Notas iniciais
Yey!! Peço mil desculpas por demorar um pouco mais que o acostumado!!! Já aviso: Não consegui escrever o capítulo! Aviso de novo: NÃO CONSEGUI ESCREVER O CAPÍTULO!!! Esse aqui que estou postando é uma parte dele, nem revisada e muito menos terminada (ou seja, mais coisas iam acontecer, mas não consegui escrever). Creio que essa será a última semana totalmente cheia que terei e ainda há um feriado daqui a pouco em que aproveitarei para escrever e escrever...Não consegui escrever nadica de nada essa semana, nem nesse cap. Peço perdão por isso, mas posto agora o que tenho hahaha O negócio é que...eu meio que fui aceita para participar do fórum FAAP no comitê de imprensa ( e estou super hiper feliz com isso) , o que quer dizer que terei que engolir um dicionário e uma gramática esses dias e estarei um pouco ocupada haha peço que entendam, não pararei de postar, mas pode ser que pule algumas datas ou atrase... como no caso desse cap. Só postei essa parte incompleta para avisar vocês :)) Hm... boa leitura!! o

Se eu não estivesse com Kanda ao lado, nunca teria conseguido chegar ao casebre. O fato de ter alguém forte e disposto ao meu lado contribuiu para a minha segurança interna.

Eu não conseguia andar direito sem ficar olhando para os lados na rua deserta e quieta na qual nem as luzes acesas das casas me faziam se sentir bem. Os sons de grilos na grama e dos meus pés e dos de Kanda esmagando pedrinhas no chão não conseguiam completar o silêncio o bastante para me fazer menos apavorado.

Eu vejo e adoro muitos filmes de terror. Um vício mais prejudicial do que cigarro.

Fiquei esperando que um lobisomem ou algo do tipo saltasse para cima de mim. A lua cheia me dava essa expectativa.

Eu já mencionei que tenho medo do escuro? Bem, para todas as formas, estou afirmando agora.

Tenho medo do escuro.

Do que ele esconde e do que ele traz. Quando as sombras mexem-se e rangem ao meu lado, mudando de forma e movendo-se sem dar rastros.

Do canto isolado do meu quarto, aguardando que meus olhos fechem, assombrando a luz que entra pela janela. No qual as sombras se aproximam cada vez mais ao simples piscar de olhos. Mais. Mais. Até que cobrirem. Até me apagarem.

Verifique aquele canto do seu quarto. Ele se mexe.

Eu costumava ter um medo fora do normal antes. A doença contribuiu para a minha lista infinita de fobias não superadas.

Eu tinha um medo extra no escuro. A insegurança que ele me trazia, a visão que ele levava...me fazia pensar na morte como presença, como figura, como lugar, como estado e, antes que eu percebesse, estava chorando e me encolhendo em um canto, tentando acender o abajur com as mãos tremulantes.

Mas nem o abajur ajudava. As sombras vinham de dentro.

Quando as luzes se apagam, não há homem, não há mulher, não há corajoso, macho ou covarde. Tudo está à espreita. E todos nós nos tornamos presas.

Presas cegas. Presas indefesas.

Quantas vezes não perdi o fôlego e tive que ir para o hospital apenas por encarar até o limite da consciência o escuro que a noite provocava no meu quarto? Com aquele “aparelho asmático” fazendo barulhos estranhos, embaixo da cama e as sombras me encobrindo como se “aquela”, como muitas outras noites, parecesse ser a minha última em vida.

Eu tenho certeza total de que escuro guarda mais do que simples sombras. Ou você nunca acordou no meio da noite, sendo observado? Ah, não estava? Como sabe? Estava escuro.

Por isso, todas as noites que eu as via com noção, sentia que tinha algo errado. Como se fosse a última noite.

Como se fossem me arrastar para fora do quarto e nunca mais me trazer de volta.

Levar-me para a tão temerosa escuridão eterna.

Foi exatamente nessa época que eu comecei a ter tanto desprezo. De tudo, quero dizer. Tanto de mim mesmo, por ser fraco e estúpido, quanto do ser humano em geral.

O ser humano se faz de líder, de forte, de corajoso, mas...por que as pessoas não sabem de onde viemos?

Por que as pessoas não sabem para onde vamos quando morremos? Ou você diria que sabem? Criando aquelas teorias de reencarnação, de céu, inferno, purgatório, mundo inferior, onde ficamos quando a morte nos bate a porta e o nosso tempo nesse mundo acaba e de dissolve em espíritos. Porque é impossível?

Ou porque temos medo de descobrir?

Portanto, não mexemos nesses temores. Deixamos por assim, um mistério, uma teoria para nos apoiarmos sem que precisemos ficar a noite tentando descobri-las e perceber: há pior. Muito pior.

Pense comigo: todas essas teorias criadas pelo próprio homem nos levam a acreditar em algo após a morte, uma existência que nos é permitida depois de termos acabado com a nossa. Estaremos nós fechando os olhos para a verdade?

Por medo?

Temendo acabar por terminar inexistentes? No vazio, que nem ao menos conseguimos imaginar? Em uma escuridão espiritual que não podemos sentir ou ver?

O incompreensível.

Eu peço para que imagine o vazio. Imagine... Não, não a cor branca. Não, não a cor preta. O vazio.

Não conseguimos. O “vazio” está muito além da nossa compreensão, guardada em uma mente que nós não alcançamos.

Não queremos a inexistência. Não queremos pensar no “vazio”. No “nada”.

Tentamos criar esperança. Mas temos medo de descobrir além dela. Apenas isso.

Por isso temos medo do escuro.

Não o conhecemos direito o bastante para enfrentá-lo com a seriedade de um...”ser humano”.

Porque não queremos ter medo.

–X-

O casebre era simples. Parecia um chalé de madeira, daqueles que parecem um triângulo fincado no chão, só que este, como várias das outras casas, tinha uma varanda e ficava erguido do solo, com uma varanda vazia e poeirenta.

Eu só queria entrar logo e sair do escuro.

–Ei- Kanda rosnou. Estranhei, pois senti sua respiração no topo da minha cabeça.

–Hã...sim?

–Dá pra...- ele suspirou, novamente a respiração batendo em mim e a voz soando acima- desgrudar?

–Hã?...Ah! Desculpe, foi sem querer.

Notei. Estava colado no peito dele. Foi um reflexo causado pela sensação de proteção que um samurai com uma espada afiada me causava.

Eu não queria me grudar,sério, mas foi necessário.

Para espantar o clima estranho, subi os pequenos degraus em um único passo largo. Levantei a pequena pedra redonda que mais parecia um peso para impedir que portas se fechassem e encontrei uma chave ao estilo antigo: rústica, com uma parte redonda cheia de detalhes férreos desenhados e uma outra ponta de forma retangular com alguns quadrados sobressalentes e finos, a qual se encaixaria na fechadura. Parecia uma daquelas chaves que vem como chaveiros, ou pingentes.

Encaixei-a na fechadura da porta de madeira. O clique me anunciou que havia conseguido abrir, o que foi, na verdade, um sucesso, porque minhas mãos tremiam de frio ou medo. Estava impossível de distinguir as sensações.

–Abri- disse, como um idiota.

–Ótimo.

Kanda bateu no meu ombro com o seu, enquanto ultrapassava-me, abria a porta e adentrava no lugar. Era escuro e não estava com vontade de entrar e procurar um interruptor ou uma lareira para não ser surpreendido por, sei lá, um fantasma não muito agradável.

Toquei no lampião que jazia poeirento ao lado da porta. Ele balançou no suporte com o meu toque.

–Kanda- disse, esperando que, por favor, ele me respondesse e desse sinal de vida- tem fogo?

–Claro- ele resmungou ironicamente de algum ponto lá dentro- sempre trago uma tocha acesa comigo.

–Não, sério. Para o lampião, acho que tem óleo. Essa casa parece mais antiga que todas as outras, tem um interruptor aí?

Ele demorou um pouco para responder. Os barulhos que vinham de sua direção me indicavam que estava procurando em algum lugar.

–Não vejo nenhum.

–Ah, ótimo- resmunguei, quase entrando em pânico: eu não via quase nada lá dentro-e-e agora?

Estava para voltar à prefeitura sozinho apenas para pedir fogo a Aaron, mas senti algo bater no meu ombro antes do meu pé se mover. Dei um pequeno pulo, mas quando girei o pescoço encontrei Kanda ao meu lado. Como estávamos apenas a luz da lua, seu rosto ficava encoberto por sombras, expressando a mesma feição irritadiça de sempre. Irrita-me como ele era mais alto, mas eu não posso simplesmente crescer alguns centímetros e superar...infelizmente.

Meus olhos desceram de seu rosto até o meu ombro. Sua mão estava ali. Ele parou de me tocar e abriu a palma na minha frente. Um isqueiro.

–Tá aí seu fogo.

Ele tinha um isqueiro. Aquele maldito!

–Hã...valeu.

Acendi como achei que funcionasse o lampião. Deve ter dado certo, afinal, o fogo acendeu, tinha luz e ninguém saiu queimado.

As chamas trouxeram, junto da luz, um calor mínimo, mas necessário. Levei-o para dentro e finalmente tive uma visão do interior que não fosse uma escuridão total e impenetrável. Era totalmente de madeira, piso de tábuas marrons, uma cadeira simples, uma mesa simples, uma lareira empoeirada de tijolos escuros, duas camas que não pareciam nem confortáveis demais nem de menos (feitas de madeira lustrada, com colchões até arrumados). Creio que moradores tenham passado aqui antes, apenas para organizar a maior parte das coisas.

Coloquei o lampião em cima da mesa com cuidado, verifiquei as camas, revirando os travesseiros e olhando debaixo dos colchões, a procura de bichos ou insetos intrusos. Havia muitos grilos lá fora e queria que eles permanecessem nos limites das paredes.

Ouvi um barulho atrás de mim. Quando me virei, encontrei Kanda jogado na cama, braços cruzados atrás da cabeça, pernas dobradas, olhos encarando o teto. Seus olhos giraram até me encontrarem, tentei voltar rapidamente a arrumar a cama, fingindo que não estava encarando. Isso seria muito estranho. Bati últimas vezes no travesseiro, para então me deitar, ainda relutante, pois a cama rangia ao simples encostar.

Aconcheguei-me pela primeira vez o dia inteiro. Pode parecer estranho, mas eu era uma pessoa tão caseira, daquelas que nunca sai por vontade própria, a não ser que alguém (meu pai, no caso) expresse vontade extrema de que eu saia um pouco. Ou seja, pela vontade dos outros. Eu saía sempre querendo voltar. Passeava e viajava querendo voltar. Então, estar nesse lugar desconhecido com uma pessoa não muito próxima ao lado me fazia querer entender porque não estava onde deveria: em “casa”, apesar de essa palavra ter um peso diferente. Não sabia mais seu significado por inteiro.

Já havia perdido totalmente a fome, estava imerso demais em pensamentos ruins e estranhos que me impediam de ter desejos tão primários quanto isso. O escuro também tinha esse tipo de influência sobre mim.

O desconhecido, então, mais ainda.

Não liguei mais para banho nem nada, estava tão cansado que era capaz de ficar debaixo de um chuveiro (se é que há um chuveiro, ou água útil) e desmaiar de imediato. Então só tirei o sobretudo sujo e o larguei em cima da mesa solitária, tirei o suéter confortável que tinha e também procurei uma camisa confortável na pequena mala que levava. Troquei de camisa, sempre com o cuidado de olhar para meu companheiro na outra cama, confirmando sua presença, porque ele, de olhos fechados ainda, não fazia nenhum barulho.

Joguei-me na cama, momentaneamente não lembrando da fragilidade que parecia residir na madeira. Levantei apenas para apagar a luz e correr para o conforto das cobertas.

Eu não podia dormir sem pensar em onde estava. E, pensando no lugar em que estava deitado, não conseguia dormir de jeito algum. Ouvi o barulho típico de um grilo e, podia ser minha paranoia falando, mas tinha quase total certeza de que estava dentro da casa. Não sabia que horas eram e nem ao menos tinha energia para pensar nisso ou chutar um número. Continuei a encarar o teto, vendo a sombra da árvore curvada ao lado da janela estremecer diante da ação do vento.

–Kanda?- perguntei, sem tirar os olhos da forma negra tremulando em forma de galho no teto.

Nem sabia se ele estava acordado.

Ou se importando.

–Hm?- ouvi.

–Você...tem ideia do que está acontecendo?

–Não- ele respondeu, duro, talvez eu estivesse atrapalhando seu sono- se eu soubesse, nós não estaríamos aqui. Idiota...

–Ah, sim, claro.

Silêncio. Achei que ele tivesse dormido e me deixado para suportar a quietude sozinho.

–Kanda?

–Que foi?!

–Hã...você acha que as crianças estão vivas?

–Eu...- ele demorou um bom tempo para voltar a falar- pequenas chances.

Engoli em seco. Não era bem a resposta que eu precisava no momento, mas também não precisava de mentiras.

–O que você acha que aconteceu?- sussurrei.

–Akumas devem ter pegado as pessoas. Innocences podem ter chamado a atenção e depois matado. Sei lá. Que importa? Vai dormir, moyashi. Para de ficar falando.

Escutei um “tsc” e não me atrevi a dizer mais nada. Só precisava de foco.

Eu queria tanto falar com Komui, mas agora não era hora para ligações. Eu queria me confortar em algo.

Estava ali fazia uma semana, mas me sentia tão perdido quanto as crianças desaparecidas deviam estar.

Kanda estava errado. Importava sim. Muito.

Ignorando o grilo irritante, fechei os olhos rapidamente e me rendi ao sono que teimava em demorar. Dormi sem perceber.

–X-

Fui acordado não por um galo, ou pela luz do sol entrando calmamente pela janela, como imaginava. Pelo menos em um lugar assim tão rústico e rural, as manhãs deveriam ser calmas.

“Tsc. Acorda, desgraça!!”

Mas acordei por urgência. Senti algo bater logo em minha cabeça, que estava cuidadosamente afundada abaixo das cobertas. Saltei, enrolando-me sem querer nos cobertores e rolando direto para o chão de madeira fria. Uma fruta (pesada, ah, sim muito pesada, porque minha cabeça doía) verde e circular caiu da cama e rolou na minha frente. Uma goiaba. Fui acordado por uma goiaba assassina.

Ou melhor, a goiaba agora rachada também era uma vítima como eu do samurai assassino e impaciente de braços cruzados na cama ao lado.

Grogue como sempre estou as...que horas eram?

–São oito horas da manhã- ele rosnou como se eu tivesse falado em voz alta.

–Hã...bom dia?- respondi, me desvencilhando no rolo de cobertores em que estava no chão.

Recebi o olhar mortífero como resposta.

E um tecido negro na cara.

–Troque-se. Temos que sair- tirei o uniforme que ele jogou no meu rosto, já me arrumando para encontrá-lo lá fora.

Era aquele mesmo friozinho de manhã. O sol que timidamente surgia no céu azul e branco, o lugar continuava quieto, e (graças a Deus!) não ouvia nenhum grilo irritante. Ajeitei o cabelo embaraçado de ter se esmagado contra o travesseiro duro.

Kanda estava sentado no primeiro degrau da pequena escada, observando algum ponto à frente, apoiando o queixo na espada e essa fincada no chão. Há quanto tempo será que ele estava acordado?

–Kanda?- disse, cauteloso por causa da espada- vamos?

Para alguém que tentou me matar com uma goiaba agora a pouco, ele está quieto demais. Não tenho nem força nem coragem suficientes para sustentar uma conversa e se o diálogo for com Kanda necessito do triplo de emoção. Às oito horas, tudo que tenho são sono e fome.

Na verdade, acho que ele nunca se achava com vontade de estar comigo.

Compreensível, se considerarmos quem e como eu sou. Não que eu não fosse acostumado a ser hm...ignorado ou menosprezado, mas sentir que meu companheiro de missão e único apoio do momento estava querendo terminar a missão usando o mínimo de palavras comigo era um pouco chato demais para encaixar nos costumes.

Repreendi-me rapidamente. Não é tempo para pensar besteiras. Kanda só quer concluir o trabalho. E isso devia ser meu jeito de agir também.

Paramos em frente a uma casinha simples e delicada. Paredes de tijolos vermelhos, porta de madeira, com um pequeno jardim (minúsculo mesmo) de flores já esquecidas. Será que eles acabaram se esquecendo de cuidá-las depois de perderem a filha? Engoli em seco.

Kanda cruzou os braços. Encarou-me por um momento e quando lhe ergui as sobrancelhas, temendo dirigir-lhe alguma palavra, só me indicou a porta com a cabeça.

Sem falar nada, ele me mandava bater na porta.

Ok, hora de reunir coragem e deixar o jeito anti-social de lado. É só falar, só isso.

Falar é o problema. Não sou bom em comunicação.

Lancei um olhar suplicante ao moreno (não custa tentar, né?), mas ele me indicou mais ainda.

Tudo pelo trabalho.

Bati com os dedos na porta. Repeti o ato pelo menos umas três vezes antes de ouvir qualquer barulho que indicasse vida humana dentro da casa. Ouvi resmungos e passos apressados. Estava tão imerso ouvindo as coisas que até me assustei quando a porta se abriu. Revelou-me um homem em torno de seus trinta ou quarenta anos, barba crescendo despreocupadamente, mas ainda rasa, olhos fundos, olheiras de dar pena, olhos azuis como o céu estava, mas cansados de, creio, emoções.

–Sim?- e perguntou, claramente analisando a minha pessoa.

–Ah! Hã...você deve ter nos visto ontem. Somos exorcistas da Ordem Negra...er...será que podemos falar com você um pouco sobre os..hm...des-desaparecimentos?

Hesitei. E hesitei mesmo. Porque do jeito que o homem estava, não era hora para ficar trazendo coisas ruins a tona: eram apenas oito horas da manhã.

Sua expressão oscilou em depressão por um momento antes de, sem dizer nada, dar a nós um espaço para entrar. Tentei sorrir enquanto passava, mas não tive sucesso em alegrar.

Sentamos em uma poltrona qualquer, na sala pequena e ele logo a nossa frente. Notei que ele mexia os dedos nervosamente, os olhos se recusavam a para sobre nós dois e tendiam a ir para uma porta ali perto. Talvez, enfim, não fôssemos tão confiáveis assim.

Mas o assunto não era lá dos mais agradáveis para se começar a conhecer uma pessoa.

–O que querem saber?- ele perguntou, ainda checando a porta.

–A história. Tudo que quiserem contar.

Ele passou as mãos pelo cabelo e gritou para avisar a esposa.

–Ela deve vir para me ajudar a contar.

–Obrigado- sorri.

Dito e feito. A mulher chegou, limpando as mãos ou ajeitando a roupa simples que usava, sentou-se ao lado do marido. Tinha os mesmos olhos cansados, fadigados, melancólicos e perdidos. Os olhos escuros não brilhavam e endureceram ainda mais ao nos ver no sofá.

–Vieram saber dela, não é?- ela perguntou, mais para o marido que para nós. Notei um toque de desespero saindo de sua voz.

Assentimos em conjunto.

–Viemos- engoli em seco- salvá-la.

Seus olhos piscaram para mim, parecendo finalmente notar que havia um albino sentado em seu sofá.

–Então ela pode ser salva?- um sorriso tremulou de leve nos lábios.

Abri a boca algumas vezes. Não sabia como formular uma resposta boa para “não faço a menor ideia”. Kanda respondeu por mim, na mesma voz educada que tanto me agrada.

Isso foi um uso de sarcasmo, para os lerdos.

–Isso não importa- rosnou, sem descruzar os braços- só conte o que aconteceu. Sem perguntas irritantes.

Lancei um olhar repreendedor para ele, mas ele não me olhava de forma de alguma.

–Faremos o possível. Mas antes precisamos de informações.

Eles se entreolharam. O marido suspirou quase três vezes e a mulher apoiou os cotovelos nos joelhos, cruzando os dedos e neles apoiando a boca. Senti que seus olhos se regavam de tristeza.

–Foi tão repentino- ele disse- de um dia para outro. Ela só tinha sete anos. Nossa princesinha que adorava cuidar das flores do jardim da frente.

A mulher fechou os olhos, concordando com a cabeça.

Poderia relatar todas as palavras dos pais, com todos os mínimos detalhes emocionantes que os fizeram cair em prantos ou afundar as olheiras ainda mais. Mas não irei, considerando o pesar que senti ao simples ouvir e o tamanho de cada parágrafo que eles repetiam. Sempre parando para soltar algum detalhe como “e no outro dia acordamos, com o céu azul...ah, ela amava de verdade um vestido azul que demos de aniversário”.

Sempre atentava aos olhares significantes do homem à porta.

Deveria ser um lugar proibido. Estava trancado a chave.

Deveria ser o quarto da menina. Com toda a certeza, era ali.

Eis as partes mais relevantes que me foram ditas...

...Foram malditas três horas ouvindo os dois balbuciarem a história.

–Emily- ela disse- era o nome dela. Era o nome que nós sempre quisemos dar a nossa filha.

–Mas aqui não temos muitas crianças. O prefeito incentiva a diminuição da natalidade por questões econômicas...não usamos...er... muitos contraceptivos...

–Oh- respondi, aquilo tomava um rumo estranho a cada vírgula- o que mais?

–Nós ficamos com medo das crianças fugirem quando atingem a idade. É o que geralmente acontece. Mas Emily...nós a educamos para que entenda o mundo em que vivemos. Eu só consigo pensar que...talvez as crianças estejam...

Cocei o queixo.

–...fugindo- sussurrei.

Era uma possibilidade a ser considerada com muita frieza.

Apesar das pessoas serem criadas nesse espaço, as crianças são seduzidas muito facilmente pelo que o redor tem a oferecer. Talvez não seja um rapto ou um desaparecimento, mas uma fuga.

–Mas, quando as outras crianças começaram a desaparecer...foi um desespero total! Não tínhamos controle!

–Na noite antes, eu me lembro bem, ela pulou na nossa cama para dormir e pediu para que eu cantasse alguma música qualquer. No fim- ela riu- ela disse que minha voz não era nada bonita e pediu várias vezes para que fôssemos passear mais vezes para colher as amoras de época na floresta. Ela disse que queria que fôssemos passear no lago como sempre fizemos, um lago grande e fresco aqui perto. Ela dormiu, nós dormimos e quando acordamos...- ela escondeu o rosto nas mãos- não estava mais lá.

–Nós gritamos pela rua e acabamos por chamar atenção dos vizinhos. Eles vieram aos montes e nós tentamos explicar por um bom tempo. Acho que estávamos tão desesperados falando, porque eles ficaram bastante tempo sem falar nada e parecendo confusos, parecia que não nos entendiam de jeito nenhum e...e...

Ele coçou a cabeça.

–Entendemos- olhei as horas que o relógio rústico na parede me indicava. Hora de ir- hã...muito obrigado. Vamos...hã...tentar encontrar as respostas. Com certeza.

Eles assentiram, sem firmeza alguma. Saímos sem despedidas e sem acenos, deixando-os sentados no sofá e provavelmente partilhando mais momentos e tristezas.

Eu tinha um problema grande a ser resolvido.

E se você acha que estou falando da missão, você está ½ errado: eu não como desde ontem a tarde. Estou com muita fome.

–Kanda, podemos comer um pouco. Precisamos conversar, não é? Sobre a missão.

Não sei se ele acenou com a cabeça ou só foi uma ilusão de movimento, mas ele não respondeu com palavras.

–Hã...onde será o restaurante, hein?

Então, continuei a caminhar. Irritado, mas muito mais chateado.

Estive tão acostumado esses dias, como nunca estive, com ser notado, que ser ignorado fazia um buraco de solidão pior ainda. Antes, eu era acostumado a estar sozinho, agora, sabia que não precisava. Mas estava sendo. Por Kanda, sem motivo aparente.

No fim, continuava sendo o mesmo de antes.

Andamos em silêncio.

Procuramos em silêncio.

Achamos o restaurante em silêncio.

Comemos em silêncio.

Falamos em silêncio.

O restaurante estava cheio e, se eu tinha percebido algo comum a todos naquela cidade, era que as pessoas tinham olhos fundos demais. O desespero faz isso.

Peguei o que quer que estivesse lá a ser servido, paguei com o que tinha e sentei na mesa em que Kanda estava. Ele apoiava o queixo na mão e o cotovelo na mesa, encarava a porta como se houvesse algo realmente interessante a ver. Notei o prato vazio em sua frente. Ele come rápido, não?

Diversas vezes desviei os olhos do prato para ele, mas ele nunca saía da posição “sou-legal-e-você-não”, uma das posições que mais me irritam no universo das poses. Pessoas esnobes geralmente usam poses desse tipo. Mas eu sabia que Kanda não era esnobe. Quer dizer, ele era, mas... de um jeito diferente. Às vezes ele PODIA ser esnobe.

Senti um toque no meu ombro. Engoli o que mastigava e cumprimentei o prefeito.

–Conseguiram dormir?

–Ah, sim. Como uma pedra.

–Imaginei que estivessem cansados.

Seus olhos vagaram pelo salão inteiro e eu notei que ele estava procurando qualquer sinal de desaparecimento. Seus acalmaram e pararam em uma mulher de vestido longo.

–Minha mulher- disse- ela ajudou a cozinhar. Espero que esteja comestível.

–Com certeza.

Ele sorriu pesadamente.

–Vocês deviam dar uma olhada na floresta. Nós não entramos lá há algum tempo, desde que...

Seus olhos escureceram e percebi uma hesitação completa tomar conta do homem. Ele sugeriu novamente a floresta e se afastou.

Tive total certeza: iríamos para a floresta passear.

–X-

A floresta ficava cada vez mais fechada. Eu tinha total certeza de que se resolvesse sair a noite para um passeio por lá, nunca mais me achariam. Aquele lugar no escuro deve ser o próprio labirinto do Minotauro, só que mais cheio de trevas. Árvores altas, copas juntas, chão escorregadio, não havia nada para me ajudar a localizar a mim mesmo. Havia musgo demais e chance de menos.

E o que fazíamos ali? Procurando inimigos, com certeza.

Porque, se havia algum lugar para criaturas se esconderem, seria naquela floresta, com certeza.

Minhas pernas começavam a doer depois de duas horas andando sem realmente um objetivo em mente. E os pensamentos passavam como turbilhões na minha mente: eu estava fazendo de novo, raciocinando casos e possibilidades.

Pulei um tronco caído e coberto de musgos, sabia que cobras adoram ficar debaixo desses negócios e eu não estava com vontade de encontrar alguma.

Apesar de não achar que a conversa com os pais me serviu mais do que ficar abalado, talvez ajude a considerar algumas coisas.

1- Crianças desaparecem toda semana, sem uma verdadeira regularidade. Isso diminui o número de pessoas e as que sobram entram em desespero.

2- Crianças e adolescentes não gostam desse lugar. Talvez fugas em coletivo possa ser a resposta e nada sobrenatural. Apesar disso, é algo muito estranho, pois as cidades pequenas ao redor notariam o surgimento de crianças, além de que a tal Emily sumia sozinha e tinha apenas sete anos.

3- Por esse motivo citado acima, o prefeito não incentiva ter muitos filhos, além de que empobrece o povo.

4- Não tivemos nenhum sinal de akuma ou innocence, o que pode ser algo bom ou ruim.

5- Tem algo nessa floresta que remete a algum evento passado dos moradores. Provavelmente alguma outra morte ou mesmo os desaparecimentos.

6- Nenhum sinal dos finders.

7- Kanda me odeia e resolveu ficar quieto, resmungando coisas.

Tudo o que eu menos quero é encontrar um corpo jogado aqui.

Tropecei em uma raiz e por pouco me impedi de quebrar meu nariz na árvore cheia de gosma fluorescente.

Espera. Gosma fluorescente?

–Kanda- chamei, ouvindo os passos despreocupados dele se aproximarem- isso aqui é um sinal ruim, não?

Olhei para o lado e ele estava encarando a substância em um misto de análise e despreocupação. Acenou afirmativamente com a cabeça e voltou a andar em volta do lugar, deixando os pés quebrarem folhas secas e fazerem barulho.

–Você podia falar alguma coisa...- resmunguei.

–E você podia me contar algumas coisas.

Surpreendi-me mais por ele ter finalmente falado do que pelas suas palavras. Apenas quando elas começaram a fazer sentido que me senti realmente alertado.

–Contar o que exatamente?- perguntei, enquanto ele dava uma volta na árvore da qual escorria o líquido fluorescente azul.

Ele parou, demorando significantes segundos para me olhar. Franziu o cenho, mas não vi só irritabilidade naquele gesto.

–É uma ótima pergunta.

E voltou a me ignorar, de olhos e fala.

Cheirei o ar, tendo a estranha sensação de que tinha algo nele. Era um cheiro doce.

–Sente isso, Kanda?- funguei.

Ele negou com a cabeça.

O cheiro vinha da gosma estranha na árvore.

Aquela gosma parecia pegajosa demais. Minhas mãos se moveram para tocar e pegar uma amostra experimental, apenas para sentir aquilo envolver meus dedos e ter alguma pista do que era. Mas, antes que pudesse alcançar, uma mão agarrou meu pulso com força.

–Ai-resmunguei.

Kanda negou com a cabeça e soltou meu braço. Esfreguei o pulso, ele apertou com força demais e desnecessária. Vi o moreno pegar um graveto qualquer e cutucar o fluído impressionante. Engoli em seco vendo o futuro que teria na minha mão caso ele não tivesse me parado. O galho foi corroído.

–Ácido? Sério? Isso é tão...- resmunguei- deve ser um...inimigo?

–Akuma- ele disse- a não ser que você conheça um animal com gosma fluorescente.

–Não. Não conheço. Mas por que esse troço tá nessa árvore?

Olhei ao redor. Meus olhos se prenderam em vários pontos que não tinha notado antes, mas que faziam sentido. Havia outras árvores cobertas de líquido azul.

–Marcando por onde passa? Um caminho de volta?- perguntei, pensando em João e Maria.

Kanda deu de ombros.

–E isso é...- eu disse, olhando para a gosma com interesse- hã...urina? Cuspe? Hã...sêmen?

Kanda riu pelas narinas. Isso acendeu um ânimo estranho em mim.

–Talvez- disse, recomeçando a andar- ou sangue.

Segui meu companheiro, indo mais dentro ainda na floresta. Ainda bolava trezentas teorias na minha mente, mas nenhuma realmente se encaixava.

Meus olhos vagaram até meu próprio braço esquerdo. Coberto pelo casaco sobre-tudo, nem parecia uma deformação feia e vermelha de arrepiar e dar nojo. Senti algo em mim mesmo tremer. Logo viria a hora em que teria que usá-lo como arma.

“Sua innocence está no seu braço, Allen”, lembrei de Komui dizendo, “é uma innocence parasítica, sabe o que isso quer dizer? Ela muda o seu corpo. Preste atenção na hora de ativá-la para derrotar algum akuma”.

Eu senti a necessidade de usá-la. E uma coceira estranha no meu olho esquerdo.

Meu corpo não era normal. Era como se eu tivesse armas embutidas nele mesmo.

Como se eu fosse a arma. Não a vítima, como sempre fui.

Seguimos a gosma azul nas árvores, floresta adentro. De tempos em tempos, meus olhos vagavam até Kanda que andava despreocupadamente a minha frente, vendo suas costas acompanharem o caminho e a espada balançar em minha cintura. Quem era ele? E quem sou eu?

Toda vez que pensava sobre o caso da missão, nenhum pensamento me satisfazia por inteiro.

–Tem alguma coisa errada- sussurrei.

–Pois é- Kanda me assustou, respondendo e parando de andar. Por um pequeno momento, ele me observou com o cenho franzido. Meu corpo formigou na mesma hora- tem alguma coisa MUITO errada.

Notas finais
Reviews?? :3 LEIAM AS NOTAS INICIAIS. ELAS SÃO IMPORTANTÍSSIMAS!!! Não tem preview, porque não consegui escrever nada T^T Obrigada aqueles que leram!!!! Amo vocês!!! >3< E para aqueles que deixam ou vão deixar reviews: amo eternamente!!!! haha Até... me esforçarei para escrever essa semana.