Notas iniciais
Boa leitura!

A risada incrédula saiu baixa enquanto o suor escorria por sua face. Como a situação chegou naquele ponto? Por que não podia continuar com sua vida tranquila como um padre de cidade pequena? Akaashi tinha poucas tarefas para executar, o grupo se revezava para as orações, tinha um teto sobre sua cabeça, roupas limpas e três refeições, todos os dias. Realmente não tinha do que reclamar. Então por que, de todos ali, ele foi o único capaz de enxergar aquela criatura? E por que ele estava pagando por aquilo? Não é como se tivesse pedido por aquele dom...

Olhou para os lados, desolado, não conseguindo identificar nenhum dos colegas à sua volta devido aos mantos encapuzados que usavam, mas sabia que era o bispo quem se postava à frente, pois reconhecia a voz que pontuava as acusações.

— … bruxaria e pacto com entidades maléficas! – o homem concluiu em tom sombrio, arrancando ofegos de sua pequena platéia. O silêncio não foi quebrado em momento algum, todos surpresos ao descobrirem que um dos padres era quem os estava prejudicando.

Akaashi observava o povo logo abaixo, esperando receber algum olhar de solidariedade, algum sinal de que acreditavam nele, que alguém o defenderia, mas só conseguiu notar desprezo, repulsa e medo. Será que acreditavam mesmo que ele tentou lhes causar mal, mesmo depois de tudo que fez para ajudar? Seria aquele povo tão ingrato? Voltou o olhar aos céus, pensando se uma oração o traria algum milagre, mas sentia sua fé abalada. Teria fugido se pudesse, mas suas mãos estavam bem presas no alto, impedindo-o de se afastar. E, mesmo que conseguisse se soltar, todos aqueles troncos aos seus pés serviriam de obstáculo para impedi-lo de correr muito rápido.

Logo tudo aquilo arderia em chamas com ele ao centro.

Quando foi atrás do bispo em busca de novas informações, tentando descobrir se aquele palco seria mesmo para condenar o anjo, Akaashi mal teve tempo ou oportunidade de fazer qualquer questionamento. Imobilizado e trancado em um cômodo vazio, só pode esperar pelo desfecho daquela confusão, mas não esperava que o seu fim seria tão doloroso e vergonhoso. Não se considerava errado ou culpado de nada para merecer aquilo.

— Eu sinto muito, padre Akaashi…

Foi o murmúrio que ouviu antes de ver uma chama ser direcionada para a madeira no chão. Não reconheceu de quem era a voz, mas era melhor assim. Não queria direcionar ódio ou qualquer sentimento ruim para algum colega que visivelmente estava sendo obrigado a fazer aquilo. Imaginava que, se a pessoa negasse a tarefa, seria acusada de ser seu cúmplice.

Suspirou fundo, fechando os olhos e erguendo rosto, dando-se por vencido enquanto sentia o calor aumentar. Então era assim que as supostas bruxas se sentiam antigamente? Traídas pelo próprio povo que as viu crescer, sendo humilhadas e acusadas com provas sem fundamentos, para enfim sucumbirem às chamas. Akaashi riu de sua desgraça, sentindo uma lágrima correr por sua bochecha.

— Você não está tão mal se consegue sorrir.

Akaashi abriu os olhos, não confiando no que ouviu.

— Eu esperava ouvir gritos desesperados implorando por ajuda, mas me surpreendeu. Para um humano isso é algo raro, parabéns.

— O que…? – ele estava delirando, era isso. Estava imaginando aquela criatura estranha alada acima de sua cabeça. Ver uma podia ser sinal de algo errado, mas duas? Devia estar mesmo ficando louco – De novo não… O que eu fiz pra merecer isso? – questionou num sussurro, baixando o olhar para se impedir de ver aquela coisa.

— Merecer o que? Seu dom? Você tem uma alma bondosa, por isso foi abençoado.

— Benção? – Akaashi riu incrédulo, mordendo o lábio para conter um gemido de dor. Estava ficando quente demais ali – Isso é uma maldição…

— É? Não seja ingrato! Não são muitos que podem nos ver.

— Eu não quero ver… nenhum de vocês… Chega disso…

— Olha, se fosse levar sua vontade em conta, eu não me importaria em deixá-lo aqui, mas preciso da sua ajuda pra dar um jeito naquele idiota.

— E se eu não quiser ajudar? – independente de sua vontade, ele não poderia simplesmente sair dali achando que não teria nenhuma consequência ou que não seria perseguido.

— Hmm… nesse caso eu vou estar com problemas sérios… Tem certeza que não quer fazer um acordo? Eu posso te tirar daí.

— E isso é um acordo? – ele praticamente estava sendo obrigado a aceitar ou morrer, já que não havia outras opções.

— Ok, uma amostra de boa fé. – com um movimento das asas, a criatura fez a fogueira explodir, destroços de madeira incendiada voando em todas as direções, afugentando os moradores que assistiam à execução.

Akaashi tinha uma leve noção de gritos ao seu redor, mas a fumaça o impedia de ver muita coisa. As poucas sensações que se lembrava envolviam seu corpo livre, o vento batendo em seu rosto e então o solo firme abaixo de si. Quando seus sentidos, em particular sua visão, voltaram ao normal, o padre não sabia dizer sua localização, mas estava numa estrada diante de uma bifurcação.

Massageou os pulsos enquanto se erguia do chão, agradecendo a brisa fresca que o envolvia. Não saiu ileso da fogueira, algumas pequenas queimaduras e várias escoriações sendo visíveis, mas estava vivo e inteiro. Um movimento ao seu lado mostrou que a criatura ainda estava por ali, rodando-o.

— Obrigado. – o primeiro pensamento que cruzou a mente de Akaashi foi perguntar o que aquela criatura queria em troca, mas se estava vivo era graças a ela. Devia ao menos um agradecimento.

— Se seguir por ali vai chegar num vilarejo, maior que o outro onde morava. Vão te receber bem e sem grandes explicações. – o ser alado apontou um dos caminhos da bifurcação, parecendo ter certeza do que dizia – Comece uma nova vida.

Com um aceno de despedida, Akaashi o viu virar as costas, tomando o outro caminho. A curiosidade falou mais alto, além de ser óbvio que queria que fosse junto. Não era o que tinha dito antes? Queria sua ajuda para alguma coisa, ajudar o outro anjo.

— O que tem por aí? – questionou com um suspiro, enfim decidindo segui-lo. Não importava para onde fosse, teria que recomeçar a vida.

— Aquele idiota do Bokuto está perdido em algum lugar por aqui.

— Bokuto? Esse é o verdadeiro nome dele? – Akaashi se sentiu um pouco traído. Não mereceu saber nem o nome…

— Na verdade ele escolhe um diferente cada vez que cai. Eu parei de contar. – dando de ombros, a criatura voltou a caminhar após Akaashi tê-lo alcançado – Vai mesmo vir comigo?

— Você é mesmo um anjo? – Akaashi olhou o caminho que tomavam e o que deixava para trás. Ambas as estradas passavam por uma área arborizada, bem iluminada e com o percurso bem delimitado. Não tinha como se perder e não parecia perigoso. Mas ele também não achou que seria de perigo vital quando começou a conversar com Koutarou – Pra onde vamos?

— Como disse, procurar aquele idiota. Ele deve estar preso e não vai conseguir sair por conta do castigo, não está com a força total disponível.

— Ah… ele havia voltado pra… ahm… seja lá pra onde vocês vão. Ele disse que estava atrás de perdão…

— Não, não. Caiu de uma nuvem dessa vez. Na verdade, eu joguei ele. – a criatura contou satisfeita, sorrindo de canto – A culpa foi dele por se distrair!

Akaashi parou de caminhar, encarando-o incrédulo. Não era seguro… aquele ser podia estar mentindo. E pareceu sincero quando disse que jogou o outro. Era melhor voltar. Para qualquer outro lugar, longe daqueles dois.

— Ainda está em dúvida a meu respeito. – o anjo adivinhou após ver a expressão do padre. Não podia fazer muito a respeito de sua personalidade. Não dava pra agradar a todos, não é? – Eu não sou um demônio, se é o que está pensando. Vai notar a diferença quando encontrar com um de verdade. Ah, o cheiro é podre!

— Por que o jogou então? – o padre questionou num murmúrio, dando mais um passo atrás. Por que aquelas coisas estavam acontecendo com ele?

— Estávamos treinando. Ele ficou por aqui muito tempo, estava fora de forma. – na verdade, havia jogado sujo durante a luta e aproveitou uma distração. O problema é que estavam num ponto muito alto, não viu por onde sobrevoavam e acabou jogando o outro onde não devia. Se sentia arrependido, é claro, mas ainda dava tempo de buscá-lo.

— Tudo isso… é difícil acreditar… ainda não entendo como posso vê-los ou o motivo dele ter me procurado. Deve ter outras pessoas mais capazes…

— Eu posso responder suas perguntas, mas precisamos ir logo. Então te pergunto mais uma vez e pela última vez: vai vir comigo pra ajudar aquele idiota? Você não é obrigado. Pode tomar o outro caminho se quiser, tem minha palavra que vai estar seguro, em qualquer direção que escolher – o anjo estendeu a mão em sua direção, esperando uma resposta.

— Eu vou me arrepender disso… – Akaashi suspirou longamente, fechando os olhos antes de apertar a mão da criatura. Seria um milagre se conseguisse continuar vivo.

— Obrigado pelo voto de confiança, padre. Pode me chamar de Kuroo.

Notas finais
Continua....