Punição divina
7 Capítulo 7
Notas iniciais
— Ora, ora… o que temos aqui? – Kuroo virou-se para trás, os olhos rapidamente vasculhando ao redor, encontrando seu interlocutor sentado quase no topo de uma árvore – Como vai meu traidor preferido?
— Seu traidor? Não me lembro de te dar essas intimidades, Tendou. – Kuroo aproximou alguns passos, jogando uma das pedras restante em sua direção, que foi facilmente interceptada. Se aquele demônio estava ali, boa coisa não era.
Com um pulo gracioso demais para alguém tão alto, Tendou pousou no chão sem problemas, passando os dedos longos nos fios ruivos espetados, como se precisasse ajeitá-los. Diferente de Kuroo que tinha asas repletas de penas lustrosas, às suas costas o recém-chegado levava algo que parecia uma armação inacabada. Apenas o esqueleto do que um dia devia ter sido um belo par de asas. Era como se tivesse sido depenado.
— É assim que me trata depois de tudo que aprontamos juntos? Que falta de consideração da sua parte. – mas o ruivo não parecia realmente ofendido com o tratamento, visto que o sorriso que trocavam era igualmente depravado.
— O que está fazendo por esses lados? Achei que ficasse guardando a entrada do solo profano.
— Ah, eu fico… mas é bom sair de vez em quando. Ver como anda o mundo com meus próprios olhos… – Tendou fitou o céu de fim de tarde, parecendo sério por um instante, então inclinou a cabeça na direção de Kuroo, analítico – Vim entregar um recado. Seu prazo está terminando. Sabe disso, não é? Precisa escolher logo um lado. Está perdendo toda a diversão!
— Eu sei… que insistentes! Por que não posso escolher meu próprio lado? – lamentou Kuroo, coçando a nuca nervosamente – E se eu não concordo com nenhuma das duas opções?
— Bom, sempre tem uma terceira, não é? – o demônio deu de ombros, despreocupado – Eu não escolheria ela… Você também tem a opção de renascer, mas duvido que tenha uma vida tranquila.
— Como se ela tivesse sido boa da última vez. – Kuroo riu com escárnio, murmurando para si mesmo – Será que tem como ser pior do que foi?
— Eles podem ser muito criativos. Eu não duvidaria nada.
— De qualquer forma, ainda tenho tempo para pensar. Eu sei onde encontrar vocês quando tiver decidido.
— Ehh… vai me dispensar assim? – dessa vez Tendou pareceu realmente ofendido, como se esperasse trocar mais palavras amigáveis – Me conte do padre bonitinho viajando com você. Como ele é?
— Deixa ele fora disso. Parece ser um cara legal. – Kuroo acenou com descaso, mostrando real desinteresse. Ele não queria nada com o padre além de levá-lo consigo até certo ponto. Bom, talvez tivesse um ou outro motivo pessoal, mas não precisava sair compartilhando seus planos.
— Mas eu não estou envolvendo ele em nada. Só perguntei como era. – um tom inocente vindo de um demônio nunca era confiável – Contudo, se eu tivesse oportunidade, ia aproveitar. Tenho certeza que ele participaria de sua pequena vingança, afinal, passou pelas mesmas coisas que você.
— Nem pense em contar pra ele! – Kuroo puxou-o pela frente das vestes, mas sua tentativa de intimidação não surtiu efeito, visto que o outro continuou sorrindo despreocupado.
— Por que eu faria isso? Vê? Eu estou aqui, conversando com você. Não tem risco de eu contar nada. Por outro lado, alguns conhecidos meus podem ter uma opinião diferente…
— Quem está com ele? – Kuroo perguntou curioso, sabendo que precisava entrar naquele jogo se queria respostas.
— No momento ninguém, mas se você não quiser nos ajudar pessoalmente, tenho uma lista de nomes que ficariam felizes em brincar com um padre.
— Vocês não vão me deixar aproveitar como quero, não é? – as mãos foram erguidas, como em rendição, junto com um suspiro frustrado – O que quer que eu faça?
— Não é óbvio? – Tendou sorriu maldoso, esmagando algo invisível em sua mão – Quebre o coração dele.
* * *
Akaashi ouviu passos se aproximando, mas não teve forças para se levantar. Pelo canto do olho conseguia ver a figura de Kuroo à frente, mas preferiu ignorá-lo. Não sabia o que pensar à respeito dele. Amigo? Inimigo? Alguém que só queria ver o caos instalado? Não queria pensar naquilo, preferindo fechar os olhos novamente e descansar, mas sentiu que o outro continuava vindo em sua direção e, quando tornou a abrir os olhos, ele parou à sua frente.
— Quer saber mesmo pra onde está sendo levado? – o padre não entendeu a pergunta mas não teve tempo para pensar a respeito, visto que o anjo se sentou sobre sua cintura, levando os dedos longos até seu pescoço, apertando-o – A ideia era fazer você culpar todos naquela igreja ao ponto de desejar a morte de cada um deles, mas até o seu executor você perdoou! Você não tem um pingo de orgulho, tem?
Keiji tentou afastar os dedos que o privavam de ar, mas ele era mais forte. Mesmo se não estivesse cansado pelos acontecimentos do dia e pela longa caminhada, tinha certeza de não conseguir repeli-lo.
— O q-... por... que? – então Kuroo era mesmo um inimigo. Ele o arrastou para todo lado, para então se livrar dele quando cansasse?! Ofegou ao conseguir um pouco de ar, para em seguida ser pressionado com mais força contra o chão.
— Nada pessoal contra Vossa Santidade, mas já que não vai ajudar, então preciso tirá-lo do caminho. – a criatura inclinou mais contra si, sussurrando em seu ouvido, mas soltou um resmungo doloroso e se afastou ao tocar, mesmo que de leve, o crucifixo que escorregou até seu ombro.
— Isso o afeta… – Akaashi murmurou, ignorando o olhar ameaçador em sua direção.
— Que esperto, mas chegar nessa conclusão não vai ajudá-lo.
O padre não esperou outra aproximação, puxando o crucifixo do pescoço e acertando-o em seu agressor, só então conseguindo tirá-lo de cima de seu corpo. Levantou do chão com algum esforço, correndo pelo caminho que haviam feito anteriormente. Akaashi não sabia o que tinha à frente, mas conhecia um pouco da estrada de volta. Se estavam andando em círculos, então não devia estar muito longe da bifurcação que levava ao outro caminho.
Tropeçou diversas vezes no chão irregular, arranhando as palmas das mãos e os braços ao tentar se erguer, ignorando as feridas nos pés que aumentavam a cada passo. Precisava pensar, precisava manter a calma e encontrar uma solução, mas antes de tudo, precisava fugir dali. Aquela pequena cruz em sua mão afastou seu algoz, mas até quando? E era resultado do objeto em si ou de sua fé nele? Uma igreja seria segura o bastante? Não viu nenhuma pelo caminho… não sabia nem onde estava.
Koutarou… ele era mesmo seu anjo da guarda? Onde estava agora que precisava dele? Se ele e Kuroo tiveram uma luta, então ele poderia estar incapacitado.
Rezava para que estivesse bem…
Tropeçou novamente, dessa vez ofegante e machucado demais para se erguer. Seu corpo todo latejava, desde a garganta seca até a ponta dos pés cortados e calejados. Olhou por cima do ombro, temeroso, mas não viu sinais da criatura. Não podia confiar ou se descuidar. Aquela coisa podia aparecer a qualquer hora e de qualquer lugar.
Tomando novo fôlego, Keiji se levantou com uma careta de dor, apoiando as mãos nos joelhos por um instante, para então ser chutado nas costas, voando alguns metros antes de rolar pelo chão até parar. Alguma coisa parecia ter se quebrado dentro de si, pois puxar o ar foi doloroso.
— Para alguém tão machucado, até que você foi longe. – Akaashi foi virado com o pé, arfando ao ser acometido de nova dor.
Seria ali o local de sua morte?
Duvidava muito… ele não ia deixá-lo morrer rápido ou sem dor.
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