Psique

2 Capítulo I - "Pshyco Killer"


Sacramento, CA. 23 de Setembro de 1978

Aisla odiava quando crimes aconteciam no meio da noite, para ela uma noite de sono era indispensável e não havia café expresso que mudasse sua opinião. Quase foi impossível sair da cama naquele clima frio e foi mais difícil ainda dirigir até a cena do crime com o corpo sonolento, sorte que o caminho foi recheado de faróis verdes fazendo com que o trajeto fosse mais curto do que esperado.

Foi difícil achar uma vaga para estacionar, a rua estava tomada de carros, tanto de policias como de jornalistas, o lugar estava movimentado demais para um crime simples. Com muita dificuldade estacionou seu Opala entre dois carros sendo observada por alguns olhares curiosos, saiu do carro sentindo a brisa da madrugada e caminhou em direção a casa interditada por uma fita amarela, os jornalistas tomavam o jardim da casa esperando por alguma informação para rechear a manchete ou apenas uma foto do corpo para impactar os leitores, Aisla achava que os jornalistas poderiam ser facilmente comparados a urubus, aonde havia corpo era certeira a presença deles.

Quando estava se aproximando da fita sentiu uma mão ser depositada delicadamente sobre sua barriga, olhou confusa para o policial que a impedia de passar.

— Desculpe senhorita. Só oficiais podem ultrapassar essa fita. – Ele era alto demais em relação a ela, sua voz era grossa e o semblante era sério.

— Agente Especial Carosella... – Ela tira o distintivo do bolso do casaco que inclusive carregam as siglas de onde ela trabalhava: FBI. Achou difícil o policial grandão não ter notado.

Ele a encara descrente durante um considerável tempo antes de levantar a fita amarela para que ela pudesse passar, a agente agradeceu e seguiu para dentro da casa.

As pessoas não levavam a sério policiais mulheres nos anos 70, era difícil se manter na carreira durante muito tempo ou até mesmo conseguir um cargo consideravelmente maior que qualquer homem, mas Aisla havia conseguido. Fez faculdade em Psicologia e pós-graduação em Psicologia Criminal, havia entrado na Academia pelo seu pai que possuía um cargo importante, ninguém além dele acreditava em seu potencial e não estavam dispostos a serem convencidos o contrario. Aisla Carosella possuía mais de 50 casos resolvidos em sua carteira, mas ainda continuava a enfrentar problemas de desconfiança.

A mulher entrou na casa e notou um grande movimento de policiais no local, ficou ligeiramente incomodada, a presença daquelas pessoas iria dificultar um pouco seu trabalho. Tentando manter-se concentrada atravessou o pequeno Hall de entrada e foi em direção à sala, o cômodo tinha paredes amarelas recheadas de fotos e quadros, os sofás e poltronas eram laranja, o ambiente era decorado de forma descontraída.

Na sala havia um homem sentado em uma poltrona com o cabelo bagunçado, a camiseta social desabotoada e um cigarro na mão, seus olhos castanhos estavam vermelhos de tanto chorar e seu rosto aparentava incompreensão. Ele era o marido da vítima, ela sabia que era difícil estabelecer um diálogo com alguém tão próximo à vítima, nessas horas eles não conseguiam pensar em nada além da perda.

— Senhor Wallin? — Ela diz docemente e o mesmo levanta os olhos em sua direção, algumas lágrimas descem pelo seu rosto.

— Quem é você? — Ele murmurou sem muita força para manter a pose de durão. — Eu já disse que não vou dar nenhuma entrevista.

— Eu trabalho no FBI, vim descobrir quem fez isso com a sua esposa. — A morena diz confiante e então se aproxima do homem que a encara. — Meu nome é Aisla Carosella.

Ele dá um trago demorado no seu cigarro ainda encarando a moça, não sabia que mulheres ocupavam esses cargos importantes, em toda sua vida nunca havia visto um detetive mulher.

— Teresa ficaria orgulhosa em te ver, ela era idealista... – O homem deu um sorriso nostálgico e mais lágrimas desceram pelo seu rosto. — Eu achei legal no começo, mas depois... Eu disse que ela deveria parar. Parar de querer ser como os homens, para que ela queria ter direito como nós? Eu acho que a magoei e agora sinto muito por isso...

Aisla caracterizava o luto em três etapas: a negação, a culpa e a aceitação. Claro que podiam variar de pessoa para pessoa, algumas demoravam mais em alguma etapa, outras pulavam e tinha ainda aquelas que nunca chegavam à terceira etapa. Observando o senhor Wallin dizer de diferentes formas que não devia ter sido tão duro com sua esposa falecida sobre seus ideais a agente notou que ele estava na segunda etapa, e que infelizmente nunca conseguiria chegar à terceira.

— Eu estou parecendo uma criança... – O viúvo respira fundo e encara a moça que permanece em silêncio diante do seu desabafo, ela parecia compreensível com a sua dor e não o interrompeu em nenhum momento. — Pode fazer as perguntas...

Antes que Aisla pudesse formular alguma pergunta decente um rapaz com terno preto, cabelos castanhos e olhos azuis adentrou o cômodo. Seu rosto era marcado por linhas de expressão, não era feio, inclusive de primeiro momento a agente gostou do que havia visto, ele era diferente, seu cabelo e sua barba eram grandes, se ela o encontrasse por acaso na rua juraria que ele era algum hippie.

— Agente Carosella? – Ele pergunta e estende a sua mão em direção a mulher que parece um tanto perplexa. ­— Sou o Capitão Slade, poderia me acompanhar até a cena do crime?

Ele colocou as mãos nos bolsos da calça e indicou com a cabeça o caminho que teriam que percorrer, Aisla pediu licença ao viúvo desolado e começou a seguir o capitão hippie, eles caminharam em direção ao banheiro onde estavam concentrado maior número de pessoas, de longe ela podia ver os flashes das câmeras da pericia. Um nó se formou em sua garganta à medida que iam se aproximando, o Capitão parou em sua frente quando chegaram à porta do banheiro e a encarou como se dissesse mentalmente "está pronta?", a moça suspira e balança a cabeça confirmando que estava preparada. Ele saiu da frente dela e então ela soube que ela não estava nenhum pouco preparada para aquilo, era grotesco. Era desumano, parecia que a moça tinha sido ataca por algum animal selvagem.

Teresa Wallin estava estirada no chão de costas com a sua blusa arregaçada, de modo a mostrar os seus seios. A sua calça e a sua calcinha encontravam-se esticadas até o joelho – era claramente um cenário de abuso sexual. Além disso, o seu mamilo esquerdo estava decepado e o seu torso totalmente aberto. O intestino estava atirado ao lado do corpo. Seus pulmões, diafragma, fígado e seio esquerdo estavam dilacerados por facadas. Os rins haviam sido arrancados e acoplados dentro da barriga e o seu pâncreas cortado ao meio.

— Encontramos dois projéteis na cabeça e no pescoço. – O Capitão disse enquanto os olhos da mulher corriam por todo banheiro, de fato era um mar de sangue, envolta do corpo da vítima havia círculos e pegadas.

— O que é aquilo? – Aisla apontou para um copo apoiado na pia, estava sujo de sangue também.

— Aquilo? – O rapaz a encarou meio desconfortável e respondeu. — Acreditamos que o assassino bebeu o sangue da senhora Wallin. Carosella, eu acho importante ressaltar que... Teresa Wallin estava grávida.

Aisla o encarou surpresa e balançou a cabeça. — Capitão, nós estamos lidando com um psicopata.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.