Notas iniciais
Este é o primeiro capítulo do quase lançado livro Punidores - O Punidor Selvagem! Não hesitem em expressar suas opiniões! ;-)
– Capítulo 1 –

Bem-vindo a Roughtop

— Umbras; ninguém fala sobre outra coisa ultimamente. Quando você pensa que as coisas não podem piorar, o imperador começa a acreditar no retorno de Tiranur — reclamava o Conde Chevallier, com sua peruca branca balançando com o movimento da cabeça.

— O Deus Tirano? — questionou Havny, esfregando a flanela na bota do conde.

— Exatamente! Aquela entidade superior que ninguém nunca viu, mas a temem mais que o próprio patrão.

— Já fazia um tempo que eu não ouvia o nome dele passar por aí — comentou o garoto, sem tirar a concentração das botas do conde. — Afinal, a lenda diz que Tiranur foi banido pelo próprio filho, não é mesmo?

— Oh, sim. O benevolente Ladwin que vela pela vida dos justos e pelo florescer das novas ideias — o conde fez uma pantomima recheada de desdém. — Veja só — indicou uma fonte logo ao lado, onde no centro se erguia a estátua de um militar imponente, cortejado pelo jorro de três chafarizes. —, aí está alguém cujos feitos vão além de especulações. Hoe Beethrand lutou e morreu pelo império. Se não fosse por ele, não teríamos nosso humilde distrito do Topo, e o destino da Segunda Guerra poderia ter sido trágico para nós sem esse ponto de vantagem.

— Tem toda razão — aquiesceu Havny. No silêncio que se seguiu, perguntou: — Mas então? O que consolou o imperador, Senhor Chevallier?

— Simples — Chevallier envergou os ombros. — Joguei a obrigação no colo da Excelência. Ao menos, posso dizer que tenho o Parlamento a favor da ideia. Afinal, todos sabem que não há ninguém melhor do que eles para lidar com esse tipo de problema.

Havny já dava um sorriso de aprovação, até absorver melhor o que acabava de entrar pelos seus ouvidos: A Excelência. Teria ele algum motivo concreto para alimentar seu temor pelo exército?

— Daqui a poucos dias, eles estarão aqui em Roughtop, farejando cada esquina em busca de pistas sobre umbras! Quem sabe isso convence o imperador? Só posso dizer que fiz a minha parte como seu assessor real. Agora, acreditar nessa besteira toda sobre o retorno de Tiranur… é pedir demais para um homem de bom senso.

A notícia desacelerou os movimentos de Havny com a flanela sobre a bota do conde; algo o perturbava. Tal reação levou o nobre a finalmente abaixar a cabeça para olhá-lo.

— Qual é o seu problema, garoto?

— Problema? — exclamou Havny sobressaltado. — Perdão. Não foi nada, senhor — retomou o serviço, firmando a concentração, pensando em palavras para dar continuidade ao assunto, ou formar outro, pois era assim a sua rotina: ter o que falar com todo tipo de gente enquanto engraxava botas e sapatos. — A Excelência sempre dá um jeitinho nas coisas, não é? Se todo esse problema for paranoia ou não, eles vão saber.

— Bom… isso é o que veremos — suspirou o conde. Depois de um silêncio, indagou, parecendo só então ter percebido quem engraxava suas botas: — Você não parece ser de Roughtop.

O garoto inclinou os olhos prateados, que teriam supostamente levado o conde a fazer aquela pergunta.

— E não sou — respondeu. — Minha família migrou para Kimlat assim que eu nasci. Meu pai trabalhou como ferreiro por um bom tempo. Ele tem uma oficina em Ratcher, onde forjava arma para os soldados.

— E por que ele não forja mais?

Havny ficou quieto por um instante, pensando numa resposta. Veio uma vontade de chorar, mas ele a suprimiu por debaixo da aba de sua boina.

— Faz anos que não o vejo.

Então, finalmente pôde descansar os braços.

Havny viu o Conde Chevallier se levantar com um olhar de aprovação sobre suas botas. Foi pago com quinze creevs, em vez de sete, como era feito de costume. Tudo levava a crer que seu cliente ficou bastante satisfeito com o resultado final — ou já não tinha mais onde enfiar dinheiro. De qualquer forma, Havny sentiu-se incentivado com a gorjeta.

A Nimble Square situava-se entre o Parlamento, o Banco de Bronze e a Academia Mancaster, o que levava os nobres e ricos a transitarem com frequência pelo pátio. Estes raramente recusavam um brilho a mais em seus calçados.

O garoto já se espreguiçava, estralando os ossos da coluna, quando interrompeu seu bocejo ao ouvir algo bater sobre a caixa onde o conde acabara de tirar o pé. Vislumbrou um sapato bicudo e fosco, clamando para ser engraxado. A ponta de uma bengala fez um toc ao bater no chão ao lado. Havny estreitou os olhares cinzentos acima e viu um homem de aspecto austero, aguardando sem dizer nada. Vestia um fraque preto, tinha uma cartola na cabeça e uma gravata borboleta no pescoço. As suíças de seu rosto ligavam-se até a barba. Era Gregor Perez, um filósofo pragmático de grande destaque em Roughtop.

— B-boa tarde, senhor — cumprimentou Havny, sem perceber a entoação monocórdia da própria voz.

— Boa tarde — respondeu o filósofo de aspecto tenso. — São sete creevs, não são?

— Sim, senhor.

— Pois bem — Gregor retirou as moedas do bolso.

— O senhor pode pagar no final do trabalho.

— Por quê? — Gregor franziu as vistas. — Você vai pegar o dinheiro e sair correndo?

— De forma alguma!

— Então pegue logo.

Já que insiste, pensou Havny.

Lá estava mais um sapato sendo engraxado. Agora só restava pensar em um assunto para conversar com o filósofo; soou desafiador da primeira vez. Mas antes que soltasse uma palavra da boca, Havny notou que Gregor não era tão lacônico quanto aparentava, embora preferisse que fosse ao ouvir aquilo.

— Você parece uma garota — comentou o filósofo, inclinando a cabeça para enxergar o rosto do garoto.

— O quê? — Havny ergueu a cabeça com as sobrancelhas estreitas.

— Já sei. É homossexual, não é?

Por um longo momento, só se ouviu o coro dos cidadãos e o motor dos carros que contornavam as ruas em torno da praça.

— Não, eu não sou, senhor — respondeu com o pouco de voz que lhe restara.

— Entendo — Gregor assentiu com a cabeça, sem parecer muito convencido.

Havny viu que ainda precisava continuar na busca por um assunto (e como precisava!).

— Vi você no jornal. Sua filosofia é muito interessante, senhor! — Foi difícil dizer aquilo sem parecer irônico.

— Ela é tudo que Roughtop mais precisa agora — respondeu o filósofo, sem mostrar muita modéstia. — Tudo caminharia para o sucesso se não me grudasse um parasita — seu rosto retorceu ao falar aquilo. — Ele passou tinta branca no nome da minha filosofia e escreveu Pregnância!

Havny mexeu os lábios ao ouvir o nome.

— Pragmatismo, não? — perguntou.

— Sim, sou O Pragmático. Se alguém vier me chamar de pregnântico ou o lixo que for, não terei remorso em enfiar um soco bem-dado na face, embora esteja um pouco velho demais para isso, ainda tenho força nos braços. Eu não consigo acreditar que esse traste ganhou espaço na manchete. E adivinhe só… como se não bastasse, entupiu a minha filosofia de conceitos teocráticos, onde havia de caber apenas o bom senso em comum, focando apenas no valor prático, nos fatos! Não significa que ninguém possa acreditar na existência de um Ladwin da vida, ou deus de seja lá o que for que vele carinhosamente pela vida de todos. Se isso faz o indivíduo se sentir bem e não prejudica aos demais, não há problema!

Desabafos também faziam parte da rotina de Havny, mas aquele parecia ficar fora de controle. A impressão era a de estar prestes a ser atingido pela bengala de Gregor, que parecia ansioso para descontar sua raiva em alguma coisa.

Se havia entendido bem o problema que se passava, o filósofo estava revoltado por outro ter supostamente readaptado sua doutrina com conceitos teocráticos. Uma coisa que veio perdendo espaço em Roughtop ao longo dos séculos era fé. O homem ansiava por se libertar do dogmatismo religioso e esteve obtendo sucesso graças aos primeiros passos daqueles que arriscavam a se expressar diante do público.

A expansão mecânica também contribuía para o despertar da razão; a igreja parecia preocupada com tal tendência. O Pragmatismo era apenas uma filosofia que mais tarde encorajaria outros movimentos antropocêntricos em Roughtop. Mas uma coisa era certa: a ideia de um ou mais seres onipotentes jamais se afastaria da mente do homem.

— Passou da hora de nós tomarmos as rédeas de nossas vidas e parar de culpar os deuses pelo que acontece nelas — discursou o garoto, esperançoso de agradar o filósofo com o seu argumento. — E Pregnância parece uma doença transmitida por ratos — acrescentou.

O filósofo ergueu a cabeça acima com a boca aberta. Havny começou a se preocupar com aquela reação. Teria machucado seu pé acidentalmente? Ele estava tendo um infarto? Não. Só depois as risadas de Gregor vieram à tona, sobressaindo no ambiente em um tom de tamanha satisfação. Tudo graças a um bom insulto à sua doutrina rival.

— Gostei do seu jeito, garoto — Gregor se acalmou. — Muito eloquente para um engraxate, mas, para estar no Topo, só pode ter vindo de berço de ouro.

Havny sorriu, aliviado com a aprovação.

— Essa é a prova viva de que a homossexualidade não interfere na racionalidade do indivíduo — acrescentou Gregor com seu fôlego renovado.

A expressão de gratificação desapareceu do rosto de Havny tão rápido quanto fogo de palheiro.

Foi difícil acelerar o serviço sem sujá-lo, mas assim Havny fez, inquieto para se livrar daquele sujeitinho difícil de se lidar. Provavelmente, o mais difícil de todos os seus clientes. Por menos que ele se lembrasse, aquela já era a décima quarta vez que Havny estava engraxando seus sapatos. Quando terminou, o filósofo se firmou sobre a bengala e se pôs de pé, ajeitando a cartola na cabeça. Nem se quer conferiu o estado dos pés, apenas desejou uma boa tarde ao garoto e se retirou em passos levemente desconcertados.

Ao menos, teve tempo de esticar o esqueleto sem mais um pé pisar sobre a caixa. Havny assentou-se no banco e tirou a boina que cobria a cabeça; um chumaço de cabelos loiros arrepiados saltou para fora.

Então eu pareço uma garota?, pensou ele, lançando um olhar rude ao filósofo, que se distanciava na direção do Parlamento, do outro lado da praça. Seria melhor consertar aquele trejeito, do contrário, não haveria cliente até o final do dia. Aquela conversa prometia atormentá-lo por um bom tempo.

A única pessoa com quem Havny sentia-se livre para falar de seus problemas não apareceu por ali: Merick Greevial, um projeto de gênio que estudava numa universidade especializada em formar criadores de bugigangas, a Academia Mancaster. Não era uma escola acessível a qualquer jovem. Se não fosse por tantos creevs em jogo, talvez fosse possível para qualquer um em Roughtop entender de mecânica e criar coisas engenhosas.

Minutos se passaram.

Havny se distraiu pinçando os fios de seu cabelo que grudaram no fundo da boina. Ninguém chegou ali, e a boina já estava limpa. Ele deu uma conferida no ambiente à sua volta. Além dos calhambeques desfilando pelas ruas que contornavam a praça, viu que o movimento de pessoas se abrandava. Era intervalo de almoço, apesar de que foi em um dia como aquele, nublado e vagaroso, em que foi assaltado por um bandido armado, perdendo os 120 creevs que viera ganhando com seu esforço diário; o suficiente para mantê-lo revoltado por meses. Desde então, nunca mais saiu com o dinheiro todo no bolso.

Já que as coisas continuaram daquele jeito, Havny resolveu fazer um lanche numa lanchonete que ficava logo a uma rua de distância, pois seu estômago já começava a cobrá-lo. Com o tanto que ganhou naquele dia — especialmente pela gorjeta do conde —, pôde comprar uma salsicha empanada e uma latinha roliça de refrigerante Wear’s; e ainda sobraram moedas para ocupar o bolso. Se algum ladrão o abordasse de novo, desta vez levaria umas vinte e duas moedas, em vez de 120. Não era uma filosofia saudável, mas era o máximo de otimismo que Havny conseguia ostentar.

O refrigerante era uma invenção recente que se espalhou em Roughtop; foi capaz de proscrever os sucos saudáveis da dieta da população em poucos dias. Parecia levar apenas vinte e quatro horas para alguma coisa virar moda. Antigamente, antes de se tornar uma latinha escura enchida com suco de aripe gaseificado (pequenas bagas suculentas de cor azul), o refrigerante era usado apenas na medicina.

Na lanchonete, um pequeno rádio de madeira tocava músicas clássicas sobre o balcão. A melodia submergia entre a voz dos operários que ali faziam suas refeições, rindo e contando piadas tão imundas quanto eles mesmos. Ali Havny terminou sua refeição ao mesmo tempo em que se divertiu com os casos desastrosos que os trabalhadores traziam de dentro das fábricas.

De volta ao centro da praça, perto da estátua de Beethrand, o garoto deu uma sacada na área, avaliando o movimento mais uma vez. Concluiu que talvez fosse uma boa ideia ficar próximo das escadarias da fachada do Parlamento, onde a alta classe se reunia. Soltou um suspiro e olhou para sua caixa, que permanecia intocada desde que saiu para lanchar. Quando se agachou para recolhê-la, eis que outra bendita bota pisa sobre sua superfície novamente, fazendo-o recuar as mãos com um susto. Havny se recordava muito bem de não haver alguém por perto há um segundo, o que o deixou ainda mais assombrado.

Com as mãos ainda recuadas, seus olhos aos poucos se inclinaram, passando pela bota negra, depois uma coxa lisa amarrada por um par de cintas, um corpo pálido de seios salientes, semivendados por uma espécie de maiô negro que parecia ser feito de látex. Mas a maior surpresa foi, ao alcançar o rosto de sua cliente, notar duas orelhas espichadas e pontudas se alongando de cada lado da cabeça. Aquela tinha tudo para ser uma bela e sedutora evoriana de longos cabelos negros, divididos em duas mechas que se entornavam por sobre suas clavículas. Porém, evorianas não tinham olhos rubros quase que cintilantes.

— V-você… engraxar as botas, não é? — gaguejou ele, sem saber onde fixar a atenção.

Ela assentiu com a cabeça, retendo uma expressão fria e calculista no rosto.

— É pra já, senhorita — Havny aprendeu a nunca chamar as mulheres de senhora. Meteu a boina na cabeça, espremendo a juba loira e moveu-se ligeiramente para tratar das botas de sua cliente pálida. A parte mais difícil foi não dar atenção àquele corpo. — Vem sempre por essas bandas? — ousou ele, tentando parecer natural.

— Mais do que imagina — ela respondeu.

O garoto franziu a vista; parou de engraxar por um segundo; voltou a engraxar. Não podia ser verdade. A última mulher a sair com um maiô mais discreto do que aquele foi presa e acusada de atentado ao pudor.

— Não deve sair muito de casa então — concluiu ele.

Ela nada falou.

Nos segundos que se seguiram, ouviu-se apenas o ruído da escova sobre a bota. Havny viveu tempo o suficiente em Roughtop para saber que aquilo era completamente fora do normal, apesar de existir outras coisas e pessoas exóticas além da chapada. A mulher parecia pouco se importar com o ambiente à sua volta; até apoiou a perna lisa acima da outra cujo pé era engraxado.

— Então… como se chama, senhorita?

Ela não vai falar, eu sei que não. Ela não tem cara de quem vai falar; aposto tudo que não vai falar por nada.

— Ynares — respondeu ela, dando uma ênfase no s que a fez parecer uma serpente.

Ela falou, surpreendeu-se Havny.

— Encantado — gaguejou ele. — Me chamo…

— É um prazer conhecê-lo pessoalmente, senhor Kytsam — interrompeu ela.

Havny ateve a escova sobre a bota.

— Quem é você? — perguntou ele, direcionando-a um olhar suspeito. Aqueles olhos rubros… céus! Já os tinha visto há muito tempo! O coração de Havny lhe socava o peito mais forte à medida que se dava conta da criatura com a qual estava lidando.

— Alguém com quem você não tem negócios a tratar além de engraxar minhas botas — disse ela no que pareceu uma ameaça.

Havny apenas voltou ao serviço, mas estava abismado. Não falou nada até que as duas botas estivessem reluzindo de maneira impecável, pois temia muito pela insatisfação daquela freguesa.

— Bom garoto — Ynares o acariciou o rosto com a costa da mão coberta por uma luva, deixando-o quase imobilizado; em seguida, se levantou. Largou no banco um objeto que segurava nas mãos o tempo inteiro. — Boa sorte em sua busca. — Sem dizer mais, ela deu um aceno sedutor e se retirou, rebolando o quadril de um lado para o outro. Foi possível notar o que seria o cabo de uma faca saindo de cada cinta negra que cobria suas coxas. Do outro lado da praça, Ynares sumiu no primeiro carro que passou pelas suas costas.

Vários minutos se passaram, e Havny mal percebera que ela já havia desaparecido de vista. Só então ele se deu por conta de que a estranha mulher lhe havia deixado um objeto redondo como pagamento.

Era frio e feito de bronze. Havia dois ponteiros fixados dentro de uma cápsula cristalina, onde estavam marcados os quatro pontos cardeais. Talvez fosse um relógio de bolso, pois vinha acompanhado de uma corrente, mas um relógio havia de marcar apenas horas, não direções. Seja lá o que fosse, Havny não estava com paciência para descobrir.

Segurando o artefato misterioso com as duas mãos, ele ergueu os olhos na direção onde a mulher desfilou antes de desaparecer e murmurou consigo mesmo:

— Não sou homossexual…

Notas finais
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