Psicose
2 Algumas dores são passíveis de cura
Notas iniciais
- Te vejo amanhã Dill. – Norah gritava pelo vidro do carro, enquanto as outras acenavam para mim, deixando-me na porta de casa.
- E então filha, como foi na casa da Liz? – minha mãe vinha em minha direção, ainda no jardim.
- Foi legal mãe. – abracei-a.
- Adivinha o que tem para o jantar? – ela disse sorrindo.
— Oh meu Deus Angel, me diz que não é bolo de carne, por que eu estou tão cheia, e seria péssimo dormir sob o mesmo teto que um bolo de carne sem comê-lo.
— Você tem duas alternativas. – minha mãe contou nos dedos. – primeira: você come o bolo de carne maravilhoso que está te esperando na cozinha, ou segunda: você dorme pensando naquele bolo de carne maravilhoso que estava te esperando na cozinha, mas você não comeu.
- Bom, acho que a primeira opção é a mais tentadora. – sorri abraçando-a.
- Então vai lá em cima tomar um banho e trocar-se para o jantar. – ela disse me dando leves tapinhas nas costas.
- Ok. — eu disse subindo das escadas enquanto minha mãe fechava a porta.
Um estrondo.
O vidro despedaçando-se no chão.
O corpo de minha mãe perdendo o equilíbrio.
Meu coração.
Minhas forças.
Meu ar.
Meu tudo.
Nada parecia funcionar dentro de mim.
Corri em direção ao corpo de minha mãe, que estava caído em cima dos cacos de vidro.
- MÃE, FALA COMIGO. SOCORRO. MÃE, NÃO FECHA OS OLHOS. ALGUÉM PODE ME AJUDAR? — Ao mesmo tempo em que eu tentava reanimar o meu anjo, eu pedia socorro aos gritos.
- Ana — minha mãe sussurrava perto do meu ouvido. – Eu vou morrer?
- Claro que não mãe. – eu chorava. – eu não vou deixar.
- SOCORRO. Meus gritos finalmente foram ouvidos, por um homem que passava pela rua. — Senhor, me ajude, minha mãe levou um tiro. – eu chorava, não sabia se ele podia me ouvir, mas ele correu em direção as casas pedindo por socorro.
Coloquei a mão no peito de minha mãe, que jorrava sangue.
- Mãe, você vai ficar bem, já chamaram a ambulância. Ela não disse mais nada, só respirava rápido e revirava os olhos de dor. A minha mãe, esta ali nos meus braços, lutando para viver, lutando para continuar a respirar.
- Mãe escute, vai ficar tudo bem, você vai ver. Nos ainda temos um bolo de carne para comermos você se lembra? — As lágrimas escorriam sem sessar pelo meu rosto. Ela pousou as mãos tremulas e sujas de sangue pelo meu rosto e sorriu.
- Eu te amo tanto Ana. – ela tentava dizer entre gemidos de dor.
- Eu te amo ainda mais Angel. – eu tentava dizer entre lágrimas de medo.
A ambulância finalmente chegou ao local. Os paramédicos afastaram-me do corpo de minha mãe e colocaram-na na maca.
Sedaram-me, pois a essa altura eu devia estar nervosa e agressiva. Não me lembro de mais nada depois de acordar no hospital com meu pai ao meu lado.
- Pai onde ela tá? – eu gritava por dentro, mas estava fraca demais para que minha voz saísse.
- Filha, ela... – meu pai abaixou a cabeça chorando.
- Não pai, por favor, me diz que não é verdade. — Meu pai não conseguia falar nada, e suas lágrimas contagiaram as minhas a também cair.
- Diana. Sua mãe foi para um lugar melhor, e você precisa ser forte...
- Não pai, não. – dessa vez consegui gritar. – Não pode ser, não é verdade, eu quero vê-la pai, eu quero vê-la. Deixe-me vê-la.
- Senhor Georg – uma voz feminina invadia a sala. – precisamos que a segure firme para darmos os tranquilizantes.
- Tranquilizantes? Para quê, eu só preciso ver a minha mãe. AGORA. – eu gritava o mais alto que podia. Meu pai passou-se para trás de mim, segurando meus braços.
Doía. Eu me debatia. Eu queria vê-la, mas não deixaram.
A enfermeira aplicou-me uma injeção, fazendo com que minha visão ficasse turva. Não me lembro de mais nada, até acordar numa sala estranha novamente.
- Senhor Oliver, aconselho que deixe Diana aqui por um tempo, por pelo menos dois meses, para que possamos acompanha-la de perto. Não sabemos qual pode ser a sua reação. Ouvi isso e involuntariamente meus olhos se fecharam e eu apaguei.
No dia seguinte recebi a noticia de que devia ficar ali para ter acompanhamento médico.
Vocês já devem imaginar onde eu estava não é mesmo? Sim, numa clinica. Numa clinica para loucos. E querem saber o pior? Não me deixaram ir ao enterro de minha mãe. Eu não pude me despedir. Ela se foi assim. Num dia eu tinha tudo, mas no outro, eu tinha nada. Levaram-me tudo. A minha alegria, o meu sorriso, o meu amor, a minha casa.
Tiraram de mim aquela que prometeu sempre estar por perto para me proteger. Levaram de mim a minha Angel, sem se quer deixar eu me despedir. E acharam que eu estava louca, mas não eu não estava.Eles confundiram loucura com saudade, loucura com tristeza, loucura com medo. Eu estava tudo, menos louca.Você ai? É você mesmo. Você já perdeu algo que realmente gostava? Se você perdeu você sabe que não tem como ficar feliz, certo? Você fica triste, você fica mal, você fica até mesmo irritado, não é? Ótimo, eu sei disso, você sabe disso, nós sabemos disso.
Mas aqueles que se julgam inteligentes o suficiente para serem psicólogos, esses que deveriam saber de uma coisa obvia dessas, esses mesmo não sabem.
Será que eles nunca sofreram? Ou nunca se sentiram tristes, ou com saudades? Será que foi por isso que eles resolveram ter essa profissão? Por que eles nunca sentiram o coração chorar, e por isso acham que entendem a mente humana?
Burros.
Errados.
Isso é o que eles são. Só quem já sofreu sabe o real o significado da palavra dor. Somente essas pessoas sabem como curar o sofrimento, talvez com o tempo, talvez com um abraço, talvez com belas palavras, talvez com um simples ‘eu te perdoo’, ou talvez até mesmo se curam com a morte. Mas não, nunca com remédios ou sendo tratados como loucos. Enquanto loucos de verdade que precisam de ajuda estão soltos por ai, como psicopatas, assassinos, ladrões, eles internam aqueles que só estão com saudades, aqueles que só precisam chorar para lavar a alma.
Errados. Isso eles estão.
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