Psicopata
6 Capítulo 6

Com cansaço pesando em meus ombros e a fome corroendo meu estômago, destranquei a porta do meu apartamento e entrei, o chão de madeira escura rangeu com meu peso, fechei-a e a tranquei, deslizei a mão na parede ao lado da porta, procurando o interruptor, achando-o, acendi a luz do hall de entrada, tirei os tênis pretos que calçava e os deixei jogados ali mesmo, havia somente uma porta no lado direito do estreito corredor que era o hall do meu apartamento, era o que podia se chamar de minha pequena biblioteca, passei por ela, cansada demais para me deixar ser atraída pelos livros que as prateleiras lá dentro continham, cheguei a minha sala de estar que era pequena mas confortável, desviei-me do sofá de dois lugares e da poltrona que ficavam no centro, não precisando da luz para me guiar num lugar tão familiar para mim, como na maioria dos apartamentos nessa parte de Magnólia, a cozinha era conjunta com a sala, separada por um balcão de granito claro.
Deixei o pacote de sonhos que Gray havia me dado em cima dele, tentaria comer alguns depois do banho.
Caminhei pelo corredor onde havia duas portas escuras, uma o banheiro outra o quarto, fui até o final dele onde havia uma janela com cortinas azuis fechada, puxei o trinco e levantei com dificuldade a armação pesada de madeira, o ar frio da madrugada soprou forte em meu rosto quando inclinei-me pra fora, observei a rua silenciosa por alguns momentos, passando os olhos desconfiados nos conhecidos cantos escuros onde as luzes dos postes não alcançavam, não havia ninguém, fechei a janela de novo, passando o trinco.
Aquilo de olhar pela janela toda vez que chegava tarde em casa era uma rotina. Uma verificação para confirmar se não havia alguém suspeito zanzando pela rua.
Entrei no quarto e acendi a luz apenas para me deparar com a bagunça de sempre, roupas, sapatos, papéis, pastas e copos de café vazios se encontravam espalhados por todo o canto, catei algumas peças íntimas que estavam decorando o chão escuro, joguei-as em cima da loucura que era a cama de casal, comecei a tirar a roupa, desfiz o coque bagunçado e deixei meus cabelos loiros caírem soltos ao redor do meus ombros, peguei uma blusa velha que usava para dormir e uma calcinha, umas das que estavam no chão, e fui para o banheiro, não olhei para meu reflexo no espelho, não estava com muita vontade de ver aquilo que Gray e Jellal haviam dito estar horrível.
A água quente foi bem recebida por minha pele fria, não havia percebido que ainda estava com frio, fechei os olhos e meus dedos desceram até a pele estragada por uma cicatriz comprida em meu abdômen.
Haviam se passado quatro anos desde que a havia ganhado mas de vez em quando eu sentia a dor que senti quando levei meu primeiro tiro.
Peguei o sabonete e o deslizei pela pele, barrei as lembranças dolorosas, não queria encará-las, não queria me culpar novamente pelas decisões estúpidas que tomei, pelo erro que cometi, não hoje, abaixei a cabeça, o jato forte da água relaxou os músculos tensos da minha nuca e ombros, ouvi o murmuro do toque do meu celular, abafado pela jaqueta que ficou por cima dele, não saí do chuveiro para ir atendê-lo, provavelmente era Gray me perguntando se havia comido algo e como eu não podia mentir, já que ele sempre adivinhava quando eu o fazia, iria ameaçar me tirar do caso do Assassino das Cartas, como a imprensa o havia apelidado, prendi o riso, os nomes que eram dados há esses assassinos eram ridículos, fechei o chuveiro, sequei-me e me vesti, fui até a cozinha, a fadiga quase me levando ao chão.
Peguei um sonho do pacote e o mordisquei enquanto abria a geladeira, um cheiro azedo me assaltou, franzi a testa e peguei a caixa de leite, cheirei, estava coalhado, suspirei, joguei o leite grudento dentro da pia e a caixa no lixo, abri a torneira para que a água levasse o cheiro embora, olhei para a geladeira, desanimada, só havia garrafas de água e dois ovos, olhei pra eles, com certeza estavam podres já que não me lembrava quando eu os havia comprado, balancei a cabeça, descrente com o desmazelo com o qual eu mesma me tratava, peguei os ovos e os joguei no lixo, fechei a geladeira e a torneira, peguei o pacote de sonhos e fui para o quarto, acabei de comer o sonho e lambi os dedos açucarados, fui até a escrivaninha abarrotada de coisas e me inclinei sobre ela para abrir a janela, deixei-a toda aberta e voltei para cama, joguei-me nela, afundando na colcha grossa e nas roupas espalhadas nela, amassei alguns papeis e tive que me levantar para tirar um porta-retrato que estava me espetando com suas beiradas, olhei para a foto, meus pais sorriram seus sorrisos congelados mais uma vez para mim, deixei meus olhos passearem pelos rostos de Layla e Jude, contemplei-os por alguns segundos, absorvida pelas lembranças deles, mas logo coloquei o porta-retrato de volta no criado-mudo ao lado da cama quando a lembrança dos velórios deles vieram, primeiro Layla, levada por uma doença, depois Jude, cansado de viver.
Afundei o rosto no travesseiro e deixei que a saudade me envolvesse, adormeci.
Acordei o com celular tocando, ele parou para recomeçar novamente segundos depois, estridente e irritante, estalei a língua, estava com a impressão de ter acabado de fechar os olhos, olhei para o relógio, eram cinco da manhã, eu não havia dormido muito mais que duas horas, pensei em ignorar e tentar voltar a dormir, mas eu não podia, levantei-me e fui até a minha jaqueta que estava jogada no chão, vasculhei os bolsos e catei o celular, atendi-o no sexto toque.
— Lucy falando.
A voz do outro lado era bem-humorada e nada bem vinda.
— Ah, parceira! Já estava começando a ficar preocupado.
Fiz uma careta de desgosto.
— Agente Dragneel. — falei. — Como conseguiu meu número?
Ele riu.
— Ora, por aquele policial que não foi. — disse, com a voz sarcástica. — Quando pedi seu número para ele, o mesmo só faltou me estrangular com os olhos.
Abri um sorriso.
— Como?
Natsu estalou a língua alto o bastante para que eu escutasse.
— A internet oferece informações muito úteis quando você sabe onde procurar.
Franzi o cenho.
— Então, o que você quer? Não me ligou esse horário apenas para bater papo, certo?
— E se foi? — pude escutar o barulho da porta de um carro batendo. — Estava pensando, já que somos parceiros agora, poderíamos tomar café juntos? Para nos conhecermos...
— Eu vou desligar. — o interrompi, irritada.
Ouvi seu suspiro.
— Espera, não desliga. — pediu. — Identificamos o dono do segundo DNA que foi encontrado na cena do crime de Tony, temos o endereço, Makarov nos mandou para lá.
Se eu ainda tinha sono, ele foi rapidamente aniquilado pelas palavras de Natsu, fui até o banheiro, com passos rápidos.
— Certo, onde é?
— Na periferia de Magnólia, não muito longe do apartamento onde o corpo de Tony estava, é no mesmo bairro. — disse. — Estou te esperando.
Parei com a mão em concha a caminho do meu rosto, encarei meu reflexo, confusa.
— O quê?
— Em qual andar você mora?— perguntou, a voz calma. — O seu prédio não é muito alto, então eu vou chutar, terceiro andar, o apartamento que tem um janela com cortinas azuis. É o seu.
Deixei a água escorrer da minha mão, saí do banheiro e fui até a janela do corredor, puxei a cortina e olhei para baixo, o carro preto esportivo de Natsu estava estacionado do outro lado da rua, com ele sentado no capô do mesmo, olhando para cá, quando me viu, acenou com a mão.
Isso não foi um chute.
— Conseguiu meu endereço na internet também? — perguntei, incomodada.
Escutei e o vi rir.
— Sim, foi tão fácil que fiquei surpreso.
Hoje ele não estava de terno, usava tênis pretos, jeans e uma jaqueta por cima da camisa preta, os cabelos estavam bagunçados, mechas mais rebeldes que outras desafiando a gravidade ao ficarem apontado para cima.
— Surpreso como? — indaguei, saindo da janela e voltando para o banheiro, lavei e sequei o rosto.
— Você é uma investigadora criminal, praticamente uma policial, não é muito seguro encontrar tantas informações sobre você e sua vida.— por algum motivo, seu tom de voz grave me deixou nervosa. — Pessoas não muito legais podem tentar fazer alguma coisa contra você, então, tome cuidado.
Fui para o quarto. Peguei uma calça jeans e uma regata branca, vesti as peças com o celular preso entre a orelha e o ombro.
— Essas informações... — comecei, agachando-me e puxando um par de botas pretas e baixas de debaixo da cama. — Não são encontradas tão facilmente, elas não estão disponíveis para qualquer um, somente uma pessoa que soubesse hackear e tivesse em mente o que precisa ser feito, as conseguiria dos bancos confidenciais da polícia. — calcei as botas, peguei uma jaqueta e o pacote de sonhos que não havia mais tocado mais cedo. — Você é um agente do FBI, tem permissão para entrar nos bancos de dados, não precisa da internet para saber meu número e meu endereço, você não a usou, não encontrou nada sobre mim nela, então, por favor, pare de dizer coisas desnecessárias e que não lhe dizem respeito.
Desliguei.
Fui para a sala, segurando o pacote com os lábios e juntando meus cabelos em um rabo de cavalo desarrumado, meu celular tocou de dentro do meu bolso, deixei-o tocar, peguei a chave que deixei jogada no hall, apaguei a luz e sai do apartamento. Desci pelas escadas, o elevador do prédio funcionava, mas estalava e gemia a cada parada em um andar, e eu não confiava mais nele desde que ele parou entre dois andares e me deixou presa por três horas, cheguei ao térreo e cumprimentei o porteiro careca com um aceno de cabeça.
O dia havia amanhecido nublado e úmido, o cheiro de chuva salpicava o ar frio, respirei fundo, curtindo aquele aroma, olhei para o outro lado da rua, avistando Natsu, de braços cruzados e lábios crispados, o celular havia parado de tocar, caminhei até ele, abrindo o pacote e catando um sonho, estava um pouco duro, mas não me importei, mordi-o, o recheio de doce-de-leite despertou minha fome e eu o terminei antes de chegar perto do carro.
— Não é muito educado desligar na cara dos outros, parceira. — disse, os olhos negros irritados.
Lambi os dedos sujos de açúcar. Dei de ombros.
— Eu não sou muito educada com pessoas incômodas.
Natsu trincou os dentes e abriu a porta, entrei e pulei para o banco do carona, o interior do carro era aconchegante, o cheiro de couro e perfume masculino me fez respirar fundo, disfarcei o que fiz fingindo um espirro quando vi o sorriso na cara do rosado, ele se sentou no banco do motorista, se inclinou para mim e pegou meu cinto, passando-o por mim antes que eu o pudesse fazê-lo, arqueei uma sobrancelha mas não falei nada, apenas peguei outro sonho e ofereci o pacote.
— Não, obrigado, não sou fã de doces. — recusou, enquanto batia a porta, passava o cinto e ligava o carro, o motor ronronou, grave.
— Você que sai perdendo. — murmurei, com a boca cheia.
Natsu riu baixinho e acelerou, o carro partiu em uma velocidade que Gray diria ser de uma tartaruga, relaxei o corpo no banco, percebendo que não estava com o moreno e que não precisaria me preocupar em capotarmos ou batermos em algum carro ou muro, olhei pelo vidro escuro, mastigando, estava precisando de um café.
— Então...? — Natsu falou, olhei-o de rabo-de-olho.
— Então o quê?
Ele trocou a marcha e acelerou um pouco mais, ultrapassando alguns carros e furando um sinal que começava a ir para o vermelho.
— Ah, qual é? Somos parceiros agora, iremos ficar um tempinho juntos nesse caso, porque não tentamos nos conhecer melhor?
Passei a língua no canto da boca.
— Não é porquê somos parceiros que precisamos nos conhecer. — falei, fria.
Natsu murmurou alguma coisa que não fui capaz de entender.
— Você é sempre grosseira assim com todos que não conhece ou é só comigo?
Não precisei pensar muito na resposta.
— É só com você mesmo.
Ele virou o rosto pra mim, afrontado.
— Fiz alguma coisa para merecer isso? — perguntou, os lábios se curvando para baixo. — Ou é só por quê eu sou um agente do FBI?
— É porque não confio em você.
O silêncio que veio depois das minhas palavras foi tenso, não o olhei, apenas continuei a comer, mas vi pela minha visão periférica suas mãos apertarem o volante, o resto do caminho foi acompanhado por aquele silêncio, quando Natsu estacionou o carro ao lado de um terreno baldio, foi minha deixa para saltar do carro, bati a porta e olhei ao redor, apartamentos baixos e tortos se erguiam muito próximos aos outros do outro lado da rua, uma oficina abandonada com partes de carros enferrujados em seus fundos lutava contra o mato selvagem do terreno baldio ao seu lado, a rua era bem estreita e mal cuidada, os postes de luzes ou tiveram suas lâmpadas roubadas ou vandalizadas, já que nenhum estava ligado, havia um beco onde um morador de rua se encontrava dormindo debaixo de papelões.
— É aquele ali. — Natsu apontou para um dos primeiros prédios.
O segui, não havia interfones ou campainhas, bem, mesmo se tivesse, não iríamos simplesmente tocar e esperarmos ser atendidos, Natsu empurrou a porta velha do prédio, ela cedeu, caindo no chão com força, o barulho ecoou alto, fazendo um cachorro ao longe latir descontroladamente.
— Opa. — murmurou, entrou e eu fui atrás, pegou a porta e a escorou na parede ao lado do lugar dela.
— Qual é o nome dele? — perguntei, olhando ao redor do térreo, não havia elevador, nem vigia ou porteiro, uma escada estreita dava acessos aos andares.
Natsu passou por mim e começou a subir as escadas, o acompanhei.
— Steven Dan, 56, foi preso diversas vezes por tráfico de drogas, roubos, extorsão e um assassinato, cumpriu duas penas de quatro anos pelo tráfico e uma de dez anos pelo assassinato, foi liberado há alguns meses e detido há alguns dias depois de tentar roubar uma loja de conveniência. — falou, nossos passos faziam a escada ranger. — Mora no segundo andar desse prédio há anos, voltou pra cá recentemente.
Confirmei com a cabeça, mesmo ele não podendo ver, acabamos de subir e caminhamos pelo corredor empoeirado até pararmos na porta onde havia o número 103 apagado na madeira.
— Fique para trás. — Natsu murmurou, retirando do cós de seu jeans uma Glock 9mm, ele destravou silenciosamente a pistola, me olhou por alguns segundos. — Você não tem uma arma?
Comprimi os lábios em uma linha fina.
— Tenho uma Beretta 84FS Cheetah. — respondi. — Mas a deixei em casa.
Ele franziu a testa.
— É uma boa pistola para se deixar em casa. Traga-a da próxima vez.
Não falei para ele como eu me sentia desconfortável com aquela pistola, apenas encostei-me na parede do lado esquerdo da porta.
Natsu bateu com força.
— Steven Dan! Abra! Aqui é a polícia!
Arqueei uma sobrancelha e ele me respondeu com um dar de ombros. Bateu mais um vez quando não recebeu resposta.
— Steven!
Mais uma vez não ouve resposta.
— Vou arrombar, fique longe, Lucy.
Afastei-me e Natsu chutou com força a porta de madeira, duas dobradiças se quebraram e a porta ficou sustentada por apenas uma, ele chutou mais uma vez, fazendo com que ela caísse para frente e deslizasse pelo chão.
Um tiro atingiu o batente da porta errando por pouco o rosto de Natsu. Ele ergueu a Glock.
— Parado! — exclamou, dando um passo para dentro do apartamento. — Só queremos fazer algumas perguntas!
Fui atrás dele, sem pensar que poderia levar um tiro, olhei para o homem parado no meio da micro sala, apontando a arma para nós, gordo e careca, estava vestido com uma bermuda e camisa encardidas, a barba por fazer lhe conferia um ar de abandono, os olhos minúsculos na cara larga eram maldosos.
— Se fosse apenas perguntas não teria arrombando minha porta, cretino! — berrou, saliva voando de sua boca.
— Você não atendeu, então tomamos isso como uma permissão para entrar. — falei, ficando do lado de Natsu.
Steven apontou para mim, suas mãos não tremiam ao segurar a pistola. Ele estava preparado para atirar caso fizéssemos algum movimento em sua direção.
— Lucy. — Natsu chiou, o olhei. — Fique atrás de mim.
Voltei a encarar o gordo à minha frente, que abriu um sorriso de dentes amarelados.
— Melhor ouvir seu parceiro, garotinha.
Fechei a cara e dei um passo a frente, Steven quase apertou o gatilho.
— Quem será mais rápido, eu ou sua bala? — provoquei, dando um passo para o lado, não havia nada entre mim e Steven, a sala seria completamente vazia se não fosse uma poltrona quebrada e velha em um canto.
— Porra, Lucy! — o rosado rosnou. — Volta aqui agora!
Não lhe dei atenção, fiquei encarando Steven como um encantador encara uma cobra, dei mais um passo e sem nenhum aviso, avancei pra ele, o barulho do tiro fez meus ouvidos doerem, senti um ardor em minha bochecha mas ignorei, agarrei o braço que ele segurava a arma, puxei-o e golpeei seu nariz com a testa, forte o bastante para esmagá-lo, Steven urrou de dor e quando abaixou a cabeça, dei-lhe uma joelhada, ouvi o estalo de sua mandíbula e ele desabou com tudo no chão, largando a arma que deslizou até os pés de Natsu, que me encarava com de boca aberta, abri um sorriso que durou pouco por causa da dor em minha bochecha, toquei-a e meus dedos voltaram úmidos de sangue.
Havia levado um tiro de raspão.
— Acho que vou precisar de um kit de primeiros socorros. — falei, olhando para Steven que gemia de dor. — E um café.
A risada que Natsu soltou foi alta o bastante para fazer o cachorro de antes latir novamente.
Fale com o autor