Psicose
1 I Told You
Notas iniciais
O nojento chiado ecoava, semelhante ao som de um rato ao se esgueirar pelos esgotos. O eco ricocheteava pelas paredes enquanto lá fora, o céu era tingido pelo cinza... Ria ou chorava? Não importava, que apenas parasse de fazer esse barulho repugnante.
- Eu lhe avisei antes, Leonar. – Recitou, indiferente ou acostumado?
- ...
- Porque não me escutou? – Proferiu chiando, o outro provavelmente deveria estar desconfortável com a conversa.
A cabeça do outro, que permanecia em silencio, tombou levemente em direção a Devit, que continuou.
- Agora, não ira mais me responder? – Seus lábios se curvaram e se contorceram, provavelmente segurando a gargalhada. Preferia chiar não? Quão mais odioso melhor.
O silencio permaneceu, enquanto o outro se mantinha serio, com uma expressão calma.
- Sabe, Leonar... Qual é o maior pecado da humanidade?
- ...
- Não sabe responder, ne? – Chiou novamente, fazendo os ouvidos de qualquer um doerem. – É a própria existência como humanos.
Leonar continuou encarando-o seriamente, sem desviar o olhar por nenhum segundo.
- A humanidade já caiu na desgraça desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso... – Chiou novamente, olhando para a janela com um meio sorriso de satisfação. – E sabe qual a pior consequência disso?
- ...
- Não sabe também? – Chiou novamente... Ate quando faria essa coisa nojenta? – Pois lhe digo. A existência!
Observou-o com o olhar distante, mas sem tirar seus olhos de Devit, talvez se perguntando sobre o que falava?
- O que? Não acredita? – Fingiu indignação, erguendo os braços em uma atuação sem valor nenhum para o outro. – Mas lhe avisei! Nada pior do que a existência, não? A existência te consome, mas você não pode impedi-la.
Os dois homens se encararam por alguns segundos, um com o olhar distante, talvez o ignorando, enquanto o outro de pé, fazia suas poses melodramáticas.
- Porque não pode impedi-la? – Chiou e sorriu cínico, até que prosseguiu. – Pois a vida é efêmera, mas a existência... Ah, a existência não tem limite! Mesmo com a vida, mesmo com a morte... Sua mente ira vagar por onde quer que vá, em busca do termino dessa existência deplorável.
- ...
- Sim, deplorável... – Não chiou, nem sorriu, apenas olhou para o céu, pensativo, até que seu repulsivo sorriso voltou a seus lábios. – Porque as pessoas são idiotas e algumas se matam?
Olhou para o amigo sentado que o encarava, houve uma rápida troca de olhares, ate que resolveu continuar o monologo sem sentido.
- Calma, não espero que você me responda isso. – Sorriu quase inocente, se sua alma já não estivesse manchada pelo cinza daquele céu. – Mas porque fazer isso se, não importa para onde vá, você continuara sofrendo com sua própria existência? Vidas são fáceis de tirar, mas a existência... Impossível!
- ...
- Ande, Leonar... Não fique irritado comigo! – Chiou sorrindo. – Eu lhe disse que nada daria certo se não escutasse o que lhe digo.
- ...
- Leonar, vamos... Sorria também!
- ...
Aproximou-se do outro, segurou seu rosto e tocando-lhe o lábio, obrigou-o a curva-los, num sorriso tosco.
- Assim, sorria logo. O outro nada mais fez, apenas deixou-o fazer como queria, até que tombou para o lado, batendo no chão frio.
- Bem, tentei conversar e você sabe disso. – Suspirou, finalmente resignado. – Não tenho mais o que fazer agora, se é assim.
Deu de ombros e caminhou em direção a porta, saindo da sala e deixando o que restava de Leonar jogado no chão. Afinal, a quantas semanas havia se matado? Pediria para seu rei mandar alguém enterra-lo depois. Devit era alguém ocupado, mas ele gostava daquele escravo, até lhe dera um nome...
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