorriso cínico e a encarei com desdém.

— Não banque a sonsa, Haruno — minha voz soou áspera e rude aos nossos ouvidos, quase um alerta de perigo, eu diria.

Uma pequena veia dava sinal de vida em minha testa, fruto de minha crescente irritação.

Ela engoliu em seco discretamente.

— Ora, Sasuke! Eu tenho estado muito ocupada com o hospital, você tem todas as suas obrigações com a ANBU e... — Pareceu pensar por um instante antes de estreitar os olhos em minha direção — e eu não te devo satisfação de absolutamente nada! — Utilizou de um pouco de chakra para desvencilhar-se de mim com um solavanco.

— Ah não?

— Não!

— Tsc, irritante, apenas admita que tem fugido de mim — me aproximei com urgência.

Sakura deu um passo para trás involuntariamente.

— Eu não preciso admitir nada, Uchiha! — Recompôs-se ao reaproximar seu corpo do meu, como forma de não se mostrar intimidada; o indicador pressionado contra o meu peito.

— Precisa sim — retruquei ao aproximar nossos rostos e segurar sua mão.

Ela engoliu em seco, mas não ousou se mexer.

Sorri internamente.

— Admita que eu ainda mexo com você, Sakura — encostei a mão livre na lateral de sua cintura diminuindo ainda mais a distância entre nossos corpos e a observei prender a respiração —, eu te deixo nervosa — sussurrei em seu ouvido; a voz incrivelmente rouca.

A kunoichi arrepiou-se de imediato. Sakura estava mais do que desconcertada com o meu comportamento.

Por um momento, pareci estar ganhando o jogo. Por um único mísero momento.

Nossos olhos se cruzaram e minha rosada nunca me pareceu mais entregue, os lábios entreabertos como se a espera dos meus. Aproximei nossos rostos ainda mais e rocei nossos narizes lentamente; respirações aceleradas; um sorriso de canto vitorioso em meu rosto.

As esmeraldas vasculharam minha face de modo incerto por um instante e ela pareceu acordar de um transe, alarmada. Nossos lábios apenas se roçaram antes de ela me empurrar pelos ombros e inverter nossas posições a fim de ter mais espaço.

A encarei frustrado.

— O que está tentando provar? — Questionou enfurecida apesar do olhar magoado.

Suspirei pesada e pausadamente.

— Seus sentimentos — cruzei os braços com superioridade.

Ela revirou os olhos e imitou o meu gesto.

— Está perdendo o seu tempo! — Desviou os olhos.

— Tem certeza? — Tornei a me aproximar sabendo que ela se afastaria.

Esse joguinho estava começando a me irritar profundamente.

— Hunf — empinou o nariz — é claro que eu tenho!

— Mentirosa... — a segurei pelo queixo e virei seu rosto para mim. — Você me ama — anunciei de forma arrogante, mesmo que estivesse incerto quanto a isso.

Seria possível que ela ainda me amasse depois de tudo? Será que esse sentimento perturbador dentro de mim seria mesmo amor?

— Não amo mais! — se apressou em dizer; a voz tremula.

Meus olhos brilharam, esperançosos. Aproximei nossos corpos um pouco mais. Ela caminhou para trás como esperado e terminou por bater suas costas contra a parede.

— Ah, ama! Ama sim — lhe afaguei as bochechas enquanto ela suspirava; o rosto virado outra vez. — Eu te conheço... — voltei a sussurrar.

— Conhecia — concordou por um instante — não conhece mais! — me encarou com amargura; os olhos marejados.

Dei um passo para trás em choque com sua reação.

Sakura tornou a desviar os olhos; os braços caídos ao lado do corpo.

— Eu cresci, Sasuke, não sou mais aquela menininha fraca e indefesa. A garota fútil e histérica que vivia correndo atrás de você não existe mais. Seja qual for o jogo que você quer jogar, saiba que eu não estou interessada — anunciou antes de se arrastar até a porta; algumas lágrimas discretas lhe inundando a face.

Quando imaginei esse momento eu não cogitei fazê-la chorar.

— Você me escolheu tantas vezes. Por que não, mais uma vez?

— Porque eu resolvi me escolher, Sasuke — retrucou ao pôr a mão na maçaneta.

Meus nervos pareceram chumbo, quis abraçá-la, mas me contive.

— Então me deixa escolher você — pedi antes que ousasse ter controle sobre minhas palavras.

Sakura pareceu congelar no lugar.

Aproximei-me outra vez; o charme esquecido. Toquei seu ombro e a virei para mim agarrando suas mãos num impulso.

— Eu sei que você não é mais aquela menina, eu sei que você cresceu. Eu também cresci, Sakura, meus sentimentos por você cresceram. Eu amadureci, finalmente me dei conta do quanto você é importante, do quanto sempre foi importante! — Admiti com sinceridade e encarei nossas mãos entrelaçadas; sentia-me incapaz de encará-la nos olhos.

— Sasuke-kun — ela sussurrou descrente.

Apertei suas mãos entre as minhas com mais força e me obriguei a continuar.

— Durante a guerra percebi que não conseguia viver sem você, que o sentimento que sempre me obriguei a esconder continua mais vivo do que nunca — a rosada abriu a boca, mas nenhum som deixou seus lábios. — Eu olho para você agora e mesmo indo contra o meu orgulho, tudo o que eu quero é o seu perdão. Você me faz sentir vontade de me entregar, de ajudar, de começar de novo, Sakura — terminei da forma mais clara e calma que consegui, usando toda a sinceridade de que era capaz.

Sakura permanecia tão quieta e chocada que por um momento cheguei a achar que ela nem ao menos estivesse me ouvindo.

Esperei que ela emitisse alguma reação, qualquer que fosse. Mas a kunoichi não se mexeu.

Estreitei os olhos e respirei fundo.

— Você não vai dizer nada? — perguntei sem obter uma resposta. Bufei irritado; as mãos que antes seguravam as da rosada agora puxando meus cabelos. — Droga, Haruno, desde que voltei você tem fugido de mim e agora isso. Nunca ninguém me irritou tanto na vi...

Arregalei os olhos ao ser interrompido por um selinho doce. Apenas um leve encostar de lábios, mas ainda assim o suficiente para despertar algo dentro de mim.

A encarei com um misto de espanto, ternura e ansiedade; meus lábios famintos para encontrar os dela outra vez.

— Eu nunca imaginaria que essa sua nova versão se irritasse tão fácil — comentou num tom divertido; as bochechas coradas.

Ri pelo nariz e revirei os olhos ao me aproximar.

— Proeza sua — resmunguei fazendo-a rir.

Fechei os olhos para apreciar o som de sua risada e enlacei sua cintura num gesto possessivo e ao mesmo tempo muito natural. Me senti vibrar por dentro ao senti-la rodear meu pescoço com os braços finos em resposta.

— Olha, eu sei que fugi esse tempo todo, mas eu não podia ceder, queria que você descobrisse seus sentimentos, que viesse atrás de mim. Eu esperei tanto por isso, e... finalmente está valendo a pena! — disse em meio a um sorriso enquanto colava sua testa na minha, sua respiração acelerada contra o meu rosto.

— Tsc, irritante — tornei a fechar os olhos dessa vez apreciando o choque de sua respiração contra o meu rosto. — Desculpe a demora — pedi antes de acabar com a distância entre nós.

Selei nossos lábios em um beijo intenso e apaixonado; nossas línguas travando uma longa e deliciosa batalha sem vencedores.

Rodeando sua cintura e sentindo suas mãos me acariciarem os cabelos com carinho, senti como se tudo no mundo estivesse finalmente em seu devido lugar.

Quebramos o beijo em busca de ar e meus lábios desceram em direção ao seu pescoço incapazes de se absterem do contato com ela.

Apreciei cada uma de suas reações as minhas carícias, bem como suas mãos a massagearem os cabelos de minha nuca. Assustado, me dei conta de que tê-la em meus braços seria meu maior objetivo dali para frente.

Quando enfim nos separamos, minha rosada aconchegou-se em meus braços; o rosto enterrado em meu peito.

— Eu te amo, irritante — sussurrei dando-me conta de que ao longo da vida poucas vezes dissera algo tão verdadeiro. — Na verdade, desde o massacre jamais imaginei que seria capaz de amar alguém de novo.

— Eu... também te amo... Muito. Mais do que qualquer outra coisa no mundo... — Sussurrou de volta, a voz embargada, os olhos despejando algumas poucas lágrimas por sobre a face branca e delicada. Sequei-as com pequenos beijos. Eu me sentia eufórico.

Tornei a abraçá-la apreciando o quão deliciosamente pequena ela parecia ser se comparada a mim e depositei um beijo no topo de sua cabeça.

— Minha vida começa agora com você. Seu amor é minha página virada!

Notas finais
Espero que tenham gostado. Críticas são sempre bem-vindas.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!