Psicopata

11 Capítulo 11


A madrugada caia fria ao nosso redor, somente as luzes das viaturas e das lanternas dos policiais afastavam a escuridão que envolvia o topo daquele morro, a casa abandonada ficava em uma parte quase rural de Magnólia e esquecida pela mesma, deviam ter se passado vários anos desde que alguma pessoa havia vivido nela, conclusão facilmente chegada após um único olhar para a velha casa, o que a tornava um ótimo local para se cometer um assassinato de tamanha crueldade, onde ninguém ouviria os gritos de sofrimento da vítima ou notaria alguma movimentação estranha, esfreguei minhas mãos, tentando prover algum calor à elas, mas foi inútil, todo o meu corpo estava gelado apesar do grosso casaco que Natsu havia jogado para mim e se afastado antes que eu pudesse devolvê-lo, o corpo destruído do homem já havia sido levado para o legista há algumas horas junto com a caixa com os órgãos, e somente a perícia continuava dentro da casa, no porão, tirando fotos do sangue seco no chão e das palavras rubras nas paredes.

Pensar na mensagem escrita fez meu estômago embrulhar, desfiz um bolo de terra dura com a ponta da bota, lembrando-me de cada palavra.

Estou impaciente, Lucy.

Como ainda não conseguiu me encontrar? Você é inteligente demais para estar demorando tanto para resolver esse caso.

Essa é a minha terceira presa e ela foi morta antes da segunda, Roberto, não é? Ela estaria apodrecendo até agora se eu não tivesse lhe dado uma ajudinha.

Por estar tão decepcionado com você, não lhe deixarei mais nenhuma carta, terá que se contentar com essas mensagens de sangue.

E lhe direi apenas que, quanto mais você demorar em vir para mim, mais e mais corpos de pessoas inocentes serão encontrados, cada um pior do que o outro, cada um mais mutilado, rasgado e podre que o outro.

Não me faça esperar mais.

A sola da bota arrastou-se no chão seco, triturando os últimos gominhos de terra dura, o sangue que foi usado para escrever aquela mensagem ainda estava fresco, não mais que um dia havia se passado desde que havia sido escrita, o que indicava que ele não era da vítima e que ela estava apodrecendo ali há mais de uma semana, talvez bem antes de encontrarmos o corpo de Roberto, a umidade do porão havia acelerado o processo de rigor mortis e a decomposição, por isso ele apresentava uma aparência tão repugnante, por baixo da podridão, pequenos buracos haviam sido encontrados, eles se espalhavam por todo o cadáver e haviam sido abertos à mordidas, ratos, os borrões pretos que fugiram da luz, franzi o cenho e encarei o céu nublado.

Aquele psicopata estava mais do que brincando comigo, estava desafiando-me, ameaçando-me com mais pessoas mortas se eu não o achasse logo.

O ódio que parecia ferver meu sangue não ajudava aquecer meu corpo, trinquei os dentes, chutando o chão, a dor em meu tornozelo não me impediu de chutá-lo outra vez, poeira se levantou como uma nuvem e isso atraiu algumas olhadelas dos policiais que cercavam e vigiavam o terreno, ignorei-os, descontando aquele sentimento corrosivo nos chutes que desferia no chão, quando parei, estava com a respiração pesada e com calor.

— Está melhor depois de abrir um buraco no chão? — fuzilei Natsu com os olhos quando ele se aproximou de mim, com um sorrisinho irritante nos lábios.

Afastei-me dele, concentrando em me acalmar e me reprimindo por perder a compostura na frente dos policias e de um agente intrometido do FBI.

— Algo mas foi encontrado? — perguntei, a voz dura.

— Nada, a não ser isso. — chegou ao meu lado e me mostrou uma pequena pá manchada de sangue, finos pedaços de carne se agarravam em suas laterais. — Parece que nosso assassino nos deixou um presentinho a mais.

Examinei-a, era uma pá comum de jardinagem.

— Ele está tão impaciente à ponto de deixar pistas? — murmurei, mordi os lábios quando Natsu me encarou, seu olhar era tão indecifrável quanto a identidade do assassino. — Mande isso ao legista também, quem sabe não há uma digital do nosso amigo?

Apesar do que disse, sabia que não haveria nenhuma digital nela, o assassino podia tê-la deixado na cena do crime, mas unicamente ela, nada mais que nos ajudasse a nos aproximar dele, quando Natsu se afastou, caminhei até seu carro, estacionado não muito longe da casa abandonada, o portão enferrujado havia caído e deixado lá, passei por cima dele, me sentando no capô do esportivo do agente segundos depois, mordi os lábios, repassando as imagens do corpo em minha mente como se fossem um álbum de fotos mórbido, os dedos esmagados mas não cortados, a mensagem de sangue, o modus operandi havia mudado, apesar de serem duas mudanças pequenas e que não fariam nenhuma diferença na investigação, era algo para me intrigar, assassinos jamais mudavam seus modos de matar, eles o seguiam fielmente até finalmente serem presos, eram como máquinas programadas para fazer o seu trabalho várias vezes e do mesmo jeito, a imagem dos olhos castanhos aflorou e dessa vez eu não a expulsei, eram dos mesmos tons que os meus e isso me incomodava bastante, por acaso essa terceira vítima também teria cabelos loiros?

Soltei um suspiro cansado e esfreguei os olhos com força, o sono estava me ameaçando com suas garras, o espantei para longe com pontapés imaginários. Há outra coisa que me intriga e isso é o jeito com que o assassino se dirigi à mim, quase como se me conhecesse, pensar nisso, que aquele cara de fato me conhecia, me deu asco, automaticamente, vários rostos de dezenas de criminosos e assassinos que prendi passaram rapidamente à frente dos meus olhos, um em especial se destacou do restante, provocando náuseas em meu estômago vazio.

O espantei com pontapés imaginários também.

Estremeci e me encolhi no casaco de Natsu, que ficava um pouquinho grande demais em mim, quando um forte vento soprou no morro, os galhos quase nus das árvores estalaram altos na noite silenciosa.

— Vamos embora, parceira. — disfarcei o salto de susto que dei quando Natsu apareceu ao meu lado, o sorriso provocador dele me fez perceber que não fiz isso muito bem.

Desci do capô e entrei no carro quando ele foi destravado.

— Deveríamos ir ao legista. — falei, prendendo um bocejo. — Jellal pode já ter alguma informação para nos dar.

— Não. — negou enquanto entrava e fechava a porta, inclinou-se e passou o cinto em mim, encarei-o com uma sobrancelha erguida, questionando o porquê do não, ligando o carro, sorriu para mim. — Você está prestes a cair no sono.

Não neguei, cerrei os dentes, prendendo outro bocejo.

— Então leve-me para casa.

Percebi pelo canto dos olhos o sorriso dele aumentar, mas quando o encarei, seu rosto estava concentrando na rua vazia.

— Não.

Arqueie novamente a sobrancelha.

— Porquê? — indaguei, já sem paciência. — Pare o carro, se não for me levar para casa, eu pego um táxi e vou.

Natsu trocou de marcha e aumentou a velocidade, fazendo o contrário do que lhe pedi, o sorriso provocador estava de volta em seu rosto.

— O assassino sabe onde você mora. — disse, tranquilo. — Não é mais seguro ficar lá sozinha.

Encarei-o por alguns segundos antes de abrir um sorriso frio.

— Ele não vai aparecer na minha casa, sorrindo e se apresentando como o autor desses assassinatos.

O sorriso de Natsu não sumiu mas ele se tornou um esgar de escárnio.

— E o quê o impede de fazer exatamente isso? — retrucou. — A mente de um psicopata funciona de modo diferente, Lucy, se não tomar cuidado, acabará nas mãos dele... — fez uma pausa, lançando-me um olhar estranho. — Como ele quer.

Lambi os lábios, de repente secos.

— Então... Para onde devo ir? — franzi o cenho. — Talvez...

Natsu me interrompeu:

— Para a minha casa.

Fitei-o, estupefata.

— Ao diabo que eu vou! — exclamei, crispei os lábios quando ele riu. — Agradeço, mas não, prefiro que me deixe com o Gray.

Ele parou de rir.

— Irá incomodá-lo. — grunhiu.

— Não vou. Irei ligar para ele para avisar.

Demorei para achar meu celular, havia bolsos demais e desnecessários demais naquele casaco, quando o peguei, percebi que a bateria havia acabado, gemi.

— Eu poderia emprestar o meu. — murmurou, baixo, quando o olhei, esperançosa, ele me encarou com malícia. — Mas não vou.

Estalei os dedos, imaginando que a cada estalo de um dos meus dedos era um osso quebrando no corpo de Natsu.

— Eu não quero ser um incômodo. — lutei para que a minha voz saísse educada.

— Não vai ser.

— O apartamento de Gray é perto...

— Você ficará na minha casa.

Soltei um silvo de raiva e virei a cara, fuzilando a janela fechada com os olhos, escutei a risada abafada do rosado mas o ignorei, matutei por alguns minutos, tentando encontrar algum modo para persuadir Natsu a me deixar com o moreno, apesar do muquifo que Gray vivia, que cheirava sempre a desodorante masculino e que se você não ficasse atento ao chão poderia tropeçar em algum par de sapatos ou bater o mindinho na quina de algum móvel, ele era um lugar familiar, quase aconchegante, estava abrindo a boca para lhe falar quando Natsu se adiantou:

— Há algo em seu arquivo que me intriga.

Qualquer coisa que estava prestes a dizer foi esquecido, virei-me para ele com a raiva queimando em minhas bochechas.

— O quê... — me interrompi quando fitei seus olhos.

Ferozes e penetrantes, eles pareciam me ordenar a ficar calada e, ao mesmo tempo, contar todos os meus segredos, dos mais simples aos mais obscuros.

— Houve um inquérito há quatro anos, acusando você de tentativa de assassinato, você foi há julgamento mas acabou sendo absolvida pelo júri que atribuiu a tentativa como legítima defesa. — tombou a cabeça para o lado, observando cada emoção que surgia e desaparecia em meu rosto. — Eu quero saber: porquê você quase matou alguém? O que essa pessoa lhe fez?

Parecia que tinha algo entalado em minha garganta, barrando minha voz, engoli em seco diversas vezes mas a sensação não sumia, respirei fundo e deixei o ar escapar lentamente pela boca, a mentira não iria funcionar, a frieza também não e eu não conseguia encontrar a agressividade com aqueles olhos postos em mim, com as batidas ruidosas do meu coração ecoando em meus ouvidos, abri um sorriso desprovido de qualquer emoção.

— Ele merecia. — o calor do carro não mais me aquecia, soltei o cinto, notando que havíamos parado, virei o rosto e olhando pela janela reconheci um dos bairros de classe média alta, com grama bem verde iluminada por postes que nunca tinham suas lâmpadas roubadas. — Eu devia ter descarregado o pente da arma nele ou pelo menos ter atingido todos os tiros na cabeça, esmigalhado-a com as balas. — soltei um riso meio louco, vi pelo reflexo, Natsu se inclinar na minha direção, seus olhos ávidos parecendo prestes a me devorar. — Não consegui matá-lo, ficou somente alguns meses no hospital e agora está apodrecendo na cadeia.

Virei a cabeça e fitei-o bem nos olhos, deixando-o ver, pela primeira e última vez, a mulher quase perturbada que eu havia me tornado.

— Ele matou a pessoa que eu mais amava, mas a culpa não é dele, é minha. — sorri ou fiz algo próximo a isso, um gosto amargo na boca. — Ainda desejo matá-lo, se é o que você pergunta, a mim também.

Pisquei algumas vezes e olhei para minhas mãos, elas procuravam a arma que não estava mais lá, havia trancado a Beretta dentro de uma gaveta e a chave para abri-la estava onde eu jamais poderia encontrá-la, enferrujando em algum dos milhares canos que passavam por baixo de Magnólia.

Privei-me dela com medo daquele desejo homicida. Sabia que não resistiria à ele caso estivesse com aquela arma ao alcance.

Com lentidão, mãos envolveram meu rosto, os dedos acariciando minhas bochechas e se enroscando no meu cabelo, elas o ergueram, Natsu estava tão perto que eu podia ver manchinhas verdes em seus olhos que antes pensei serem totalmente pretos.

Não me senti confortável diante de seu olhar intenso.

— Eu tinha razão. — murmurou e por alguns segundos tive a impressão de que estava falando consigo mesmo. Sorriu. — Então, eu posso? — indagou, se aproximando ainda mais.

Me afastei dele, de repente cautelosa, havia algo de desconcertante em seu rosto, que me deixava arrepiada, observei-o atentamente, vendo sua postura enrijecer e relaxar, os olhos tornarem-se menos intensos e mais brandos, uma sobrancelha arqueada acentuando uma expressão confusa que decorou seu rosto, tudo isso em poucos segundos, travei o maxilar, ainda mais cautelosa do que antes, somente quem tinha um controle rígido sobre suas emoções conseguia o que Natsu havia acabado de fazer, tanto autocontrole era normal para um agente do FBI?

— Eu falei demais. — proferi as palavras com cuidado, estudando cada mínimo detalhe de sua expressão. — Isso não ocorrerá novamente, espero que você, Agente Dragneel, não procure saber mais nada sobre mim também, não é educado investigar o passado de seu parceiro.

Ele sorriu, erguendo os ombros, mas o sorriso não chegou aos olhos, que mantinham uma neutralidade espantosa.

— Eu lhe avisei. — soltou o cinto, desligando o carro que ronronava em ponto morto. — Não irei medir esforços para saber tudo sobre você, Lucy Heartfilia.

Curvei-me para ele, agarrando a gola de sua jaqueta e o puxando para mim. Seus olhos continuaram neutros mesmo quando um sorriso sórdido lhe invadiu os lábios.

— Quem diabos é você, Natsu? — questionei, ignorando o calafrio que desceu gelado por minha espinha, apertei os dedos no pano jeans. — Não permitirei que ninguém se intrometa na minha vida.

Natsu agarrou minhas mãos e agora era ele quem me mantinha presa, aproximou sua boca da minha orelha.

— Sou apenas um agente do FBI, trabalhando como parceiro com você, Lucy. — seus lábios esbarraram de leve na orelha, trinquei os dentes. — Nada mais.

E soltou minhas mãos, abrindo a porta e mantendo a aberta, como um convite para que eu saísse.