Punchline
4 Presente. Uma Questão de Família, parte I
Notas iniciais
— Você tem certeza que quer fazer isso? — Batman perguntou pela milésima vez no último segundo, tentando de todas as formas mudar a cabeça da ruiva.
“Não”.
— Sim — Ela respondeu, tão firme como das outras vezes. Uma firmeza que beirava a pura pirraça, em uma teimosia quase infantil. E um dos traços mais fortes que ela herdou deles — Você quer parar com isso? Está começando a me irritar.
O Morcego se permitiu suspirar, dando-se por vencido. Ele conhecia aquele gênio tão bem como conhecia a ele mesmo, e ele sabia que insistir nunca a faria mudar de ideia, o sangue que corria em suas veias não deixaria. E, por um momento, um sentimento nostálgico lhe invadiu inesperadamente. O espantou no segundo seguinte.
— Eu só quero que repense o que está fazendo — Batman parou a caminhada apressada, puxando a garota pelo braço e a obrigando a olhar para ele. O olhar dela seria quase inexpressivo se não fosse pela dureza que sustentava, o suficiente para intimidar qualquer um. Mas não ele — Você não precisa mexer com isso de novo, morceguinha.
— Eu sei o que eu estou fazendo, tudo bem? — Ela sussurrou, cansada, subitamente triste — Eu preciso de respostas. E se é com ele que eu vou conseguir, que assim seja.
— Pandora...
— Dick — Ela ergueu uma das mãos em frente ao seu rosto, sinalizando para que ele parasse de falar — Eu já me decidi. E eu vou fazer isso com ou sem a sua ajuda, com ou sem a sua aprovação. Então podemos pular a parte em que você tenta me convencer?
Ele suspirou mais uma vez e começou a andar novamente em um ritmo mais acelerado do que o anterior. Ele podia sentir o nervosismo emanar da garota de cabelos vermelhos, assim como a dor que ele sabia que ela sentia por ter que falar com ele de novo, e, principalmente, pelo assunto ser seus próprios demônios pessoais. Sua família.
Mas quem era Dick Grayson para negar isso a ela? A garota estava em seu direito, e ele tinha que admitir isso, mesmo que a contragosto. E se sua experiência com os membros da família de onde ela provinha não lhe falhava, ele preferia ajuda-la, visto que ela faria de qualquer maneira. Se nem mesmo Bruce conseguiu domá-la ou domar seus pais, ele duvidava que ele conseguiria. Mas, mesmo assim, não podia deixar de se sentir angustiado em ser o intermédio direto para que ela sentisse tanta dor, vítima de tanta injustiça. Logo ele, que lutava pelos injustiçados. Pela milésima vez, ele se perguntou o que Bruce faria.
Pandora, por outro lado, não queria pensar em seu tutor. A lembrança lhe doía a alma em uma ferida ainda aberta, e justo naquele momento ela não precisava de mais um fantasma para assombrá-la. Ela precisava ser forte, forte como Bruce a tinha ensinado, forte como alguém que carregava um morcego em seu peito – apesar de nunca realmente ter feito parte dessa família, pelo menos não como uma vigilante.
Ela possuía um sentimento agridoce repleto de mágoa por aquela cidade e tudo o que ela representava. A luxúria, a insanidade, a perversão. A podridão estava impregnada nos ossos de Gotham City, em cada construção e em cada esquina, com a loucura dançando lascivamente na mente de cada habitante dali. E assim foi com seu avô, e assim foi com os seus pais. E assim foi com ela. Gotham era uma doença que nunca seria realmente curada. Porém, desistir dela era desistir de tudo pelo o que Bruce lutou, e ela não faria isso.
Mas ela fugiu. Como uma covarde, ela se deixou embriagar pelo calor e segurança de Metropolis, deixou-se esquecer, consumida pela dor que a lembrança trazia consigo. No fundo, ela achava que nunca pertenceu realmente àquele lugar, que ela era melhor do que aquilo, que ela não sucumbiria ao veneno agridoce da insanidade como sua família sucumbiu. Mas ali estava ela novamente. E ela sabia que a essência daquela cidade amaldiçoada estava tão impregnada em seu espírito como em qualquer outro daqueles que ali residiam, era uma questão de tempo até que ela caísse também.
Espantou o pensamento rapidamente, incomodando-se com o rumo sombrio que eles começaram a traçar. Aquele lugar despertava algo ruim nela, mesmo estando devidamente reformado. Talvez fosse sua história, tão doente quanto seus próprios internos, ou talvez fosse a sensação de talvez ali pertencer. De uma forma ou de outra, ela não gostava.
— Aqui — Batman pronunciou em um rugido assim que parou de andar abruptamente, e não foi difícil perceber pontadas fortes de fúria e desconforto em sua voz.
A garota de cabelos cor de fogo parou ao seu lado, tentando controlar sua respiração que subitamente se acelerou ao parar em frente a porta de ferro. Ela quase podia ver a insanidade escorrer por entre as frestas, espalhando-se pela atmosfera como a doença contagiosa que era. Fechou os olhos, tentando fazer seu corpo parar de tremer.
— Você tem certeza? — O Morcego perguntou pela última vez, o tom de voz agora carregado de uma tristeza evidente — Ainda tem como voltar atrás, morceguinha.
Ela abriu os olhos lentamente, quase como se esperasse que ele estivesse lhe encarando. Porém, ao invés dos olhos azuis, um número tomou conta de seu campo de visão.
801.
Há.
— Eu estou bem, Batman — Pandora estendeu-lhe a mão, esforçando-se o máximo que conseguia para não tremer no processo — Agora me dê o cartão.
Dick prendeu a respiração por alguns segundos, ponderando se o que ele estava prestes a fazer era certo ou não. Trinity comeria seu coração. Todd limparia o chão com sua língua. E um Superman sob efeito do sol azul seria menos perigoso que Bruce.
— Batman — Ela chamou novamente, tirando-o de seus devaneios, visivelmente incomodada por ser obrigada a referir-se a ele por aquele nome — O cartão.
Mas então havia Pandora e aquele maldito olhar machucado que ela tinha. Ele não poderia negar aquilo a ela, não depois de tudo o que já lhe foi negado.
— Eles me matariam — Suspirou, colocando o objeto retangular na palma da mão dela.
A ruiva limitou-se a lhe dar um sorriso triste, o suficiente para que não tocassem mais naquele assunto, e virou-se novamente em direção a porta de ferro, encarando o número como se ele lhe segredasse coisas que ela não queria saber. Ela quase podia ouvi-lo rir, eternamente amaldiçoado por aqueles que ali passaram.
“Ha, ha, HA”.
— Não quero que entre comigo — Sussurrou, encostando o objeto em um leitor altamente tecnológico, provavelmente criado pela Oráculo.
— Pandora...
— Não quero — Repetiu, estremecendo levemente ao ouvir a porta se destrancar e ranger em um convite fúnebre — Eu agradeço a ajuda, Batman... — Ela engoliu em seco, receosa pela frase que vinha a seguir — ..., mas esse é um assunto de família.
Dick prendeu um suspiro, tentando não demonstrar o quanto estava incomodado com aquilo, apesar de Pandora já saber disso. No final, ela estava certa e ele a compreendia, mas isso também não queria dizer que ele estava contente com isso. Uma hora aquele dia chegaria e todos estavam esperando por isso, mas não achavam que chegaria tão rápido, ou que fosse tão difícil. Entretanto, ele se afastou, camuflando-se silenciosamente nas sombras do corredor extenso do Asilo Arkham, dando-lhe o espaço que ela desejava.
Pandora, por outro lado, se permitiu suspirar novamente, respirando fundo e inspirando o ar na mesma intensidade algumas vezes até ter certeza que demonstrava o mínimo de controle sobre seus próprios sentimentos – o que ela sabia que era apenas fingimento. Ela não estava preparada para aquilo, mesmo tendo se preparado sua vida inteira, e a sensação de impotência que sentia naquele momento era dolorosa. Ela queria poder abrir aquela maldita porta sem medo, poder avançar nele, espanca-lo até que pagasse por todos os seus crimes..., mas ela simplesmente não conseguia. Era fraca demais para isso.
A ruiva fechou os olhos com força, tentando ignorar o nó que se formava em sua garganta, e tocou a porta com a ponta dos dedos finos, empurrando-a levemente. Um rangido alto de protesto ecoou por todo o corredor, seguido de uma risada doentia e maldosa que a enojou no mesmo instante. Ele nunca se cansaria daquilo?
Ainda com as mãos trêmulas, Pandora abriu o restante da porta, fazendo com que a luz entrasse no quarto escuro. Ele estava sentado em uma cadeira no centro do quarto, a insanidade escorria pelos olhos tão azuis quanto os dela, e a dramaticidade excêntrica presente na cena marcava sua assinatura.
A garota prendeu a respiração e entrou no cômodo, encarando-o com uma mistura de fúria, medo e descrença. Sua aparência continuava a mesma de como ela se lembrava: o corpo esquelético e doente, a pele tão pálida que quase chegava ao branco absoluto, o cabelo pintado de verde um pouco grande demais devido ao tempo no Asilo... e o sorriso. Aquele maldito sorriso que a enfurecia tanto que fazia com que ela tivesse vontade de chutar seus dentes até que eles se quebrassem em mil pedacinhos.
Mas nada era tão irritante quanto as cicatrizes que formavam seu sorriso.
— Sabe o que significa “ohana”, morceguinha?
Ela havia se enganado. As piadinhas eram mais irritantes.
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