Psycho

4 Capítulo 4 - " Meu caro Neandertal "


Fechou o armário com força, bufando, e já ia se dirigir ao ginásio, quando lembrou que acabara de chegar, e não conhecia nada naquela imensidade de livros e metamorfoses ambulantes. Rolou os olhos e jogou os cabelos que compunham a sua franja para trás, quando se sentiu observado.

Os olhos verde água correram para a direita, e Lince viu um trio de garotas, indo perigosamente na sua direção. A da esquerda era loira e seu cabelo estava preso em uma trança, sorria, exibindo seus dentes perfeitamente brancos e criando um contraste com seus lábios extremamente cor de rosa. A da direita era morena, e carregava livros em seu braço esquerdo, tinha os olhos puxados e os lábios carnudos.

A do meio foi a que mais lhe chamou a atenção. Não pelo fato de seu cabelo castanho claro ondulado lhe cair perfeitamente nos ombros, emoldurando um rosto delicado e branco, nem por sua beleza, que apagava as outras duas garotas, mas sim pelo seu olhar. Um olhar castanho e inteligente, que no momento, se fixava nele.

Lince já estava paralisado, porém crendo que elas iriam apenas passar por ele, como qualquer outra, mas, o sorriso da garota do meio direcionado a ele, o fez duvidar da sua tese inicial. Sentindo o rosto queimar em vergonha, se virou de volta para o seu armário, o abrindo um tanto desastradamente, fingindo ter esquecido algo.

" O que elas estão fazendo ? Aquela garota não pode ter sorrido pra mim, deve ter alguém próximo... " pensou.

O olhar verde água se voltou para a esquerda, porém, ninguém se encontrava lá.

" Ela realmente sorriu pra mim ? Lince, se controla ! Vão só brincar com você mais uma vez, então, fique sério ! " ordenou a si mesmo, voltando a encarar o vazio do seu armário.

–Oi.

Lince fechou o armário com força mais uma vez, instantaneamente ao escutar uma voz ao seu lado direito. Olhou assustado para a dona da voz, que se encontrava na frente dele, sorrindo com meiguice. Era a garota do olhar castanho, que novamente se fixava nele.

Ele procurou com o olhar as outras duas, mas elas não estavam por perto da morena.

–Oi... -Respondeu Lince, hesitante.

–Meu nome é Delancey Evans , chefe do grêmio estudantil. -Disse a garota, ainda sorridente, estendendo sua mão direita para o garoto.

E com tal ato, ele se deu conta que suas mãos tremiam. Mais uma vez hesitante, ele retribuiu a garota com um aperto de mão.

–Lince. -Disse com uma tentativa de sorrir, que apenas se tornou uma leve tremida no canto direito da boca.

A garota desviou seu olhar do rapaz para ler algo que estava em uma prancheta, que só agora Lince notou que estava na mão dela.

–Lince Allen, né ? -Perguntou, erguendo o olhar da prancheta para o garoto, que assentiu nervoso. -Seja bem vindo !

–Ahm...Obrigado. -Disse enfiando as mãos nos bolsos do casaco.

–Gostaria que eu lhe mostrasse a escola ? -Perguntou Delancey, já abaixando a prancheta novamente, e com o seu repetitivo sorriso amigável.

–Er...Não precisa... -Respondeu o garoto nervoso, sentindo suas mãos suarem dentro dos bolsos do casaco.

–Tem certeza ? -Perguntou ela, inclinando a cabeça para a direita, ato que fez Lince se lembrar de um gatinho curioso.

–Sim. -Disse após inspirar rapidamente e deixar a postura correta.

–Então tudo bem. Virando o corredora esquerda, encontrará um mapa da escola, caso se perca. -Disse apontando para a outra ponta do corredor, fazendo Lince finalmente desviar o olhar para o final do mesmo. -E, qualquer dúvida ou problema com a sua inscrição, se dirija ao Grêmio ou a diretoria. -Completou a garota, sorrindo mais uma vez.

–Okay... -Disse o garoto, sem saber o que mais poderia dizer.

–Então tá, até breve, Allen ! -Sorriu mais uma vez, e se virou de costas, indo na direção de uma garota ruiva que usava óculos.

Lince suspirou, deixando os ombros caírem.

" Viu ? Nada demais ! Só boas vindas, imbecil. " pensou, se insultando mentalmente pelo nervosismo desnecessário.

Se virou, indo rumo ao fim do corredor. Não aceitara a ajuda da tal Delancey, portanto teria que se virar sozinho, mas, não achava que seria algo difícil achar o ginásio.

" Dã, tem um mapa. Se eu errar pra onde ir, é só mais uma prova de que eu preciso de um novo cérebro. "

Mas nem por isso. Ao virar a esquerda do corredor, a primeira coisa que ouviu foi o som agudo de tênis sendo arrastado no chão de quadra, seguido logo por bolas batendo no chão e conversa de outros alunos. suspirou, desejando que tivesse sido mais difícil achar o ginásio.

( ... ) Alguns minutos depois...

" Eu. Odeio. Esse. Uniforme. " Pensou revoltado enquanto olhava para a regata branca que parecia ter sido feita para um cara no mínimo duas vezes maior que ele. Ou para um gorila.

Estava novamente em frente a outro armário, mas desta vez, do vestiário. A maioria dos outros garotos já se encontrava na quadra, mas, olhando para os que restavam no vestiário, pôde perceber o porque das suas roupas serem daquele tamanho exagerado. Os outros pareciam uma espécie de gorilas pelados. Muitos músculos para uma altura razoável.

Não que Lince fosse um completo fracote. Até tinha certa musculatura, mas, comparada com a desses caras, ele se sentiu um rato subnutrido envolto em um pano de dois metros.

Depois de bufar pela segunda vez, e xingar mentalmente a roupa cinco vezes, saiu do vestiário, entrando na grande quadra.

Nas arquibancadas, alguns grupos conversavam, outras pessoas liam, viu ainda um garoto que parecia ser gótico com um headphone, balançando a cabeça ao som da música, e um cara em uma extremidade que dormia jogado no último degrau da arquibancada.

" Eu queria muito ser você, cara. " lamentou mentalmente.

E então voltou a olhar para as pessoas que estavam na quadra em si. Um grupo de garotas perto da arquibancada direita, usando roupas curtas nas cores vermelho e branco, todas com os cabelos presos.

" Líderes de torcida. "

E então, com uma rápida análise, confirmou que Delancey não estava lá. E depois se perguntou porque estava procurando por ela.

De repente, sentiu algo ser arremessado contra a sua cabeça, o fazendo desequilibrar durante alguns segundos.

–Ai ! -Reclamou, tocando o lado esquerdo do rosto, que se encontrava vermelho pela batida inesperada.

–E aí cara ! Foi mal, pode passar a bola ?

Dirigiu seu olhar para um grupo de garotos, um o encarava com um sorriso debochado, os outros apenas riam e um bateu nas costas do central, que continuava o encarando.

Lince olhou para baixo, vendo uma bola de basquete. Agora sabia o que o havia acertado. Encarou a bola por uns dois segundos antes de a pegar.

–Vai passar ou não ? A gente tem um jogo pra fazer ! E ficar retendo a bola não vai fazer você entrar no time ! -Disse o mesmo garoto, os olhos azuis o desafiando.

–Não estou interessado em seus joguinhos. -Lince rebateu, se virando de maneira preguiçosa para o grupo.

–E mesmo se estivesse, eu não me importaria com a sua opinião. Dá pra passar a droga da bola ou tá difícil ?

" Será que se essa bola fosse direto no nariz dele, doeria ? Posso tentar ?! " Pensou, ignorando os dedos apertarem a bola com mais força.

Já estava imaginando os rostos do grupo surpresos, o falante de olhos azuis caído no chão com o nariz sangrando. Mas o que viria depois ? Briga, obviamente, teria travado uma guerra contra o grupo. E um possível castigo, pois ele teria jogado a mesma na intenção de o acertar, enquanto o outro não.

Com um suspiro e um rolar de olhos, arremessou a bola com raiva próximo ao pé do garoto, que começou a rir junto com seus amigos.

–Parece que o fracote se calou, não é ?! Está com medinho ? -Zombou.

Lince fechou os punhos.

" Não vou revidar esse idiota. É isso o que ele quer. " Pensou, se virando para ir em direção a arquibancada. Nem começara a aula e já estava cheio.

–Corre mesmo, mané, aqui não é o seu lugar.

" Não revide. Não revide. Não revide... "

–Meu lugar ? Se cada um estivesse no lugar em que deveria, você estaria na selva. -Disse, ignorando os pensamentos anteriores, se voltando novamente para o grupo, que o encarava surpreso. -Ah não...Animais selvagens devem ser muito mais evoluídos que você...Me conta, como foi que você escapou da sua época, meu caro Neandertal ? Será que estou falando rápido demais para que o seu cérebro consiga processar ? -Continuou, sorrindo de maneira debochada, se aproximando lentamente do grupo, que já o encarava com raiva, principalmente o garoto que havia sido chamado de neandertal. -Ah, não se preocupe...Talvez um dia você evolua e mereça estar entre pessoas de intelecto maior.

O garoto já tinha os punhos cerrados, pronto para ir de encontro com a expressão irônica de Lince, quando o professor apitou, anunciando o começo da aula.

–Você vai ver. -Disse o garoto, pouco antes de empurrar Lince, que sorria vitorioso e ir em direção ao professor.

" Irei ver... Aham, sei. Por mim chega. " Pensou Lince, indo em direção ao vestiário, pronto para retirar aquela roupa inútil. Não iria participar da aula mesmo.

Notas finais
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