Punklove
23 Depois do fogo
Eu tentei ao máximo correr para salvar Stiles das vigas do teto caindo sobre ele. Eu consegui me jogar em cima dele, mas ainda assim as madeiras caíram em cima de nós dois, nos machucando. Sorte que os bombeiros já estavam chegando lá na nossa casa, então eles logo vieram me retirar dos escombros e levaram o Stiles para o hospital.
Apenas um lobisomem, eu não sofreria nada com aquele acidente, mas o Stiles teve que ir direto para uma ambulância. Senti medo ao o ver sendo levado, e como eu ainda tinha ossos quebrados para consertar não pude ir junto. A dor que eu senti enquanto a minha mãe ia ajeitando o meu corpo não foi tão grande quanto o fato de ver o Stiles daquele jeito por minha causa.
E eu sabia que a culpa era minha. Eu me deixei levar pela Kate e ela fez aquilo conosco. Botei minha família inteira em risco por ter sido um boboca. Eu sei que, bem lá dentro, eu tinha certeza que eu não poderia me controlar com o elixir de acônito que a Kate jogava em mim, mas ainda assim eu acho que poderia ter feito mais.
Enfim, durante aquela noite nós todos fomos parar na delegacia, tendo que prestar depoimentos com o Xerife e tentar decidir o que nós faríamos da nossa vida agora que ninguém mais tinha uma casa. A minha família tinha dinheiro desde sempre, então o pai e a mãe logo trataram de alugar dois apartamentos na cidade pra alojar a todos nós enquanto a nossa vida ia se decidindo.
No outro dia veio a notícia de que o corpo da Kate foi encontrado todo carbonizado na floresta. Ninguém fazia ideia do que tinha acontecido com ela, mas o Deaton nos disse que era possível que na hora em que o Stiles tentou proteger a todos nós alguma força mágica se alastrou pelo ar e atingiu a mulher, colocando ela em chamas no ato.
Eu senti um pouco de medo do potencial dos poderes do Stiles ao ouvir aquilo, mas senti meu coração se apertando ao saber que ele tinha feito tudo aquilo por mim e pela minha família. Um sentimento antigo, me lembrando do mês do imprinting retornou à minha mente. Depois de tudo que aconteceu, de tudo que eu passei e vivi, tantas mudanças na minha vida, parecia que existia apenas uma variável que continuava intacta em tudo aquilo: o Stiles.
Ele continuava na minha mente e eu não sabia o porquê.
Bom, talvez eu soubesse…
–--
Assim que ele abriu os olhos o clarão fez Stiles fechar eles de novo. Barulho de máquinas se ouvia ao fundo, bipes constantes que marcavam seus batimentos cardíacos. Passos caminhando na direção dele e sussurros também foram ouvidos.
“Stiles?” A voz do pai o despertou e ele abriu os olhos de novo, dessa vez com mais calma.
“Pai?” Ele sussurrou.
“Stiles.” A voz do homem vinha preocupada e ele colocou as mãos nos ombros do filho. “Você me deu um susto enorme, Stiles. Por favor, me promete que você nunca vai fazer nada assim, pois eu não sei se eu…” O Xerife parou de falar e engoliu em seco.
Stiles sentiu um aperto no peito ao ver o rosto do homem. “Me desculpa, pai.”
O Xerife suspirou.
“Não tem do que se desculpar. Se não fosse por você os Hale não estariam aqui. E eu estou grato por você ter salvado eles, ainda que ainda esteja com o coração na mão depois de tudo que aconteceu.”
Stiles apenas assentiu.
Por um segundo ele apenas olhou para o pai, não dizendo nada. Ele respirou fundo, tomando noção de onde estava.
“Como eles estão, pai?” Ele pediu.
“Estão vivos. O Peter passou a maior parte do tempo por aqui, mas os Hale vieram pra cá aos poucos pra te ver. O Derek ficou aqui um bom tempo também, mas agora ele foi pra nova casa deles tomar um banho.” John falou.
“O Derek?” Stiles pediu, sentindo seu coração se apertar mais um pouco. “Ele está bem?”
“Sim, Stiles.” O Xerife disse. “Ele te salvou, filho.” Uma lágrima escorreu pelo rosto do homem, antes dele suspirar.
“Ele me salvou? Como? E nem me lembro de muito do que aconteceu…” Stiles disse, tentando localizar em sua memória o que havia acontecido na noite passada.
O Xerife respirou fundo antes de responder.
“Você saiu correndo pra casa dos Hale. Quando chegou lá ninguém podia sair então você correu até a porta da casa pra descobrir um jeito de salvar eles. Eu não sei o que você fez, mas eu vi um monte de poeira voando por todos os lados e então os Hale começaram a sair correndo da casa um atrás do outro, passando pelo seu lado. O Derek foi o último a sair, mas ele viu que a casa estava caindo em cima de você, por isso ele se jogou pra te proteger.”
Stiles estava com os olhos arregalados ao ouvir a história.
“E essa manhã nós encontramos a Kate na floresta, carbonizada.” O Xerife falou sobriamente. “O Deaton disse que existe uma chance de você ter queimado ela apenas com o pensamento.”
“Pai…” Stiles sussurrou. “Eu matei alguém?” Ele pediu. A voz dele saiu medrosa. O Xerife chegou para perto de Stiles e sentou do lado dele na cama.
“Filho, você protegeu uma família de oito pessoas da morte certa. Você salvou oito vidas. O que aconteceu com a Kate foi um efeito colateral.” O homem disse. Stiles apenas assentiu.
Por alguns momentos pai e filho apenas ficaram próximos um do outro. Stiles não fazia ideia do que havia acontecido com os poderes dele, e ele nem sabia que tinha tantos assim. Tudo que o pai havia contado pra ele até fazia sentido, mas não poder lembrar de nada deixava as coisas difíceis de acreditar de verdade.
Momentos depois alguém apareceu pela porta.
“Stiles?” A voz de Peter soou. O homem entrou no quarto e chegou perto da cama, dando um beijo na testa de John antes de apertar a mão de Stiles. “Eu não sei nem o quanto eu tenho que agradecer por você ter salvado a minha família, Stiles. Você foi um herói.” O homem parecia emocionado ao dizer aquelas palavras.
Stiles, por outro lado, não sabia nem o que dizer, apenas assentindo para Peter em resposta. O pai de Stiles viu o rosto dele se contorcendo.
“Ele ainda está cansado, Peter, acho que é melhor a gente dar uma volta e deixar o Stiles relaxar um pouco. Tudo bem, filho?” O Xerife pediu.
Stiles assentiu e viu os dois homens caminharem para fora do quarto por um momento. Ele respirou fundo. Horas ou segundos se passaram enquanto ele apenas ficou olhando para o teto do quarto, tentando lembrar de alguma coisa sobre a noite passada ou pelo menos tentando esquecer de tudo. Stiles sentia o seu corpo doer e era difícil sequer mexer os braços na cama.
Ele cerrou os olhos e dormiu. Quando acordou, horas depois, uma figura estava sentada com seus olhos fechados em uma das cadeiras. Derek estava vestindo calças de moletom e uma camiseta muito grande para ele, provavelmente porque eles tiveram que emprestar roupas de alguém ou coisa parecida — mesmo que já tivessem tido tempo de encontrar um apartamento.
Quem sabe os punks tomam bastante cuidado com as roupas que escolhem?
Stiles olhou para Derek.
“Hey.” Ele chamou o garoto, sussurrando. Os olhos de Derek abriram rapidamente.
Dois segundos depois ele estava do lado do Stiles.
“Hey.” O garoto falou de volta. “Tudo bem com você?” Ele pediu. Derek parecia indeciso, sem saber como se portar ali perto de Stiles. Ele estava ao lado da cama, mas continuava com suas mãos coladas no corpo.
“Eu estou vivo. Isso é o que conta.” Stiles respondeu.
“E nós também.” Derek completou. “Graças a você, Stiles.” O garoto olhou direto nos olhos de Stiles.
“Eu só fiz o que achei que era certo.” O homem deitado na cama falou.
“Você fez aquilo que ninguém pode fazer por nós, Stiles. Uma coisa que conseguiu prevenir a nossa família de morrer por causa dos meus erros.” Derek falou, momentaneamente exasperado.
“Não, Derek.” Stiles disse. A voz dele era calma. “Nada do que aconteceu foi culpa sua. A Kate se aproveitou de você, ela usou você. Eu descobri tudo, ainda que não me lembre direito. Você não é o culpado, Derek. Você é uma vítima como qualquer outro membro da sua família, ou ainda pior, porque você teve sua integridade abusada também.”
O garoto não parecia ter uma resposta para aquela frase.
Stiles olhou para ele por um instante e viu um menino jovem cheio de inseguranças.
“Mas agora você pode ficar tranquilo porque mais um caçador se foi desse mundo, Derek.” Stiles falou.
O garoto apenas assentiu.
“Obrigado, Stiles.” Derek murmurou.
“De nada. Eu salvei vocês porque…” Stiles começou a falar, mas foi interrompido por Derek.
“Não, Stiles. Você não entende. Eu quero agradecer por tudo que você fez por mim. Desde o imprinting, sendo essa pessoa generosa e querida, sempre estando do meu lado e me ajudando a superar as dificuldades. Peter me contou o que você fez depois que eu parei de ficar perto de você, me falou das investigações, dos perigos que você passou pra descobrir o motivo de eu estar assim mudado. Ele me falou o quanto você se importou e se importa comigo. Eu tenho que te dizer que eu estou imensamente agradecido, Stiles. Você não faz ideia.”
No final da frase Derek tomou coragem para pegar na mão de Stiles. O homem sentiu um arrepio correr pelo seu corpo.
Stiles suspirou.
“Eu não fiz isso tudo apenas pela bondade do meu coração, Derek. Talvez eu não devesse dizer isso que eu vou dizer agora, por uma infinidade de motivos que eu não quero nem pensar…” Stiles parou por um instante. “Eu gosto de você, Derek.” Ele confessou.
Por um instante foi possível ver a luz brilhando nos olhos do garoto e ele agarrou com mais força na mão de Stiles.
“Eu acho que gosto de você também.” Respondeu Derek ainda mais quieto. Ele parecia impossivelmente inseguro. Stiles apertou a mão dele de volta.
“Não sei se a gente pode tentar qualquer coisa, porque tem essa diferença de idade nos separando, você ainda é menor de idade e eu sou seu professor. Mas se você quiser esperar pelo tempo certo, eu estaria disposto a te conhecer melhor, Derek. Você não faz ideia o quanto eu penso em você.” Stiles falou. As confissões sobre os sentimentos dele vinham naturalmente.
Derek parecia transfigurado ao ouvir as palavras de Stiles, olhos arregalados. Num momento de coragem ele se abaixou e roçou os lábios nos de Stiles, o que não foi um beijo, mas o bastante para mandar um choque de um para o outro.
“Eu posso esperar, Stiles.” Derek sussurrou bem perto dele.
Stiles se levantou da cama um pouco para conseguir encostar seus lábios nos de Derek outra vez, mas ele sentiu uma pontada de dor se espalhando pelo corpo.
“Ah,” ele reclamou, tendo que se deitar outra vez. Derek não o deixou nem falar nada, apertando seus lábios contra os de Stiles rapidamente, agora fechando os olhos com força, como se estivesse se concentrando.
Por um segundo Stiles não sabia se beijava Derek ou se se separava dele, mas logo uma energia boa se apoderou do seu corpo e a dor se esvaiu. Do canto do olho Stiles conseguia ver veias negras se espalhando pelo rosto de Derek: ele estava sugando a dor de Stiles com seus lábios.
Stiles se sentiu voando pelo ar, como se tudo fosse perfeito. A combinação da droga curativa dos lobisomens com a pressão dos lábios de Derek nos dele era o paraíso na terra, e Stiles não queria terminar com daquele devaneio.
Quando tudo tinha parado de doer, Derek descolou-se de Stiles, torcendo o rosto até sentir a dor desaparecer de seu corpo.
“Você não precisava ter feito isso.” Stiles sussurrou, se sentindo com sono.
“Claro que eu tinha.” Derek respondeu. “Lobos tomam contam das pessoas que eles amam e nunca deixam eles sofrerem.” Ele falou calmamente. A confissão de amor, ainda que não fosse a mais certa para o momento, não passou despercebida por Stiles, que sorriu para Derek.
“Quem sabe eu possa descobrir o amor também e encontre uma forma de demonstrar ele de um humano para um lobo. Vou ter que ir pesquisar nos livros, no entanto.” Stiles falou, bocejando.
Derek sorriu pra ele.
“Acho que me salvando da morte em meio às chamas da minha casa pegando fogo já foi uma prova bastante grande do quanto você me am… o quanto você é poderoso.” O garoto falou, um tanto envergonhado em falar de amor. Era como se ele tivesse percebido que a discussão estava lidando com sentimentos e ele tinha ficado subitamente um tanto desconfortável, ainda que sentisse aquilo por Stiles.
“Não se preocupa com isso, Derek.” Stiles respondeu, já quase dormindo. “Eu tenho certeza que posso invadir mil casas em chamas se eu souber que vou poder te salvar…” Ele falou antes de cair em sono profundo, sentindo seu corpo flutuar.
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