Purple - Debaixo da Chuva
1 Epílogo - Debaixo da Chuva
Notas iniciais
Purple — The Side Story — Debaixo da Chuva
Cassandra estava chorando.
Ela havia sido rejeitada pela primeira vez em sua vida, de uma maneira humilhante.
Era certo que tinha más intenções quando se "declarara" à Aiko, mas o que ouvira da asiática fora horrível. Ela estava se sentindo um lixo. E não era pela rejeição. Algo em seu peito doía e ela estava confusa. Isso não podia estar acontecendo. Ela não deveria ter se machucado tanto, certo? Então, por quê chorava? Por quê sentia uma necessidade enorme de berrar aos quatro ventos o quanto sentia-se triste por ter levado um fora de Aiko?
Ela estava...
Realmente apaixonada?
Havia se apaixonado pela rockeira inexpressiva?
Ela, a rainha da classe?
Estaria sofrendo por amor?
Trancou-se no banheiro feminino e lá ficou até terminarem todas as aulas do dia.
...
Ao chegar em casa, Aiko rumou diretamente ao banheiro para uma ducha. Ela não acreditava no que havia acontecido. Nunca havia passado por algo do tipo antes. Era óbvio que Cassandra estava armando alguma para cima dela, mas... Se declarar? Por mais que o ódio fosse recíproco entre as duas, algo no fundo do peito de Aiko considerou se a garota de cabelos rosados havia falado a verdade.
Não.
Estava ficando louca.
Óbvio que Cassandra mentira.
Ou não?
Aiko estava, pela primeira vez em sua vida, confusa com relação aos seus sentimentos. Continuava odiando Cassandra de coração, mas, será realmente que não havia algo de amor em seu ódio?
Decidiu parar de pensar nisso e foi deitar-se. Ao que lhe pareceu, adormecera por alguns instantes. Aiko revirou-se na cama, ainda tendo pesadelos com o que ouvira de Cassandra. Abriu os olhos lentamente, espreguiçando-se, olhando para sua escrivaninha. Em cima dela, estava uma foto. Era Aiko menor, com seus pais. Ela parecia feliz. Mas isso acontecera haviam anos.
Virou-se para o outro lado e tentou dormir de novo, para esquecer dias que nunca voltariam.
Nunca.
...
No dia seguinte, Cass estava totalmente recomposta, ou pelo menos aparentava estar. Com a maquiagem bem "ok", a auto-estima de sempre e um sorriso no rosto. Suas seguidoras logo a rodearam assim que ela pôs os pés no prédio da escola. Mas suas amigas de verdade a esperavam em um dos corredores.
Sim, ela havia feito amigos.
Duas garotas, para falar a verdade.
E não eram ninguém menos que...
Lilith Liláses e Evanna Bristol. O primeiro casalzinho assumidamente lésbico da escola.
Cassandra já conversava com Lilith antigamente, mas as duas haviam ficado bem mais próximas dentro de um curto espaço de tempo nos últimos dias. Sobre Evanna... Bem, Cass obviamente precisaria aturar a namorada de sua atual melhor amiga, e isso não se mostrou difícil.
Evanna era sociável. Tinha uma presença meio apagada, mas possuía uma personalidade forte — um ótimo contraste. E, acima de tudo, seu amor por Lilith era visívelmente verdadeiro, e aos poucos se tornava recíproco.
Cassandra achava bonito o modo com a relação das duas se desenvolvia, mas uma coisa a intrigava.
- Vocês resolveram namorar logo no primeiro encontro? Tipo, de cara? — perguntou a garota de cabelos rosados, quando as três encontravam-se sozinhas em uma das mesas no refeitório da escola.
- Bem... Foi meio que um ultimato. — brincou a mais alta. — Ela disse que me conquistaria à qualquer custo. Não pude recusar perante tamanha determinação. — riu Lilith.
- Por favor, Lily! Não faça parecer que eu sou o macho da relação! — envergonhou-se Evanna, cobrindo o rosto com as mãos.
Cassandra riu, e, sem perceber, acabou olhando para uma mesa qualquer.
E então viu Aiko.
A garota de cabelos negros estava sentada à mesa junto a outras duas garotas, que Cass identificou como sendo Margareth Amethyst e Anderson Magenta. As duas riam, enquanto Aiko permanecia de cabeça baixa, ignorando a situação.
Desde quando as três ocupavam a mesma mesa? Haveriam se tornado amigas, por acaso? Cassandra não conseguia entender.
Num momento desesperador, Cass viu Aiko levantar a cabeça da mesa e olhar em sua direção, como se adivinhasse que a garota a estaria observando naquele exato instante. Rubra, a garota de cabelos rosados tentou desviar o olhar e disfarçar, mas não conseguiu. Aiko também não virou a cabeça. As duas se encararam por segundos que pareceram uma eternidade. Então, ao mesmo tempo, desviaram os olhares, como se estivessem na mesma frequência.
...
- NÓS PRECISAMOS JUNTAR ELAS! — gritaram ao mesmo tempo Lilith, Margareth e Evanna, ansiosas.
- E precisa ser no baile de formatura. — completou Anderson, não tão frenética quanto as outras.
- SIM! Vai ser tão romântico! — disse Margareth, sonhadora.
- Está na cara que elas se odeiam... Mas que se gostam também. — disse Evanna.
- Não vou me sentir bem se não fizer algo por elas... — amuou-se Lilith.
- Como vamos fazer isso? Elas não conseguem ficar juntas por um minuto sem brigar, imagine tentar tranformá-las em namoradas! — ponderou Anderson. — Vai ser uma tarefa difícil.
- Se é difícil, não é impossível. — animou-se Margareth. — Vamos dar um jeito!
...
"Como fui acabar amiga daquelas duas?", pensava Aiko, revirando-se na cama. Escutava Cannibal Corpse no volume máximo do porta-CDs, com alguns amplificadores para fazer o som retumbar. Seu quarto tinha acústica, ela não precisava se incomodar com os vizinhos ou seu pai.
Tudo ocorrera repentinamente. Num instante ela havia sido designada para fazer um trabalho em trio com Margy e Andy, no outro, as garotas — leia-se Margareth — agiam como se fossem suas melhores amigas e a chamavam para lanchar junto delas no recreio.
Bem, ela não se importava com isso, mas certamente a receptividade de Margy a assustara.
Apesar de nerd, a garota era muito mais desinibida do que a sua suposta namorada, Anderson, que era ótima nos esportes, porém tímida, e praticamente só agia sobre pressão ou quando a vida de outras pessoas corria risco. As duas eram contradições ambulantes.
"What the fuck...", escreveu a oriental em uma folha de papel qualquer que estava em cima da sua escrivaninha, junto com uma caneta. Em seguida, amassou a folha e a jogou contra a parede. Pôs-se de bruços e deu um grito, contido por seu travesseiro.
...
O dia do baile de formatura se aproximava, assim como o fim do ano. Enquanto uns já tinham com quem ir e outros estavam desesperados procurando alguém livre, existiam aqueles que simplesmente não iriam: Sim. Aiko. O baile não era algo que tivesse relevância na sua vida, e ela não tinha com quem ir. Nunca gostara desse tipo de festa, e não seria a comemoração pela conclusão do ensino médio que a faria comparecer. Mesmo que fosse uma atitude fria, era o que todos esperavam dela, não? Ela era Aiko, a rainha dos "desinteressados por tudo". Isso era típico seu... E ela não devia ter vontade de ir com alguém.
Mas tinha.
...
Os dias passavam cada vez mais devagar, atolando as pessoas na essência do tédio provocado pela rotina. Cassandra já teria quase esquecido o amor que começara a desenvolver por Aiko, não fossem os constantes lembretes de que ela devia arrumar alguém para a levar ao baile.
No entanto, Cass, havia algum tempo, deixara de nutrir quaisquer sentimentos pelos meninos que conhecia, tampouco os tinha pelas meninas. Exceto por uma. Sua colega de classe oriental por quem nutria um amor enrustido. E era óbvio que não haveriam chances de ir para o baile com Aiko. Elas se odiavam, não? Provavelmente a rockeira não compareceria a festa apenas para evitar "respirar o mesmo ar que pessoas medíocres e hipócritas como seus colegas de classe respiram".
Nesse momento...
Cassandra decidiu que também não iria. A rainha da classe perderia um dia único em sua vida, apenas por quê não haveria motivo para se estar feliz sem Aiko.
Calma aí.
Sério?
ELA iria REALMENTE abdicar da festa?
A garota surpreendeu-se com tais ideias.
Seu amor por Aiko realmente era tão grande assim?
Será que ela já não estava confusa a ponto de delirar?
Colocou-se de bruços em sua cama e soltou um grito, contido por seu travesseiro. Por fim, resolveu ir dar um passeio para espairecer.
Saiu de casa sem olhar para o céu. E, convenientemente, esqueceu-se de seu guarda-chuva.
...
Aiko andava sem rumo. Havia saído de casa procurando algo para fazer, e acabara por ficar vagando a esmo pela cidade até chegar em algum lugar. Pouco importava se ela se perdesse, provavelmente ninguém sentiria sua falta. Ela era desnecessária para o mundo, não? Uma estúpida zé-ninguém que vivia cabulando aulas e não se dava bem com sua família.
Desde que sua mãe morrera, seu relacionamento com seu pai, que já não era dos melhores, piorou a cada dia. O stress era mútuo. E isso resultou em algo difícil de ser contornado. Aiko ergueu muros ao redor de si para se proteger de seu pai e de outros que pudessem vir a lhe decepcionar. Ela trancou seus sentimentos no fundo do peito e se autoproclamou imune a qualquer tipo de situação que pudesse vir a lhe ferir. Assim nascia a Aiko de hoje, desligada, desinteressada, impossibilitada de confiar nas pessoas por motivos pessoais.
Incapaz de amar...
Ou será que não?
Com pensamentos confusos e depressivos regados ao som de Pink Floyd em seu fone de ouvido, Aiko chegou em uma parte da cidade que não conhecia. As casas, as ruas, os prédios, os becos... Tudo parecia tão igual, mas, ao mesmo tempo, tão diferente. Acabou chegando em um daqueles parquinhos de pracinha. Bem, certamente não se via algo do tipo perto de onde ela morava. Teria a garota chegado à um bairro nobre da cidade?
Resolveu parar para descansar, e então percebeu as nuvens de chuva acima de si. Percebeu também mais uma coisa: uma figura de cabeça baixa sentada em um dos balanços, pensativa. Tinha os cabelos rosados. Seria...?
...
Cassandra sentiu que a observavam e ergueu a cabeça. Ela saíra de casa para fugir dos problemas e por azar (ou sorte) encontrara-se justamente com a razão de seu dilema.
Assim que a percebeu, Aiko preparou-se para dar meia-volta.
- Espere. — falou Cassandra, levantando-se. A oriental não a deu ouvidos. — ESPERE! VAI CONTINUAR FUGINDO DE SEUS PROBLEMAS PARA SEMPRE?! SEJA MULHER, AIKO MURASAKI!
- ... — Aiko parou, virando-se na direção de Cassandra.
- Eu preciso falar com você... — disse a garota de cabelos rosados, preparando-se para o que estava por vir.
- E então, o que foi? — Aiko estava ansiosa, mas não deixaria isso transparecer. — O que vossa graça de merda quer dessa humilde plebéia?
A oriental estava nervosa, percebeu Cassandra. Já começara a atacar com insultos e ironias. Tentava parecer forte e imponente, mas estava insegura. Ela também devia estar confusa. Isso foi o suficiente para Cassandra começar a falar.
- Eu... Nós... Sei que você me odeia, e eu também te odeio. Mas... Será que... Talvez... — Cassandra estava vermelha como um tomate. — Não haja... Algo a mais? Algum sentimento escondido no fundo de nossos corações?
Aiko a olhava espantada e rubra, essa era a primeira vez que Cass a via desse jeito. Mas isso durou pouco, logo a expressão de Aiko tornou-se a de puro escárnio com que Cassandra já estava habituada.
- HAHAHAHAHA! De novo com isso?! Vai tentar me convencer mais uma vez de que está apaixonada por mim? IDIOTA! Eu nunca vou acreditar nisso! Não aprendeu nada com a última vez?! EU TE ODEIO, CASSANDRA PURPLE!
- MAS EU TE AMO! SERÁ QUE NÃO PERCEBE? QUANTAS VEZES VOU PRECISAR ME ARRASTAR ATÉ VOCÊ IMPLORANDO PARA QUE ACEITE OS MEUS SENTIMENTOS?! EU NÃO AGUENTO MAIS! TODA VEZ É A MESMA MERDA! TODA VEZ VOCÊ SE FAZ DE FORTE! EU NÃO ESTOU CONTENTE POR TER ME APAIXONADO POR ALGUÉM COMO VOCÊ, PODE TER CERTEZA DISSO! É DIFÍCIL... E MACHUCA! TE AMAR É UMA TAREFA MUITO COMPLICADA! MAS EU NÃO QUERO DESISTIR! ESSA É A PRIMEIRA VEZ QUE SINTO ALGO DESSA PROPORÇÃO POR ALGUÉM! EU QUERIA QUE DESSE CERTO! QUE VOCÊ ME ACEITASSE! DESDE QUE ME DECLAREI A VOCÊ PELA PRIMEIRA VEZ... DESDE QUE VOCÊ ME REJEITOU PELA PRIMEIRA VEZ... EU TENHO PENSADO NO QUANTO SOU BURRA POR NÃO TER PERCEBIDO ISSO ANTES! POR NÃO TER TENTADO CONSTRUIR COM VOCÊ UMA RELAÇÃO AMIGÁVEL EM VEZ DE UMA RELAÇÃO DE ÓDIO! EU ME ODEIO! EU ODEIO VOCÊ! MAS ACIMA DE TUDO... EU TE AMO, SUA IDIOTA!
Então... Começou a chover. E Cassandra começou a chorar. Lágrimas escorriam desesperadamente por seu rosto, camufladas pelas gotas de chuva.
Aiko estava em choque. Não estava conseguindo manter nenhuma linha de raciocínio lógico. O que ela acabara de escutar a deixara estarrecida, mas ela não ousava duvidar de sua veracidade.
Então, Cassandra a amava? Alguém como ela? E... Ela talvez também amasse Cassandra? Seus sentimentos confusos se deviam a isso?
Era... Era isso mesmo? Não teria ocorrido algum engano? Poderia ela, esse tempo todo, estar apenas tentando enganar a si própria?
Tentando negar veementemente que também era capaz de amar?
Seus olhos se encheram de lágrimas e lhe faltaram forças nas pernas. A garota caiu de joelhos, chorando desamparada, enquanto Cassandra também chorava, as duas debaixo da chuva. Ficaram assim por alguns minutos, até que a chuva cessou e levou embora consigo toda a dor e tristeza dos sentimentos que foram desabafados.
Cassandra levantou a cabeça, sendo acompanhada por Aiko logo depois. As duas entreolharam-se, ainda com vergonha pelo ocorrido.
- E-então... Você... Já tem alguém para ir ao baile contigo? — perguntou Aiko, gaguejando pela primeira vez em sua vida.
- Não... — falou Cassandra, olhando para baixo.
- Quer ir comigo?
Aquilo pegou Cassandra de surpresa. Seus olhos se encheram de lágrimas novamente. Mas dessa vez eram lágrimas de felicidade.
Realmente, o amor é estranho. Pode te deixar nas nuvens, assim como pode te fazer conhecer o inferno. Tudo depende da sorte de cada um.
- Mas é claro que sim!
FIM (Agora sim).
Fale com o autor