Punidores - O Punidor Selvagem
2 Uma taça
O sol não precisava se pôr para Roughtop mergulhar em trevas; as nuvens que cobriam os céus acima da cidade traziam a noite mais depressa que o normal. Os moradores tinham a poluição das fábricas para agradecer por isso.
Dentre tantos infortúnios que passara durante seus quinze anos de vida, Havny se dizia sortudo por não precisar trabalhar dez horas por dia, como faziam as outras crianças de famílias humildes. Era uma realidade complicada. Ficavam horas e mais horas operando máquinas que, por acidente, acabavam triturando suas próprias mãos.
Segurando a alça da caixa dentro da qual a escova e a lata de graxa chacoalhavam, Havny fez o caminho de volta para casa, preocupado, temendo o que haveria por trás daquele encontro com a esbelta orelhuda de olhos vermelhos. Passando por um beco estreito e fedido, lembrou-se de que sempre havia muita gente em uma situação bem pior do que a sua.
— Uma moeda para que eu possa viver um pouco mais, senhor? — gemeu um mendigo com a voz rouca, estendendo a mão em forma de concha. Ele não tinha mais que uma coberta desfiada para se proteger do frio.
Em vez de ignorá-lo pelo caminho, como se via os demais fazerem (quando percebiam algum mendigo), Havny parou e o olhou com um olhar condolente por baixo da aba de sua boina. Teve a amarga lembrança do assalto que levou seus 120 creevs. Aquele pobre homem certamente não sabia disso. Seja como fosse, a fim de evitar que sua consciência o perturbasse mais tarde, Havny enfiou a mão no bolso e despejou quinze moedas na mão do homem. Ele olhou as moedas como quem acabara de ganhar joias; olhou para Havny e abriu um sorriso amarelado e cansado.
— O rapaz tem bom coração! — disse o mendigo. — O reino dos céus é dele.
No percurso de volta para casa, Havny sempre passava por ruas estreitas, espremidas por uma fileira de prédios dos dois lados, trilhadas por eventuais escadas que ora subiam, ora desciam. Aquelas partes seriam completamente escuras se não fossem os postes. Era possível ouvir a voz da enxurrada dos esgotos trovejando abaixo dos pés durante as épocas chuvosas. Mais adiante, caminhava por ruas mais espaçosas, onde se via os calhambeques estacionados, jornais esvoaçando com o vento e donos de estabelecimentos fechando as portas. Os vira-latas encolhiam-se sobre os tapetes debaixo do toldo dos estabelecimentos, os gatos desfilavam sobre os muros.
Que coisa será essa?, perguntou-se, segurando aquela bússola gelada entre os dedos enquanto andava. Por que ela me entregou isso em vez de me pagar normalmente? Restaria apenas o tempo para descobrir a intenção da traiçoeira Ynares.
A casa de Havny — apesar de nunca conseguir dizer que tinha uma casa — ficava na rua Hoofbells, que tinha o espaço ocupado por uma sequência de casarões espaçosos. Andou mais um pouco e lá estava ele, na porta gradeada que dava para uma suntuosa casa de dois andares. O jardim era enfeitado por arbustos aparados e perfumado pela fragrância das orquídeas, que se misturava com o orvalho daqueles dias frientos, dando uma súbita sensação de monotonia. Ao esfregar as botas no tapete da entrada, limpando a umidade suja na qual veio pisando, Havny suspirou fundo, abriu a porta e entrou.
O interior da casa confirmava a impressão refletida no exterior, mas Havny pouco se importava com aquele tapete vermelho, os estofados de bordas douradas, a lareira de mármore, ou o lustre cristalino no teto. Estava sempre vendo aquilo tudo todo dia, e bem sabia que nada o pertencia nem indiretamente.
A sala estava vazia, o que Havny notou com um sentimento de alívio. Ele prosseguiu para a cozinha e, de lá, para seu quarto, que nada mais era do que um quartinho onde se guardavam vassouras, baldes e os produtos de limpeza que a criada usava para lavar desde móveis até roupas. Com sorte ainda tinha espaço para seu colchão ali no canto empoeirado, e um pequeno baú ao lado, onde acabara de adicionar a bússola ao seu humilde cabedal. Ao lado daquele baú ele largou sua caixa onde guardava seus companheiros inseparáveis: graxa, flanela e escova. Aqueles três sempre souberam que Havny sorria aos clientes para esconder uma escuridão mais profunda do que a de Roughtop em seu coração.
Em meio à bagunça de seu baú, onde se amontoavam roupas velhas, sapatos, antigos carrinhos de madeira e até umas guloseimas que Havny mal se lembrava de ter comprado, escondida bem no fundo, também havia uma outra caixa menor. Uma caixinha adornada que ele abria de vez em quando para contemplar o brilho de um objeto cilíndrico feito de metal. Era o cabo de uma espada ladeado por dois gumes sustentados por uma barra horizontal no topo da empunhadura; uma coisa que ele nunca se arriscava a tocar. Estava intacto ali, até hoje, e havia de permanecer. Tocar aquilo poderia levá-lo ao destino que mais tentava evitar: ir para a Excelência.
Se Havny não comprasse o próprio alimento com o próprio dinheiro, teria de comer a ração canina que lhe fora deixada há vários meses no mesmo canto; a embalagem permanecia intocada até então. Era difícil ajuntar algum dinheiro enquanto precisava estar constantemente investindo na própria sobrevivência. Pior que isso, só tendo 120 creevs roubados em um só dia.
Havny pegou, de dentro de um saco de estopa, um sanduíche que comprara há pouco tempo e uma lata de refrigerante. Enquanto comia, sentado sobre o colchão, foi capaz de ouvir uma inquietação procedida de passos acima de sua cabeça, no segundo andar. Parou de mastigar para melhor ouvir. Parecia haver uma discussão entre duas pessoas. Curioso, o garoto deixou a lata de refrigerante no chão e pousou o sanduíche acima; levantou e foi até a portinha do quarto. Sem conseguir ouvir nada, saiu sorrateiramente do quarto.
Voltando até a espaçosa sala, Havny se deparou com o mesmo vazio. A única coisa que teria mudado ali era a lareira agora acesa, que o despertou certo interesse. Ele foi até ali, ainda ouvindo a discussão propagando baixa do segundo andar. Na mesinha de vidro que dividia o sofá da lareira havia uma garrafa de vinho, duas taças cheias e um frasco estranho ao lado, contendo um líquido amarelado.
Mas o que é isso? Havny franziu as vistas na direção daquele frasco. Quando já se aproximava para melhor observá-lo, seu corpo enrijeceu-se ao ouvir as vozes subitamente mais altas. Olhou na direção da escada e viu Loifi descendo perseguida pela criada, que parecia aflita. Logo atrás das duas veio o mordomo, sem falar nada.
— Por favor, senhora, escute-me — suplicava a criada.
— Fará bem em não me chamar de senhora outra vez — revidou Loifi com rispidez. E foi assim que Havny aprendeu a não chamar nenhuma mulher de senhora, ainda que ela tivesse cinquenta e dois anos.
— Mil perdões! Precisa acreditar em mim! Eu tenho três bocas para alimentar todos os dias! Não pode me mandar embora desse jeito sendo que nem toquei no seu colar de pérolas!
Os três chegaram até o meio da sala, onde Loifi freou os passos acima do tapete. Sua veste era abotoada até a gola, como uma indumentária digna de Roughtop; apenas tons de cinza, preto e marrom. Em suas rugas, discretamente escondidas por trás da maquiagem, havia uma máscara de desdém com a qual ela agora contemplava a aflição da criada.
O mordomo permanecia imparcial, trajado em um libré negro, com as mãos para trás, apenas aguardando ordens.
— Sabe de uma coisa, Elly — começou Loifi. —, talvez eu esteja mesmo errada. — A esperança começava a crescer nos olhos da criada. — Pretendo dar-lhe uma chance.
— Tens a minha palavra! Jamais lhe furtaria um grão! — reforçou a criada.
Houve um momento de silêncio.
— Está bem. Peço desculpas pela forma como agi — suspirou Loifi. Havny ficou surpreso ao vê-la pedir desculpas, e não acreditou que houvesse alguma sinceridade ali, pois bem a conhecia.
— Fique tranquila, minha senhorita, eu compreendo sua desconfiança. Se houver algo que eu possa preparar para lhe acalmar, uma cabidela, talvez?
— Não, não, não… — negou Loifi. — Acho que é você quem precisa se acalmar um pouco. Por que não tomamos um belo vinho suave?
A criada enrubesceu.
— Obrigada, senhorita, mas não bebo, você sabe…
— Oh, por favor, não recuse este convite, minha cara Elly. Eu não o faria a qualquer um, você sabe também — insistiu Loifi, indo até a mesinha onde jaziam as duas taças de vinho. Só então seus olhos se encontraram com os de Havny, que permanecia ali como uma estátua; mas ela o ignorou como se ele não existisse. Foi até o sofá e se assentou, e a criada sentiu-se obrigada a acompanhá-la. Ao menos ela forçou um sorriso para cumprimentar o garoto. — Agora, um brinde — Loifi segurou sua taça e entregou a outra para a criada.
Notando um clima suspeito, Havny tornou a encarar aquele frasco de líquido amarelado sobre a mesa; estava pela metade. O que era aquilo e o que estava fazendo ladeado de duas taças de vinho? A mão enluvada do mordomo logo retirou o objeto da vista de Havny e o deixou em outra mesa de canto da sala. Quando menos percebeu, as duas tilintaram suas taças uma na outra, tomando um gole logo em seguida. Havny sentiu vontade de gritar, mas era de fato uma péssima ideia. Por que sentiu vontade de gritar? Ainda não tinha certeza e temia descobrir tarde demais.
— Saúde — sorriu Loifi.
A criada retribuiu um sorriso tímido.
— Obrigada por acreditar em mim e…
— Por favor — Loifi interrompeu com sua mão de dedos delgados. — Já passou, não precisamos falar mais disso. Eu posso muito bem comprar outro colar.
Definitivamente, Havny não queria ficar ali. Ele conhecia Loifi muito bem para perceber que algo de muito ruim estava para acontecer. Deslizou um passo para trás e virou-se para voltar pelo caminho de onde veio, mas o peito do mordomo o impediu de passar.
— Sua madrasta quer a sua presença aqui — disse o mordomo, movendo o bigode branco que cobria a boca.
— Eu vou para o meu quarto — Havny respondeu em equivalente altura, enquanto Loifi e a criada conversavam mais descontraidamente no sofá.
— Não posso permiti-lo, me desculpe.
O garoto sentiu um medo apoderando-se cada vez mais de si. Olhou para a taça de vinho que a criada tornava a beber e voltou a encarar o mordomo.
— O que você fez? — sussurrou Havny.
— Você sabe, senhor Kytsam, jamais faço algo que sua madrasta não tenha me pedido.
— O que era aquilo?
— Do que fala?
— Falo do frasco de vidro que você tirou dali.
O mordomo hesitou em falar qualquer coisa, porém a dúvida já começava a ser esclarecida pelas tosses da criada.
— O que foi, minha cara, Elly? — perguntou Loifi, sem preocupar em disfarçar o escárnio.
— Está tudo bem, senhorita. Apenas… — a criada se interrompeu, engasgada. —, engoli de mau jeito. — Virou outro gole para acompanhar a madrasta, sem saber que aquilo estava a matando.
— PARE! — Havny finalmente gritou.
Elly o olhou com um espasmo.
Foi quando o garoto notou a espantosa vermelhidão que preenchia o branco de seus olhos. Era tarde para fazer algo por ela.
Primeiro a taça escorregou entre seus dedos trêmulos, caindo e derramando o resto do vinho no tapete que era da mesma cor; em seguida, ela apertou a barriga com uma mão e usou a outra para apoiar o peso de seu corpo. Tudo isso passava diante dos olhos indolentes de Loifi sem refletir o mínimo remorso.
— Me ajude… — gemeu Elly, começando a chorar, engatinhando sobre o tapete. — Chamem… um médico!
— Perdão, disse alguma coisa? — indagou Loifi com sarcasmo.
— AJUDE ELA! — berrou Havny, apontando para a criada.
A madrasta lançou um olhar demorado a ele e disse:
— Ajudá-la? Por que eu faria isso? Para que ela continue me roubando?
O garoto ficou chocado, vendo a criada rastejando pelo próprio vômito. Ele tentou fugir para seu quarto, mas o mordomo o segurou imediatamente.
— ME SOLTE! — gritou ele.
Loifi pousou a taça sobre a mesa e foi até Havny; segurou-o pelos cabelos e girou sua cabeça na direção de Elly ainda agonizando.
— Veja bem o que acontece com quem me rouba — disse ela.
— TIRE AS MÃOS DE MIM! — Ele levou uma surra na cara ao gritar aquilo. — DEREK! FAÇA ALGUMA COISA! — Outra surra.
— Olhe bem, seu cachorrinho! Olhe bem o que vai acontecer se você encostar um dedo nas minhas coisas! OLHE!
O mordomo, que estava ali de pé acompanhando a situação do início ao fim, não revelou mais do que indiferença no rosto. Tudo que ele fez, além de impedir que Havny fugisse para seu quarto, foi trancar a porta da sala.
A criada acabou não suportando o próprio peso. Depois de muita agonia, soltou-se sobre o chão com o corpo tomado por uma convulsão violenta que a chacoalhava da cabeça aos pés. E Havny foi forçado a ver aquilo, sendo surrado a cada tentativa de evitar.
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