Notas iniciais
LINE NA ÁREA!! Olá, amantes de Royai! Cá estou novamente trazendo mais uma pequena fanfic desse casal tão amado, só que dessa vez sendo uma one-shot! Nela irei retratar um momento icônico e memorável em Fullmetal: a Guerra em Ishval. ... Já adianto que será uma leitura intensa. Boa Leitura!

Puxar ou Não o Gatilho... Em Ishval

por Line

Em meio a uma tarde parcialmente chuvosa no quartel general da Central, haviam dois militares retidos em dúzias de papeladas e documentos para ler, assinar e grampear, respectivamente e sem pausas.

Um deles tratava-se de um jovem homem no auge de sua vida, ostentando cabelos negros como a noite e olhos tão escuros quanto carvão, destacando suas feições responsáveis por atrair o interesse imediato de qualquer mulher que repousasse os olhos sobre ele. Naquela tarde, Roy Mustang trajava o uniforme padrão do exército; contudo, ante sua preferência por peças clássicas, a presença de um imponente e elegante sobretudo preto predominava em sua vestimenta. Há poucos metros da mesa principal onde ele situava-se, havia o contorno sutil e bem desenvolvido de um corpo feminino parado diante de um armário, guardando em seu interior documentos cujo o superior havia acabado de assinar. A mulher trajava seu uniforme como de costume, sem ostentar qualquer outra peça que fugisse de sua posição. Possuidora de belos e longos cabelos dourados que viviam com seus encantos firmemente presos por uma presilha cor escura que dava-lhe um estilo parecido com a cauda de um pássaro, Riza Hawkeye exibia sua aparência de forma simples e correta, sem extravagâncias de quaisquer tipos. Somente seus olhos fugiam à regra: extremamente grandes e bem destacados, despertavam o ligeiro desejo de serem contemplados por visões alheias.

— Já acabei aqui.

A voz dela despertou-lhe de todas aquelas frases e números estritamente burocráticos. Observou-a, divagante, enquanto ela postava-se à sua frente, estando ambos somente separados pela superfície lisa e larga da mesa. O amendoado de seus olhos estreitaram-se para o pedaço de papel contido nas mãos de seu coronel.

— Você já não leu esse documento dez minutos atrás? — soltou a indagação com um quê de questionamento e censura.

— Engano seu, tenente. — o homem relaxou na cadeira, exibindo sua tão frequente pose de descontração. — Achei que seus olhos fossem mais atentos...

— Hum. — como já esperado, ela ignorou a leve provocação de seu superior, limitando-se apenas a encará-lo. — Tente terminar tudo antes de ficar tarde. Permissão para me retirar? — pediu.

O Alquimista das Chamas demorou um pouco para respondê-la. Analisando o tanto de papelada que ainda tinha para ler, cruzou os braços e soltou um longo suspiro de desânimo.

— Permissão concedida. — consentiu, ainda que, em seu íntimo, as palavras em questão não despertassem nenhum sentimento positivo no alquimista. — Só leve isso até o setor quatro, por favor. — estendeu-lhe uma pilha de papéis que preenchera mais cedo.

— Sim senhor. — Hawkeye inclinou-se, equilibrando a pilha em suas mãos. Num ímpeto, seus olhos pregaram-se, distraídos, sobre a pele nua da mão de seu superior, onde havia na parte de cima a gravura de uma leve e quase invisível cicatriz de um círculo de transmutação exclusivo que ela conhecia tão bem. Ergueu os olhos para o rosto dele. — Só... não exagere.

Um meio sorriso despontou nos lábios de Mustang.

— Sua rara preocupação me encanta, tenente Hawkeye. Bem que poderia demonstrá-la com mais frequência...

A mulher ajeitou os papéis com o auxílio da mesa, endireitando-os.

— Prefiro guardá-la para o segundo-tenente Havoc. Ele sim está necessitando.

A expressão presunçosa fugiu do rosto do homem, assim como sempre acontecia ao recordar-se de seu subordinado que fora obrigado a ficar fora de batalha contra sua vontade e retido numa cama de hospital. Como que respondendo à seus pensamentos melancólicos e revoltados, sentiu o recém ferimento em seu abdômen dar uma fina e dolorosa pontada por debaixo da roupa.

— Afável e certeira como um de seus disparos, não, Hawkeye? — ironizou, desviando os olhos dos dela.

— Se assim acha, coronel. — ela aprumou-se, batendo continência e dando-lhe às costas.

Enquanto a observava afastar-se, uma dúvida que por muitas vezes já pensara em tirar com sua subordinada invadiu sua mente. Pigarreou, chamando a atenção da mulher que já estava prestes a abrir a porta.

— Falando em disparos... — começou devagar, fixando os olhos nos dela com intensidade. — Seja sincera, tenente. Alguma vez em todos esse anos você já esteve seriamente inclinada a atirar em mim?

Sua pergunta foi lançada no ar, coberta de curiosidade, expectativa e, no fundo, leve temor pela resposta que receberia. Uma pergunta que os separava de muitas formas, condizente com o juramento que fizeram um ao outro quando tornaram-se oficialmente aliados e companheiros de guerra.

Riza segurou seu olhar, sem bambear ou hesitar. Sua resposta foi clara e sincera.

— Sim. Uma vez.

Sentindo um peso de derrota inundar seu peito, o Alquimista das Chamas limitou-se a fazer apenas mais uma pergunta:

— Quando?

Ela baixou os olhos por um instante, segurando os papéis ainda mais firmemente contra o peito. Sem que ele esperasse, ela deu-lhe às costas novamente, abrindo a porta. Antes, porém, que seu corpo atravessasse a divisão da sala para o corredor e o deixasse cruelmente sem resposta, ela suspirou as duas palavras que carregavam um enorme fardo, ainda sem encará-lo.

— Em Ishval.

▪️▪️▪️

Seis anos antes...

1908 — Guerra Ishval

A batalha era árdua no leste. O campo encontrava-se recheado de corpos estirados e ensanguentados, queimados e irreconhecíveis, metralhados e abandonados. Inertes e opacos naquela destruição em massa de sua própria sociedade, estavam o povo cuja cultura e modo de vida distintos não eram considerados parte da civilização amestrina. Não eram considerados cidadãos comuns e com direitos.

Não eram considerados pessoas.

No quinto andar de um edifício já abandonado e severamente danificado, havia uma figura solitária postada frente a uma cavidade tamanho média, fruto de uma recém explosão feita pelo chamado Alquimista Rubro horas antes. Em primeira mão, quem olhasse rapidamente não saberia distinguir o gênero da figura por debaixo daquele longo e abarrotado casaco-branco — vestimenta padrão para o exército amestrino utilizar nas terras secas de Ishval.

Agachada diante da abertura que representava o declínio da paisagem lá fora, os fios dourados da franja e a curva delicada do queixo identificavam a figura feminina. Postado de forma eficiente em seus braços, jazia um rifle de precisão com seus 1,5 metros, bem posicionado em suas mãos e apoiado com segurança contra seu ombro. Um olho fechado e outro aberto, atento à mira telescópica e à toda movimentação lá fora, retido desde detalhes insignificantes até grandes focos de conflitos. O âmbar que sempre iluminou, agora trazendo as trevas.

Ela. Riza Hawkeye.

— Srta. "Sniper", como vai a situação aqui?

A voz quebradiça do militar superior ressoou em seus ouvidos como vinda de muito distante. Sem desviar os olhos da mira e, novamente, ignorando o fato de seu nome não possuir o valor de ser pronunciado, expôs sua já decorada resposta:

— Controlada, senhor. Os telhados continuam livres e liberados.

— Bom trabalho. — o elogio não chegou ao âmago da jovem mulher que há apenas dois anos saíra da adolescência. — Vou dar uma olhada.

Ante a frase, o militar esgueirou-se pelo ambiente em parcial detrimento, parando ao lado do que um dia fora uma majestosa janela de pedras. Seu rifle foi acomodado em seus braços fortes, checando o lado de fora. Ele não viu quando ambas as mãos da mulher tremularam e nem quando ela fechou os olhos em desventura após seu trunfo surgir.

— Achei um. — as palavras ecoaram com nítida satisfação, deleitando-se com o fato de ter visto algo que, aparentemente, o "Olho de Águia" deixou escapar. — Uma garotinha à três horas. Escondida debaixo de uma caixa de madeira.

Ela não respondeu. Seu alvo sequer mudou.

— Cadete. A garota. — repetiu.

— Estou ciente. — as palavras flutuaram pelo edifício, baixas e isoladas, possuindo toda sua angústia e tremor falhamente contidos.

— E o que está esperando? — o tom bem-humorado começava a se tornar reprovador e tomado por desconfiança.

Lentamente, a direção do rifle foi alterada para a esquerda, focalizando, assim, o formato do corpo pequeno e mirrado da garotinha que, até o momento, estivera sendo propositalmente ignorada pela mulher.

Não mais agora.

Fechou os olhos. Não esperou. Logo, sentiu o tranco da arma em seu ombro, o alto estampido cortar seus tímpanos e o cheiro da morte que era a pólvora densa inundar suas narinas. Por um segundo, foi como se seu coração tivesse parado de bater.

Assim como o da mais nova vítima a entrar em sua lista.

— Perfeito. Bem na têmpora. — o militar elogiou novamente, colocando a própria arma pendurada no ombro e aprumando-se. — Continue assim. Darei conta do outro lado. — acenou.

A mulher não esboçou nenhuma reação quanto à saída do superior. Continuou com os olhos pregados sobre o sangue que manchara a caixa de forma grotesca, assim como os membros esticados e sem vida da pequena garota ishvaliana.

Ela era o número cem.

Mal esperou o militar ir embora para debruçar-se sobre o piso esburacado que havia ao seu lado. Seria a terceira vez que o utilizaria, despejando de seu corpo toda sua dor; seu horror; sua culpa. O estômago vazio sofria as consequências, arqueando-se internamente em angústia e pesar.

Até onde aquilo iria? Quantos mais precisaria matar até que tudo aquilo acabasse? O que... O que ela estava fazendo naquele lugar, afinal?

Com as mãos trêmulas, a jovem cadete limpou o que restou das substâncias ainda pregadas sobre seus lábios pálidos. O desconfortável peso do rifle em seu ombro não era maior do que a culpa que carregava em cada parte de seu corpo, de seu espírito e de sua alma.

O peso devastador e excruciante de carregar todas aquelas mortes.

Contudo, ela não poderia dar-se o luxo de desistir assim. Não quando tinha ordens a obedecer, ainda que o ato de atendê-las significasse perder um pouco de sua humanidade cada vez que apertava o gatilho e mais uma vida era mandada embora daquele mundo.

Posicionou o rifle na cavidade novamente, inclinando-se e fixando as imagens ampliadas do que um dia fora um lar para centenas de pessoas, agora exibindo-se um verdadeiro inferno. Hoje, conseguia conter melhor as lágrimas que, ao chegar dias antes, jorraram sem piedade por seu rosto ao constatar o verdadeiro horror que estava acontecendo ali — e do qual também participava.

Hoje, suas faces estavam secas. Assim como a visão do deserto em chamas.

Do que havia valido sua inscrição para a academia militar? Do que havia valido todos aqueles treinamentos extensivos e desgastantes, tudo visando um futuro de paz e felicidade para o país que, agora, encontrava-se daquela forma hedionda?

Cada "parabéns" e "bom trabalho, srta. Hawkeye" que recebera de seus treinadores valia tanto assim? Valia tanto assim ser alguém que sempre acertava o alvo? Valia alguma coisa ser a melhor da turma à ponto de mandarem-na para o campo de batalha ainda em seu último ano de cadete? Tudo aquilo... todo aquele esforço, dedicação e apuração de suas habilidades... Para serem usados assim?

Como se ela realmente fosse... uma arma?

Foi quando seus olhos perspicazes e afiados como os de uma águia viram o cenário trágico se desenrolar ao longe. Eles assistiram, endurecidos, dois militares conversando enquanto jazia à seus pés dezenas de cadáveres invisíveis e insignificantes demais para receberem qualquer tipo de atenção.

Mas ela viu. Assistiu o movimento lento e cauteloso da mão de um falso cadáver fechar-se sobre o cabo de um facão torto mas letal, o impulso instantâneo e os gritos mudos na direção dos dois homens, ávidos por vingança e justiça...

O gatilho foi apertado mais uma vez. O projétil atravessou a cabeça. O corpo pereceu — agora, de fato, virando um real cadáver.

O número 101.

... No entanto, diferente das outras vezes, Riza Hawkeye não fechou os olhos ao adicionar mais um rosto à sua lista. Manteve-os abertos, pregados em evidente choque e surrealismo num dos homens que havia acabado de salvar.

Ele, o rapaz com quem convivera desde o início de sua adolescência, ainda que não tivessem tido uma relação considerada próxima; ele, o jovem que, silenciosa e discretamente, observou e assistiu entrar em sua casa todos os dias, sempre buscando os conhecimentos de seu pai; ele, o homem a que confiara suas costas e seus sonhos.

Roy Mustang.

A respiração parou. Os olhos não se moveram em busca de outros alvos. O dedo continuou firme no gatilho enquanto a mira telescópica continuava presa nas definidas feições cansadas e, ante o susto anterior, atônitas do Alquimista das Chamas.

Lembrou-se do fogo. Das labaredas espalhadas por toda Ishval. Dos corpos torrados e irreconhecíveis estirados pelos cantos.

E ela sentiu. Sentiu as chamas incendiarem suas costas, censurando-a, acusando-a, culpando-a.

Como vinda do além, a voz do pai que tanto temeu atravessou a mente da jovem, curta e fria:

"Foi em prol disso que a minha pesquisa foi utilizada? Foi para isso que você entregou o segredo da minha alquimia à ele, Riza?".

Não... Não havia sido essa sua intenção... Nunca havia cogitado a possibilidade da decisão tomada há três anos resultar em algo tão catastrófico e desumano.

Não foi aquilo que ela queria.

O peso invisível de toda fonte daquele poder tornou-se ainda mais tortuoso em suas costas, sufocando-a, fazendo-a sentir-se como se estivesse sendo enforcada por todas as vítimas que havia feito — incluindo as dele. Duas sensações destrutivas demais para um só ser humano carregar ao mesmo tempo:

Culpa e arrependimento.

Foi então que o dedo endureceu. O gatilho foi sondado, temente e duvidoso, esperando a decisão de sua manipuladora — a mira ainda pregada sobre o rosto daquele homem que retratava a luz em seu passado.

Ela poderia acabar com aquilo. Bastava apenas o cérebro mandar um comando para os músculos de seu indicador e daria um fim àquela exterminação.

Uma sniper como ela poderia ser facilmente substituída. Mas não um Alquimista das Chamas.

Foi quando algo a impediu. Uma frase gentil e carregada de sonhos futuros, proferida e confidenciada há três anos pelo homem que estava prestes a assassinar:

"Ainda assim, caso eu conseguisse me tornar um dos pilares de sustentação desse país e usar as minhas mãos para proteger o povo... Acho que isso me faria feliz".

O dedo não se moveu. O fio úmido a deslizar por sua face foi a resposta.

Ela havia se enganado. As lágrimas ainda estavam ali, jorrando em seu interior e escapando, ligeiras e silenciosas, para o lado de fora.

Lembrou-se do que vira nos olhos dele quando estavam no cemitério; as únicas almas a despedirem-se de seu pai, Berthold Hawkeye. Diferente dos olhos de seu progenitor, que eram tomados de frieza, insanidade e alienação, os de Roy Mustang exalavam chamas de esperança e vivacidade. Eram quentes e reconfortantes, confiantes e certos em cumprir sua promessa.

Foi o suficiente para que ela confiasse nele.

E, por alguma razão, no meio de toda aquela guerra e levando em conta tudo que ambos estavam fazendo ali... sua confiança permanecia intacta.

Naquele fugaz instante, o gatilho não foi pressionado.

O número 102 iria esperar.

Notas finais
Confesso que essa foi a one-shot mais intensa e forte que já escrevi. Quis retratar Ishval pelo forte motivo de eu ter guardado em meu interior todo o horror que foi mostrado nessa guerra. Me inspirei também num conjunto de painéis do mangá que, para muitas pessoas, foram interpretados de forma que parecesse que a Riza queria atirar no Mustang em Ishval. Espero que tenham gostado dessa one que, mesmo sendo repleta de dor, teve o intuito de exibir a realidade de uma guerra. Comentários são sempre bem-vindos! Estou com muitas ideias para mais fanfics de Royai, assim como de outros casais de Fullmetal! Aviso já que tenho mais uma fanfic de Royai no perfil, só que dessa vez uma three-shot ^-^ Ela é meu verdadeiro xodó, então se quiserem dar uma lida... Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!