Pulsos: A Saída de Emergência.
3 Ato Três
Notas iniciais
Dizem muitos por aí que nada é perfeito, exceto Felipe e Leandro que, ao mesmo tampo tão diferentes e defeituosos como todos seres humanos, juntos são perfeitos. Já acordaram, neste momento estão juntos, preparando o café-da-manhã e, por conta dessa simples e singela união, são perfeitos. A dor da noite de choro anterior, hoje se tornou um dia aberto e de alegria, por isso cozinham completamente sorridentes, com direito à selinhos e abraços.
Enquanto isso, Germano, o pai e autor da agressão de seu próprio filho estava no carro, indo diretamente para o prédio onde Leandro mora, já que Felipe entregou tudo, Germano sabe que ele foi correr para os braços dele, sendo assim isso facilitou que o achasse. Chegando lá, mal havia falado com o porteiro, foi simplesmente invadindo como se fosse o dono de tudo. Adentrou no elevador, como touro nervoso, e sempre acompanhado de dois seguranças. Ficou ainda mais nervoso por conta da música do elevador, e depois de tanto ouvir aquela música calma, que para ele foi completamente irritante, chegou no andar desejado. E lá foi ele, batendo em porta em porta, louco para encontrar seu filho, para dizer o que simplesmente pensa, achando que tudo que ele disser, seu filho irá obedecer, já que para ele isso é um dever do mesmo, e deve ser feito não importando o que ele sinta, mas sim pela razão que ele tem. Chegou em uma porta, e nessa ouviu uma voz e reconheceu a mesma. Com violência bateu na porta. Seu coração estava cheio de ódio, ódio formado pelo amor alheio, ainda por cima de seu próprio filho
Leandro sentiu-se atraído pelas batidas na porta, em seguida foi até lá, imaginando ser algo de sua importância.
Abriu a porta, Leandro se surpreendeu ao ver o pai de seu amado. Porém, Germano, que não sabia muito bem como era a feição do namorado do seu filho, então pensou ser engano, logo foi se desculpando. Devagar vinha Felipe, pronto para atacar Leandro com beijos. Assim o fez, se aproximou sorrateiramente, olhando somente para o corpo magro de seu amor, já esticando seus braços segurando a cintura de vez, e isso assustou Leandro, e enfim veio um arrepio por todo seu corpo, pois Felipe beijou seu pescoço.
Nojo. Foi isso que Germano sentiu ao presenciar aquilo. A ira veio, e veio maior ainda a vontade de dar mais uma surra em seu filho, além disso, em seu namorado. Não poderia fazer isso, prometeu para sua mulher e para si que não cometeria mais nenhuma besteira e que, a única coisa que fará é: conversar e convencê-lo que tudo isso não passa de uma fase na vida, ou uma ilusão.
Felipe olhou para seu pai, e pela noite passada sentiu medo, mas também uma revolta enorme de falar poucas e boas por tudo que ele fez. Leandro, querendo claramente agradar o sogro, pediu para que entrasse. Foi inútil o pedido, já que de qualquer maneira Germano entraria, e ainda por cima empurrando os dois, como fez. Ainda assim querendo agradar e tentando ignorar o empurrão, acompanhou o mais velho até o sofá, com um sorriso cheio de aflição, pelo o que aconteceu na noite anterior com Felipe. O mesmo que se sentou no sofá chamou o filho, com uma voz rígida, repleta de ódio, com punhos e cara fechada. Felipe estava hesitante, mas de qualquer maneira iriam ter que conversar, e esse foi o momento. Marchou até lá, logo se sentou no outro sofá, já que os mesmos eram frente a frente. Leandro percebeu toda essa tênue, porém, forte linha de tensão entre pai e filho, portanto saiu, dizendo simplesmente que os deixaria conversar em particular.
A conversa deu partida.
Felipe ouvia e analisava atentamente seu pai, que para ele dizia baboseiras, enquanto gesticulava a cada palavra dita.
— Filho, – chamou – ontem, sua mãe chorou muito... Ela se culpou tanto, senti meu coração apertar, e muito... – pôs a mão sobre o peito, apertando a camisa, como se seu coração doesse – Após pedi para que suas tias saíssem, para conversarmos, e chegamos a conclusão de que você está louco. Jamais eu e ela iriamos imaginar que um filho, tão bem criando, tão bem influenciado por mim, um macho completo, iria ser uma... Uma... Bichinha – fez careta ao pronunciar a palavra, careta de nojo – Nunca pensei que meu filho iria gostar de ser enrabado por um homem... Logo meu filho! Você precisa de uma mulher, mulher de verdade! Foi seduzido por essa loucura, que você ainda tem a ousadia de chamar de amor. Sabe bem que homem com homem não dá certo, não sabe? – olhou para seu filho, que preferiu não responder. – Você, Felipe, está doente, precisa de um psicólogo e psiquiatra, para passar essa sua doença... Eu acredito na cura, filho, você vai ver, tudo ficará bem. Por favor, ouça a mim, quero seu bem, só isso...! – deu um leve sorriso de canto.
Felipe não suportou e nunca imaginou ouvir tantas besteiras assim em toda sua vida. Seu pai continuava a falar, e neste momento o rapaz ganhava cada vez mais raiva, mas tinha de esperar, pois Germano é seu pai, e o respeita por isso. Germano parecia não terminar, se sentia o dono da razão com tudo aquilo.
Finalmente, as baboseiras tiveram fim!
E, agora, chegou o momento de Felipe, e de vez foi se manifestando.
— Pai, – olhou para o mais velho. – o senhor sabe que amo você e mamãe – respirou fundo. – A culpa não foi sua, nem dela. Eu nasci assim, e dó muito em mim essa falta de respeito que tem por mim... Não estou pedindo demais, só quero respeito por ter nascido assim...
— Não! – levantou a voz, corpo e punho. – Você não nasceu assim, porra! Isso é...
— Para, pai! – gritou – O senhor já terminou o que queria, agora é a minha vez! – continuou sentado, mas com cara mais fechada que pote de conserva. – Não adianta dizer que é baitolisse, pois é sim! E daí? Nasci assim, mesmo, nasci gay e assim serei! Não vou aceitar ninguém me contradizer, o senhor tem suas vontades assim como tenho as minhas! Assim como ama minha mãe, amo Leandro! Aqui dentro do meu peito tem um coração, que pulsa pelo meu Lê, e ninguém pode mudar isso, porque ele é o dono, e dono de todo desejo que tenho aqui! – bateu forte no peito, deixando nascer um sorriso – A surra que você me deu não me deu medo, até porque tenho Leandro, que me ama pelo que sou, não por causa da fama ou por ser "socialite", okay?! E saiba que a única cura pra mim é meu namorado, se ele me enraba ou não, o problema é exclusivamente meu! Assim como o senhor exijo respeito, pois sou humano, e eu também tenho direito de amar, quem seja, não importa! Eu amo! – e com essas palavras ele terminou, dando prelúdio ao derramamento de lágrimas. Não era choro de tristeza, era de felicidade. Aquele choro era de libertação, por todos esses anos esconder essa voz e sentimento pelo igual. Isso culpa de comentários maldosos, feitos por quem mais ama, e por conta disso escondeu tudo por baixo do pano por anos. Eram palavras de repúdio, no qual colocavam o amor contra a parede e, com suas negras e maldosas mãos, apertava o pescoço tão fino e delicado do mesmo, fazendo com que jamais tivesse forças para continuar. Mas para esse amor faltava a coragem, que hoje Felipe ganhou, mostrando realmente o homem que é.
Germano claramente não suportou. Esse confronto era demais para ele. Dialogar não dava mais, tinha agora que reagir. Estava cheio de ódio. Preferiu não agredir o filho, por enquanto, já que sua face se apresentava arrebentada. O mais velho caminhou até a porta, com cabeça baixa, mas com pensamentos altos. Repentinamente Leandro apareceu, e Germano, ao vê-lo, lembrou de tudo que o filho disse, brevemente tacou-lhe um empurrão, que caiu. Germano havia partido para o ataque, mas os seguranças o impediram.
Leandro não reagiu de imediato, então simplesmente se levantou, correndo desesperadamente para dentro, pensando que seu amado foi novamente agredido. Desespero impreciso, já que estava tudo bem, porém somente estava chorando. Se surpreendeu ao ver o sorriso do amado, que para mesmo tinha o melhor motivo do mundo.
Percebendo a presença de Leandro, o puxou para conversar, sentando o outro no sofá.
— Amor, meu pai ainda não me respeita, muito menos me aceita. – iniciou. – Ele disse muitas coisas idiotas, mas não me importei tanto com isso. Chegou minha hora e disse tudo de vez, mesmo sento um pouco difícil pra mim, foi preciso, pois te amo, e ninguém pode mudar isso... Eu quero morar com você, tem problema?
— Oh, querido, fico impressionado com sua coragem! – sorriu alegre por aquilo – Mas, pra morar comigo, você tem que buscar tuas coisas lá na cada do teu pai, que deve estar furioso com você...
— Lê, não quero mais nada de lá! Só quero ficar com você! Hoje não vou pra facul, vou ir em alguma loja comprar roupas, tudo bem? – aproximou o seu rosto do dele, tomando seus lábios por um curto momento.
— Acho que não vou também. Vou com você até lá, te ajudar a escolher roupas já que tenho um ótimo gosto... – falou convencido, sem deixar de olhar nos claros olhos de seu amante.
— Sim, sim! Vai ser ótimo ter a companhia de alguém como você – abraçou o amado, pegando o controle do som, que estava sobre o braço do sofá, e logo ligou o mesmo, que para a surpresa de ambos, passava a trilha sonora deles, como assim diziam.
A música anda estava na metade, de cór e salteado sabiam, então fizeram assim um dueto.
Guardei meu sentimento e me sufoquei...
Iniciou Felipe, um pouco desafinado pelo choro, mas era sincero. E acompanhava também o toque, perfeitamente.
Mas agora, é a hora,
Vou contar pra todo mundo de uma vez...
E o momento de Leandro, com aquela tão bela voz, afinadíssima, mesmo nunca fazendo aulas de canto.
Eu tô apaixonado,
Eu tô contando tudo,
E não tô nem ligando pro que vão dizer.
Tomaram o ar, enfim conseguiram resgatar a música, cantando uma das partes mais belas.
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Só quero você...
Terminaram da forma tipicamente romântica. Trocaram sincero olhares apaixonados, brilhosos como a luz do sol que surgiu ali, segurando firmemente as mãos, com direito a uma metralhadora de selinhos.
Literalmente, mandaram o mundo se danar, assim como a música disse. E, como a música disse, um queria o outro, não importando-se mais com nada.
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