Psicopata

16 Capítulo 16


Acordei com os raios do sol fraco da manhã em meu rosto, aquecendo-o bem levemente, abri os olhos, piscando várias vezes para desembaçá-los, olhei ao redor, observando as mesmas paredes brancas sem nenhum adereço, escutando o bip incessante e irritante do monitor cardíaco e sentindo cheiro do hospital, sentei-me, ouvindo o colchão ranger sob suas molas, estalei o pescoço, sentindo-o dolorido por causa do travesseiro excessivamente macio, estiquei a mão enfaixada até a cortina que cobria parcialmente a janela ao meu lado, puxei-a com força, quase arrancado-a dos trilhos, o sol que nascia era uma bola muita clara aparecendo nos topos das árvores que ladeavam o Hospital Geral, o céu opaco pelas nuvens cinzas se abria aos poucos para um azul claro e o ar frio, ainda com o gosto da chuva da noite anterior, soprou em meu rosto.

Puxei os cabelos soltos e embaraçados para cima, arrumando-os em um coque frouxo, abaixei as mãos e fitei as ataduras brancas que as envolviam não muito apertado.

Tinham se passado três dias desde que tive meu ataque dentro daquele apartamento, e desde ele, estava internada no hospital por causa das queimaduras de 2° Grau e uma anemia severa, movimentei os dedos lentamente, sentindo o desconforto causado pela pele queimada, não ficaria manchas caso eu usasse bastante protetor solar e evitasse o sol por algum tempo, fora o que o enfermeiro disse assim que acordei dos meus sonhos febris, ontem à noite, suspirei, não me importando muito com aquilo, tudo bem se ficasse manchas de queimaduras, eu não ligava para elas, olhei para o lado, para uma mesinha baixa e branca, fora um copo d'água e uma cartela de comprimidos fracos para dor, havia um vasinho estreito e alto da cor preta com uma grande rosa vermelha se debruçando para fora dele, ele não estava ali ontem, estiquei a mão para pegá-la, mas parei antes de tocar em seu caule coberto por espinhos pequenos e afiados, rangi os dentes, não queria adivinhar qual dos assassinos haviam-na enviado, então, agarrando suas pétalas rubras, esmaguei a bela rosa, tornando-a nada mais que um botão minúsculo e vazio.

Olhei na direção da porta quando ela se abriu, não sorri para o rosto sorridente da enfermeira que entrou, somente sacudi a cabeça para lhe devolver o bom dia dito por sua voz rouca.

— Está sentindo dor, investigadora Heartfilia? — perguntou-me, pousando a prancheta que carregava aos pés da cama. — Alguma tontura? Mal-estar?

— Não. — respondi, deixando-a verificar as ataduras das minhas mãos, seus dedos cautelosos não apertando-as. — Quando poderei sair daqui?

A enfermeira sorriu com compaixão. Não gostei. Não queria compaixão de ninguém, mesmo de alguém acostumado a dá-la muitas vezes.

— Não sei lhe informar isso, investigadora. — disse, anotando algo rapidamente em sua prancheta, seus olhos claros relançaram para a rosa esmigalhada ao meu lado, mas ela não perguntou nada sobre, somente voltou a me fitar, com um sorriso leve. — Mas se comer a comida que lhe é traga, se recuperará rapidinho de sua anemia e será liberada.

Suspirei, aquiescendo com má vontade. Quando ela saiu, olhei pela janela, ela dava visão para metade do estacionamento, os galhos pelados das árvores pareciam dedos retorcidos enquanto se curvavam para a área destinada aos carros de visitantes e funcionários, vi poucas vagas ocupadas e segui com os olhos um carro esportivo preto estacionando no limiar da visão. Estalei a língua.

Empurrei o lençol fino para o lado e joguei as pernas para fora da cama, o choque térmico que senti quase me fez voltar para a cama, porém não fiz isso, demorei um pouco para obter equilíbrio e quando o tive, puxei a agulha fincada na dobra do meu cotovelo, na mesma hora, o bip contínuo do monitor cardíaco disparou, olhei-o com os lábios franzidos e com os dedos apertando o micro furo para que não sangrasse, espantei para longe qualquer pensamento mórbido e fui até a porta com passos vacilantes, a camisola verde clara que vestia, fechada com três laços atrás em seu comprimento, subiu por minhas coxas, estava nua por baixo daquilo, irritada com aquela merda que nos obrigavam a vestir, puxei-a o máximo para baixo e fiquei segurando sua barra. Abri a porta e espiei o corredor, havia um policial sentado em uma cadeira logo ao lado da minha porta, com o rosto escondido pelo quepe e completamente ferrado no sono, por ainda ser cedo, o corredor se encontrava vazio e mesmo os enfermeiros que costumavam zanzar por ali não estavam naquele momento, sai do quarto, deixando a porta aberta para não correr o risco de batê-la e despertar o policial, e caminhei descalça no chão gelado.

O telhado do Hospital Geral era de acesso restrito e por ser assim, era o único lugar que me forneceria o isolamento que necessitava.

Havia uma escadaria logo no fim do corredor, que ia para o primeiro andar, eram dois lances de escada até chegar ao telhado, com degraus demais para contar, cheguei à ela sem trombar com ninguém e tive que me apoiar no corrimão de metal para poder subi-la sem temer cair para trás, quando cheguei ao andar, estava sem fôlego e com as pernas trêmulas, respirei fundo e andei de modo furtivo, escondendo-me nas quinas das paredes quando algum funcionário do hospital passava, apressado ou distraído demais para me notar, cheguei a escadaria que ia para o segundo andar, comecei a subir e tive que parar no meio dela por causa de uma tontura, segurei com firmeza o corrimão, aguardando as paredes pararem de girar ao meu redor para continuar a subir, quando finalmente cheguei ao segundo andar, estava em um estado deplorável.

O corredor estava deserto, porém algumas portas de quartos estavam abertas e eu conseguia escutar conversas em vozes baixas, com o peito doendo e o estômago roncando, olhei pelas portas enquanto passava por elas, leitos ocupados por diversas pessoas e de distintas idades, algumas que estavam acordadas permaneciam ou sentadas nas camas ou em pé ao lado de suas janelas, aproveitando o sol fraco ou somente com o olhar perdido, algumas tinham visitas e com elas conversavam animadamente, acenei um tchauzinho para um garotinho que estava acompanhado pelo que parecia ser sua mãe, continuei a andar até onde eu achava ser a última escadaria, essa mais estreita e curta que as duas anteriores, que se encontrava no final do corredor, quase escondida por uma grande máquina de café expresso, olhei-a por alguns segundos somente para começar a subir os degraus com esforço, no final deles, havia uma porta de metal, escancarada, abri um sorrisinho, contente pelos funcionários fumantes que a deixaram aberta. Empurrei-a e sai para o dia que não esquentaria.

O telhado era plano, interrompido somente por uma claraboia que tinha seus vidros marrons por causa de sujeira acumulada, o vento ali estava forte e eu tremi por causa de sua frieza, fui até a ponta dele, a que dava para a lateral povoada pela natureza e do lado contrário onde ficava o estacionamento, e me sentei no baixo muro que o cercava, balancei meus pés há uma altura que tornaria meu corpo em uma massa de sangue, carne e ossos esmigalhados caso eu caísse, ou pulasse, dali.

O silêncio interrompido somente pelo assobio do vento batendo contra os galhos das árvores foi bem recebido por mim, curti-o bem porquê sabia que um hospital se tornava bastante barulhento quando todos os seus moradores acordavam, uma cacofonia que ignorava o aviso de silêncio na placas que os corredores ostentavam.

Mexi os dedos. Ontem a noite, Makarov havia entrado em meu quarto, com o semblante carregado de preocupação e temor, levou muitos minutos para convencê-lo de que eu estava bem, minhas mãos se curariam e não, elas não estão doendo tanto, quando enfim o velho se sentiu satisfeito com o que lhe falei, me disse que estava retirando-me do caso, entregando-o oficialmente ao FBI, ele havia se tornado grande e urgente demais para que somente uma investigadora e alguns policias tomarem conta, a imprensa estava criando alardes cada vez mais exagerados e divulgava cada assassinato como o início de um banho de sangue que lavaria toda a cidade de Magnólia, parentes dos três homens assassinados estavam exigindo que algo fosse feito, que a investigação avançasse, que o assassino fosse pego!

Não reclamei nem pedi que reconsiderasse sua decisão. Aquele caso era grande demais, sério demais, e eu reconhecia que por mais que me esforçasse, desgastasse, minha inteligência não seria párea contra a daquele psicopata, ele estava sempre um passo à minha frente.

Prendi mechas de cabelos que haviam escapado do coque atrás da orelha com um sorriso feio nos lábios, eu estava fora do caso porém isso não me impediria de ir atrás daquele assassino, de caçá-lo, porquê eu tinha certeza que a minha retirada não o faria parar de matar.

Agora que havia descoberto a fuga de Zeref Bennett, senti que o alvo que carregava em minhas costas havia dobrado de tamanho e contra a minha vontade, Makarov me colocou em proteção, não andaria mais desacompanhada por aí até que o Assassino de Damas e o Assassino das Cartas fossem presos, meu apartamento foi interditado e eu passaria a morar em um hotel escolhido por ele, vigiado 24 horas por meus conhecidos de farda. Suspirei e me inclinei um pouco para frente, um forte vento veio por baixo, desfazendo de vez o coque e subindo a barra da camisola, fechei os olhos e tremi, o sol havia sido engolido por espessas nuvens escuras, as mesmas que tamparam qualquer indício de um céu azul, e o dia parecia prestes a tornar-se tão escuro quanto a noite.

Braços envolveram minha cintura e só não caí para a queda de vertiginosos dez metros porquê eles me seguraram, virei o rosto, roçando a ponta do meu nariz na do de Natsu.

— Pacientes deveriam permanecer em seus quartos até melhorarem. — disse, sorrindo e encostando seus lábios nos meus por alguns segundos antes que eu me afastasse, tentei soltar seus braços, mas ele não permitiu. — Não vai querer que eu te solte, vai?

Percebi que não estava mais sentada no baixo muro que cercava o telhado e que minhas pernas balançavam sem apoio algum, somente os braços de Natsu me sustentavam.

— Quando foi...? — grunhi, surpresa, balaçei a cabeça e virei-a na direção do agente, que não mostrava nenhum sinal de esforço em sua expressão sorridente. — Pode me colocar de volta, agente Dragneel? Não me sinto à vontade como chão tão longe dos meus pés.

Natsu riu e puxou-me pra ele, meus pés voltaram a pisar no chão plano e firme do telhado, afastei-me dele, mas tendo em mente que só pude fazer isso porquê ele permitiu, puxei a barra da camisola pra baixo.

— Como soube que estava aqui? — perguntei.

Natsu se sentou no muro, esticando as pernas compridas.

— Porquê era bastante óbvio, conhecendo você. — piscou pra mim. — Têm um policial louco a sua procura. — riu. — Acho que está mais preocupado com o quê Makarov vai fazer com ele quando descobrir que deixou você sair do quarto desacompanhada do quê te achar de verdade.

Suspirei, sentando de volta no muro. Longe de onde Natsu estava.

— Droga, não terei muita privacidade com policias me seguindo para onde eu vou.

— Eles são uma barreira entre você e os assassinos, parceira. — o agente falou com simplicidade e sorriu um sorriso de lobo quando o olhei. — Então, seja uma garotinha comportada e fique atrás dela, sim?

Crispei os lábios.

— Policial algum vai ser um obstáculo para Zeref ou para o psicopata. — falei, certa em minhas palavras. — E eu não sou mais sua parceira, agente Dragneel. Fui retirada do caso.

Natsu estalou o pescoço, balançando a cabeça lentamente de um lado para o outro.

— Não, acho que não vão ser mesmo. E acho também que você não vai ficar sentada na cama de um hotel, escondida, enquanto o Assassino das Cartas brinca por aí, certo?

— Como pode achar isso? — perguntei, arqueando uma sobrancelha de maneira zombeteira.

Natsu se levantou e se sentou ao meu lado, colocando uma de suas pernas entre as minhas e cruzando seu tornozelo com o outro, impedindo-me de levantar.

— Porquê isso está estampado bem aqui. — estreitou os olhos. — E como ambos os assassinos são obcecados por você, eles não se deixarão ser pegos até que você esteja a mercê de um ou de outro. — o tom de sua voz continuou simples, como se estivesse discursando sobre alguma frivolidade qualquer. — Estou curioso para saber quem será o vencedor nesse jogo de gato e rato.

Abri-lhe um sorriso parecido com um esgar.

— Não vou ser o rato por muito mais tempo. — comentei, encarando minhas mãos enfaixadas. — E nem eles serão os gatos também.

As mãos de Natsu pegaram as minhas, seus dedos gentis as pressionaram de leve e ele as trouxe até seus lábios, beijando suas palmas.

— Ó, como tu se atreves a ferir tão belas mãos? — disse, quase sussurrando, ergueu os olhos e me encarou com ferocidade, seus lábios deixaram minhas palmas e deslizaram para as pontas dos dedos, depositou beijos em cada um deles. — Essas, que não tardarão à me pertencer.

— Pare, você não tem talento para isso. — falei, puxando minhas mãos das suas, escondi-as nas dobras das minhas pernas, não deixando que ele notasse o tremor nelas. — N-não me toque com tanta intimidade, agente Dragneel.

O olhar de Natsu se intensificou e ele veio para cima de mim, suas mãos envolvendo meu pescoço e nuca com firmeza.

— Pare você e ceda logo. — rosnou, os lábios perigosamente perto dos meus. — Eu vejo o quanto se esforça para me rejeitar, me afastar, mas eu tenho uma notícia pra te dar: isso não vai funcionar comigo. — sorriu grande. — Não sou fácil de admitir derrota.

Sorri com dureza.

— Como pode querer uma mulher perturbada como eu, Natsu? — perguntei, lembrando-me que ele havia visto toda a minha loucura há três noites. — Você percebeu o quão deformada estou, eu não posso mais amar.

— Eu não preciso de amor.

— O... Quê?

Natsu me olhou, fome acentuando a cor quase negra de seus olhos.

— Eu não quero seu amor e nem o de ninguém, tudo o que eu preciso é de você. — sorriu. — Não me importa se você é uma mulher perturbada ou deformada, não somos todos assim? Cada pessoa não é deformada e perturbada de algum jeito?

Passei a língua nos lábios secos.

— Você é deformado, agente Dragneel? — perguntei, o olhando com atenção.

Seu sorriso pareceu prestes a rasgar sua pele.

— Você nem imagina o quanto, Lucy.

Seus lábios cobriram os meus, pressionando-os com tanta selvageria que me fez ofegar, sua língua não perdeu tempo, explorou cada canto da minha boca, tomando posse e proclamando que tudo era seu, seus dedos enrolaram em meus cabelos embaraçados e seu braço envolveu minha cintura, puxando-me pra ele, o beijo durou séculos em minha mente e somente alguns segundos na nossa realidade.

Nos separamos, minha respiração saia em efegos curtos enquanto Natsu parecia nem ter perdido seu fôlego, não tentei tirar suas mãos de mim e nem me afastar dele.

— Não faça isso. — meio que implorei e exigi, encarei-o, com lágrimas nos olhos. — Não me machuque mais do que já estou se não eu te desço a porrada.

O agente me estudou por alguns segundos, seus lábios tremeram levemente antes de começar a rir, trinquei os dentes.

— Estou falando sério.

Ele parou de rir com muito custo.

— Eu sei que está, acha que não me lembro da facilidade com que quebrou o nariz e rachou o maxilar de Steven? — acariciou minhas bochechas, seus dedos contornando a leve cicatriz. — Em falando nele, ele foi liberado do hospital, está sendo levado para a delegacia agora mesmo para ser interrogado. Quero que me acompanhe. — aproximou seu rosto mais uma vez para perto do meu e continuou a falar. — Devo interpretar como uma desistência de sua parte esse seu não afastamento?

Mordi os lábios e empurrei seu rosto para longe do meu, não me levantei, já que sua perna ainda travava as minhas.

— Não. — respondi somente isso e desviei os olhos de seu sorriso de lobo. — Não posso te acompanhar, lembra? Eu estou fora do caso e ainda por cima internada nesse hospital.

— Lembra? Eu sou uma agente do FBI, posso ter algumas regalias quando mostro meu distintivo. — o olhei quando disse isso, ele piscou pra mim. — Você é a minha parceira. Eu a quero comigo. E você vai ficar comigo.