Pulsos Vermelhos
1 O Começo é um Final.
A garota se encontrava sentada no chão gélido do banheiro, uma lâmina na mão, um pulso ensanguentado, ela não se arrependia, e essa era a única certeza que tinha.
Quando eu choro não é por fraqueza,
É apenas pela simples vontade da dor escorrer junto com as lágrimas.
Lágrimas escorriam desesperadamente por sua face, a dor latejava em seu pulso, ela sofria em silêncio, não iria preocupar os outros, aquela granada não iria levar ninguém com ela, ela só explodiria em meio a um campo aberto, danificando apenas matéria, a porta trancada e imóvel enquanto batidas ecoavam por todo o lugar, sua mãe chorava, seu pai gritava, ela não se importava, ela imaginava aquilo como uma trilha sonora, a lenta e dolorosa trilha sonora de seu fim lento e doloroso.
O sangue pingava e manchava o piso, como um sorvete derretendo, mas, ao contrário do sorvete, ela não fazia questão de recuperar o que caia, ela era só mais uma jovem adolescente vítima de um fim trágico, mas ela escolheu viver daquele jeito, ninguém iria a impedir.
Não se assuste com o que tem em meu pulso,
As marcas dele não chegam nem perto das do meu coração.
Abriu o chuveiro e lenta e dolorosamente varreu cada gota de sangue, elas escorriam pelo ralo, ela só queria que sua dor escorresse junto.
Vamos voltar aos tempos em que éramos felizes e não sabíamos.
Enquanto o sangue ia embora lembranças voltavam à tona em sua mente.
Promessas eram feitas sem pensar, nunca faça isso, quando você quebra uma promessa um coração é quebrado também, quando lembra é como se fosse um sonho, como se ela nunca tivesse vivido aquilo, pelo simples motivo de que é impossível algo bom acontecer com a garota dos pulsos marcados, foi a melhor época da sua vida, beijos eram trocados, elogios eram espalhados, ela e ele tinham um futuro, até ela descobrir tudo, ele fazia aquilo com todas, ela era só mais uma, ele ficava com todas, e ela era só mais uma em meio às putas oferecidas, descobriu isso tarde demais, quando seu coração já estava tomado pelo brilho encantador dos olhos dele, pela melodia suave que era sua voz, pelo toque mágico e arrepiante de sua pele, pelo gosto inexplicável de sua boca, ele nunca sairia de sua vida, ela nunca o esqueceria, ela só queria um botão ‘delet’ em sua mente, mas, como esperado, ela não o esqueceu, eles brigaram, ela fingiu que o esqueceu, ele parece que a esqueceu, quando passa por ele dá meia volta, desvia o olhar, qualquer coisa, pois sabe que se olhar novamente em seus olhos será tomada novamente pela perfeição. Depois a zoação, a “brincadeira saudável”, amigos, inimigos, desconhecidos, conhecidos, todos, então ela começou com esse ato doentio, vez ou outra achava alguém “colorido”, ele a perguntava se ela estava bem, com os pulsos ardendo nos bolsos ela dizia que sim, lembra-se de uma vez que estava passando, os olhos vermelhos, as mãos nos bolsos, mas o rosto limpo e sem expressão, ele a parou, ela olhou para baixo, então ele perguntou se estava tudo bem, perguntou o que havia acontecido com a garota antes doce e amável, agora quieta, arrogante, fria, então, subitamente, ela segurava as lágrimas loucamente, seus pulsos ardiam mais nos bolsos, ela queria que aquele momento acabasse, e, antes que ele pudesse perguntar outra coisa, ela fugiu dali, pessoas apontavam e riam da garota, ela cometeu novamente o ato que a matava aos poucos.
Desde então sua vida tem sido um inferno, ela não sabe mais viver, simplesmente, ela precisa do que chama de meta, algo que lhe dê forças para continuar, algo que lhe faça resistir ao impulso de apertar o gatilho, de pular, de pegar a corda, de esquecer a cadeira, de parar de boiar. Ela não tem uma meta, está na beira do precipício, já destravou a arma, já fez seu colar de corda, está quase pulando da cadeira, já está enchendo a banheira.
Ele fazia muitos planos,
Eu só queria estar ali.
O abraço dele é reconfortante, o beijo é acolhedor.
A gente só descobre a importância de um abraço quando precisa de um.
Ela está cansada de sofrer.
No amor,
A pessoa que mais ama é a mais fraca.
Ela pensa que algum dia ele vai cruzar sua porta, vai lhe entender, já pensou tantas coisas.
Ás vezes todos os nossos pensamentos estão errados.
Então ela esconde os pulsos, abre a porta, dá uma desculpa aos seus pais e se tranca em seu quarto, abre a janela e pula para o dia frio de neve lá fora, uma corda na mão, uma cadeira na outra, acha uma árvore grande, a que costumava sentar e ver as pessoas passando, ela gostava daquilo, amarrou a corda em um galho forte, amarrou a corda em seu pescoço, subiu na cadeira, era só pular, as pessoas passavam como se ela fosse invisível, como se ela não fosse uma adolescente prestes a cometer suicídio.
As pessoas só veem o que querem.
Observa uma ultima vez a linda vista, pensa no lindo rosto por quem se apaixonou, pronuncia docemente seu nome, uma ultima lembrança percorre em sua mente, uma ultima lágrima desce por sua face, uma ultima gota de sangue pinga no chão, sujando a neve branca, “Obrigado por ter causado meu fim”.
Ela está se afogando em palavras que nunca disse.
-DO QUE ADIANTA GRITAR SE NINGUÉM TE ESCUTA? DO QUE ADIANTA ESTICAR O BRAÇO SE NINGUÉM TE DÁ A MÃO?
“Talvez eu queira levar alguém comigo em minha explosão”.
E, depois de seu ultimo grito ecoar no vácuo, ela pula da cadeira, e é enforcada em palavras que nunca disse.
Já acreditou em finais felizes, hoje acredita apenas em finais.
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