Psycho
10 Capítulo 10 - " Desculpa. "
O sol já começava a tocar o horizonte, e o céu outrora azul límpido, agora se encontrava nas cores do fogo. Amarelo e brilhante em seu cerne -o sol- e um alaranjado forte logo depois, que nas extremidades lentamente dava lugar a um violeta, que se desfazia rapidamente, revelando um céu índigo e profundo.
Um vento frio já começara a circular pela cidade, e as pessoas, em sua maioria, focavam voltar para a casa. Porém, em um pequeno parque local, movendo-se lentamente em um balanço, se encontrava uma figura solitária, que observava o pôr do sol, e o balançar das folhas das árvores.
O cheiro de terra molhada o embalava, e seu humor estava assim como o céu noturno : índigo. Sentimentos profundos, serenos, e pequenas lembranças brilhantes como estrelas cadentes, passavam por sua cabeça.
Era como se o frio tivesse apagado todo o fogo que já queimara algum dia em seu ser. Sentia-se vazio, mas não de uma maneira que o fazia passar mal. Sentia a solidão, que agora lhe revelara ser indiferente.
Ele não retornara para a casa após o dia de aulas, apenas vagou pela cidade, procurando um lugar para ficar sozinho, longe de todos os estranhos dramas que vivera recentemente, longe de seus problemas familiares, longe das agressões que sofria. Era raro achar um lugar assim. Normalmente, uma garota com cabelos ondulados e com a cor de caramelo sempre aparecia de repente, o tirando de qualquer estado que estava. Seja esse a serenidade, raiva, tristeza, ou até mesmo a solidão em que se encontrava agora.
Se reprovou mentalmente por ter voltado a pensar na morena.
Simplesmente não queria pensar mais em nada.
Queria desaparecer do mundo por um instante.
E em um momento, ao voltar a olhar para o céu, lembrara do sonho que há nove anos antes o embalara. Voava em um céu índigo e estrelado.
" Mas a escuridão me fez acordar. " pensou, refletindo sobre o sonho. Não que o mesmo tenha sido de alguma maneira bom. Só era...marcante.
E muito.
Foi apenas questão de segundos para se lembrar de sua infância, e da figura materna. Lembrara dos olhos azuis, tão sem cor naquela última noite. Dos cabelos loiros, na maioria de suas lembranças, estavam radiantes e arrumados. Mas naquele dia, estavam secos e bagunçados.
Lembrou da expressão parada, e do sangue escorrendo pelo canto da boca.
A saudade o envolveu, e demonstrou ser do mesmo tom índigo que a solidão.
Seus olhos marejaram. Poderia chorar naquele momento,afinal estava só, não estava ?
O barulho de passos na grama o revelaram o contrário.
Nenhuma voz foi ouvida, e nenhum rosto foi visto, ele continuou olhando para frente, como se estivesse congelado, remoendo as lembranças dolorosas, assim como as doces, que pareciam doer mais que as ruins, e ignorando o corpo que se sentara no balanço ao lado dele.
–O que você quer ? -Perguntou com a voz parada e baixa, ainda olhava para frente, com uma expressão serena, em contraste com as sobrancelhas franzidas pelas memórias. Mas, sem realmente querer escutar a voz da morena, continuou. -Não precisa se aproximar de mim só porque eu sou um problemático.
–Não te acho um problemático. -Respondeu a garota, no mesmo estado que ele.
–Então porque fica na minha cola ? -Perguntou ele, tentando manter o tom de voz sereno.
–Eu quero te conhecer. Mas é normal se preocupar quando alguém faz mal a algum amigo seu.
Lince sentiu um arrepio ao escutar a frase da garota, principalmente em relação a penúltima palavra.
–É sério. Para de tentar ser amigável, eu sei que é só por que você é a representante do grêmio. -Falou, revirando os olhos claros, e virando o rosto para o lado oposto de onde ela estava.
–Na verdade, meu dever como representante é cuidar da papelada e dar as boas vindas, além de alertar sobre alguns eventos e avaliações. -Confessou a garota, mas ele ainda não se tinha por vencido. -Porque você é tão fechado ? Não é porque uma pessoa lhe fez mal, que todas irão.
Ele continuou calado.
–Eu me preocupo com você, Lince. -Disse a garota, em um tom quase de súplica, pousando a mão no ombro do rapaz, que se enrijeceu com o toque inesperado. -De verdade.
Ele finalmente olhou para a garota, que mantinha uma expressão de pena. Virou o rosto para o chão, e uma estranha faísca surgiu em seu ventre, porém, não se assemelhava em nada com a raiva. Suas bochechas pálidas, de súbito coraram, o levando a tampar parte do rosto com a mão direita. Estava confuso, e a sensação de que estava oco começara a surgir. Sentia-se com vergonha. E estranhamente culpado.
–Desculpa. -Disse rápido e baixo. Fora injusto com a garota, e agora tinha ciência de que nunca pedira desculpas para ninguém, ou, pelo menos, não se recordava do mesmo.
–Tudo bem. -Sorriu a morena. -E com você, tá tudo bem, agora ? -Perguntou, se curvando um pouco, tentando ver os olhos quase azuis do garoto.
Ele não sabia responder. Não sabia ao certo o que estava sentindo para afirmar que estava bem, ou se estava mal. Sentia-se vazio. Retirou a mão do rosto, que já perdera o rubor que a pouco adquirira. Continuou sem falar nenhuma palavra para a morena.
Delancey suspirou, e se aproximou mais do garoto, que estranhamente, até para ele mesmo, não reagia de maneira negativa em relação a esta proximidade, que outrora seria um motivo para se levantar e ir embora.
Mas isso nem passava pela cabeça do garoto agora. O que realmente estava preso em sua mente, era a pergunta proferida pela garota. Estaria tudo bem com ele ? Ele sabia que não, mas simplesmente não queria falar para a garota o que realmente tinha na sua vida. Coisas ocultas, deveriam continuar sendo.
" Vivo com um assassino. " pensou. " Isso com certeza não é sinônimo de estar bem. "
–Aham. -Foi o máximo que conseguiu emitir.
Ela sorriu, e envolveu seus braços ao redor do garoto, o tomando em um abraço, que o fez corar novamente. Os olhos dele se arregalaram com o ato da garota.
" O que ela está fazendo ? " se perguntou. Aparentemente, a garota sempre lhe era um enigma.
Já fazia quantos anos que recebera um abraço ? Talvez fora isso que causou um certo congelamento no corpo e na mente do rapaz. Seus pensamentos pararam, e ele não sabia o que fazer. Expirou pesadamente, soltando o ar que nem sabia estar prendendo. O corpo da garota era quente, em contraste com o frio no corpo do garoto. Exceto pelas bochechas, ainda vermelhas.
A sensação lhe era conflitante, porém de certa forma, agradável e nostálgica. Piscou algumas vezes, tendo seus pensamentos voltando a correr. Quando ia se movimentar para não deixar a morena no vácuo, percebeu que era tarde demais, pois ela já estava se afastando, ainda que pouco, do rapaz, retirando seus braços dele.
Ela sorriu ao ver o rosto, outrora pálido, agora vermelho do garoto, e ele a observava, sem saber porque ela sorria tanto.
–Eu...Preciso ir agora, está ficando tarde. -Ela falou, colocando uma mecha do cabelo para trás da orelha.
E só agora Lince realmente acordou do transe em que estava.
–Ah...Sim, sim. -Falou desconcertado, se levantando rapidamente do balanço, e passando a mão pelo cabelo castanho, o levando para trás.
Era como se um turbilhão de sensações passasse por seu corpo. Suas pernas estavam bambas, seu coração acelerado, o sangue fluía por seu rosto, e suas mãos tremiam. Enrijeceu a postura, tentando manter-se de pé, sem saber que ela não podia ver pelo o que ele estava passando.
Ela se levantou, e deu um último sorriso para ele, acenando, e então começou a andar na direção da saída.
Lince suspirou. Não sabia o que acabara de acontecer. Sua mente trabalhava muito devagar para tantas sensações e informações de uma vez. Sentia vontade de vomitar, mas sabia que não iria. Sentia uma taquicardia, martelando o peito, mas não sabia o porque. E sentia, finalmente uma coisa que não sentira durante nove anos de sua existência.
Um sentimento já sentido antes, presente no consolo de Delancey, que era como uma luz que iluminava o céu índigo que o envolvera pouco tempo atrás. Uma luz clara, radiante, que causava uma certa euforia.
Sorriu, de uma maneira quase involuntária. Estava alegre, por alguma coisa.
Talvez pelo fato de que, finalmente conseguira um amigo.
E com este pensamento, seu sorriso se abriu um pouco mais.
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