Punishment Of Loki
42 Um novo líder para a S.H.I.E.L.D.
Notas iniciais
Loki havia sonhado que tudo era como antes. Ele montado num cavalo, e Thor montado em outro, ao seu lado. Os dois desfrutavam da adolescência recém-estabelecida. Em anos terráqueos e condição humana, teriam 15 primaveras de idade. Thor já possuía músculos e estava sempre sorridente, acenando a todo momento para Sif, que ainda tinha cabelos loiros. Os irmãos costumavam sair para caçar quando o primogênito de Odin não estava treinando. Loki se perguntava por que Thor treinava tanto ao lado do pai e ele não. Loki tinha menos obrigações como príncipe e talvez nem precisasse estudar magia, se não quisesse, mas era apaixonado por feitiços, além de achar agradável a companhia de sua mãe, Frigga. Era melhor quando acreditava que Frigga era sua verdadeira mãe. Ele sempre teve a impressão que Odin estava aguardando o momento certo para usá-lo, e não estava errado, mas a forma como as coisas se desenrolaram impediram o plano de promover a paz entre Jotunheim e Asgard se concretizasse.
Grace estava no Helicarrier. A pedido de Maria Hill, ela faria um depoimento às autoridades mundiais da situação de Loki, mas antes visitou na enfermaria, Pepper e Clint. Conheceu a filha do casal Stark, Nicole, e fez um passeio pela aeronave com Natasha, pelos dormitórios. Não muito tempo depois, Maria a chamou para a sala de reuniões e conferências. Um comitê de líderes mundiais a aguardava. Os líderes militares estavam presentes pessoalmente, mas todos os outros se comunicavam virtualmente. Fizeram silêncio quando entrou. Maria puxou uma cadeira para que a gestante se sentasse, e ao seu lado estava Steve Rogers, representando a voz dos vingadores, sondando o interesse político nos heróis.
_ É uma pena que isso tenha chegado a nível pessoal. — bradou Maria, em voz alta. — Nossa convidada do comitê é Grace Buckley, professora em uma escola local e estava presente no incidente na Torre Stark.
Grace agradeceu em voz baixa. Estava tranquila, e mantinha um sorriso discreto, e até irônico. Nunca imaginou que em algum dia de sua vida estaria num gabinete de defesa do planeta. Ela sequer sabia que isso existia.
_ A história é longa demais para ser contada com detalhes, mas posso resumir dizendo me envolvi com seu “inimigo” por curiosidade, fascínio. Com o tempo, Loki foi se familiarizando com Nova York e com as pessoas com quem conviveu, nossa relação intensificou-se, obviamente. O bebê não foi planejado, mas é por causa dele que Loki está se empenhado em manter o melhor comportamento possível. Ele não está livre de todos os truques e artimanhas, mas não apresenta ameaça para a segurança do mundo. Não mais. Eu o amo, e sei que Loki me ama também. Não tenho nada a mais para dizer.
Maria convidou Grace para conhecer as principais áreas do Helicarrier, e começou a contar como foi a passagem de Loki pela nave como prisioneiro. Ambas concordaram que era quase inacreditável o rumo que tudo tomou. Da sala de reuniões elas se locomoveram para o laboratório, restaurado, e vazio, naquela ocasião.
_ Foi daqui que Tony Stark e Bruce Banner rastrearam a localização do artigo que Loki roubou.
_ O cubo. Tesseract. Eu sei. — logo, Grace percebeu que seria melhor não ter dito aquilo. Como iria explicar o que sabe por que leu na mente do namorado?
_ Ele realmente divide tudo com a senhorita, Buckley, mas é melhor tomar cuidado. Muitos estão interessados nesse tipo de informação, e você ainda pode correr perigo.
Depois as duas pegaram um elevador e a próxima parada foi o aposento do container em que Loki foi trancado. O container, em si, não estava mais lá, mas o vão e todo aquele espaço não preenchido carregava um peso que qualquer um que ali estivesse seria capaz de sentir. Até mesmo o som dos passos de Grace e Maria faziam eco.
_ Loki ficou preso neste compartimento. — Maria ficou ao lado do painel de controles.
_ O que aconteceu com o aposento?
_ Ele foi desenhado para abrigar Banner, não Loki, e quando os servos hipnotizados por ele invadiram o Helicarrier, conseguiu escapar e colocou Thor lá dentro, antes de ejetar o container, atirando o próprio irmão para fora.
Grace franziu a testa, e lançou expressões de surpresa.
_ Se eu já o tivesse conhecido nessa época, eu o teria esmurrado, juro.
_ E ele a teria matado. — Maria pensou em se desculpar, pois Grace se calou e sorriu de forma estranha. — Me desculpe pela curiosidade, mas como vocês se conheceram?
_ Nick Fury o mandou trabalhar compulsoriamente numa escola primária, onde eu ensino artes e drama. Eu entrei na frente para encher minha garrafa de café, e ele olhou minha bunda e não conseguiu ler minha mente… E pronto, foi isso.
Maria não conseguiu responder.
_ Eu sei, é difícil de acreditar. Ele já leu a sua mente. — Mais uma vez, Grace escorregou.
_ Mas, como? Eu não posso acreditar...
_ Calma, não foi nada sério. Ele viu uma memória de infância.
_ Vocês dois foram feitos um para o outro. — Elogiou Hill. — Espero que seja feliz.
_ E eu desejo o mesmo para você e Steve. Também são parecidos.
Maria levou Grace para o lado de fora, onde um helicóptero a esperava para transportá-la de volta para casa. Com um aperto de mão, seguido de um abraço tímido, e agradecimentos, se despediram. Enquanto o helicóptero se afastava, uma mão chegou por trás e seguro seu ombro. Era Steve Rogers. Maria não sabia que ele estava ali e ficou um pouco desajeitada. Ele a beijou, e chamou para uma conversa em particular.
_ A defesa de Loki e dos Vingadores já foi concluída, e o pronunciamento de decisão para o novo diretor da S.H.I.E.L.D. também...
_ O quê?! Por que não esperou por mim? — Maria elevou o tom de voz, e ficou sem entender o motivo das expressões risonhas de Rogers.
Num dado instante, um técnico da aeronave passou pelo casal, focado nas anotações em sua prancheta. Ele parou no meio do caminho para prestar cumprimentos:
_ Bom dia, Capitão. Bom dia, diretora Hill.
Surpresa, e incrédula ao mesmo tempo, Maria encarou Steve com olhos arregalados, exprimindo sua ebulição crescente de sentimentos. Praticamente chorando de alegria, pulou nos braços do vingador:
_ Eu não mereço ocupar o lugar de Nick. — ela sussurrou em seu ouvido.
_ Tenho certeza que ele confiaria esse cargo a você, a maioria concorda. Eu tive que fazer um juramento, pois me escalaram como seu imediato, e nossa relação afetiva não deve interferir nas relações profissionais.
_ Um vingador como parte da diretoria da organização. Isso é maravilhoso. Chega de tratar todos os heróis como animais. Você é o que eles precisam para confiar na S.H.I.E.L.D.
_ E chega de vigílias desumanas. — reforçou Rogers.
Os dois correram para os quartos onde os amigos feridos estavam para dar a notícia. Era uma pena, uma vergonha que essa conquista tenha sido alcançada apenas com a ocorrência de uma grande tragédia. Bruce Banner os havia abandonado... A culpa que sentia era grande demais para que conseguisse olhar nos olhos dos amigos outra vez. Tony abriu uma garrafa de vinho, e fez uma prece por tempos melhores.
Durante a tarde, Loki e Grace foram ao Central Park, para uma caminhada. Era algo que faziam muito ultimamente. Era relaxante. Os ventos de outono sopravam folhas de diversas cores, de amarelas a vermelhas, lindo de se ver. Grace sorriu e agarrou o braço de Loki. Ela havia mudado tanto, e Loki também. Uma coisa que tinham em comum antes de tudo isso era o fato de serem dois jovens solitários, curiosos, e que sentiam prazer em se arriscar. Suas preocupações se tornaram muito maiores agora, não havia mais tempo para pequenos desejos infantis. Eles se tornaram um time, uma família. É claro que Loki sempre seria o mesmo casca grossa de sempre, mas seu orgulho acabou se dividindo no final.
Havia um barulho ao fundo. Uma trupe de crianças fazendo um passeio pelo parque. O casal subiu a trilha até uma ponte com o apoio feito de pedras para observar, a mesma ponte em que se encontraram pela primeira vez. Os dois compartilharam cenas da memória telepaticamente, como se cada um pudesse ver pelos olhos do outro.
_ Você se lembra, não é? — Grace sorriu pensativa.
_ Impossível esquecer… — Loki inclinou o corpo para frente, contra a proteção.
_ As suas demonstrações de magia para provar sua identidade… O beijo… o empurrão… E o outro beijo. — Loki apenas mirou seu olhar em Grace, ainda sentia um pouco de vergonha por aquele dia distante. — Vem aqui.
Grace, de um jeito apaixonado e delicado, puxou Loki pela gola da camisa com uma mão, e com a outra apertou suas costas, para que o corpo dele ficasse mais próximo ao seu. Depois, ela pôs as duas palmas das mãos sobre o rosto dele, e disse antes de lhe dar um longo beijo:
_ Diz que me ama, Loki.
_ Eu te amo, Grace. Amo você e nosso filho. — Loki respondeu, enquanto trocavam carinho.
_ Professora Buckley? Professor Laufeyson? — uma voz familiar e juvenil foi ouvida.
Quando Grace e Loki se viraram para saber quem estava ali, tomaram um susto. Não podiam nunca adivinhar que Gregory, o respeitado e querido aluno de ambos os estava espiando. Ele parecia surpreso, e confuso.
_ Oh, Gregory… O que está fazendo aqui, meu bem? — Grace não havia afastado Loki, ela na verdade, ainda estava abraçada com ele.
_ Nossa turma está fazendo um estudo de campo hoje. Sobre organização espacial. Eu achei que os tivesse visto e me afastei do grupo. Eu os segui e…
_ O que acha que está havendo? — Loki indagou, finalmente ficando de frente para o menino.
Ele hesitou antes de dizer qualquer coisa. Ficou com medo, pois sabia que não deveria estar ali.
_ Por que a professora Buckley chamou o senhor de Loki, professor Laufeyson?
_ Você quer contar a ele? — a gestante perguntou, e Loki assentiu, movimentando a cabeça. — Venha conosco Greg, vamos dar uma pequena volta.
Gregory praticamente os amava, e era uma criança muito doce e inteligente para sua idade. Quem teve medo naquele momento era Loki, de ser rejeitado pelo aluno que conquistou e o tornou mais sensato. Os três se sentaram num banco. O menino segurou a mão de Grace e deitou a cabeça sobre sua barriga, pronto para escutar o que tivesse que ser escutado. Olhando aquilo, o deus podia imaginar se fosse possível, um filho mais velho no lugar do aluno, enquanto Grace esperava por outro. Lendo a mente dele, Loki viu que Greg já desconfiava da relação entre os dois, e que a suspeita era um assunto secreto entre os colegas. Já havia passado da hora de revelar a verdade, e não estavam a fim de enrolar mais, queria ir direto ao ponto, mas com muita calma.
_ Você se lembra da invasão alien à Nova York? Onde estava?
_ Sim, foi terrível, de acordo com meu avô. Por sorte eu estava viajando com meus pais, mas vovô me disse que o melhor amigo dele, o único que restou de sua infância foi assassinado pelos monstros.
_ Gregory, aquilo foi… Foi minha culpa. Todos que se foram… Eu gostaria que soubesse o tanto que me arrependo disso agora, e vai ser um peso que sempre carregarei comigo. É como se fosse uma dor, mas nunca vai passar.
_ Professor Laufeyson não é o seu nome então? Você mentiu? — ele estava apreensivo.
_ Eu sou Loki, o deus da injúria e da mentira. E sou filho de Laufey, rei de Jotunheim.
_ Por que você veio aqui?
_ Para me arrepender, para aprender que eu existem seres mais importantes que eu no universo.
_ Greg, querido, quando Loki se tornou mau, e egoísta, ele havia acabado de passar por uma decepção muito grande com a família dele, lá em cima, em Asgard. — Grace complementou.
_ Asgard existe! — seus olhos se arregalaram. — É por causa dele ser quem ele é que vocês se escondem?
_ Odin, o rei, mandou Loki para cá para aprender a lição. Saiba que você, e todos da sua turma ajudaram a causar uma mudança em Laufeyson.
_ Mas você ajudou mais, professora Buckley. Vocês vão ser uma família.
Loki e Grace entreolharam-se. Pobre Gregory, não sabia das dificuldades da gravidez e da previsão de morte sobre ela. Disso ele não precisava saber.
_ Gregory, olhe, diga aos seus colegas que às duas da tarde eu darei uma aula especial sobre astronomia, do jeito que fui ensinado em Asgard. Poderia dar esse recado por mim? — ele concordou, entusiasmado.
_ Loki, eu vou levá-lo de volta ao grupo. — e mentalmente ela sussurrou: “Não sei se os verei novamente…”.
Loki apenas colocou as mãos no rosto, arrasado. Ele sabia por que Grace estava tão calma naquele dia. Ela podia sentir que a hora estava próxima e tinha finalmente aceitado a visão destinada a si. Era inútil dizer que existe uma saída. O que será, será, e Loki se sentia culpado por ser pai da morte do amor de sua vida.
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