Fugir de Roughtop; denunciar o crime de Loifi à delegacia; suportar. Essas eram as três únicas opções de Havny, no entanto, ambas o levariam a outro possível problema. A proposta mais tentadora era fugir; mas para onde? E como ganharia a vida? Acabaria como aquele mendigo que por vezes encontrava no caminho de volta para casa?

Por que não devolveu o colar à madrasta? Talvez porque ela já o mataria só de saber que o havia tocado. Então, por que chegou a não só tocá-lo, mas roubá-lo?! Desde pouco tempo, para Havny, lei não passava de uma ideia abstrata sem valor algum. Esse pensamento não o assombrava até ser assaltado, inutilizando quase um mês inteiro de esforço, voltando para casa todos os dias com as mãos imundas e uma migalha sem a qual era condenado a viver de ração canina! Então se transformara num covarde? Havia alguma diferença nisso? Afinal, tudo não girava em torno do valor prático das coisas?

Seja qual fosse a saída daquele impasse, ela não se mostrou muito clara para Havny no momento, e não havia muito o que seu amigo pudesse fazer além de ouvir seus desabafos. Merick lhe reforçou a ideia de vender aquele colar e jamais exibir a Bússola aos olhos de quem ele não confiasse, muito menos vendê-la.

Que se dane a Bússola!, pensava Havny. Sua vida estava em risco e a consciência mais pesada que uma bigorna. E por pensar em bigorna, onde é que seu pai, um outrora aclamado forjador de punidoras de Kimlat, estaria agora? Por que não respondia aos seus pedidos de socorro? Os larosternas lhe retornaram todas as cartas que escrevera, soltando pios de insatisfação. O irmão àquela altura servia à Excelência, e Havny não queria contato com o exército por nada. Merick não poderia ouvir seus choros para sempre, até porque sempre andava ocupado demais com seus projetos. Logo não haveria quem escutar seus lamentos.

Não demorou muito para que a voz do dever chamasse Merick de volta para Mancaster, e Havny cercou-se de solidão outra vez, perambulando por ruas frias e outras fedidas com mais um dia nublado pairando sobre a cabeça. Os senhores que me desculpem, mas o engraxate morreu por tempo indeterminado, pensava ele quando via alguns de seus costumeiros clientes transitarem pela praça sem encontrá-lo. Não havia restado mais energia para manter aquele sorriso falso no rosto.

Era o peso de uma vida nas costas de um garoto de quinze anos. Àquela altura já desistira de sonhar com uma infância saudável. E foram muitas as vezes em que ele se via cercado de sofrimento; sempre esteve. Embora nunca os tivessem visto, Havny sabia que Elly, a criada, tinha três filhos para cuidar e trabalhava quase que em prol disso. Mas e agora? Eles talvez nunca soubessem o que aconteceu à mãe, e não demoraria muito para se juntarem aos garotos órfãos que surgiam correndo pelas ruas do império, pedindo empregos e fazendo de tudo para manter suas pequenas barrigas cheias — quando não estavam roubando.

Cansado de andar, chorar nos becos e clamar por uma ajuda divina na qual não acreditava, Havny decidiu voltar para aquela casa horrível. Seu medo cresceu bastante desde a morte da criada, a qualquer momento ele poderia ser o próximo. Jamais aceitaria qualquer comida ou bebida que a madrasta lhe oferecesse de agora em diante. Não faria muita diferença, pois ela nunca oferecera algo digestível.

Antes de encenar Boa tarde para Loifi no sofá, com o mordomo em pé ao seu lado, Havny deparou-se com outra surpresa desagradável. O mordomo segurava uma caixinha adornada que ele se lembrava muito bem de ser seu mais precioso pertence que escondia no fundo do baú. Seus olhos insofridos iam da caixa ao mordomo, do mordomo à madrasta.

— Essa caixa não é minha? — finalmente conseguiu falar.

— Você pensou mesmo que eu não descobriria, não é, seu cachorrinho? — tripudiou Loifi.

— Mas… o que você fez?

— Não se inquiete. A Excelência logo virá buscá-lo. Daí, você terá um bom motivo para ter esse seu brinquedinho.

Numa expressão mista de espanto e angústia, Havny revelou o quanto temia seu destino.

— Levante essa franja — ordenou Loifi. — Que coisa… — resmungou ela, desapontada por não ter encontrado a marca da punição na testa do garoto. — Imagino que nunca tenha chegado a esbarrar em seu brinquedinho, não é?

— Eu não queria ir para o exército — Havny respondeu com a voz rouca.

— Por que não? Lá você poderá fazer algo melhor dessa sua existência insignificante. Lutar e morrer por Roughtop. Claro, poderá rever seu querido irmãozinho também.

A vontade de rever o irmão não era maior que a vontade de não ir para o exército, embora Havny já tivesse perdido várias horas relembrando os incontáveis bons momentos em que tanto riram juntos na infância. Ele queria ser livre, feliz, ver a luz do sol, sair de Roughtop! Mas seu resto de liberdade estava agora por um triz.

Desde a década passada, a Excelência passou a inspecionar todos os distritos de Roughtop a fim de encontrar e submeter punidores selvagens ao exército, onde seriam instruídos a manipular suas paranormalidades e usá-las em prol dos interesses governamentais. Um caminho sem volta.

Não importava o quanto cobiçassem a Excelência, Havny nunca se sentiu pronto para enfrentar o regime militar, apesar de que já vivia um bastante semelhante — senão pior. Sua cabeça começou a trabalhar loucamente em um meio de evitar aquilo. Quando menos percebeu, o desespero já o levava na direção do mordomo para tomar-lhe a caixa. Por um momento, esqueceu o quão pequeno era.

Com a caixa embaixo do braço, o mordomo empurrou o garoto ao chão facilmente; sua boina voou da cabeça.

— Não se atreva, senhor Kytsam — disse o mordomo, balançando o dedo branco.

Isso não impediu Havny de erguer-se de pé e se lançar em outra tentativa, mas foi impedido por unhas pontudas que cravaram fundo em seu braço.

— Comporte-se, cachorrinho, ou irá para um lugar pior! — disse Loifi, machucando o braço do garoto de tão forte que o apertava.

Com um movimento brusco, ele foi capaz de se libertar das garras da madrasta e se pôs a correr na curta direção que o separava do mordomo. Aquela sofreguidão parecia tê-lo assustado, pois ele já estava evitando Havny por detrás dos móveis da sala, tentando mantê-lo distante, como se o garoto fosse um animal feroz.

Loifi tentou agarrá-lo outra vez, mas Havny pôde prever; fugiu aos braços balançantes da madrasta e contornou a mesa em direção ao mordomo. Com um salto no momento exato, arremessou-se contra o mordomo, que já se virava na direção do telefone, jogando-o contra o chão e fazendo a caixa esvoaçar de sua mão e cair aberta com um baque sobre o tapete vermelho da sala. O reluzente objeto metálico escapuliu pela abertura; os olhos de Havny brilharam. Tarde demais para tentar evitar a marca da punição. O mordomo fisgou a mão no casaco de Havny no momento em que ele tentava se recompor. O garoto continuou a içar-se com todas suas forças, a presilha estalou e ele despiu-se do casaco; correu e jogou-se ao chão, tocando a punidora, ao mesmo tempo em que Loifi fez do lado oposto.

No mesmo instante, uma luz começou a arder na testa de Havny, e foi possível vê-la refletir nos olhos arregalados da madrasta. Queimava, mas ele suportou até que a marca da punição se formasse no mesmo lugar do brilho agora esmaecido, tudo isso enquanto lutava contra a madrasta para manter a punidora consigo. Era mais pesada do que aparentava.

Mas punidoras seladas jamais poderiam ser tocadas por alguém a qual não foram designadas, com isso, as mãos de Loifi transbordavam vapor ao som de uma constante queimadura elétrica. Ainda assim, isso não a impediu de soltá-la. Sua face se contorcia em uma expressão demoníaca. Foi quando, por acidente, Havny sentiu uma espécie de trava ceder na parte da empunhadura onde seus dedos estavam fechados, o que terminou por desatar uma estaca pontuda contra a barriga da madrasta, atravessando-a em uma terminação ensanguentada nas costas. Os olhos negros de Loifi esbugalharam; um jato de sangue escapou pela sua boca e manchou o rosto aterrorizado do garoto.

Mas a punidora de Havny não era formada por um único gume, o que ele só compreendeu quando as duas outras lâminas laterais saltaram, expelindo uma sequência de segmentos afiados que se afundaram no corpo da madrasta com violência, fazendo-a soltar um rugido esganiçado.

Tudo ao arredor parecia ter desaparecido. Havny não viu nada além de si mesmo empunhando sua punidora atravessada no corpo de Loifi, enquanto que ela encontrava-se estática e com um brilho opaco nos olhos, o vestido empapado de sangue. Mais uma vida abatida pela sua própria negligência. Suas mãos, assim como o rosto, pingavam sangue. Durante o transe no qual agora se encontrava, Havny pôde pensar e repensar em muitas coisas que outrora pensara ou fizera, mas uma pergunta sem resposta assombrava-lhe a mente: No que eu me transformei?

Teve tempo de vislumbrar cada segundo dos estertores de sua maldita madrasta, que agora dava seus últimos suspiros a caminho dos braços da morte. Por que eu me sentiria mal por isso?, questionou-se o garoto. Ela sempre me humilhou e me tratou como um cachorro; mas olha só pra mim… eu a puni com minhas próprias mãos! Foi quando, naquela expressão inocente e amedrontada do garoto, brotou um sorriso. Eu a puni, confessou com uma estranha satisfação. A marca da punição coruscou sobre sua testa, enchendo-o de vigor. Uma vítima cheia de culpa era um prato cheio para um punidor.

Reunindo toda sua coragem, ao arrancar a punidora de dentro da madrasta junto de suas tripas entrelaçadas pelos gumes da punidora, Havny a viu cair sobre um lago de sangue aos seus pés. Pouco depois, percebeu um vulto no canto do olho. Girou e apontou a lâmina ensanguentada a poucos centímetros do mordomo, que esgueirava-se às suas costas traiçoeiramente, segurando uma garrafa de vinho vazia na mão. Ele levantou as mãos e a deixou estilhaçar aos seus pés. Pela primeira vez, foi possível notar uma expressão em sua face: medo.

— Você trabalhava pra ela — disse Havny, encurralando-o com sua punidora. — Seria bom entregar outro corpo ao túmulo.

— Abaixe a arma, Kytsam. Você não é um assassino — a voz do mordomo ainda era calma.

Com a outra mão, Havny exibiu o colar que roubara, sem desconcentrar de sua possível vítima.

— Então foi você… — o mordomo franziu as vistas.

— Promete que não vai contar a ela?

— Isso não está engraçado, Havny. Solte a punidora.

— NINGUÉM ME DIZ O QUE FAZER!!! NÃO MAIS!!!

No silêncio em que a sala emergiu só se ouviu o arfar insano do garoto punidor.

Havny foi deslizando em passos lentos, contornando o mordomo sem abaixar a lâmina tremulante por um momento. Agachou-se para recolher o casaco.

— É melhor não surgir em meu caminho de novo, Derek — ameaçou ele com um olhar sanguinário.

Antes de se lançar para longe daquela casa, Havny destruiu o telefone da sala com uma pancada de sua punidora; correu para o quarto, recolheu suas últimas moedas na caixa e, enfim, bateu a porta da sala, por onde prometia nunca mais entrar.

Derek já não estava mais ali quando saiu.

No momento seguinte, com a punidora retraída e enfiada no cinto, Havny se viu correndo pelas ruas de Roughtop, como um selvagem, enxugando o rosto e as mãos com o casaco. Infelizmente, não se lembrou de catar a boina, que também caíra na sala durante o conflito. Sua face estava explicitamente manchada de sangue, e isso era alarmante demais.

Ele estava prestes a redescobrir o mundo além do Topo, depois de anos confinado nas alturas daquela chapada — se não fosse capturado por algum guarda. Mas não estava muito entusiasmado com a oportunidade. Sem dizer da dificuldade que enfrentaria para ganhar permissão para fora do distrito.

Tentando sombrear o rosto com a mão sempre que passava por uma parte mais movimentada, Havny subiu e desceu escadarias de bairros elevados e outros mais inclinados, contornando cada beco obscuro para evadir o movimento da cidade. Ao menos pôde agradecer por não estar em pleno meio-dia.

Uma hora depois de muita correria, acabou acontecendo justamente o que Havny temia: os guardas se alertaram e começaram a abrir caminho pelas ruas, perseguindo-o. Derek só poderia tê-lo denunciado assim que saiu de casa. Só de pensar na hipótese, Havny voltou a se perguntar o motivo pelo qual poupou sua vida.

O problema agora eram os guardas de Roughtop, não a Excelência. Havny quase engasgou-se com o próprio coração quando viu dois guardas vindo ao seu encontro, vociferando ordens aos seus companheiros e denunciando-o com dedos em riste. Sem pensar duas vezes, o garoto enfunou-se nas profundezas dos becos que se abriam ao lado, sendo perseguido pelo ecoar de botas que cresciam a cada minuto.

Ao virar uma das esquinas, Havny topou com um terrível beco sem saída do outro lado. Avaliou as costas por um segundo e concluiu que seria alcançado se ousasse recuar um único passo.

— Merda, merda, merda! — choramingou ele.

Sua bota pisou forte sobre uma poça, levantando um arco de água pútrida. Sem adiar mais, avançou pelas profundezas daquele beco inclemente que, por incrível que pareça, acabou por levá-lo a uma situação otimista. Uma saída promissora revelou-se na forma de uma caçamba que se erguia à frente do muro que vedava o final do beco. Sem parar de correr, Havny subiu a caçamba e saltou de encontro ao muro. Aos guardas ele não deu mais que o vislumbre de sua silhueta caindo do outro lado do muro escarpado.

Quanto mais corria, mais caminho aparecia pela frente. O tempo passava. Havny precisou se recuperar escondido nos cantos para depois voltar com a sua correria, cuidando para não ser visto por nenhum guarda.

Com a respiração a arranhar-lhe o peito como um arame farpado, quase três horas depois, Havny estava percorrendo o bairro mais baixo do distrito do Topo, o que só podia significar que já se aproximava da saída. Os postes dali já estavam acesos, a escuridão do final da tarde serviria ao menos para disfarçar um pouco da mancha em seu rosto. Pôde passar pelas ruas sem maiores percalços, mas não cedeu o ritmo. Seu desespero o levara a fazer todo tipo de coisa que jamais se imaginou fazendo, e isso incluía desde confrontar o mordomo e a madrasta até escapar dos guardas.

Finalmente, uma vista infinita que lembrava o mar abria-se à sua frente: o limite do Topo. A orla da chapada era pontilhada por uma sequência de elevadores que subiam e desciam pelo pavimento de concreto da montanha, transportando, na maioria das vezes, uma multidão de cidadãos economicamente desfavorecidos que prestavam serviços no distrito. Havny ouviu rumores de que o pedágio havia aumentado muito, a fim de reduzir o número de pobres espalhados pelo Topo, que havia de ser um dos melhores distritos para se viver. Seu dinheiro dificilmente seria suficiente para pagar a passagem.

E agora?

Espionando pelo canto de um muro, ofegante, Havny viu um grupo de pessoas aguardando pelo retorno de um dos elevadores. Pretendia ir por aquele. Assim que o transporte emergiu, a porta gradeada foi aberta. Quatro homens e uma senhora saíram de lá; os demais que aguardavam começaram a entrar um por um, entregando o pedágio a um oficial, que contava as moedas minuciosamente por baixo da sombra de seu chapéu.

— Ei! — O guarda puxou Havny pela gola do casaco assim que caminhava até a cabine sem pagar um tostão. — Onde pensa que vai, pirralho? Quer me passar a perna, então?

O oficial empurrou o garoto, fazendo-o tropeçar e cair sentado ali, vendo todos os passageiros abordos exceto ele, observando-o com melancolia.

— Se não for pagar, é melhor sumir daqui — disse o oficial, apontando longe.

O primeiro plano falhou.

Na melhor das hipóteses, parecia que a informação sobre sua procura não havia chegado aos ouvidos daquele, já que estava distante do centro. Havny poderia tentar muitos outros elevadores, mas os guardas agitados que surgiam pelo final da rua às suas costas encurtaram seu tempo de agir.

O oficial já caminhava até a alavanca que conduzia o elevador abaixo, até que o grito de Havny o interrompera. Ele viu o garoto levantar-se e ir até ele, retirando um belo colar do bolso, entregando-o com sofreguidão.

Enfiado desconfortavelmente no meio dos passageiros fedidos, Havny teve tempo apenas de vislumbrar três guardas por entre a dupla porta do elevador, que acabava de se fechar de ambos os lados com o acionar da alavanca. Depois de uma estremecida, o elevador logo começou a descer de uma altura vertiginosa, onde só se ouvia o gorgolejar das engrenagens e o silvo das brisas lá fora.

Em meio à neblina que se alastrava, pontilhada pelas luzinhas dos postes distantes, uma infinidade de silhuetas de manufaturas e edifícios revelou-se aos pés de Havny, dando-o boas-vindas à vastidão do império de Roughtop, cuja grandeza só então ele pudera testemunhar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.