Pulso Elevado (Frank Langdon)
14 11h18min
11h18min
— Dana, você viu o Langdon? – Gabriela se aproxima da enfermeira no posto central.
Dana a encara por um segundo a mais.
– O Dr. Langdon. – Gabriela corrige.
— Sala 11, Alves.
— Obrigada. – Ela agradece e se afasta, fugindo da necessidade infantil de se explicar.
Gabriela fora a criança prodígio. A mocinha que os adultos elogiavam e gostavam de ter por perto. Isso cravou nos ossos dela o medo constante de não ser aprovada, de ser descredibilizada em qualquer sentido. Depois de alguns anos de análise o sentimento enfraqueceu, mas Gabriela ainda o sente à espreita em algumas ocasiões.
Essa é uma delas.
É só um celular. É só devolver e pronto.
Se aproximando da sala 11, ela nota o cabelo castanho de Langdon se movendo lá dentro. Gabriela respira fundo antes de abrir a porta.
— Dr. Langdon. – Ela chama, mas ele não ouve. Está de costas para a entrada, falando alguma coisa para a residente que o acompanha.
A residente a percebe e aponta para ela.
Langdon se vira, a máscara em seu rosto deixa visível apenas os olhos azuis. As sobrancelhas grossas se arqueiam ao vê-la ali e ele se aproxima da porta.
— Você esqueceu na copa. — Gabriela estende o celular em direção a ele.
Langdon franze levemente a testa e apalpa o próprio bolso antes de pegar o aparelho da mão dela.
Ele olha para o celular e ativa a tela. A mensagem de Abby ainda está lá.
Então ele encara Gabriela.
E depois a tela novamente.
Langdon coloca o celular no bolso e puxa a máscara para baixo.
— Você... -Ele pausa, a voz baixa, os olhos escaneando os dela.
— Dr. Langdon. – A residente o chama lá de dentro, interrompendo o que quer que fosse que ele iria dizer.
Gabriela olha em direção à residente que agora está virada para eles, esperando. Doutora Samira Mohan, diz o crachá. Ela volta a encarar Langdon, que não tirou os olhos do rosto dela desde então.
— Obrigado. – É tudo o que ele diz, reposicionando a máscara e voltando para dentro da sala.
Ela continua parada na porta por alguns segundos.
— Obrigado por ser uma enxerida, Alves, agora fique longe de mim. – Gabriela imita a voz de Langdon enquanto se afasta da sala 11. Os pensamentos rodopiam e ela caminha automaticamente até a recepção, ignorando a frustração e raiva que dançam em volta dela.
O que eu achei que iria acontecer? Um beijo de agradecimento?
– De volta para a realidade. – Murmura.
Antes que ela consiga chamar um novo paciente na recepção, uma mulher se levanta em um ímpeto de seu assento em meio aos outros. Ela segura uma criança que, Gabriela percebe, está com o corpo um pouco mole demais.
— Ajuda! Meu filho engoliu uma miçanga! – A mulher caminha com dificuldade em direção à frente da recepção. A criança parece ter por volta dos 3 anos e está desacordada. O corpinho totalmente solto dificulta os movimentos da mãe em meio à fileira de cadeiras.
Os pacientes ainda não parecem ter notado, alguns a encaram, outros continuam absortos. Gabriela, por outro lado, caminha ao encontro da mulher sem pensar duas vezes.
— Me ajuda, por favor, ele não está respirando! – A voz dela aumenta assim que Gabriela consegue pegar o menino. O pulso dele ainda está presente. Os pequenos lábios começando a empalidecer. – Eu dei minha pulseira pra ele brincar e quando vi ele tinha estourado o elástico, pelo amor de Deus, ele engoliu...
Ela não termina a fala, o choro irrompe.
Agora os outros parecem notar o que está acontecendo. O típico burburinho cessa, todas as pessoas ali começam a observar a cena do menininho desacordado e a mãe em desespero.
Gabriela ajoelha no espaço em frente a sala e o segura de pé, dando batidas firmes nas costas dele.
Nada acontece.
A porta atrás dela se abre e Dana e Robby surgem. Provavelmente algum funcionário os alertou.
— Noah! – A mãe chora, caminhando de um lado para o outro. Sem coragem de olhar diretamente para seu filho. – Por favor, doutora...
Gabriela segura o menino contra seu peito e pressiona o pequeno estômago com força considerável
Uma vez.
Duas vezes.
Nada.
Ela olha para Robby, ele está atento, mas não move um dedo em direção a ela. A cabeça faz um discreto movimento positivo. Dana permanece ao lado dele.
Não seja decepcionante, Gabriela.
Batidas nas costas, mais uma vez.
Mais forte.
Noah finamente tosse e uma pecinha de plástico colorido voa de sua garganta para o chão.
Gabriela sente seu corpo ceder. Alívio. Ela se senta sobre as próprias pernas e traz Noah consigo. Ele tem mais tosses. E vômito. O que encharca o scrub preto dela e a pele por baixo do pano.
Alguns aplausos são ouvidos, aplausos incertos. Um misto de “uau” e “não fez mais do que sua obrigação”.
— Obrigada meu Deus, obrigada! – A mãe finalmente se aproxima e se ajoelha em frente a Gabriela, puxando Noah para o colo.
Gabriela olha na direção de Robby e ele já está voltando para a enfermaria. Dana ainda a observa, um sorriso estampado no rosto.
— Muito obrigada, doutora. – A mulher choraminga e Gabriela volta o olhar para ela. Noah agora está chorando vigorosamente.
— Está tudo bem. O segredo é manter a calma. – Ela fala e se levanta. – Vamos te ensinar as manobras de desengasgo. É importante, ok?
A mulher faz que sim, beijando o topo da cabeça do filho.
— Como é seu nome? – Gabriela indaga.
— Jane Simpson. – A mulher se levanta com dificuldade por estar segurando o menino. Pelo jeito não vai soltá-lo tão cedo.
— Ok, Jane. Sou Gabriela Alves. Eu vou encontrar um novo uniforme e volto para falar com você.
— Obrigada, doutora. – A mulher agradece pela milésima vez enquanto Gabriela sai em busca de um chuveiro para tirar de si o cheiro desagradavelmente doce do vômito de Noah.
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