Puppetry
1 Adaga
Notas iniciais
ADAGA
Tudo prometia um confronto rápido.
O grupo que encontraram na vigésima terceira —ou foi a vigésima quarta?— expedição não era grande, nem bem treinado. Ou, talvez, eles imaginaram desse jeito, acostumados a ameaças maiores e mais poderosas, e os subestimaram com a facilidade de um respiro.
Dorian e Lavellan estavam praticamente batendo papo —mantendo gracejos na presença de inimigos— e Touro, à frente, estava machadando todos os gladiadores que conseguia juntar com apenas meio-fervor. Cole estava ao lado da inquisidora — as adagas prontas, mas a mente muito distante, perdida entre os próprios devaneios. Ele não esperava a chegada triunfante de um mago —ninguém esperava— e muito menos o formigar que surgiu em seus braços e pernas, subindo até seu peito e então sua testa.
O recém-chegado estava entoando palavras viscosas e desconhecidas, mas Cole não conseguia o escutar. Ele apenas virou o rosto à Lavellan, a expressão mostrando com claridade a dor que percorria seu corpo, e forçou o início de um socorro:
— Inquis—
Ele ainda estava acordado quando passou a faca pelo corpo da elfa, mas perdeu a consciência antes de poder ver sua reação.
Ele foi grato por isso.
Ela caiu como uma boneca de pano, suas mãos trôpegas voando até a fissura desajeitadamente, tentando (e falhando) segurar o sangue que tentava escapar.
— Lavellan! -
Cole endiretou suas costas mecanicamente, os olhos e o rosto aterrorizantemente inexpressivo. Touro sempre achou o garoto sem expressão, mas agora—
— O que foi que você fez? — Dorian rosnou, fora de seu campo de visão. Touro achou, por um momento, que ele estava perguntando ao espírito — e virou em sua direção rapidamente, prestes a falar "não é o Cole". Mas logo viu que o mago estava virado ao venatori, os seus olhos pegando fogo. — O que foi que você fez??—
A luta recomeçou com um raio voando de seu cajado, estalando tão alto que quase ensurdeceu o qnari. Mas ele não pôde ver se o ataque acertou — Cole já estava voando em sua direção, a espada a postos.
Touro defendeu com o próprio machado, a batida criando faíscas. Ele notou, em certo choque, que o garoto era mais forte que parecia — o esforço posto contra as armas igualava.
— Que merda, Cole. — rangiu os dentes. E puxou o machado o bastante para poder bater sua lateral contra o espírito, ele cambaleando para trás.
Lavellan, mais atrás e ainda segurando o rasgo no peito, engoliu sangue dolorosamente, os ombros tremendo. — Touro..! N-não machuque ele! -
Mais fácil de falar do que fazer. Não era como se ele tivesse opções.
Mas...se o desarmasse—
Cole voou para ele mais uma vez. Dessa vez, Touro não conseguiu levantar o machado para cima o bastante a tempo — e sentiu o arder de um corte contra a lateral do rosto, a faca cortando junto parte de sua orelha.
Ele sibilou. E bateu com o cabo da arma contra a barriga do espírito, mandando-o para trás mais uma vez. Aproveitando do atordoo, disferiu outro golpe com a face cega do machado. Fantoche ou não, Cole soltou um som de dor — e Touro desculpou-se mentalmente, os ombros enrijecendo.
Só o bastante para ele soltar as facas—
Cole se recuperou mais rápido, dessa vez. Uma das adagas foi usada para prender o machado de couro pela curvatura da lâmina, e a outra foi atirada contra o qunari, quase como um flash. Por instinto, ou por sorte, Touro abaixou-se a tempo o bastante — mas o instante serviu para Cole lançar o machado para longe, junto de sua própria arma, e saltar em cima de Touro.
Cole era magro —bastante, na verdade— mas o impulso serviu para jogar os dois no chão e os fazer rolar como dois borrões pelo o chão seco do deserto. As mãozinhas finas de Cole agarraram Touro pelos chifres, usando-as de ajuda para bater a cabeça do qunari de novo e novo contra o chão. Esse agarrou os braços finos dormente, a cabeça latejando, e o tentou empurrar para longe, mas Cole se provou resistente.
— Dorian! — ele gritou, ainda tentando restringir o espírito. — Acelera—
Cole se debateu, e Touro apertou seus antebraços, um craque ressoando para dentro de sua cabeça como veneno, os grunhidos de dor de Cole o acompanhando.
Houve outro trovão, mais alto que o anterior, mas não tão alto quanto o barulho dos ossos do espírito quebrando contra seu aperto. — Eu estou tentando!—
Cole saltou de cima de seu torso, girou o corpo no ar, e caiu na frente de sua cabeça, ignorando a dor de antes. O movimento enfraqueceu o aperto de Touro — e ele fugiu.
Diretamente para Dorian. Touro tentou agarrar o menino, mas ele deslizava mais que sabonete, e o Qnari ainda estava no chão.
Com um grito de "Dorian!" na garganta, Touro assistiu Cole correr na direção do mago, ainda concentrado numa maldita guerra com o inimigo. Se ele o matasse—
Touro avistou a adaga que Cole havia tentado o acertar com, e a agarrou de imediato, escrevendo uma extensa desculpa para o espírito, a Varric, e à inquisidora ainda no chão, murmurando para que ele não o machucasse.
— Desculpe, garoto—
E atirou a faca — a mira marcada nas costas do espírito.
— Dorian! Cuida da Lavellan! -
Cole não acordou de imediato, a consciência retornando lentamente. Mas quando conseguiu controle da maior parte de seu corpo quase se arrependeu — tudo doia.
Um borrão passou rapidamente por seu campo de visão, sumindo atrás de—
De O Touro de Ferro. Ele estava o segurando, e procurando —com minuciosa atenção— algo nos olhos de Cole. E pareceu encontrar, os ombros caindo (ainda que não totalmente) em alívio. — Cole. É você. -
— Q-quem mais seria? — Cole respondeu, as palavras trêmulas e a cabeça dormente. Houve um flash pelos olhos de Touro, e Cole lembrou-se da última coisa que tinha visto. — Inquisidora. — o ar prendeu em sua garganta. Cole tentou se levantar, mas tudo doeu e só sobrou a ele ficar deitado, arfando de dor. — Inquisidora— Touro de Ferro, ela—
O qunari balançou a cabeça, — Ela vai ficar bem. Não se levante. — ele segurou a cabeça de Cole quando o espírito tentou olhar para baixo, balançando a cabeça mais uma vez, agora mais lento. — Não— só olha pra mim, ok? Tudo vai ficar bem. -
Cole respirou pesadamente, o ar parecendo em falta. — Tudo dói. — ele disse, não só por si, mas também pela inquisidora, emanando sofrimento. — Ela dói. Você também. — ele focou mais no rosto de Touro, vendo enfim com clareza o sangue descendo por seu rosto. O estômago de Cole deu nós. — Eu fiz isso também? -
— Não foi você. — Touro o respondeu, facilmente. Uma parte de si —a honesta— achava isso uma mentira, e Cole notou de imediato. Normalmente, O Touro de Ferro mantinha a cabeça tão próxima que Cole nunca conseguia notar nada, mas agora era diferente. Era a dor?
— Eu m-machuquei Dorian? — Cole perguntou. E, ignorando o olhar e os avisos do qunari, tentou se levantar mais uma vez. Ele também ignorou a dor — e procurou, quase cegamente, por Dorian. Ao lado de—
Touro o puxou para baixo e o apertou contra seu peito. — Não levante. — os braços dele eram fortes demais para Cole conseguir escapar (dessa vez). Ele não conseguiria de toda forma, provavelmente. Do nada, Cole se sentiu com muito frio e muito cansado. Triste, também.
— Inquisidora ainda está respirando. — ele disse, mais para si do que para Touro. — Ela não vai continuar por muito tempo. -
— Cole. -
— Ela está com f-frio. — grama ensanguentada, um lar queimado.— Varamael se sentiu assim?— os pensamentos da elfa conseguiram doer mais que a pressão em suas costas. — Eu vou vê-la logo—
— Dorian está com ela. A inquisidora não vai ver Varamael, ok? Ela só tá com medo— mas Dorian está com ela, ele vai dar conta. E aí a gente vai pra fortaleza e Solas vai curar ela, como antes. -
Solas. De repente, Cole quis, com força, que ele estivesse aqui. Varric também. Mas, aí, ele provavelmente teria os machucado. — Foi você que me parou? — perguntou. Touro enrijeceu contra si, mas antes que pudesse dizer algo, Cole continuou. — Obrigado, O Touro de Ferro. Muito obrigado. -
— Não era você. — Touro disse novamente, a voz cortada. E suspirou, — Merda, você está gelado. Eu juro pelo Qun, se você morrer—
Ele parou; e engoliu o seco.
Touro balançou a cabeça, e deitou o queixo sobre o topo da de Cole. — Mantenha os olhos aberto, garoto. -
— Varric me chama disso, também. Ele vai ficar com raiva?-
— Não com você. — Cole cantarolou em entendimento, a cabeça leve. A dor estava começando a passar, trocada por dormência — e isso estava o deixando estranhamento sonolento. — Olhos abertos. — Touro relembrou, balançando o seu ombro com carinho.
Cole fechou os olhos — e deixou que o sono levasse o restante de sua dor para bem distante.
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