Punhos e Batom
1 Capítulo 1 - Bom Dia!
Dayane fechou a cara, cruzou os braços, bufou e batia o pé direito repetidas vezes no carpete assim que Carla entrou para pegar as últimas caixas da mudança. Sua cabeça estava num turbilhão de pensamentos, já havia brigado tanto e chorado tanto por causa de uma traição, agora estava apenas com raiva, esperando Carla sair para poder bater a porta do apartamento em sua cara. Quando se aventurou em sair de sua pequena cidade do interior em busca de uma vida melhor em São Paulo, nunca imaginou que levaria um tombo enorme como esse. Afinal, se não fosse por Carla, Dayane jamais teria vindo pra capital, comprado um apartamento com suas economias de infância e metido a cara num trabalho tão terrível como atendente de uma grande livraria. Ela aceitava sua infelicidade no trabalho desde que tivesse sua namorada por inteira lhe apoiando e lhe confortando nesses momentos mais chatos do dia a dia.
Porém, na semana passada, o alerta vermelho pipocou no peito de Dayane quando Carla chegou tarde pela terceira vez. Sua namorada estava bêbada e cheirando a perfume que não era o dela. E quando lhe questionava, Carla sempre se esquivava dizendo ter ficado até mais tarde com os amigos do escritório de contabilidade onde trabalha. Contudo, num golpe do destino, Dayane descobriu Carla aos beijos com Lyla, a dona do salão de beleza onde frequentavam. A empresária era muito amiga das duas, mas por algum motivo que Dayane nem fez questão de entender, fez com que essa bendita amizade se transformasse em noitadas frenéticas regada a muito sexo, bebidas e drogas. O mundo de Dayane caiu. De repente, seu amor, sua paixão, estava entregue em outras mãos. Uma das maiores decepções de sua vida.
— Eu errei, Day. Qual é... Me dá uma chance... A gente...
— Não existe “A gente”, Carla! Você destruiu a minha confiança. Eu movi o mundo por você e você o jogou na minha cara. Me machucou muito...
— Eu errei! Por favor, vamos conversar?
— Eu não tenho mais nada pra conversar com você. — Dayane chutou o sofá — Tudo o que eu tinha que dizer eu disse cuspindo na sua cara e quebrando o nariz daquela vagabunda.
— Amor, me ouve...
— Cala a sua boca! Eu não sou seu amor porra nenhuma, eu te odeio!
— Você vai se arrepender, Day... você é minha vida, meu mundo...
— Enfia esse seu mundo no seu rabo e suma do meu apartamento, garota! Eu estou sendo muito boazinha deixando você levar essas coisas sem nenhum arranhão. Minha vontade era tacar fogo em tudo, junto com essa sua cara de pau! Justo a Lyla? Você sabia o quanto eu tinha ciúmes daquela vadia. Já conversamos sobre isso, e o que você fez? Se jogou em cima dela como uma cadela no cio.
— Que grosseria! Você não é assim!
— Vai se acostumando, bebê. A mulher que você conheceu morreu naquele maldito dia que viu você entrelaçando sua língua na garganta daquela puta.
— Não fala assim da Lyla...
— Vai defender aquela vagabunda, agora?
— Pelo menos ela sabe ser educada...
— SAI DAQUI AGORA! — Dayane pegou o primeiro vaso que suas mãos alcançaram e arremessou em direção a Carla que desviou do objeto por pouco. — VAI EMBORA!
— Vai se foder! Quando estiver arrependida, não venha abanando esse rabo pra cima de mim, ouviu? Vai pro inferno! — Carla saiu pisando duro.
A porta do apartamento bateu com violência. Dayane era um poço de adrenalina, raiva e tristeza. Tudo que suas mãos alcançaram foi socado ou arremessado. Destruiu boa parte de sua casa no processo de angústia. Seu peito se enchia de desilusão e frustração. Assim que descarregou a raiva, seu peito foi inundado por tristeza e o último grito que lhe restara saiu junto com suas lágrimas e a decepção de um amor interrompido.
Juntou suas costas na porta e se arrastou até o chão em prantos sem forças mais para nada. Inevitavelmente as boas lembranças arrematavam sua cabeça e as lágrimas derramavam sem parar. Como pode alguns segundos destruir completamente uma convivência de anos? Aos poucos se encolheu no chão onde ficou durante a tarde toda até pegar no sono perto da meia noite.
***
Sete horas da manhã e Dayane sentiu a cabeça latejar. Espreguiçou e percebeu que estava no quarto, deitada em sua cama, enrolada confortavelmente nas cobertas. Sentiu cheiro de café e pão vindo da cozinha. Arregalou um sorriso, estava com raiva de Carla mas não estava preparada para o desmanche. Seu coração pulou de felicidade quando ouviu a maçaneta da porta se mexer, mas ficou decepcionada ao ver Moisés, seu melhor amigo, entrando com uma bandeja maravilhosa de café da manhã.
— Nossa, você podia pelo menos disfarçar essa sua decepção ao me ver...
— Ah, desculpa, cigano, achei que fosse a Carla...
Dayane se ajeitou na cama e Moisés colocou a bandeja com o café e as frutas com cuidado sobre seu colo. Afastou carinhosamente os cabelos da amiga prendendo-os atrás da orelha.
— Olha, eu vi a Carla com a Lyla essa manhã... Sinto muito, pivete, mas acho que ela não vai mais voltar...
— Ah, que se dane! Espero que ela morra!
— Calma, não precisa desejar a morte de ninguém...
— O que você está fazendo no meu apartamento? — resmungou Dayane com uma bela mordida na torrada.
— Eu passei ontem de noite pra ver como você estava e ouvi você chorando. Você largou a porta aberta e eu entrei. Tive que empurrar você da porta sem te acordar. Te coloquei na cama e fiquei esperando pra conversar com você. Mas por sorte você dormiu como uma pedra. — Moisés cortou o pão ao meio e passou manteiga.
— Eu estou acabada...
— Pelo menos está com fome.
— Eu fico faminta quando estou com raiva. Estou com vontade de socar a cara daquelas duas!
— Eu sei. Por isso fiz o café, comprei o pão e te trouxe frutas e torradas. Coma tudo e se arruma. Hoje você vai viajar comigo.
— Você tá louco? Eu vou ficar aqui assistindo Netflix até morrer. Eu ainda não esgotei meu estoque de lágrimas.
— Nossa, que Drama Queen! — o cigano deu um soco de leve na amiga — Não, você está de férias e eu me recuso te ver na fossa suas férias todas. Você vem pra Amparo comigo.
— Eu, ir para aquela sua cidadezinha maluca do interior? Eu passo!
— Larga a mão de ser chata, Day! Olha pra mim...
A garota deu uma baita mordida numa maça, sorveu o café com cuidado e ficou olhando o amigo por de trás da caneca.
— Você sabe minha opinião quanto a Carla, não é mesmo? Você sabe que eu não gostei dela desde quando vocês começaram a namorar. Ela faz você de gato e sapato, você faz tudo pra ela. É só estalar os dedos que você vai correndo atrás dela. Chega, eu não vou permitir que você fique triste ou magoada por uma garota podre como ela.
— Não fala assim...
— Falo sim, senhora! Você é importante pra mim. Não vou deixar que aquela pilantra tire o seu sorriso. Nunca! Você vem comigo, conhece a minha cidade e faz novas amizades. Meus amigos estão loucos pra te conhecer.
Dayane bufou e torceu o nariz, tudo que ela queria agora é ficar de luto do lado de um pote de sorvete, nuttela e deixar que as lágrimas caíssem. Mas ficou comovida como Moisés estava preocupado com ela. No final, decidiu que não ia mais chorar e aceitou a proposta do amigo.
— Tá bom, inferno! Mas você vai pagar tudo!
— Eu já esperava por isso... Sua interesseira.
— Mas você tem que me prometer que vai me levar pra conhecer as meninas da sua casa noturna.
— Sabia que você ia me fazer esse pedido indecoroso! Claro que eu te levo. Faz tempo que eu queria que você conhecesse o Bell´s Pride. Mas não vai azarar as minha meninas, é dezembro e elas têm Show dobrado nesse mês.
— Só um pouquinho, vai! — Dayane de uma abraço divertido em Moisés.
— Cara de pau! — O cigano afagou os cabelos da garota e lhe deu um beijo no rosto. — Eu vou terminar de arrumar a cozinha e você se arruma e faça as malas. Vai ficar quinze dias fora dessa capital barulhenta. Vai conhecer um pouco do meu mundo.
— Não é o melhor momento pra isso, mas acho que vai ser divertido. Se eu ficar aqui eu vou acabar comprando um taco de baseball e ir atrás daquelas duas.
— Eu sei, por isso que estou te tirando daqui, antes que você vá parar na cadeia.
— Você vai me visitar?
— Cala a boca! Vou lá lavar a louça e colocar suas roupas pra lavar, porque você não faz isso umas duas semanas... E vai se arrumar logo!
— Você que entrou aqui sem ser convidado. Então não reclama. Você ia lavar de qualquer jeito!
— É, sempre que eu venho aqui sou eu que arruma a bagunça que vocês duas fazem. Eu tenho dó de você que trabalha até tarde e ainda tem que ficar arrumando a bagunça daquela delinquente. Pelo menos dessa vez a bagunça é só sua. Não tenho que ficar lavando calcinha suja de desafeto meu.
Dayane abaixou a cabeça e suspirou:
— Desculpa... você foi bom pra mim todo esse tempo e eu fui muito escrota com você...
— Não, não... Para com isso, pivete. Se é pra você, eu faço de gosto. Mesmo que seja lavar calcinha da Carla. Você sabe que eu detesto te ver triste e que te façam de trouxa...
— É eu sei... Obrigado por ser meu amigo. Eu ia surtar se não tivesse você do meu lado.
— Eu ia surtar se você não tivesse do meu... Sabe, eu tenho uma grande dívida com você. Eu só vou deixar você quando você pedir. Caso contrário, estarei sempre com você, pivete.
— Obrigada...
— Agora vai se arrumar e fazer as malas que eu tenho muita coisa pra fazer. Vamos deixar esse apartamento limpo pra quando você voltar.
— Sim, chefe!
Moisés estava na faculdade quando conheceu Dayane. Os dois se odiavam, viviam brigando por causa dos trabalho e por picunhas entre os alunos. Um dia esses dois ficaram trancados na sala de auto-atendimento do banco dentro da faculdade e acabaram se conhecendo mais. Perceberam que apesar das diferenças de comportamento os dois possuíam gostos muito parecidos. Em pouco tempo a amizade desses dois cresceu tanto que nunca mais se desgrudaram mesmo depois da formatura. Moisés mora e trabalha num café em Amparo, uma cidadezinha do interior do estado de São Paulo. Veio de família cigana e agora tenta a vida trabalhando para uma empresária muito emblemática. Dayane trabalha como atendente de uma grande rede de livrarias e largou tudo para se aventurar na capital.
Pode se dizer que nenhum dos dois tiveram sorte no amor. São dois pequenos azarados carregando o mundo inteiro nas costas.
Fale com o autor