Psicopata

14 Capítulo 14


Notas iniciais
Hey, pessoal, desculpem o atraso, fiquei ocupada com um trabalho e não tive tempo de escrever, bem, esse capítulo é o de terça passada, o de hoje virá mais tarde. Espero que gostem. ☻

A manhã estava fria e seu vento quase úmido da chuva que talvez não tardaria a vir soprava com força em meu rosto, esfreguei os dedos um nos outros, o táxi que havia pegado sumiu quando virou a esquina e fora eu, a rua estava deserta, não havia comércio ou moradias ali, somente grandes galpões de portas enferrujadas, mato selvagem e o cemitério, que ocupava um grande terreno daquela parte desolada de Magnólia, parada em frente as altas grades de ferro dele, pensei mais uma vez o porquê de estar ali, não restava mais nada do homem que um dia fora Loki Miller, apenas o pó de seu corpo e a madeira podre de seu caixão.

Mas mesmo com esse pensamento, levei as mãos até a pesada corrente que mantinha o portão de grade fechado, desenrolei-a, deixando que escorregasse e caísse no chão.

O portão guinchou quando o empurrei, entrei, pisando na grama que se infiltrava entre os blocos de pedra cinza que compunham o caminho, olhei ao redor, árvores altas e bem velhas cresciam entre as lápides, suas copas estavam quase nuas e suas folhas formavam montes no chão, algumas das lápides estavam pretas pelos anos e pelo musgo, a escrita não mais visível na pedra, outras ainda eram brancas, ainda novas demais para acumular sujeira e musgo, o terreno do cemitério erguia-se em um suave morro mais à frente, coberto por grama de um verde escuro e mais lápides, fui naquela direção com passos lentos, havia um certo tipo de clima que só lugares onde os mortos descansavam possuía, tristeza e esquecimento, e acho que um toque malancólico também, o silêncio era absoluto, somente o som das minhas botas na pedra e o assobio do vento o quebrava, além do cheiro de terra molhada, o ar carregava um odor forte de folhas em decomposição.

Parei quando cheguei a lápide dele. Ela não estava nem preta nem branca, mas o meio tom entre aquelas duas cores, as palavras gravadas na pedra ainda muito bem visíveis na meia luz da manhã nublada.

Loki Miller

1982 — 2011

Filho amado. Noivo querido. Quase um pai novato.

Pousei a mão na barriga. Desde que Loki havia morrido para me salvar, jamais voltei a pensar novamente no filho que quase tivemos, o filho que expulsei em um aborto espontâneo quando estava na UTI por ter sido baleada. Ele ou ela tinha somente um mês quando descobri que estava grávida, ainda consigo me lembrar do rosto sorridente e eufórico de Loki quando eu lhe mostrei o teste de gravidez, os dois pauzinhos rosas. Era a lembrança mais nítida que tinha de todos os nossos momentos juntos, ele me pegando no colo e girando-me pela sala, enquanto gritava que seria pai.

Mordi com força os lábios, erguendo o rosto para o céu, a vontade de chorar queimou minha garganta com muita força, mas eu não tinha como ceder à ela, não mais, havia chorado todas as lágrimas que possuía e agora estava seca.

Sentei-me em frente à sua lápide, a grama alta chegando-me a cintura. O rosto de Loki estava aos poucos se desvanecendo de minha mente, o que sempre acontece quando uma pessoa amada por você morre, eu tinha fotos dele, porém era doloroso demais vê-las, então decidi que ficaria relembrando-me o quanto ainda podia de seu rosto até que ele desaparecesse e as fotos ficarem velhas o bastante para que, quando eu finalmente as tirasse da gaveta, elas se esfarelarem em minhas mãos, suspirei e pousei o queixo em meus joelhos, havia sido quase cômico o nosso primeiro encontro, Loki era um policial de outra delegacia de uma das cidades vizinhas de Magnólia e no dia que nos conhecemos, estava visitando a cidade, e como se tivesse sido obra do destino, havíamos nos trombado, literalmente, enquanto eu perseguia um suspeito de ter assassinado uma mulher, caímos com tudo no chão, provocando assim a fuga do meu suspeito, uma discussão acalorada entre nós dois e uma rasteira furiosa da minha parte, depois disso, houve outros encontros que no começo pensei ser muito azar até descobrir, quando já estávamos juntos, que Loki havia planejado estes tais encontros: Eu não me conformava de ter sido derrubado tão facilmente por uma mulher... Havia dito com uma expressão de ultraje.

Soltei um riso fraco que foi interrompido pelo ribombar de um trovão, fechei os olhos, respirando com dificuldade, o choro impedido de sair estava entalado em minha garganta.

Foram quase três anos de relação até que fui pedida em casamento por Loki, semanas para descobrir a gravidez e poucos dias para que eu o perdesse, deixei-me cair na grama, de repente exausta demais para me manter sentada, a terra por baixo do mato estava úmida e logo senti o frio se infiltrar pelo pano da minha regata, remexi os ombros, desconfortável mas sem nenhuma vontade de me levantar, há quatro anos, um caso de assassinato em série veio parar em minhas mãos, naquela época, Loki já tinha se mudado para a cidade e vivíamos juntos em um apartamento que tive que me mudar depois de sua morte pois não aguentava o vazio dele, no começo, o caso havia se mostrado simples, o assassino era novato, tinha deixado uma bagunça em seu local e marcas de estupro no corpo da vítima, Alyce Noonan, 22, seria fácil pegá-lo quando os resultados do sêmen recolhido do cadáver revelasse o DNA do assassino, porém, os resultados do legista nada mostrou e outro corpo foi encontrado, desta vez de uma criança, Sophia Noonan, 7, filha da primeira vítima de muitas que seriam covardemente assassinadas por Zeref Bennett.

Os meses que transcorreram a investigação foram turbulentos e tensos, a imprensa estava em cima da polícia, exigindo que o culpado fosse preso imediatamente, parentes das vítimas ligavam, alguns furiosos, berrando ao telefone que queriam ver o maldito atrás das grades, outros angustiados, implorando por algum avanço no caso. Todos os olhos estavam em mim, todos exigiam que a Investigadora Criminal Lucy Heartfilia encontrasse logo o desgraçado que estava aterrorizando todas as mães e filhas de Magnólia, a pressão que foi posta em meus ombros foi o que me tornou obcecada pelo caso.

O primeiro pingo de chuva acertou minha pálpebra esquerda, logo, veio outro, atingindo a ponta do meu nariz, momentos depois, chovia pesadamente sobre mim, fiquei ensopada em segundos, virei o rosto para o lado, encolhendo-me como uma bola.

Eu me tornei muito descuidada, além de trabalhar por muitas horas seguidas, sem descanso para me alimentar ou dormir, fui atrás de possíveis suspeitos sozinha, acompanhada apenas por minha Beretta e minha ânsia de terminar o caso, briguei diversas vezes com Gray e Loki, somente por eles estarem preocupados comigo, tornei-me tão agressiva com as pessoas ao meu redor que algumas continuavam afastadas de mim até o dia de hoje, permanecia de pé a base de comprimidos e café amargo, e isso me desgastou tanto que tive um colapso e fui parar no hospital. Foi enquanto eu estava internada que Loki e eu tivemos uma furiosa discussão, ele, preocupado comigo e com o bebê, eu, apenas me importando em pegar o assassino, e com a voz alterada, eu lhe havia dito que estava cansada daquela relação, eu não quero mais casar com você, a expressão assustada e magoada que apareceu em seu rosto foi como um tapa na cara, me arrependi do que disse no mesmo segundo, mas deixei o momento de desculpas passar e a frieza endurecer os olhos verdes de Loki. Tudo bem.

Como fui maldosa. E idiota. Além de magoar a pessoa que mais amava, menti pra mim mesma dizendo que aquilo foi necessário, não dava para concentrar na investigação com ele me importunando, eu tinha que pegar o assassino, não apenas para parar sua frenesi de matança, nem para acalmar os cidadãos de Magnólia, mas para sanar a irritação que sentia por não conseguir identificar e prender o culpado com rapidez, orgulhosa demais eu era e o preço que paguei por ter sido desse jeito foi bem caro.

Zeref Bennett era um professor de Literatura, lecionava em duas faculdades e todas as vítimas provinham das mesmas, charmoso e talentoso, foi capaz de encantar suas alunas não unicamente com suas performances nos romances de Shakespeare mas também com sua boa lábia, chamando seus alvos para conversar em particular, ele as fazia pensar que eram especiais, que o tinham feito se apaixonar porém a relação proibida entre professor e aluno o impedia de se declarar, fazendo-as acreditar nisso, pedia que mantivesse o relacionamento em segredo, não contando nem para suas melhores amigas nem para os seus parentes, e quando a relação se tornava mais íntima, ele as estuprava e as estrangulava, caso suas vítimas possuíssem filhas, ele fazia o mesmo com elas, seu local de despojo era aleatório, algumas vezes abandonava tanto corpo de mãe e filha em acostamentos de estradas, terrenos baldios ou becos, e outras deixava os corpos nus nas camas. O motivo por não ter tido um DNA seu nas cenas de crime era porquê jamais gozava dentro de suas vítimas, quando estava próximo ao orgasmo, ele simplesmente pegava um jarro e se aliviava nele, depois lacrava-o, pregava o nome da mulher que o fez chegar ao ápice em seu vidro e guardava-o em um armário de sua casa. Tão doentio.

Espirrei. A chuva havia se transformado em um temporal, relâmpagos acendiam o céu preto acima da minha cabeça e os trovões que vinham logo após deles faziam a terra estremecer, o vento era cortante e meu corpo já estava adormecido por causa do frio que sentia, eu deveria levantar e procurar um abrigo, não era bom ficar ao tempo num temporal daqueles, a qualquer momento poderia cair um raio, próximo ou em mim.

Fiquei onde estava, sem vontade de me abrigar dos pingos furiosos.

O único erro de Zeref foi ter pensado que eu não ligaria as vítimas, não descobriria que algumas delas se conheciam, que eram até amigas, que eu não refaria seus últimos passos e notaria que todas estudavam em uma ou na outra faculdade, me subestimou e por causa disso foi descoberto por mim enquanto levava sua próxima vítima para uma das várias casas desocupadas de um subúrbio que teve seu terreno comprado e abandonado por alguma empresa, no entanto, em minha euforia de finalmente ter o Assassino de Damas em mãos, não percebi a armadilha que havia criado e que eu caí bem fácil.

A casa era pequena, mofada e a escuridão da noite tornou seus cantos um ótimo esconderijo, de arma em punho entrei e dela fui separada momentos depois por um chute que atingiu meu estômago, pega pela surpresa e pelo golpe, demorei a perceber que mãos agarravam meu pescoço, dedos tão fortes que arrancou o ar dos meus pulmões em segundos, reagi com um chute em seu peito que o fez me soltar, porém, antes que tivesse tempo de levantar e pegar a Beretta à poucos metros de mim, o estampido do tiro estilhaçou o ar, lembro-me de ter assustado e notado um pouco tarde demais um ardor tenebroso em meu abdômen, pousei a mão nele e quando senti o líquido vermelho vazando, meu primeiro pensamento foi: o bebê! O nosso bebê! O terror fechou minha garganta, com a mão apertando o ferimento, ergui a cabeça apenas para vislumbrar o cano da arma, ainda fumegante por causa do disparo, e o sorriso perverso que se desenhou nos lábios de Zeref, o dedo firme no gatilho, e tudo que aconteceu a seguir pareceu estar em câmera lenta, a sombra de Loki colocando-se à minha frente e recebendo os tiros que eram dirigidos à mim, seu sangue espirrando em meu rosto e seu corpo despencando ao meu lado, o rosto tornando-se branco pela morte, a fúria queimando minhas entranhas e a arma em minhas mãos, os barulhentos tiros e a queda do assassino.

Quando tudo acabou e eu percebi que ainda segurava a Beretta, abri os dedos, deixando a pistola escorregar e cair no assoalho velho, arrastei-me até o corpo de Loki e desmaiei com o rosto em seu peito molhado de sangue.

Um trovão poderoso sacudiu o chão, a chuva era tanta que um rio de lama havia sido criado e agora ele corria entre meu corpo, sujando-me com a terra fétida do cemitério. Ao longe, pensei ter escutado uma voz, mas o vento rugia tão alto que o quê eu achava ser uma voz podia ser muito bem ser o vento que passava entre os galhos nus das árvores. Apertei os olhos.

Loki havia me seguido naquela fatídica noite, alarmado por encontrar os dados da investigação, a identidade do assassino, em meu computador.

Acordei dias depois. Descobrindo que havia perdido Loki e o bebê, naquele dia, chorei metade das minhas lágrimas e chorei a outra metade no velório, ainda no hospital, recebi presentes e cartões de pêsames de centenas de pessoas, todas tanto agradecendo por eu ter dado um fim aos assassinatos quanto lamentando por minhas perdas, pedi a Gray que jogasse tudo aquilo fora, não suportava ver os balões coloridos de MELHORAS!, os buquês de flores cheirosas, os cartões e os presentes.

Eu perdi o meu amor e o fruto dele! Como podiam achar que com aquelas coisas a dor diminuiria?!

Mãos pegaram-me pelos ombros. Não abri os olhos pois reconheci o dono delas, me aconcheguei no peito de Gray, tremendo.

— Ah... Lucy. — suspirou em meu ouvido, apertando-me com força em seus braços.

E as lágrimas que pensei terem secado, ressurgiram.