A torre do relógio marcava cinco horas da tarde. Inerte no movimento da calçada. Ali no sul da praça, os homens e mulheres que passavam à sua frente não eram mais que borrões desfocados, que iam ora para esquerda, ora para a direita. O coro dos cidadãos foi substituído por um ruído abafado que lembrava a voz do mar. E por falar em voz, de tempo em tempo, Havny ouvia os últimos gritos de socorro da criada ecoarem de alguma parte da cidade. Seis dias já haviam se passado desde a sua morte.

A boca estava entreaberta. Os olhos cinzentos, cheios de desolação, conseguiam focar uma única coisa: a imagem de Senes se formando com as hábeis pinceladas de um pintor desconhecido ali na rua. A figura de uma mulher recurvada e nua, de rosto e seios vendados por duas longas madeixas negras, ganhava mais e mais vida. De sua face parecia não haver mais que o nariz e os lábios, e, mesmo assim, Havny tinha a impressão de que ela o olhava dali.

— Havny!

Havny abafou um grito e olhou espantado. Não era ninguém querendo matá-lo, igual fez parecer pela maneira como olhou, mas sim seu único amigo de Roughtop pelo qual tanto esperava reencontrar: o jovem inventor Merick Greevial e sua cabeleira marrom espichada para os lados. Seus óculos de meia lente na ponta do nariz caracterizavam seu nível intelectual. O casaco verde-escuro com o brasão da coruja nas costas o identificava como um prestigiado estudante da Academia Mancaster, construída nas proximidades da Nimble Square.

— Nossa, você parece que viu um fantasma! — estranhou Merick. — Que cara é essa?

Havny respondeu com uma olhadela na tela de pintura do artista ali na calçada.

— Céus, o que esse cara tem na cabeça? — exclamou Merick, franzindo as vistas. O pintor lançou um olhar desagradável, parecendo ter escutado a afronta.

— Esse lugar está me sufocando, Merick. Preciso muito falar com você — Havny virou-se para o amigo com uma expressão insofrida no rosto.

— O que houve, cara? Aconteceu alguma coisa? Olha, fica tranquilo, é só uma pintura de muito mau gosto; não creio que vá sair dali.

— Eu não teria tanta certeza disso. Mas essa pintura é o menor dos meus problemas… por enquanto.

Merick ficou preocupado.

Andando em direção ao centro da Nimble Square — pois já não estava agradável ficar observando aquela pintura —, perto de onde engraxava os calçados dos nobres, Havny tentou explicar da melhor forma cada problema que se passava. Eram muitos. O pior deles, a morte da criada, ele decidiu deixar para o final da conversa, se é que lhe restaria fôlego até lá.

— Tem certeza de que ela era uma umbra? — perguntou Merick em um tom sinistro ao ouvir Havny descrever a mulher orelhuda cujas botas engraxara dias atrás. Seu nome permanecia nítido em sua mente: Ynares.

— E você acha que existem evorianas cinzas de cabelos negros e olhos vermelhos? — disse Havny. Sua cabeça estava mais concentrada na amarga morte da criada Elly.

— Então aquela conversa toda de umbras em Roughtop não era mentira, afinal de contas?

— Só posso dizer o que eu vi. Ela era alta, sensual, usava uma roupa preta estranha e reflexiva. Tudo que ela pediu foi para que eu engraxasse as botas dela e… — Havny enfiou a mão no bolso e exibiu o que ele ainda pensava ser um relógio de bronze. —, me pagou com isso.

Os dois pararam de andar ao lado da fonte de Beethrand. A escultura era uma homenagem erguida em honra ao comandante Hoe Beethrand, que ficou marcado na história por ter extirpado os umbras que guarneciam a chapada do Topo, no ano de 745 DQT, coordenando um poderoso bombardeio aéreo que desnivelou a montanha. Entretanto ainda restavam lendas sobre umbras que sobreviveram ao ataque e agora habitavam as partes mais escusas da montanha.

Com a permissão de Havny, Merick tomou-lhe o relógio e o analisou em suas mãos, franzindo as vistas atrás das lentes.

— Cara — murmurou Merick, segurando o objeto pela corrente. —, isso daqui era pra ser uma bússola, mas o ponteiro deve ter perdido a magnetização. A questão é: eu nunca vi uma bússola de dois ponteiros divergentes antes. Parece um relógio, mas não pode ser.

— Pensei em vender isso. Não me tem utilidade alguma — resmungou Havny, sentando-se sobre a borda da fonte. A natureza do objeto era a menor de suas preocupações.

A expressão de Merick passava por várias mudanças: ora estava convicto, ora duvidoso, enquanto continuava a virar o objeto em todas as posições possíveis, até que então, tendo descoberto uma escritura desconhecida em alto relevo na parte de trás, Merick exclamou:

— Guarda essa coisa, Havny! — Ele devolveu o artefato tão ligeiramente que parecia queimar-lhe as mãos. — Se isso for o que eu penso, é aquela tal Bússola que aponta a direção dos dois fragmentos da Punidora Tirana!

Havny não acreditou naquilo tão precipitadamente, até porque possuía uma inclinação cética que, por sinal, já estava com os dias contados. Por via das dúvidas, enfiou o artefato de volta ao bolso sem se alarmar demais.

— Não saia mostrando isso de novo! — acrescentou Merick em advertência.

— Ok, Merick, agora eu tenho um problema mais real.

— Como assim problema mais real? Cara, quantos punidores estão procurando esses fragmentos às escuras enquanto que você tem a orientação bem aí em suas mãos! — Merick tomou fôlego. — Já parou pra pensar se isso cai em mãos erradas?

— Não, e eu estou pouco me lixando pra essa desgraça de Punidora Tirana, Senes, Ladwin, umbras e toda essa porcaria do mesmo saco! — O tom de Havny calou o amigo. Levou quatro segundos de silêncio para se arrepender. — Desculpa, Merick… por favor, preciso que me ouça com atenção, aconteceu algo muito grave ontem e eu estou perdido, sendo que você é a única pessoa com quem eu posso contar aqui.

Merick costumava se ofender fácil, mas decidiu abrir uma exceção, ao que fez parecer pela forma maleável como reagiu naquela hora.

A praça não era um bom lugar para tocar naquele assunto. O melhor seria um espaço menos movimentado possível. A ideia de Merick foi uma cafeteria. Sem ver uma melhor, Havny logo aderiu.

Com moedas o suficiente para pagar seus lanches de primeira mão todos os dias em Mancaster, Merick pagou um café para si — teria pagado para o amigo também, se ele não tivesse recusado a oferta.

A cafeteria era calma, não se ouvia mais que o burburinho dos clientes acompanhado do tilintar de xícaras. Talvez não houvesse lugar melhor do que ali, no canto perto da janela, sem ninguém por perto, para Havny expor os fatos.

— Antes, eu queria perguntar uma coisa — começou Havny. Uma lembrança diferente lampejou em sua mente para desconfortá-lo ainda mais, como se não bastasse. Foi difícil dizer aquilo, e muito menos estava à vontade, mas seria um peso a menos. — Quero que me responda com sinceridade e sem zombar — Havny tirou a boina da cabeça. — Eu pareço uma garota?

Não bastou alertar, Merick quase cuspiu o café. Tampou a boca e devolveu a xícara ao pires.

— Era isso? — perguntou ele com uma voz esganiçada, tossindo enquanto batia no peito.

— Não, não era isso. Foi só uma pergunta aleatória. — Havny permanecia sério. Só então começou a se arrepender de ter perguntado. — Já me veio um idiota pragmático questionar minha sexualidade.

— Não vejo problema nisso! — consolou o estudioso com um risinho. — Acho que você deveria experimentar mais a vida, é o melhor jeito de se livrar das cismas.

O garoto enxugou uma gotícula de suor na testa e decidiu largar aquele assunto de vez. Começou a contar sobre o acontecido da noite passada. Merick perdera o sorriso no rosto e agora o horror parecia crescer em sua face com o desenrolar daquela história. Os olhos se arregalaram ao ouvir a parte do vinho envenenado e a maneira como Loifi forçou Havny a assistir a morte da criada.

— Meu… DEUS! — Merick ficou boquiaberto, como esperado. — Isso é loucura! Você tem que sair dessa casa, cara! Ou denunciar à polícia! Não pode deixar por isso mesmo!

— Por favor, fale baixo. Eu não tenho pra onde ir, você sabe muito bem. Se pudesse, nunca teria pisado naquele inferno. E se um policial bater naquela porta, eu serei o próximo a morrer.

— Não pode simplesmente aceitar isso tudo calado. Pense só até que ponto isso pode…

— Eu não terminei de contar.

Havny abaixou a cabeça.

Chegara a parte mais difícil que tanto tentou adiar. Mas precisava revelar aquilo a alguém, do contrário, sufocaria de vez; já que não havia nenhum Ladwin para consolá-lo de todos seus tormentos, apenas Merick.

A garçonete estava ocupada nos fundos, sorrindo enquanto servia os poucos clientes da cafeteria. As duas mesas mais próximas estavam vazias, o que era motivador. Não era como se Loifi tivesse contratado espiões para vigiá-lo, embora, àquela altura, ele já não duvidava de mais nada do que a perversa madrasta fosse capaz.

— Então conte, oras — gesticulou Merick, olhando-o inquieto.

— O colar de pérolas… — balbuciou Havny, recuando a mão de dentro do bolso com um belo colar de pérolas emaranhado entre os dedos, reluzindo com a luz das luminárias da cafeteria. — Não foi a criada quem o roubou.