Punição divina

10 Capítulo 10


Notas iniciais
Vou postar duas imagens de capa, coisa que raramente faço, mas sendo uma versão aqui no Spirit e a outra no Nyah. Direitos de imagem para BloodyForYou (zerochan) Boa leitura! Espero que gostem!

Akaashi não entendeu direito o que aconteceu, mas após aquela voz se elevar percebeu que estava novamente livre. Olhou ao redor, sem notar sinal do seu agressor, mas não conseguia baixar a guarda. Ele podia voltar.

Conseguiu se sentar com um pouco de esforço, apertando a lateral dolorida do corpo, tendo certeza que algo se quebrou naquele chute. Podia respirar, mas ainda doía e não sabia a extensão dos ferimentos internos. Ao erguer o olhar, uma figura alta tremeluziu à sua frente, aparecendo e desaparecendo no mesmo instante, deixando um contorno dourado à sua volta enquanto asas esvoaçavam às suas costas.

— Akaashi?

O chamado o tirou de seus devaneios, a figura alta agora ajoelhada à sua frente, tocando seu rosto com dedos quentes e gentis. Fechou os olhos por um instante longo demais, sua mente ciente do toque, mas desejando dormir sem se preocupar.

— Você precisa sair daqui. Precisa correr. Entendeu?

Sim, ele entendia… contudo, seu corpo não queria obedecer. Aquele toque gentil desceu até seu corpo e em pouco tempo a dor o abandonou e, mais uma vez, Akaashi quis muito dormir. Não tinha notado até então o quanto estava esgotado e o quanto se sentia seguro naquela presença.

— Você voltou… – o padre se ouviu murmurando, até ser levemente sacudido pelos ombros, abrindo os olhos em surpresa.

— Corra! Agora! – Bokuto voltou a se erguer e só então Akaashi notou o escudo que o anjo levava em uma mão, junto com uma adaga na outra – Lembra o caminho que fez até aqui? Procure o viajante na estrada. Precisamos dele aqui se quisermos evitar uma guerra entre os dois lados.

Akaashi ouviu as instruções, mas devia mesmo seguir? Kuroo havia evitado o viajante, não era perigoso ir atrás dele? Evitar uma guerra… um único ser seria capaz disso? E de que lado ele estaria? Eram tantas perguntas… sua cabeça estava tão cheia de incertezas…

— Akaashi!

Ele correu. Com todas as forças que tinha. Sem ousar olhar para trás, mesmo depois de ouvir um estrondo. Notou vagamente que seus ferimentos não doíam e sua mente o dizia que estava curado.

Pensou que conseguiria avançar pela trilha invisível sem dificuldades, mas o sol havia sumido há algum tempo e agora não tinha certeza do caminho que seguia. Podia tropeçar em qualquer coisa que estivesse há poucos metros de distância ou colidir em alguém antes de poder parar o passo. Mesmo assim, com tantas dúvidas, Keiji correu pelo caminho apontado por Koutarou, contrariando o que disse a si mesmo horas atrás, sobre não confiar em nenhum deles. Seria a última vez.

Última… aquela palavra pesou em suas costas, como um prenúncio de sua morte. Não teria nada para si adiante. Seria o fim.

Parou de correr, sentindo sua respiração tremer pelo esforço, os braços sendo cruzados à frente do corpo, como num abraço para se proteger. Não queria ir atrás de ninguém, só queria fugir até estar novamente seguro.

Notou as lágrimas quando sua visão embaçou, percebendo-se ajoelhado e encolhido no lugar. Já não sabia dizer se os tremores eram pela corrida desenfreada ou pelo frio que chegou com a noite.

— Sua hora ainda não chegou. – a voz veio baixa, assim como a chama na lanterna de vela, aumentando seu brilho gradativamente, iluminando a figura que sobressaltou o padre.

O primeiro instinto de Akaashi foi fugir, mas quando se virou para o outro lado da floresta, a figura estava à sua frente, a luz sendo erguida na altura de seus olhos. Alguns passos para trás na esperança de tomar outra direção, mas novamente teve o caminho bloqueado.

Akaashi não tinha certeza, mas parecia o viajante. Usava uma capa com capuz quando o viu mais cedo, então não reconhecia seu rosto, agora exposto. Ele parecia tão novo e, talvez pela sua estatura, quase podia ser confundido com uma criança.

— Você… você é o viajante, não é? – do que adiantava se desesperar naquele momento? Já havia notado que não podia fugir dele também.

— Kenma. – a confirmação veio com um nome e um aceno.

— Kou- não, Bokuto… ele disse para procurá-lo. – o momento era de urgência, mas Akaashi sentia uma estranha calma, assim como aconteceu quando conheceu o anjo na igreja, era como se estivesse sendo influenciado a notar apenas o que aquelas criaturas queriam que ele notasse.

— Ele sabe que não posso interferir…

— Mas… ele disse que você pode evitar uma guerra. Disse que precisava ir até lá.

— Não depende só de mim. – a criatura puxou o capuz sobre a cabeça, ocultando os fios e olhos dourados, virando-lhe as costas.

— Depende de quem mais?

A pergunta de Keiji ficou suspensa no ar, à espera de uma resposta que não veio. Kenma ainda afastou alguns passos antes de suspirar longamente, parecendo cansado.

— Vamos voltar. – Kenma se virou novamente, colocando a lanterna na ponta de um cajado, a alta estatura do objeto, ou talvez algum poder oculto que ele tinha, iluminando bons passos à frente no caminho.

— Voltar? Você diz para onde eles estão lutando?

— Não há perigo real pra você por lá. Eles não podem te forçar a escolher o lado deles. Não podem te matar também. – notando que não obteria respostas diretas, Akaashi concordou em segui-lo, se perguntando onde havia deixado sua sanidade, já que estava voltando para um lugar tão perigoso.

— Se não pode interferir e não depende de você, então o que pretende fazer lá? Nós podemos fazer alguma coisa?

— Nós…? Sabe, quase meio século atrás, numa cidade pequena esquecida por todos, havia um padre que certo dia conseguiu ver o que ninguém mais podia. Talvez ele não fosse tão bondoso quanto você, mas era inteligente, tolerante e não se limitava ao que diziam ser certo ou errado. Gostava de tirar as próprias conclusões.

Akaashi queria perguntar ‘Quem?’ mas preferiu ouvir sem comentar. Ao que parecia, aquela situação que passava havia acontecido antes com alguém e, se soubesse o final da história, podia escolher qual a melhor decisão a tomar.

— O anjo, que vivia entre os humanos há alguns anos, apenas observando sem interagir, teve a oportunidade de conversar e conhecer melhor aquele povo. Era diferente ver algo acontecer e então saber a razão por trás, o que motivava determinada atitude. Era um fato surpreendente, mas uma amizade surgiu entre aqueles dois. As visitas, antes raras e espaçadas, se tornaram diárias, as conversas mais frequentes, compartilhavam não só conhecimento, mas também a companhia.

Pararam de caminhar por um instante e Akaashi se perguntou se aquela criatura também teria dificuldades em identificar o caminho, como Kuroo disse ter, afinal não estava voando, mas a pausa não durou mais do que alguns segundos. Mesmo com a noite sem lua e a lanterna os guiando, o padre sempre conferia onde pisava, já tendo tropeçado duas vezes, mas o seu acompanhante parecia não ter nenhum problema.

— Certo noite, sentados na cama conversando, eles… o anjo confiava o suficiente no humano para fazer todo tipo de pergunta e, apesar de não parecer, ele estava curioso… queria saber mais a respeito de algo e o humano… ele também não tinha conhecimento suficiente, mas não se importava de testar…

Akaashi sentiu-se incomodado naquela parte, por talvez imaginar o que viria a seguir. Algo que um padre, assim como ele, não tinha conhecimento e era referente às pessoas em geral… algo que aquele demônio também sugeriu…

— Vocês dormiram juntos… – os pensamentos de Keiji saíram num sussurro audível e logo se recriminou por aquilo, afinal ele havia deixado Koutarou passar a noite ao seu lado.

— Foi só um beijo!

Kenma cobriu os lábios com a mão livre e Akaashi teve a decência de ruborizar. Em algum momento da história o padre percebeu que o anjo contava sobre si mesmo. Quanto à outra parte, Kuroo evitou o anjo mais cedo enquanto Bokuto pediu que o procurasse, mas podia não ser nenhum dos dois.

— O bispo, que na época era um noviço, acabou vendo. Ele não mudou nada. Não guardou segredo e não aceitou qualquer explicação.

Akaashi sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Havia se confessado para o bispo naquele dia, contou pessoalmente sobre o anjo que viu. “Um antigo colega já mencionou visões do tipo” foi o que seu superior disse, “não podemos confirmar nada com ele, pois morreu há alguns anos”.

O bispo não havia dito como o homem morreu, mas conseguiu visualizar as chamas à sua frente e havia um anjo que comentou consigo sobre esquecer as coisas do lado de lá. Ele sabia de quem Kenma estava falando.

Notas finais
Continua e em reta final! Faltam só 4 capítulos para terminar. Até o próximo!