Pure Imagination
25 Not A Title
Notas iniciais
Yuu Kanda
As experiências não eram a parte mais difícil.
Quando furavam com agulhas da finura de um pilar em nossos braços, exploravam o interior dos ossos por horas a vir, arrancavam dentes com o que achavam por perto e então costuravam tudo que tiravam de volta no lugar -ou o mais perto que conseguiam. Os gritos que perduravam sob as gargantas abertas e suturadas -repetidas vezes. Debaixo das vozes sussurrantes e do cheiro de morte que descia as lâmpadas falhas. O propósito não era a dor, mas se nem ela podia nos matar, isso significava progresso.
E progresso...era o que nos matava.
Mas, não, as experiências não eram a parte mais difícil, por mais que pareçam.
A parte mais difícil era a hora de dormir.
Eu parecia uma criança, andava como uma criança, falava como uma criança, mas não era uma criança. Se havia algum pedaço de infantilidade naquela vida –nessa vida, que seja – não era para existir. Que criança substitui tardes de escola por tardes de mutilação? Lápis por facas? Ingenuidade por sangue?
Sua mente sã por um cérebro morto?
A Ordem pode ser uma merda, mas ela bem sabe criar seus assassinos.
Opa, exorcistas.
À noite era quando eles nos largavam, tiravam as agulhas de debaixo de nossa pele, recolocavam os membros nos lugares deles, davam as costas e, apesar da vontade constante de meter o punho e quebrar algumas vértebras bem importantes debaixo dos aventais, era hora de dormir e ninguém tinha energia para isso.
O idiota do Alma muitas vezes tinha que arranjar alguém para niná-lo até calar a maldita boca e apagar. Depois da décima sétima vez em que o joguei pela janela –sem abri-la- os cientistas acharam que era uma boa ideia que nós não ficássemos no mesmo quarto, o que acabou em eu tendo que passar parte da noite ouvindo o choro escandoloso atrás da parede em que se apoiava minha cama.
Eu, por outro lado, não tinha histórias de ninar, nem carinhos na cabeça –pelo menos não desde que mordi a mão da mulher até o primeiro osso que eu sentisse. Eu não era como Alma. E não queria dormir.
Minhas noites eram passadas de olhos abertos se tivesse sorte.
Se fosse azarado e precisasse de descanso para colar de volta os membros caídos, eu dormia.
E aqueles eram os piores momentos. Porque se eu ficasse acordado até o sol subir de volta, era uma tortura. E se eu fechasse os olhos, era o inferno.
Não havia dormir, havia morte temporária.
Por vezes, vozes de gritos e sussurros inacabados, terminando pela metade frases de tortura. Fogo, um calor que se impregnava na pele e a arrastava da carne. Ferro rugindo pelas paredes de corredores sem curvas nem saídas. Prisões da largura de chaminés que comprimiam o coração até que ele se esmagasse. Olhos furados pelas facas que mãos sem corpo carregavam.
Sim, esses eram os sonhos. Preciso falar sobre os pesadelos?
Eles eram emocionais. Meus olhos num campo de flores, sozinho no mato enorme, cheirando a lágrimas e sangue de moribundo, fazendo nada mais que olhar para o céu e sentir o peito comprimido com ar e sangue que se acumulava das feridas. As nuvens faziam formas e eram tão poucas no céu limpo, como se fossem parte de um projeto inacabado. E o sol, não escaldante nem triste, mas apenas lá, forte, e pareciam-me fios dourados de cabelo. E o coração doía demais.Havia vozes ao redor, mas eu não podia ligar. Vozes más como máquinas. Não podia me mexer. O vento batia frio e corpo tremia como uma convulsão. Meu corpo. O corpo dele.
Eu falava. Sussurros de poucas palavras, de quem sabe que vai apagar e não se preocupa em ser ouvido. Eu nunca descobri o que eu falava, mas sabia que era a mesma coisa sempre assim como a sequência de acontecimentos.
E eu apenas...morria.
Para acordar longe de tudo aquilo, no inferno do que era concreto.
O pesadelo inteiro. Até eu morrer. A dor repugnante que se instalava no corpo, se as lágrimas que vinham com o acordar serviam de prova, não passava de sentimento. Tristeza. Nostalgia. Arrependimento. Raiva.
E corrompiam o ser que morria sob os fios dourados e quentes demais. E o matavam.
Eu já sabia que era besteira que os cardeais nos falavam de servir a Deus significar chegar ao paraíso. Não havia como criaturas letais serem perdoadas pela sua existência.
Então, nós, exorcistas, somos condenados ao inferno.
Para alguns mais cedo que outros.
E, para mim, estava lá desde que “nasci”.
–X-
oOo
–X-
Eu poderia ser gentil.
Eu poderia fazer como o moyashi faz e sorrir até a caixa fazer o mesmo, desejar uma boa noite e um bom fim de semana e mais “bons” que não tinham significado nem chance de acontecer. Mas ela diminuiria o preço? Ela me daria algo útil?
A resposta é não. Então para que me forçar a ser gentil?
Pura inutilidade feita de piedade.
Então, não. Eu não iria me sujeitar a uma idiótica inútil pelo bem de uma mulher que não consegue disfarçar as fracas e pobres tentativas de encontrar em um supermercado um homem muito patético que deve melhorar sua vida miserável.
Dica: você não vai.
Então pare de tentar.
–E tem um café aqui perto que é bem conhecido para os casais da cidade–ela disse, fazendo de conta que havia espaço no uniforme apertado para apelar para a sensualidade. Quem fazia aquele modelo de camiseta com certeza não sabia a diferença entre roupa e segunda pele. Ou pele em geral. E pulmões.
Alguém deveria ensinar anatomia às pessoas que faziam essas camisetas.
Urgentemente.
–Hm- respondi, sem desviar o olhar das poucas notas que tinha no bolso. Tsc. Komui não se preocupava em dar dinheiro aos seus funcionários tanto quanto se preocupava em fazer alguma coisa que tivesse a ver com seu trabalho. E o meu trabalho.
Joguei o dinheiro antes que ela pudesse anunciar o preço- ou quem sabe sugerir outro lugar para jantar- e prendi a sacola pequena nos dedos. Se eu passasse mais um minuto enfurnado naquela interação, uma cabeça iria rolar. Literalmente.
A mugen estava mesmo em pouco uso.
Tsc.
Uma espada inutilizada, uma noite quente, um músico de rua escandaloso e desafinado, uma caixa de supermercado insistente, um bolo de notas gastas, um dia sem pistas, ideias inconclusivas e um moyashi depressivo.
Essa missão estava uma beleza.
No sentido de que, não, não estava. Essa missão estava uma merda.
Se o Usagi não gostasse de sumir nas missões, isso estaria muito pior.
Nível nuclear de pior.
É bom que o Komui comece a me pagar um salário para isso. Porque isso já deixou de ser um simples trabalho de exorcista para virar hora extra de enfermeiro e psicólogo.
E a tendência nessa vida é só piorar.
Tsc.
Livrei-me do sobretudo, porque se havia algum motivo para ter paciência naquele dia, não era para aguentar o calor infernal que fazia à noite. Um morador de rua se apossou do tecido, sem imaginar –mas também por que o preocuparia?- o tanto de manchas naquilo que eram feitas de sangue.
Não havia nem ao menos uma brisa para aliviar os braços descobertos e os carros irritantes completavam com buzinas impacientes de estourar os tímpanos. E a minha paciência.
Se eu cortei ou não cortei alguns espelhos deles enquanto passava, isso não te interessa.
Minha vida não te interessa. Ela não interessa nem a mim.
A vida do moyashi, por outro lado...É do interesse de todo mundo.
Não só porque ele é esquisito até não poder mais. Quem tem cabelo branco a uma idade tão nova? E tem quinze tipos de emoção passando no rosto ao mesmo tempo? E fica te encarando com o rosto de quem acha que está sendo discreto? E consegue fazer a vida ficar pior a cada segundo?
Moyashi Walker, esse é o quem faz isso.
Porém não é só o fato de ele ser extremamente estranho (apesar de ser um detalhe impossível de ignorar), mas talvez o fato de que ele esteja logo ao meu lado na competição de quem tem a pior vida do mundo. E eu estou bem adiantado nesse quesito.
Viajante de realidades. Tsc. Coloque fé nessa teoria que você acaba ferrando o universo. Com você dentro dele.
Viram só, cardeais? Olhem bem para o que a fé criou.
Quer dizer, além de mim e outros monstros, claro.
A diferença é que os outros monstros estão cuidando de sua própria vida, não saindo no meio da noite para comprar comida e aspirinas para o estorvo na cama ao lado que esqueceu como se faz para andar.
Ele podia muito bem desaprender a respirar. Aceleraria muitas coisas.
O golem da Ordem escorregou do bolso sem colocar o mendigo em pânico e colou-se ao meu passo. Foi quando lembrei de que existia contato e que Komui estava parado naquela sala fingindo ler papéis e organizar suas gavetas enquanto o Moyashi tinha acabado de sair de um engasgo em muco e lágrimas –uma nojeira total que ficaria colada ao travesseiro...não é problema meu- por causa de uma ideia adiantada que os dois tiraram de umas poucas palavras.
O principal problema aqui não era o garoto –apesar de ser- mas a questão principal: se o que o Conde tem não é o pai dele, então o que ele tem?
E, assim, voltamos à estaca inicial.
O que quer dizer que... tudo que pensávamos até agora? Deve ser descartado.
Tsc. Acho que “ótimo” não é suficiente para explicar a situação. Não importa o quanto de sarcasmo eu consiga enfiar nessa palavra de merda. E, só para te situar, eu consigo colocar um bom peso de sarcasmo em qualquer coisa.
Como: uau, a vida é linda. Fácil. Ela é a melhor coisa do mundo...
Ignorei o golem que se sincronizava aos meus passos rápidos, batendo as asas no ritmo irritante que me lembrava de que eu tinha que cumprir meus esforços e seguir em frente. Eu já estava para ouvir uma voz irritante o bastante, não precisava de um coro para finalizar o processo de estourar minha paciência.
E em dias tranquilos ela já está por um fio.
Não me importei com a porta do hotel quando a abri com um chute. O recepcionista adormecido não pareceu se importar muito mais, então aproveitei e furtei uma das chaves atrás do balcão –ele não iria sentir falta...e mesmo se sentisse, não seria problema meu.
Tarde da noite, as chaves tilintavam como se estivessem gritando por socorro das minhas mãos. Entraria no quarto, deixaria a sacola cheia de comida com o moyashi e usaria dessas chaves para descansar em outro. De preferência um no fim do corredor em que eu não pudesse ouvir as lamentações dele. Aposto que eram muitas. Ele gostava de falar e agora que realmente tinha algo para dizer, aposto que desandaria em balbuciar qualquer coisa.
E eu lá tenho cara de Lenalee para ficar ouvindo?
Por isso, estranhei que enquanto me aproximasse não ouvisse nada além de um alarme de carro acionado –e um barulho suspeito vindo do quarto do casal no fim do corredor. Nada de choros nem lamentos.
Ou as paredes tinham uma boa cobertura anti-som –e o casal no fim do corredor estava tendo uma noite intensa- ou de fato o moyashi tinha morrido desidratado de tantas lágrimas.
Então ou eu tinha um quarto ótimo para dormir ou um corpo para queimar hoje.
Com isso em mente, lógico que quando eu abri a porta, preparado para fazer uma fogueira emocionante, e encontrei uma cabeleira branca espiando debaixo de um lençol fino, lembrei-me de que as coisas geralmente não acontecem do jeito que nós pensamos.
Tipo, sei lá, não ter sobá no jantar, ir numa missão com um albino e perceber a meio caminho que ele veio de outro mundo, descobrir que Komui criou mais uma vez um robô assassino, seu companheiro matar todos aqueles que te criaram...
Como eu disse: uau, a vida é linda.
Ela só é um saco. E às vezes ela finge que está te dando o que quer para dar as costas e te dar um coice. Bem, isso aos outros. Eu dei as costas para ela primeiro.
Rá. Se vira aí, vida.
Infelizmente, ela se provou ainda mais esperta assim que pisei dentro do quarto. De primeira, qualquer um esperaria um quarto vazio. As luzes apagadas e o barulho de nada fariam por si só uma análise. Porém, fraca. Quem conhece o vazio sabe quando está na presença dele e aquele quarto estava tudo, morto, barato, sujo –e as manchas suspeitas que o digam- mas vazio ele não estava.
Por isso, despontava aquele tufo branco do lençol, não se moveu uma vez mesmo que a porta velha rangesse como os estúpidos da Divisão de Ciências depois de três dias acesos fazendo coisas que não importam nem funcionam –já vi o Usagi expor sua teoria de que todos eles não passavam de criações de ferro do Komui e foi até bem convincente.
Larguei a chave do quarto, e não aquela que havia furtado, sobre o criado mudo com o grande cuidado de fazer barulho.
Não se mexeu.
Assumi o pior, claro, e joguei-lhe a sacola, que terminou com o estalo plástico e metálico das latas de refrigerante. O golem se assustou com o movimento e foi parar desligado em algum canto.
–A comida está aí- e acreditei que somente esse feito sufocante já estaria me livrando dever de suportar aquele ambiente. Minha parte já estava mais que cumprida- se divirta aí no quarto. Nem pense em me procurar. Se tiver algum problema, engula e vá dormir. Passo aqui amanhã de manhã.
Esperei dois ou três segundos para uma resposta, tempo gasto suficiente para algo que não veio. O monte continuava inerte debaixo do lençol que apesar da forma reconhecível, não parecia vivo.
Lenalee era de dar lições de moral, desde que larguei o finder debaixo das pedras no soterramento. E ele viveu no final, tudo ficou certo. Porém é desses momentos que tiro a verdade de que a missão não pede para salvar, pede para matar.
Eu poderia fazer como ela, sentar e falar umas palavras confortantes para ele. Abrir um pacote de comida, dividir e dar conselhos lá fora, na varanda. Falar que tudo ia ficar bem e que as coisas são passageiras. Abraçar como se calor humano fosse algo milagroso para qualquer um. Que nós não fomos feitos para tristezas e que a vida era mais que isso, um mundo de possibilidades. E que o tempo cura todas as feridas, ainda que não estejam na pele.
No entanto, importam quantas são as frases de efeito que eu poderia encaixar em um discurso?
O pai dele estava morto. Ele estava preso num mundo à beira do apocalipse sem ideia do que tinha que fazer. Ele estava sozinho em uma realidade diferente cheia de monstros assassinos com um fardo enorme na mão –esquerda, para ser mais específico.
Porra, ele está morrendo. Isso depois de morrer uma vez.
Fale agora que o tempo pode curar isso. Quem será o primeiro a falar isso?
Tempo não cura porra nenhuma. Ou todos estariam felizes.
E eu seria o homem mais perdoado do universo.
Os grandes chefes da Ordem Negra, então, grandes santos e benfeitores.
Decidi esperar mais oito ou dez segundos por uma resposta. Que não veio. No entanto, dedos temerosos cavaram sua passagem fora do casulo e procuraram cegamente a sacola que estava nas costas, sem sucesso.
Tsc. Obviamente que o moyashi não conseguiria nada. Ele nunca consegue sozinho, chega a ser uma mania irritante.
Bufei — não calmamente, porque isso não é um aspecto meu se você ainda não percebeu- apertei as chaves do outro quarto no punho e estiquei a mão restante. Puxei a sacola para perto dos seus dedos cegos e ele agarrou o plástico como se o material estivesse vivo e fugaz. Foi o mais próximo de uma reação rápida que já o vi fazer desde que ele apareceu na minha vida. E olhe que ele lutou (ou tentou, vamos ser sinceros) com um akuma na primeira missão.
Ouvi o barulho de plástico sendo remexido debaixo do lençol e um barulho quebrado de comida sendo mastigada. O Moyashi tinha encontrado o pacote de biscoitos.
Ok. Missão cumprida.
–Então...- por algum motivo, eu ainda achei que devia dar algum tipo de aviso para ele- eu vou nessa.
Confirmei as chaves, ferro já morno nos meus dedos, e fechei meu caminho para a porta. Na minha mente.
Agora já estava feito e o plano traçado. Eu deveria fazer como faria com qualquer outro empecilho –opa, quero dizer, companheiro de missão. Sem nenhum desvio. Fazer como com qualquer outro. Separar a minha vida do outro, porque elas são coisas separadas e para mim tem diferentes pesos e importâncias. No caso, a minha tem pouca e a do outro...nenhuma.
Não havia motivo nem causa para fazer outra coisa. Deixá-lo cuidar de seus próprios problemas, como deveria. Era como eu faria com Lenalee. Era como eu faria com Komui e definitivamente com o Usagi.
Não havia garantia para nada e nunca houve. Cuidar do outro, ralar um consolo preparado.
Era coisa que o Alma faria.
E, tinha um motivo para ele estar morto e eu vivo. Bem, quase vivo.
Então, a surpresa foi que, sob o barulho irritante das bolachas sendo mastigadas e dos membros finos se movendo debaixo do lençol, eu olhei para a porta, a uma mão de distância agora, e ousei olhar para trás.
O Moyashi fungou alto.
Era como se um demônio sussurrante estivesse me obrigando a fazer o contrário. Um demônio chamado Alma.
Bem, talvez uma boa ação me fizesse o bem que preciso para poder ter um tempo de descanso na eternidade.
É bom que a merda do Karma exista.
Suspirei, pensando em um arco-íris de sangue jorrando de Komui para poder ficar calmo, e joguei a chave , morna, no criado-mudo. Ele deveria ter pensado que eu realmente havia saído, porque estremeceu e parou de se mexer no monte de lençóis.
Eu tinha a leve impressão de que ele só estava chorando porque achava que eu tinha saído. E, por motivo ou outro, o pensamento não me deixou melhor como eu achava que faria.
–Kanda...?- ele jogou a voz no escuro, claramente não imaginando que receberia resposta. Que eu teria saído, com certeza, e ele estaria largado para se recuperar até amanhã de manhã. Eu me senti um pouco desafiado pela desconfiança.
Mesmo que, tecnicamente, essa ideia teria sido a mais real. Tecnicamente.
–Estou aqui- a minha voz saiu muito mais afável do que pensava. Como se, de verdade, eu estivesse ali com o conforto em mãos e as melhores intenções na cabeça.
Vi as mãos saírem do lençol e depois a cabeça. Era a primeira vez que eu o via há horas e a primeira coisa que apareceu na minha mente quando ele surgiu foi que, debaixo da luz da lua, o cabelo ficava mais branco. Parecia o lençol. O rosto também pareceria-porque quem diria que esse garoto não parecia um rolo de papel higiênico ambulante?- mas estava vermelho e inchado, manchado de água salgada e migalhas de comida.
Ele estava uma bagunça e eu achei que deveria ficar um pouco preocupado por me identificar com ele naquele momento tanto quanto nos outros.
Foi o momento mais esquisito pelo qual me fizeram passar. Eu encostado na mesa, ele meio deitado, e a gente se encarando como se algo útil fosse simplesmente se materializar na metade do caminho.
Ele fungou.
–Você não ia ficar no outro quarto?- ele perguntou, quase como se estivesse guardando um segredo.
Dei de ombros, porque, é, acho que isso resumia tudo.
–O casal no fim do corredor faz muito barulho. Eu não conseguiria dormir.
Ele concordou com a cabeça, apenas um sinal de que havia ouvido. Fungou de novo.
Taquei-lhe um rolo de papel higiênico que ficava no criado-mudo.
Ele pegou com uma cabeçada.
E a ação voltou a morrer. Com uma fungada.
Desloquei o peso de um pé para outro, sentindo-os cansados de tanto esperar para sentar. Apenas esse movimento fez um barulho extremo de tilintar de bainha, zíperes, botões que só pôde preencher o silêncio por míseros segundos. E aquilo foi o máximo de som que apareceu.
O Moyashi respirou fundo, como se estivesse acordando subitamente de algum sonho.
–Meu pai morreu, Kanda.
Ok. Eu não estava esperando ouvir aquilo tão cedo.
Se ele tivesse descido um tom a mais para falar, as palavras teriam passado batidas por qualquer um. Porém, com aquela voz morta, eu estaria atento de qualquer modo. Eu reconhecia aquela podridão e lembraria em qualquer lugar.
Não foi o conteúdo em si que me deu calafrios –não era uma notícia nova- mas a sonoridade frágil, que me lembrava terrivelmente neblina. Em salas com buracos no chão. Passos de fantasmas. Fios loiros. Sangue.
Acenei com a cabeça afirmativamente, assim como ele fizera antes. Apenas para ele perceber que, sim, duas pessoas podem jogar um jogo com as mesmas jogadas. E, também, que eu havia entendido.
Para falar a verdade, eu havia. Eram palavras poucas e de fácil assimilação, mas que na Ordem podiam significar o mundo desabando ou mais uma ocorrência cotidiana. Para mim, há anos, não passa de dia-a-dia, como um atraso no trânsito ou uma missão-relâmpago. E, vendo como os olhos dele, sem chorar, ficavam tristes naturalmente em qualquer hora do dia, mas agora tinham um desânimo agoniado e assustado de qualquer choque com a realidade –outra realidade, pior que seus piores vilões- eu me lembrava fielmente de quando o mundo desabou.
Uma das vezes. A última.
Era uma sensação fácil de assimilar para quem já sentiu.
O Moyashi observava de olhos vidrados o nada acontecer. Eu nunca tinha visto aquele olhar nele e, por aquele momento, eu até me preocupei.
Se ele resolvesse fazer alguma loucura, quem seria arrastado para dentro dela seria nada mais nada menos que eu, quem teria que limpar a bagunça.
Porém, e eu me preocupei ainda mais, eu não liguei para qualquer bagunça que eu teria que limpar. Parecia que, qualquer que fosse esse caminho, seria melhor que o que aconteceria.
Ele me lembrava muita coisa.
E com essas coisas eu não podia errar novamente. Erros são exatamente o que eles, os todo-poderosos, mais gostam. Quando você erra, você é um alvo justificado. Nem eu nem o Moyashi tínhamos esse luxo de errar. Nada que eu faço pode ficar a favor deles.
Não são eles que tem que ganhar no final. E muito menos eu.
Antes que eu pudesse acompanhar o meu raciocínio, eu senti o cheiro de suor e algo doce e percebi que estava sentado na cama, ao lado dele. Isso explicava o repentino alívio nos joelhos, mas não explicava o porquê.
Tsc. Se eu ligasse para razões, talvez estivesse mais preocupado.
Ele olhou para mim com aqueles olhos gigantes que eu tanto odiava e por aquele momento eu decidi não odiar. Eles pareciam desesperados, como se finalmente tivessem entendido a situação.
Eu só...continuei olhando para ele.
–Kanda... Não é só ele- o Moyashi sussurrou, mas me parecia sem querer, como se na realidade ele não conseguisse falar mais forte do que aquilo- Todas essas pessoas. Todo mundo que por alguma razão morreu nesse mundo, todo o mal, os planos do Conde... é tudo minha culpa.
Seus joelhos se encolheram entre o lençol e não estava frio.
–Todo mundo- ele repetiu com mais força- as pessoas da vila, as pessoas na Ordem, meu pai- sua voz rachou ao falar a palavra, mas eu relevei por simples educação- Se eu não tivesse feito um desejo idiota ao morrer, nada disso teria acontecido.
Eu me surpreendi por ele falar sobre isso, porque se havia algo que eu havia notado sobre o Moyashi era que ele nunca falava sobre a morte dele ou qualquer coisa sobre a outra vida. Era uma coisa sobre a qual eu também não falava, então eu não ligava muito.
Ele se encolheu até abraçar os joelhos e eu me desesperei por ser tão familiar àquela posição.
–Ninguém estaria morto se eu fosse bom e corajoso e tivesse morrido ao invés de fazer uma escolha egoísta.
Ao ele se minimizar a apenas um tufo de cabelo branco visível, encharcado em suor –e quem sabe lágrimas, eu não sei o quanto ele era capaz de chorar, afinal- eu pensei no quanto ele era como eu. Coitado.
Preso em um mundo no qual ele nunca deveria ter nascido, uma pós-morte, que não tem ninguém além da busca falha por uma pessoa da qual tem poucas lembranças.
E, por algum motivo misterioso –eu os estava tendo muito hoje, a propósito- tudo isso significou algo para mim.
Eu suspirei. Aquilo não tinha cura, porém tinha costume.
–Tsc- esfreguei as mãos no rosto, porque de certa forma aquilo parecia algo importante.
O Moyashi levantou os olhos de volta e eu não me surpreendi por encontrá-los vermelhos. Mas talvez tenha parado um pouco pela sensação funda que bateu no estômago.
Talvez seja hora de aceitar uma bolacha.
Peguei uma do pacote aberto e ele me observou comer e mastigar como se eu não estivesse observando-o fixado nos movimentos da minha boca. E, grande problema, aquilo não me incomodou nem um pouco.
Quando ele resolveu parar de olhar, as palavras tropeçaram para fora.
–A Ordem está perdendo a guerra- eu comecei, vendo a cortina da varanda vibrar como se estivesse assustada, pensei em como o corpo humano age nas situações de perigo e sob ameaça- Temos meia dúzia de exorcistas que estão morrendo contra um exército de milhões de demônios do capeta de cartola. Tsc. É óbvio que é uma guerra perdida.
O Moyashi fungou e limpou as lágrimas, claramente atento demais a história para pensar em chorar.
–Mas os que se acham chefes da organização não aceitam isso. Foi por isso que eles criaram o Projeto Segundo Exorcistas- vi-o franzir as sobrancelhas e achei estranho o modo como ele ficava quando tinha essa expressão. Acho que apenas eu consigo usar bem essa expressão- Eu não sou um Exorcista. Assim como você não era para ser. Nós dois não somos o que éramos para ser.
Ele se ajustou e claramente estava tenso ao tomar coragem para se aproximar de mim. Sua mão veio parar no meu braço e eu não fiz nada para pará-lo.
–O que quer dizer ser um Segundo Exorcista?- ele perguntou, hesitante, mas curioso. Os traços estavam secando no rosto e retava apenas a vermelhidão e inchaço.
–Quer dizer que se cérebro não é seu- eu respondi, não me preocupando no quão aberto aquilo parecia- Quer dizer que para não passar pelo problema de procurar outros exorcistas no mundo, eles implantam o cérebro de um já morto para forçar você a sincronizar com uma innocence. Quer dizer que você nasce de um buraco fundo no chão se tiver sorte e é mutilado até o limite pelos cientistas. E depois se recupera. Quer dizer que você não é livre.
E então você enlouquece. E mata a todos pela liberdade. E é morto em seguida.
–Forçar uma innocence- o Moyashi disse e eu nem pensei em atrapalhá-lo agora que estava falando sem preocupação- é algo doloroso. É algo mortal.
Eu ri um pouco, o que pareceu assustá-lo.
–Não quando você não pode morrer-expliquei- mas dói. Muito. Eu e... eu nunca saía de uma sessão com todos os membros grudados no corpo.
Ele fez um rosto dolorido e eu percebi que até era bom. Falar essas coisas em voz alta.
–O que eu quero dizer- retomei o caminho- é que...você não é o mal no mundo. Se você veio a esse mundo ou se você criou tanto faz. Você faz com intenções reais e boas. Não é à toa que você...hã...assumiu o papel da protagonista da sua revista ou sei lá o que você lia.
–Era um mangá- ele murmurou- mas...obrigado. Por falar, isto é. Eu...meu pai era tudo para mim, Kanda. Eu não tinha ninguém e eu sabia que ia morrer e me odiava por isso, porque eu sabia que isso ia afetar meu pai mais do que ninguém. Às vezes, eu desejava acabar logo para livrá-lo do fardo, mas...você me ouviu quando falei da viagem que fizemos. Ele não podia ser o pai que perdeu tudo, ele merecia tudo. E eu, egoísta, tirei tudo dele. Até a chance de viver. Eu... estava matando meu pai pouco a pouco naquele mundo e nesse eu o matei.
–Você não colocou as mãos nele, você nem chegou a vê-lo. Você não pode ter assassinado seu pai sem realmente ter feito isso.
–Mas eu movi as peças a meu favor e ele acabou pagando.
–É o Universo equilibrando as coisas. Você não controla o Universo, tsc.
Ele deu uma risada fraca de quem acha engraçado não ter graça.
–Eu fiz tudo pensando nele e não serviu para nada. Agora esse mundo perdeu totalmente a graça.
–Se é que ele tinha uma para começar...
–O que eu faço agora?
Senti uma má tendência. Como falar que tudo seria em vão? Normalmente, eu teria dito sem pudores...
–Nada- disse, ao invés- não há o que fazer. O que aconteceu aconteceu. Não importa quantos mundos você pule ou o quanto você reclame. O sofrimento é universal –não importa quantas vezes eu ou ele morramos. Sofrer é algo natural, como a dor que sentimos ao enfiar a mão no fogo para aprender a não colocar sua mão no fogo.
É para aprender a não se apegar. Ou a suportar depois as consequências do que sente. São as regras do jogo, não tem saída nem trapaça.
Não é necessariamente algo ruim.
Comigo não é assim, mas com humanos normais, o tempo converte a dor em lembrança. Ou então dizem. O tempo não cura, porque o passado não é doença, apenas transforma.
Isso o Moyashi tem que experimentar. Mais do que a culpa inútil que não vai levá-lo a lugar nenhum.
O mundo não é a merda de um tribunal. Mesmo se fosse, imagine a corrupção dos vereditos. Ninguém precisa ser punido se não precisa, muito menos por eles mesmos.
Os olhos começaram a molhar de novo e eu deixei. Ele afundou as mãos neles e depois os joelhos. E, sem perceber, sua cabeça estava molhando o meu ombro.
Eu demorei a perceber, porque estava muito ocupado pensando em quanto aquilo fazia sentido. Pela primeira vez, minha vida estava fazendo sentido.
Ao ver o garoto estraçalhado encolhido no lençol, não podia deixar de pensar em como era antes. No garoto do quarto ao lado chorando até ser colocado para dormir, no garoto sujo de sangue alheio e olhos cheios de lágrimas tingidas de vermelho pisando nos corpos, no céu azul e o sentimento de rosto molhado naquele campo quente do sonho...
Ninguém merecia sofrer por esse mundo idiota. Muito menos ele.
Se eu não posso morrer até encontrar aquela pessoa, ele não pode até encontrar o que deseja.
Foda-se o Komui. Melhor, foda-se a Ordem.
Minha missão, e essa eu mesmo coloco sobre mim, é manter a segurança do garoto. Para que nenhum deles vençam. É o Moyashi que vai poder mudar tudo. Talvez ele saiba o que eu preciso saber e dê significado a essa vida.
Ele pode acabar com a Ordem. Ele pode acabar com tudo.
Senti o que senti e não liguei para a vontade de devolver o toque. Tanto que eu o fiz e nem questionei. Ele ficou afundado no meu corpo, babando na minha camisa e tremendo irreparavelmente até que todo o líquido drenasse do corpo fino e restasse apenas as tremedeiras. Minha mão livre passeava pelas costas numa tentativa claramente falha e sem prática de amenizar.
Era, apesar de tudo, uma posição confortável.
Alma era quem gostava de calor humano, eu nunca gostei do modo como a pele alheia fica junto da sua, como se fosse algo normal e não perigoso se preocupar. Não acho que ele teria o mesmo gosto por toque depois de tudo. Afinal, tudo o que recebemos de toque foram pura maldade e dor.
–Sério?- a voz soluçada e presa na garganta perguntou. Senti mais que ouvi, pois a boca do Moyashi estava grudada na minha pele. Percebi que havia murmurado em voz alta e nem pensei no que isso poderia significar.
–É- respondi- Alma era um otário. Sempre achava que tudo ia ficar ótimo e que a vida era incrível. Às vezes eu penso em como foi bom ele não ter vivido para perceber o quanto ela piorou.
Falei, antes que pudesse me parar. Era compulsório. O Moyashi estava arrancando coisas de mim que não deveria. E eu...me sentia bem.
Em qualquer outro momento, eu nunca teria falado. E se a outra pessoa comentasse, eu a retaliaria sem dó, mas naquele momento eu não me senti menos do que melhor.
–Havia uns garotos- ele começou a falar e eu voltei à realidade- no meu outro mundo. Eu os chamava de Três Porquinhos.
Eu funguei comicamente. Eu já podia imaginar ao garotos.
–Parece que não eram muito legais...
–Eram terríveis- ele concluiu, quase um riso- e pareciam mortadelas. E eles me odiavam. Como todas as outras pessoas, na realidade. Eles só...eram melhores em demonstrar isso.
Ele tirou os dedos trêmulos do lençol e percorreu o dedo sob a cicatriz do olho esquerdo.
–Foi com eles que eu consegui isso- ele explicou e depois riu- era de se pensar que com tudo que eu passei naquela vida, eu seria mais forte aqui- eu pensei que ele iria chorar de novo e me surpreendi quando ele apenas abaixou a cabeça, entristecido- mas eu não sou.
–Ninguém é forte o bastante- eu disse- mas isso não quer dizer que ninguém é o bastante.
Para minha surpresa, ele sorriu. Em qualquer outro momento, eu ficaria irritado, mas eu senti como se uma missão houvesse sido cumprida.
–Eu realmente espero que eu seja.
“Se você não fosse, eu não estaria aqui”, quase disse, mas dessa vez consegui conter. Ao invés disso, voltei um assunto.
–E esses porcos parecem imbecis.
Ele riu e era como se estivesse esquecido o motivo pelo qual estava chorando antes. Porém, por experiência, era óbvio que não tinha.
–Eu não sei sobre isso. Mas eles realmente faziam jus ao apelido que dei a eles- ele ponderou sobre algo- eu fiquei muito feliz por me livrar deles, mas agora só penso em como... eles parecem tão pequenos comparados ao que me meti.
–É de se esperar que tudo parecesse mais inofensivo que máquinas-demônios movidos a almas que pulverizam as vítimas.
–É, mas... naquele mundo, eu não tinha ninguém na escola, na rua, na biblioteca... Mas tinha meu pai. Aqui... nem ele eu tenho mais e agora não tenho mais objetivo para continuar fingindo que eu tenho utilidade. Minha única utilidade sempre foi estar vivo pelo bem do meu pai, a propósito nem isso eu fazia direito considerando como terminou. Agora eu estou sozinho.
Minhas costas estavam doendo, então me espreguicei e deitei na cama bagunçada com os braços cruzados atrás da cabeça. Vi o Moyashi ir de humano a sombra e mudei o olhar para o teto, onde as luzes dos carros de fora achavam que tinham algum domínio.
Fechei os olhos, ouvindo apenas o som das sirenes ao longe.
–Se você ficar procurando por utilidades, vai passar sua vida inteira apenas nisso- eu disse, bocejando- ninguém tem uma grande utilidade. É inutilidade procurar o que é útil. Só fazemos o que nos serve e isso é o que dá. Ninguém precisa ser útil, mas somos. De uma forma ou outra- seja vendendo bebidas no supermercado ou servindo de marionete na Ordem Negra.
–E quanto a estar sozinho- completei, lembrando do que Alma costumava dizer incansavelmente sobre sermos amigos e blablabla. Se o Moyashi era tão parecido com ele, talvez o acalmasse saber que- ninguém precisa estar.
Abri um único olho, curioso por causa da falta de respostas.
Ele me olhou com olhos grandes que não estavam encharcados de lágrimas ou coisas nojentas. Como se eu estivesse falando algo importante,entregando o segredo do Universo –que ele provavelmente sabia debaixo daquelas memórias esquecidas. Ou como se eu tivesse crescido uma segunda cabeça, o que seria muito útil.
–Eu estou cansado- respondi antes que ele pudesse, mesmo que não parecesse que ele iria responder qualquer coisa- vá dormir ou pelo menos deitar.
–Você está na minha cama- ele acrescentou.
–Caso você não tenha notado, há duas camas.
Não ouvi nada, apenas os lençóis escorregando da cama e passos apressados no chão. Imaginei aqueles pés finos tropeçando para chegar ao outro lado. E então a cama afundando com um rangido almofadado.
Depois de alguns minutos ele falou:
–Pensei que fosse dormir em outro quarto.
Eu estava a um fio do sono, mas respondi.
–Está ocupado.
–Você disse que era por causa do barulho do casal no fim do corredor.
–Não faça perguntas que já conhece, então.
A falta de respostas me fez pensar que talvez estivesse dormindo. Como não ouvi a respiração profunda, resolvi abrir um olho para espiar caso ele houvesse de alguma forma morrido nesse meio tempo.
Encontrei-o virado para mim, os olhos abertos inspecionando.
–Você me odeia?
Fechei os olhos, sentindo o sono consumir minha mente e meus olhos ficarem cansados. Pelo menos minhas costas e pés estavam aliviados graças ao poder de regeneração rápida.
Infelizmente, esse poder demandava um descanso enorme.
–Por invadir o meu mundo, mentir para mim, me obrigar a me submeter a mais uma missão idiota, saber coisas sobre o futuro e o passado das pessoas e o rumo desse mundo?- a cama ao lado se mexeu, mas eu apenas ouvi- Não.
Nada de respostas. Espiei de novo, juntando a energia restante para abrir um olho.
Ele estava sorrindo direto para cá. O que ficava muito engraçado debaixo de um rosto inchado.
Fechei os olhos e mudei de posição para ficar de costas para ele.
–Mas eu vou te odiar se você não me deixar dormir agora. Ainda temos que acordar amanhã, caso tenha esquecido. Esse tempo aqui obviamente não te ensinou nada. Tsc.
Ouvi os lençóis ao lado se remexerem e uma respiração longa.
–Boa noite, Kanda.
–Vá dormir.
E ele foi.
É. As experiências eram as coisas mais importantes.
Eu dormi e, dessa vez, não sonhei com nada.
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