Psycho

5 Capítulo 5 - " Allen ? "


Dois dias. Dois dias se escondendo onde podia, e se esquivando nos corredores sempre que Lince percebia algum sinal de Jack, que por sinal era o nome do garoto que Lince insultara durante a sua primeira aula na nova escola.

Pelo menos agora Lince havia acabado de encontrar um novo esconderijo, bem no fundo da biblioteca da escola, entre os livros mais antigos, sentado na cadeira de madeira que rangia junto com a mesa bamba, e bem longe de qualquer outra pessoa. Para lá era onde iria nos intervalos e durante a aula de Educação Física, aproveitando o tempo "livre" para escutar música, ler os livros da seção que há muito não era explorada — e descobrira o porque disso, os livros de lá, além de entediantes eram cheios de furos causados por traças e páginas rasgadas, possivelmente causadas por alunos como Jack — e desenhar.

Estava observando uma figura estranha e abstrata demais para o seu gosto de um livro de artes, quando escutou passos. Levantou o olhar do livro, olhando para a estante que estava a sua direita, tentando identificar algum sinal de Jack ou de seus amigos. Se o encontrassem aqui, seria o seu fim. Estava sozinho, e duvidava se até mesmo a bibliotecária sabia que existia uma seção de livros velhos e excluídos . E também duvidava que alguém escutaria seus gritos se recebesse uma surra.

" Eu avisei pra você não mexer com ele. " Seu pensamento o dedurou.

Já esperando pelo pior, baixou o livro, apoiando o mesmo na mesa que já perdia a pintura cinza nas pontas, e fixou seu olhar verde água no fim da estante. Os passos continuavam, era tudo questão de tempo até que o achassem. Endireitou a coluna na cadeira, que rangeu com o movimento, e começara a pensar em maneiras de fugir de lá, até que...

–Allen ?

Arregalou os olhos ao se deparar com quem havia aparecido por de trás da estante, desejando se dar um tapa no rosto com o medo que estava antes. Delancey o encarava com um misto de surpresa e admiração, que o fez desviar o olhar da garota, voltando para o livro e ignorando o olhar que parecia queimar a sua testa.

" O que ela está fazendo aqui ?! " Se questionou, com uma certa apreensão.

–Então é aqui que você se esconde... -Ela comentou, se aproximando da estante ao lado esquerdo de Lince, passando o indicador pelos livros, analisando seus nomes e logo após arrependendo-se desta ação, já que a ponta de seu dedo ficara cinza pela poeira. -Gosta realmente de ler isso ? -Perguntou apontando para a capa verde-musgo que Lince segurava. -Ou só fica aqui para se esconder do Jack ?

Lince, que antes estava concentrado em fingir que o conteúdo do livro era interessante o suficiente para prender sua atenção, ignorou a ação anterior, lançando um olhar sério e reprovador para a garota, que, com um passo para trás, tratou de reparar o que havia dito.

–Eu...Fiquei sabendo que vocês discutiram. E...Já que ele tem praticamente um bando de " guarda-costas" para o proteger e lutar junto com ele...Achei que fosse por isso. -Ela disse, desviando o olhar do garoto, que agora a encarava como se desejasse que ela sumisse. Mas, isso só fez ela se aproximar mais. -Olha...Sei que deve ser difícil sair de uma cidade que já estava acostumado...E logo no primeiro dia não se dar bem mas...Dá uma chance pro Jack, ele só...Se irrita fácil e gosta de provar o quanto é superior em algumas coisas que faz. Mas ele não chega a ser um bully...Nunca iria te machucar.

" Ela não pode estar falando do mesmo troglodita de segunda-feira. Simplesmente não pode. " Pensou enquanto a encarava franzindo as sobrancelhas, parecendo duvidar da sua capacidade mental.

–Eu acho que você deveria entrar para um clube. -Disse a garota, sorrindo do seu jeito meigo e animado demais para Lince, se convidando a sentar de frente para ele.

–Um clube ? -Perguntou Lince, de maneira irônica, mais uma vez duvidando da capacidade mental da garota.

–É. -Ela assentiu feliz, não percebendo a ironia. -Sabe, aqui nós temos um grupo de teatro... -Ela começou, logo recebendo um olhar com uma sobrancelha erguida, a questionando se ela estava falando sério. -Outro de música, um de esportes, outro de...

–Eu não quero entrar em nenhum clube. -Cortou Lince, voltando o olhar para o livro, fingindo estar extremamente interessado em seu conteúdo, franzindo as sobrancelhas, enquanto desejava que a morena fosse embora.

–Você precisa se enturmar ! Não pode ficar isolado para sempre ! -Ela disse como se Lince fosse um tipo de coisa sobrenatural e incompreendível.

" Posso sim. " Retrucou mentalmente.

–De qualquer maneira...Seria ótimo se você tentasse encontrar um amigo. Não vim te obrigar a fazer isso, só te aconselhar e...Pedir que não fique chateado com o Jack...-Disse, e se levantou. -Sabe..Tem outras pessoas nessa escola, nem todas são iguais a ele. -Disse, já se dirigindo para longe de Lince, quando parou e lhe deu um sorriso meigo, que adquiriu a raiva de Lince. -Até mais, Allen.

E se retirou do seu campo de visão. Lince suspirou, fechando o livro e se soltando na cadeira, que rangeu novamente.

–Ah ! -Ouviu a garota novamente, o fazendo dar um pulo na cadeira, e se perguntar se aquela garota havia cismado com ele, ao perceber que seu rosto ainda sorria para ele ao lado da estante. -Quando quiser fingir que está lendo um livro, ao menos vire a página.

E se retirou novamente, o deixando paralisado.

" Essa garota é louca ? E, porque ela me chama pelo sobrenome ?! "

–Também seria ótimo tentar o ler de cabeça para cima ! -A escutou, já se retirando da biblioteca.

Então reparou que o livro estava realmente de cabeça para baixo.

" Eu sou um imbecil. " Desejou se bater no rosto com força. "Pelo menos agora eu sei porque essas figuras são tão estranhas. "

( ... ) Naquela tarde...

Carregando a mochila cinza com o braço direito, Lince andava em direção a sua casa com fones de ouvido gritando batidas eletrônicas em sua mente, o animava, porém provavelmente o iria deixar surdo algum dia desses, pensava.

Já estava em frente a casa rosa bebê desgastado do vizinho quando avistou uma mulher saindo do terreno curtíssimo que deveria chamar de jardim, da sua casa. Parou, observando a loira olhar duas vezes para trás, antes de andar em sua direção. Felizmente, pensou Lince, não parou para falar com ele, apenas passou pelo lado dele sem o olhar.

Já na frente do jardim, encontrou seu pai com uma lata de cerveja na mão.

–Quem era ela ? -Perguntou desconfiado.

–Uma possível madrasta pra você. -Respondeu após dar uma risada, para depois tomar outro gole de cerveja.

Lince sentiu como se seu estômago estivesse cheio de água fervente. Além de ser nojento imaginar seu pai com outra mulher, sentia raiva por ele não lamentar nem por um segundo a morte da mãe, e ainda um misto de pena com raiva da tal nova mulher. Como ele poderia pensar que Lince iria aceitar a "substituição" da sua mãe ?! Sabia que não deveria se meter nos assuntos do pai, mas começou a imaginar sua vida com uma madrasta.

" Deve ser uma retardada pra conseguir ficar com ele. " pensou, entrando em casa, para logo depois se tocar que acabara de insultar a sua própria mãe.

Mas, a verdade é que realmente não via mais o pai com outra mulher, principalmente porque a sua aparência havia se deteriorado com o passar dos anos. E nunca poderia aceitar outra mulher fingindo ser parte da família. Se é que podia chamar o que tinha de família.

Enquanto subia as escadas de madeira velha, que rangia com seu passo apressado, se lembrou dos cabelos da mulher. Loiros. Exatamente da cor dos da sua mãe.

Não sabia mais o que sentir. Raiva ? Tristeza ?

Também não queria pensar sobre isso. Largou a mochila no chão e se jogou de cara no colchão descoberto e com um travesseiro azul cinzento sem muito recheio que formava o conjunto que deveria chamar de cama.

Notas finais
Heyy...Se gostaram, comentem e divulguem por favor, ajuda muito...Kisses !