Psicopata

27 Capítulo Final.


Notas iniciais
Olá queridos leitores! Desculpem toda essa demora, por ser o último capítulo, ele me deu muitas dificuldades e alguns travamentos na imaginação, rs. Queria agradecer a todos que chegaram até aqui, que acompanharam Psicopata até o seu final, muito obrigada a todos os comentários e recomendações, desculpem-me pelos atrasos e talvez alguns erros na história, trabalharei muito em minha escrita e sempre procurarei melhorar ainda mais meu talento, para assim, oferecer-lhes outras histórias que lhes farão sorrir, temer e chorar. Espero que gostem. Até a próxima. ☻

O pesadelo iniciou-se como o antigo sempre se iniciava, eu de joelhos no chão de madeira velha, sangrando, desesperada com a mão pressionada na barriga, sentindo o sangue verter entre os dedos, quente, pegajoso, o gosto do terror e do pavor em minha língua enquanto pensava freneticamente em meu bebê, meu bebê que seria expulso horas mais tarde por meu organismo como nada a não ser uma coisa muito pequena e escura, gosmenta de sangue, eu erguendo o rosto e encarando o cano fumegante da pistola que Zeref tinha nas mãos, seu sorriso perverso e o exato momento em que estava prestes a apertar o gatilho novamente, no entanto, quando Loki se jogava na minha frente, pronto para receber as balas que seriam para mim, o rosto do algoz se contorcia, transformava-se em uma massa de pele clara, onde tudo estava fora do lugar, criando uma aparência pavorosa que fazia meu estômago embrulhar, e quando tudo voltava ao seu lugar original, era Gray quem disparava várias vezes em Loki, com um sorriso tão grande nos lábios que os cantos de sua boca começavam a se rasgar.

E quando o corpo caia ao meu lado, espirrando sangue quente em meu rosto, era Gageel quem me encarava com olhos opacos e acusadores. E depois voltava a ser Loki, com um esgar cruel entortando sua boca.

Então, a Beretta estava em minhas mãos, e eu a apontava para Gray e assassinava-o com muitos tiros que ecoaram mais altos do que deveriam, dezenas de flores rubras explodiam e o moreno despencava, fulminado, a minha frente. E quando seu corpo desabava no chão, ele era Zeref, com metade da cabeça estourada e a palavra estúpida escapando do que restou da boca. No reflexo do sangue que empossava logo abaixo dos meus joelhos, eu via meu rosto se contorcendo, ora era o meu, horrorizado, ora era o de Natsu, com o sorriso de lobo nos lábios.

Acordei.

Porém não da maneira que acordamos depois de um horrível pesadelo. Com o coração batendo tão forte no peito que lhe dá a sensação de que suas costelas irão se quebrar, com a respiração rascante e difícil e uma tremedeira causada pelo suor frio em todo o corpo.

Somente abri os olhos, quase como se estivesse no processo de piscar, com o coração batendo de maneira compassada e a respiração somente falhando pela dor que mordia ferozmente cada parte do meu corpo. Quis levantar a mão e retirar uma grossa mecha de cabelo da frente do rosto, contudo, meus pulsos estavam firmemente amarrados nos braços de uma cadeira que estalou de maneira duvidosa quando fiz força contra as cordas, mexi os pés, certificando-me que meus tornozelos também estavam presos nas pernas da cadeira. Esperei o pânico surgir mas ele não deu as caras. Apenas um enorme cansaço e um vazio tomavam conta do meu interior, não deixando espaço para mais nada.Tombei a cabeça para trás, olhando para um teto desconhecido, minha nuca apoiou-se no encosto, a mesma estava enfaixada por uma atadura bem apertada que não ajudou em nada a aliviar o ardor furioso do corte que havia nela, assoprei, várias vezes, para que a mecha de cabelo fosse afastada do rosto.

Observei a tinta que descascava, o lugar vazio onde deveria haver uma lâmpada e a parca claridade que entrava por uma janela que se encontrava a minha esquerda, ergui a cabeça, olhando ao redor, parecia ser um quarto, ou uma sala muito pequena, não conseguia diferenciar e nem tinha o interesse de fazer isso, as paredes eram forradas por papeis que já haviam perdido toda a cor vibrante de seu vermelho, em alguns cantos, estavam descolados ou rasgados, e deixavam a cor original, de um branco encardido, à mostra. A janela era estreita e alta, os vidros pareciam novos demais para a armação escura de madeira que os seguravam, uma cortina fina, puída por traças, flutuava levemente com o vento frio que entrava de uma nesga aberta. O cheiro de mofo era forte, no entanto, não havia poeira no chão, nem no batente da janela.

Estreitei os olhos, tentando ver algo do lado de fora, mas apenas copas nuas de árvores me saudavam, não havia nenhum tipo de móvel naquele cômodo, somente a cadeira a qual eu estava amarrada, e fora a porta a minha frente, não existia nada mais ao qual olhar ou que chamasse minha atenção, soltei um suspiro e abaixei os olhos para o meu corpo, o casaco se fora junto com os tênis, estava com a camisa que era fina o bastante para me permitir ver mais ataduras envolvendo minha cintura e manchas escuras nelas, de jeans e meias, essas, úmidas e sujas.

Olhei para meu cotovelo fraturado, uma bandagem elástica havia sido enrolado nele, imobilizando-o de um jeito precário mas que restringiria movimentos bruscos que poderiam agravar ainda mais a fratura do osso.

Pensei no porquê do tratamento. Qual seria a diferença em deixar os ferimentos abertos ao que viria não no mais tardar?

Trinquei os dentes, tombando a cabeça novamente no encosto da cadeira. Não teria graça para Natsu se eu estivesse quase morta por perda de sangue quando começasse a brincar comigo, certo? Fechei os olhos. Sentindo o desconforto das cordas, o tormento das dores incansáveis, do frio que havia se instalado em meus ossos e do entorpecimento de tudo o que havia acontecido nas últimas horas. Apertei-os. E ouvi mais uma vez as palavras vazias de Gray soar em meus ouvidos, o gelo de seu olhar em minha pele, enquanto passava os dedos em seu rosto, esperando a reação que não veio, a sua extrema indiferença quando atirou em mim, o sangue escorrendo de sua boca enquanto tossia e o desvanecer do brilho de seus olhos. Abri os olhos, sentindo-me sufocar. Havia uma pressão em minha garganta, apertando-a sem dó e obstruindo minhas vias respiratórias, forcei uma tosse, arranhando a garganta, e ela se aliviou porém não desapareceu, olhei novamente para o teto, contei os segundos que aguardei, setenta e nove, no entanto, as lágrimas não vieram e nem embaçaram a visão do teto velho acima, pisquei, talvez elas estivessem presas e se eu piscasse algumas vezes, elas se libertariam, escorreriam pelas bochechas e ensopariam a gola da camisa.

Mas não havia mais lágrimas para chorar. Apesar de querer, apesar de saber que a pressão em minha garganta sumiria assim que eu pusesse tudo que estava sentindo pra fora na forma de um choro longo e cheio de soluços profundos, não conseguia, estava completamente seca. E dessa vez até o fim da minha vida.

Soltei uma risadinha estrangulada. Ela ecoou alta no cômodo silencioso. Me sentia tão miserável e digna de pena que mais risadinhas escaparam dos meus lábios, desenfreadas e finas demais, meu peito doía, pois o mesmo parecia que estava sendo pressionado por algo muito, muito pesado, que afundava minha pele, arrebentava nervos e veias, estilhaçava minhas costelas e esmagava o coração. A dor nas têmporas havia retornado, ainda mais impiedosa do que antes, pulsando como um segundo coração em minha cabeça.

Era tão irônico o fato de eu não conseguir lamentar por meu amigo assassinado e nem celebrar a morte do homem que eu mais odiava. Isso me fez rir alto.

A risada morreu quando o clique da porta sendo destrancada soou pelo cômodo.

A madeira gemeu quando foi empurrada, suas dobradiças enferrujadas soltaram pó e mais um arranhado foi feito no chão, juntando-se a dezenas de outros, Natsu se encostou em seu batente, o rosto rosado pelo frio do lado de fora e os cabelos úmidos pele neve que derretia entre os fios, abriu um lento sorriso, os olhos escuros brilhando em diversão.

— Escutei seu riso. — disse, tombando a cabeça para o lado. — O que lhe dá graça?

Encarei-o, taciturna.

Ele estava diferente. Não na aparência ou no modo de falar e se mover, nem no seu olhar ou no seu sorriso, eu não sabia exatamente qual era essa diferença, mas ela estava presente na tranquilidade em seus ombros, na lentidão com que piscava e alargava o sorriso em seus lábios, nos passos que o levaram para mais perto de mim e em seus dedos quando deslizaram pela corda áspera em meus pulsos. Ela também estava no jeito como me olhava e nas palavras que deixaram sua boca. Era uma diferença mínima. E assustadora.

— Não vai me dizer? — indagou, dando um toque de falsa mágoa em sua pergunta, balançou a cabeça, suspirando, quando continuei a encará-lo, silenciosa como uma tumba. — Quero que converse comigo, Lucy.Vai me privar de ouvir sua voz?

E afundou os dedos com força no curativo em minha cintura. A dor se intensificou e se alastrou como fogo em mato seco, trinquei os dentes, abafando qualquer ruído que ousasse escapar da minha boca, abaixei a cabeça, tampando meu rosto e minha expressão de agonia com os cabelos, pois não daria a Natsu a satisfação de me ver sofrendo. Pelos olhos estreitos, pude ver o sangramento recomeçar e logo senti o calor molhado do sangue pintar todo o branco da atadura. Engolindo toda a dor, levantei a cabeça, encarando Natsu com uma expressão vazia.

— Você matou Zeref. — falei, a voz baixa, não contendo nenhuma inflexão que revelasse o que eu estava sentindo. — Seu irmão.

A expressão do agente tornou-se fria, o sorriso, desapareceu para dar lugar a um esgar sombrio.

— De todas as coisas que há para se falar, você escolheu logo essa. — não havia mais nenhum vestígio de diversão e mágoa fingida em seu tom de voz, somente uma superficial irritação que não mascarava muito bem o sentimento mais grotesco que eu percebia em seus olhos escuros. — Zeref Bennett era meu irmão adotivo. — falou, de má vontade e com uma careta de nojo a lhe enrugar o nariz. — Mesmo aos quatorze anos, aquele cara já era mais doente que eu sou hoje.

Estudei seu rosto e tive o meu também estudado, um sorriso sórdido fez seus lábios tremerem. O chão estalou suavemente quando Natsu se curvou na minha direção, suas mãos apoiando-se em meus joelhos.

— Fui o alvo daquele merda nos primeiros quatro anos depois de adotado, posso lhe dizer que pra ele, fui uma válvula de escape, toda aquela perversão que ele guardava dentro de si, toda a maldade, o desejo de infligir agonia a outros, ele os direcionou ao seu irmãozinho postiço, que por medo, ficava calado enquanto era maltratado de diversas maneiras desumanas possíveis. — ele riu, o riso tão cru e tétrico que fez um arrepio descer gelado por minha coluna. — Houve diversas vezes em que fui parar no hospital por conta de suas maldades, ossos quebrados causados por eu estar brincando perto demais de algum barranco ou lugar alto, ossos estes que, se você quer saber minha opinião, não se quebrariam de modo tão limpo sem nenhuma ajuda. Cortes pequenos, irregulares, em locais que eram difíceis de se encontrar, provocados por eu ter caído enquanto corria por aí, como o moleque travesso e rebelde que meus pais diziam que eu era. Marcas roxas providas de brigas com outros garotos mais velhos da vizinhança. E muitas outras coisas que fariam minha boca secar se eu contasse todas. Bem, depois de perceber que tudo o que sofria seria encoberto por mentiras contadas levianamente por meus pais, eu percebi que havia sido adotado apenas para ser o brinquedo do filho deles, que minha utilidade seria somente para abrandar a extrema maldade de Zeref. — a última frase saiu trêmula, Natsu crispou os lábios deixando que uma expressão dolorosa, quase frágil, se mostrasse em seu rosto, porém ela desapareceu assim que ele desviou os olhos para mim, com um brilho traiçoeiro neles. — O quê? Meu relato não fez surgir lágrimas em seus olhos? Que sem coração você é, Lucy.

Trinquei os dentes em fúria. Natsu soltou uma risadinha de troça e se curvou ainda mais, até que nossos rostos estivessem na mesma altura. Encarei-o.

— Quem são seus pais?

Algo no rosto de Natsu me fez ter vontade de me encolher em mim mesma.

— Oh, você não precisa saber quem eles eram. — não deixei de notar como sua língua pareceu saborear a última palavra e no duplo sentindo de sua fala, seus verdadeiros pais talvez já estivessem mortos também. — Não haverá ninguém para chorar sobre o túmulo de Zeref.

A imagem de uma lápide cinzenta e velha, em um cemitério que antes fora um aterro sanitário e que era mantido apenas por conveniência para que os corpos de criminosos que não foram reclamados por familiares tivessem um lugar para serem esquecidos, vandalizada e cercada por hera e mato rasteiro relampejou em minha mente e fez uma satisfação negra esfriar todo o meu corpo, virei o rosto para o lado, fugindo do olhar perscrutador de Natsu, e fitei a janela, observando como os galhos nus se envergavam perante ao forte vento.

— Você os matou? — indaguei, sentindo a pele pinicar ante o olhar fixo do agente.

— Sim.

— Como?

— Com uma faca de cozinha. — havia humor em sua voz. — Estava cega demais para aquele tipo de uso, fez muita sujeira.

Imaginei um chão pintando de vermelho, móveis e paredes cheios de respingos, dois corpos dilacerados por um fúria sem limites.

— Quantos anos tinha?

— Quinze.

O olhei. Seus olhos estavam desfocados, perdidos em seu passado degenerado, piscou, e ele me via novamente a sua frente, sorriu.

— Eu matei a mulher primeiro. — continuou. — Ela estava em casa, pois não trabalhava, vivia a custas do marido e torrava o dinheiro do mesmo com roupas e bebidas, e claro, amantes jovens. Era muito magra, os ossos eram perceptíveis por baixo das roupas muito reveladoras que usava mesmo quando ficava em casa, alta e de fala mansa, sua voz sempre era de bajulação, era interesseira e muito bisbilhoteira. Maldosa e melosa. Nojenta. Peguei-a de surpresa, enquanto se arrumava para um encontro com algum garoto dez anos mais novo, pude ver a expressão de choque em seu rosto maquiado demais pelo espelho quando afundei a faca em sua traqueia. — fez uma pausa, ergueu a mão direita e a encarou. — Era novo nisso, sabe? Matar. Sempre me pegava planejando os assassinatos daqueles dois, poderia envenená-los, havia veneno de rato no armário da despensa, poderia sufocá-los enquanto dormiam ou colocar fogo na casa e ouvi-los gritar enquanto queimavam vivos, no entanto, matá-los daqueles jeitos não me daria nenhuma satisfação, então optei pela faca. — riu, balançando a cabeça e me olhando com os olhos arregalados, assombrados. — Eu nem imaginava que seria tão difícil! Ela estrebuchou, tentando gritar e somente conseguindo soltar urros molhados e abafados, lutou comigo, arranhou minhas mãos, bateu a cabeça em meu nariz, foi uma tarefa cansativa segurá-la, afundar mais a lâmina em sua carne, torcê-la e enfim acabar com ela.

Em minha mente, eu via um Natsu adolescente, com os dentes cerrados e os braços em volta do pescoço de uma mulher sem rosto, os dois lutando pelo quarto, derrubando objetos e espirrando sangue para todo o lado, os sons grotescos que a moribunda fazia, as unhas postiças se quebrando enquanto arranhavam as mãos do filho adotivo que torcia a lâmina para mais fundo em sua garganta, sua cabeça indo para trás e acertando o nariz de seu agressor, o momento em que parava aos poucos de se debater e morria. O jovem Natsu largando o corpo morto de sua mãe adotiva e olhando-o com uma euforia insana.

Pisquei. O agente continuava a falar.

— O homem chegou uma hora mais tarde, cansado e suado, o terno de corte sob medida não disfarçando a barriga que somente crescia ao longo dos anos, careca, de bigode farto e olhinhos de rato. Tão mesquinho e falso. Eu estava sentado na cama, com a faca na mão, todo sujo de sangue, olhando para a porta aberta em companhia do o corpo de minha mãe.

Parou de falar para olhar a janela. Com os olhos estreitos, se afastou de mim e puxou a cortina puída para o lado, encarou lá fora.

— Já que está tão falante, pode me dizer onde estamos? — perguntei, tombando a cabeça no encosto da cadeira. Minha cabeça latejava com mais intensidade diante do relato frio que ouvia do agente.

Natsu continuou a observar o quê quer que tivesse chamado sua atenção. Olhou por cima do ombro.

— Na casa abandonada no alto do morro. Onde você encontrou meu terceiro amigo. Segundo andar, foi bem complicado trazê-la pra cá, já que a escada velha e podre não parava de quebrar sobre meus pés. — resmungou.

Torci os lábios para baixo. Lembrando-me do corpo de Oliver, podre e escuro, cheio de buracos feitos por ratos.

— Não acha que será um dos primeiros lugares que irão procurar?

— Quem? — sua voz estava repleta de um prazer perverso. — Todos que sabem a verdade estão mortos, Lucy. Ninguém virá lhe procurar.

Não havia pânico, nem desespero ou temor em mim. Somente uma fria resignação e um cansaço furioso.

— Você espera escapar de tudo isso ainda como um simples agente do FBI? — perguntei, não esboçando nenhuma reação com suas palavras.

O agente se encostou na parede forrada com o papel descolorido.

— É claro. — respondeu. — Ninguém sabe que sou o Assassino das Cartas, todos acham que seu amigo sociopata o é. — seus olhos brilharam de deleite. — Devo agradecer ao Gray quando nos encontrarmos no inferno algum dia, ele me ajudou muito quando deixou sua digital na cena do crime, sério, que planejamento tosco o dele. — balançou a cabeça, descrente. — Se proclamar o serial killer que aterroriza Magnólia apenas para lhe machucar? Idiota. Havia tantas outras maneiras, ainda mais dolorosas, de lhe fazer sofrer.

Como me entregar para Zeref e assistir com um sorriso nos lábios enquanto eu era torturada. Coisa que ele também o fez. Fechei os olhos por um curto momento, encontrando no escuro de minhas pálpebras o sorriso carinhoso que o moreno sempre abria para mim, suas palavras e seus toques, o calor de sua amizade que me salvou de cair no poço escuro e muito fundo na borda da minha mente. Então abri os olhos e percebi que jamais voltaria a pensar nos anos que passamos juntos novamente.

Pois agora ele estava morto e o nosso passado não passava de mentiras bem elaboradas.

— Eu sei. — falei, chamando a atenção de Natsu de volta para mim, ele estivera encarando o lado de fora mais uma vez. — Sei que é o assassino, que é irmão de Zeref, que o ajudou a fugir da prisão e a escondê-lo. Não teme que eu fuja e você receba não uma prisão perpétua mas uma pena de morte?

Não era um blefe ou mesmo uma tentativa de provocá-lo, era apenas algo que podia vir a acontecer, mesmo que parecesse tão impossível. E também, o maior medo de um serial killer era ser pego e sentenciado à morte.

— Temeria caso você tivesse alguma chance de fugir. — se aproximou, tocando as cordas bem apertadas em meus pulsos. — Você não pode escapar de mim, Lucy.

E se curvou para mim, capturando meus lábios, pegando-me de surpresa.

Sua língua avançou, forçando a entrada para minha boca, a concedi e ele agarrou meus cabelos, puxando minha cabeça para si, pressionando sua boca na minha com violência e fome, seus olhos estavam abertos, me encarando, lhe devolvi o olhar e mordi sua língua com força e vontade. Sangue inundou minha boca, salgado mas ao mesmo tempo doce, enjoativo. Natsu, contundo, não se afastou como achei que faria, não esbofeteou meu rosto como imaginei, ao invés disso, afundou mais seus dedos entre os fios loiros, forçou ainda mais o beijo, mordendo meus lábios e os machucando. Quando pensei que me sufocaria por causa do sangue e falta de ar, ele se separou de mim, ofegante, cuspi a mistura de sangue e saliva no chão, sentindo o estômago contrair por causa do gosto de ferro em toda a boca.

— Quando penso que desistiu, você me mostra esse lado selvagem seu. — o agente limpou a boca com as costas da mão, minha mordida havia sido funda e o sangue que escorria pela lateral de seus lábios não pararia tão cedo. — Ai, isso vai dificultar nossa conversa.

E sorriu, os dentes brancos manchados de vermelho.

— Porquê, diabos, você está fazendo tudo isso? — chiei a pergunta que martelava a muito tempo em minha cabeça. — Porque matar todas essas pessoas para vingar alguém que odeia tanto e que já foi morto por suas próprias mãos? Não faz sentindo! Porque não matou Zeref quando se livrou de seus pais?

Natsu deixou o sorriso dobrar de tamanho, o que lhe deu uma aparência desvairada.

— Deixe-me primeiro acabar de contar como matei aquele homem. — disse, quase de modo afável, andou pelo cômodo a passos lentos, os olhos nunca me deixando mas sua voz falando para os fantasmas nos cantos das paredes. — A expressão horrorizada em seu rosto feio quando viu a cena que lhe esperava no quarto foi fantástica, ah, sim, e a cara dele se retorceu todinha em uma fúria que quase podia se comparar com a minha quando me viu, ele avançou para mim, mais rápido do que eu imaginava para um homem daquele tamanho. — suas mãos retorceram, seguravam uma faca imaginária, prontas para afundá-la na carne de um pai adotivo imaginário. — Ele caiu em cima de mim, da faca, pode se dizer que praticamente se matou sozinho, com um pouco de ajuda da minha parte, foi estripado como um porco.

O sorriso que estava em seu rosto desapareceu e toda a euforia se foi junto com ele, Natsu tornou-se frio, sombrio. Parou de andar pelo cômodo e se virou completamente para mim, a mudança súbita de um estado de espírito para outro foi abrupta e de algum modo apavorante.

— Zeref... — comecei, tendo que passar a língua nos lábios secos e feridos. — Ele...?

— Ele assistiu a tudo. — falou, indiferente. — Ficou lá, observando quando degolei a mãe e estripei o pai dele, sem piscar nenhuma vez ou sequer tentar avisá-los do perigo iminente.

Aquilo era tão horrível.

— E porque não aproveitou a chance e lhe enfiou a faca na barriga? — indaguei, tão apática quanto ele.

— Eu ia fazer isso. — de algum modo ele soou constrangido, quase como se tivesse arrependido de não ter feito aquilo que lhe perguntei. — Estava indo em sua direção, prestes a lhe arrancar a pele dos ossos, no entanto, ele, ao invés de tentar fugir ou acabar comigo, se ofereceu à mim. — havia repulsa em seu rosto. — Disse-me que eu era igual a ele, que ele havia me transformado em uma pessoa deformada como ele e que não seria tão ruim ser morto por seu irmãozinho, senti tanto nojo dele, tanto asco, que não pude matá-lo, pois sabia que não sentiria nenhum prazer ao fazê-lo. — deu de ombros, novamente indiferente. — Eu o abandonei lá, junto com os corpos de seus pais, e desapareci. E pelo jeito ele fez o mesmo, pois nunca conseguiram encontrar o culpado dos assassinatos e o paradeiro dos filhos. — e soltou uma risadinha.

Eu não conseguia acompanhar suas mudanças de humor. Sabia que metade do que deixava transparecer era falso, psicopatas usavam as expressões para enganar as pessoas, fazê-las acreditar que realmente está sentindo o que seu rosto, voz e gestos revelam, eram profissionais em deixá-las confusas e fazê-las duvidarem de si próprias e de outros, mas não deles próprios. Trinquei os dentes, minha cabeça latejava incansavelmente e não me permitia pensar direito em algum modo de desarmar Natsu, deixá-lo privado de sua vantagem emocional para contra mim, irritá-lo ao ponto de cometer algum erro, qualquer erro, que me desse ao menos um chance de tentar fugir.

Soltei um suspiro pesado e deixei meu corpo arriar na cadeira em sua posição desconfortável, sabendo mas não querendo admitir, que não havia jeito algum de fazer Natsu se descuidar, como? O Assassino das Cartas era meticuloso e cauteloso demais, não deixaria nada que desse à mim uma oportunidade de escapar.

Dessa vez parecia ser o fim da linha para mim.

Deixei minha nuca se apoiar no encosto, o corte nela ardia mas não me importei mais, fitei o teto, procurando rachaduras e encontrei teias de aranhas abandonadas.

— E então? — comecei, o tom de voz monótono. — Você o deixou vivo, para quê? Para ajudá-lo anos depois a escapar da prisão e vingar-se da pessoa que o jogou lá e que quase o matou? Se você o odiava tanto, não existia motivos para libertá-lo do lugar em que morreria, completamente insano e assolado pelos espíritos de suas vítimas. — não olhei para ele quando escutei o chão de madeira gemer sob seus passos. — O quê o fez abandonar Zeref e vir atrás de mim?

O agente entrou em meu campo de visão, olhou-me de cima, o rosto feito de rocha fria.

— Eu não o ajudei realmente, Lucy. Em todo esse tempo que você pensou que o assassino fosse Zeref, eu estava brincando com ele, como ele costumava brincar comigo na infância. Tirei-o da cadeia depois de anos apenas para que sofresse em minhas mãos.Você seria somente uma diversão à parte, sabe? Algo novo para me distrair e quando me cansasse, me livraria de você como me livrei de Zeref. No entanto... — seu sorriso de lobo me deu olá. — Acabei por tornar-me obcecado, o seu modo petulante e grosseiro com o qual me tratou no começo só fez a vontade de vê-la completamente submissa aos meus pés mais forte, ah, como foi extasiante vê-la aplicar todos os seus esforços para encontrar o assassino que esteve ao seu lado desde o início, acompanhar o processo de desgaste de sua força para afastar seus sentimentos do trabalho, o cansaço que era esconder sua verdadeira natureza, aquela quebrada e deformada que nasceu após o assassinato de seu filho e noivo, de todos e de seu melhor amigo. — piscou um olho para mim. — E a melhor parte, apreciar o olhar de desolação em seu rosto quando descobriu ter sido enganada por aquele em que mais confiou e amou, nada do que eu havia planejado teria lhe trago aquele olhar, nada, e apesar disso me irritar intensamente, esse será o segundo agradecimento que darei a Gray no inferno.

E riu. Aquele tipo de risada que vem do fundo do estômago, profunda e genuína, que é capaz de trazer lágrimas aos olhos e tirar todo o seu fôlego.

Eu o olhei de baixo, calada.

Pensei que sentiria alguma coisa, uma fúria que queimava o sangue e subia para a cabeça, nublava pensamentos, apagava todas as inibições e levava as pessoas a fazerem coisas que jamais haviam cogitado fazer, ou um ódio que descartava razões sensatas, resgatava o lado mais selvagem das pessoas e o atiçava contra seus alvos. Mas nada veio e eu me senti mais vazia do que nunca.

Pisquei.

— Irá me matar agora que conseguiu o que queria?

Não era esse tipo de reação que Natsu esperava, notei isso quando a risada parou de uma maneira abrupta e ele me encarou com olhos escuros e maldosos.

— Não.

Isso me pegou de guarda baixa.

— O quê?

— O que a cabei de falar, não vou te matar, não agora. — andou pelo quarto, ergui a cabeça para acompanhá-lo com os olhos. — Talvez nem depois.

— Porquê?

Ele se virou para mim.

— Porque eu te amo.

Continuei a fitá-lo, com a expressão vaga até que um sorrisinho soturno lhe decorasse os lábios.

— Essa reação fria diante da minha declaração me machuca, Lucy.

— Você não ama. — falei. — Não sabe o que é isso.

O agente deu de ombros.

— É verdade, mas minha incapacidade de amar não anula meu desejo de possuir. — foi até a janela mais uma vez, notei como seus olhos pareciam febris enquanto iam de um lado para o outro, observando a paisagem sem cor do lado de fora. — Não vou me livrar de você, Lucy, pois estaria sendo um tolo ao matar meu objeto de obsessão e prazer.

— Vou te matar na menor oportunidade que você me der, sabe disso, não sabe? — falei, lenta e calculista.

Natsu me encarou com um extremo prazer a lhe cintilar os olhos.

— Oh, sim, sei muito bem disso. E isso só torna as coisas ainda mais excitantes para mim. — ele veio na minha direção, retirando algo que parecia preso aos seus jeans. — Está na hora de irmos, já devem ter encontrado seu corpo a essa altura.

Encarei-o, estupefata.

— O que disse?

Ele parou a minha frente, batendo de leve a arma de eletrochoque em sua mão.

— Ou o que eles vão pensar que é o seu corpo. — continuou, limpando distraidamente o sangue no canto dos lábios. — Dei seus tênis, o celular, espero que não se irrite por eu tê-lo roubado, e o casaco para a mulher que matei e descartei no Parque Central. — havia um sorriso de apreciação diante do meu horror em seu rosto.

— Você... Você forjou o meu assassinato?

— Será mais fácil para mim se eles acharem que você está morta.

— Os policiais não são burros, Natsu. — falei, tentando me encolher pra longe da arma de eletrochoque agora ligada em suas mãos. — Eles não me confundirão com outra pessoa, me conhecem bem demais.

— O corpo está muito mutilado para isso, Lucy, precisarão de um exame de DNA para identificá-lo, e quando conseguirem, o que levará alguns dias, estaremos bem longe daqui, sem nenhum rastro para ser seguido.

Era um plano louco. Sem falhas. E que devia ser impedido de ser bem sucedido, pois, caso saíssemos de Magnólia, era certeza que a polícia e o FBI jamais colocariam as mãos no Assassino das Cartas.

Eu não podia permitir aquilo. Não deixaria que o assassino de tantas pessoas saísse impune.

Com os dentes trincados e a mente frenética, empurrei as pontas dos dedos dos pés no chão, arrastando a cadeira alguns centímetros para trás e me afastando quase nada do agente. A cadeira gemeu e balançou, senti a bamba, frágil, quebraria bem fácil caso recebesse um golpe pesado.

— O que lhe dá tanta certeza de que conseguirá escapar? — indaguei, esbaforida. — As estradas estão sendo vigiadas.

Natsu parecia se divertir com a minha fraca tentativa de ganhar tempo.

— Nada é tão bem vigiado hoje em dia, parceira.

— Não vai ser tão simples despistar o FBI.

— Eu trabalhei nele por quase cinco anos, o FBI não é perfeito, Lucy, há falhas, é verdade que são pequenas, mas continuam a ser falhas e eu me aproveitarei delas.

— Você...

— Já chega. — cortou-me com a voz gelada.

Respirei fundo. Tagarelar não me levaria a nada. Tinha que pensar, meus olhos foram para a janela.

— Por acaso está esperando que alguém apareça?

Natsu paralisou-se, a arma de eletrochoque a pouca distância da pele pálida do meu braço.

— Ninguém sabe que estamos aqui. — disse, o eco em sua voz me fez arrepiar. — E ninguém virá.

Meu coração estava disparado.

— Estranho, pois parecia que você estava bem preocupado enquanto olhava pela janela. — não consegui abrir um sorrisinho de zombaria. — Tem medo de que algo aconteça que não esteja em seus planos? Como a morte não premeditada de Kevin Bristow?

Tocar no nome do velho fez a postura tranquila do agente tornar-se tensa e ameaçadora. Psicopatas eram obcecados por controle e quando este fugia de suas mãos, cometiam erros. Era por causa destes erros que a maioria dos que se tornavam assassinos em série eram pegos pela polícia.

E isso era o que mais os assustavam, todo assassino possui um imenso medo de ser preso, ficam apavorados com a hipótese de serem trancafiados em celas frias e sentenciados a perpétua ou a cadeira elétrica.

— Aquilo foi um infortúnio imprevisto. — a calma em suas palavras era falsa e vi seus olhos voarem para a janela. — Kevin não devia estar lá...

— Aquele era o prédio dele, o apartamento dele, onde mais ele deveria estar se não lá? — imprimi tanta ironia em minha voz que ela quase beirou ao puro desdém. — Está tentando culpar Bristow por uma falha sua. Você errou, admita isso logo de uma vez. — Natsu voltou o olhar para mim e ali havia o aviso de que era melhor eu fechar a boca, mas o ignorei e abri um sorriso de escárnio. — Mas é claro que não vai fazer isso, certo? Pois é vergonhoso admitir ter arruinado um plano que deve ter sido tão bem planejado, pois foi muita estupidez, burrice, da sua parte, não é? Quão imbecil você deve ter se...

Uma coisa sobre os psicopatas era que eles não suportavam serem insultados.

O impacto no chão me fez morder a língua e cada parte do meu corpo ressoar em agonia, senti a cadeira estalar e se descolar quando todo o meu peso caiu sobre ela, ainda meio zonza, testei mexer os braços, bem devagar, e senti-os soltos.

— Você deveria ser mais cuidadosa, parceira. — senti mais do que ouvi os passos do agente vindo na minha direção. — Não vou matá-la mas posso brincar com você.

O olhei e deixei que se agachasse ao meu lado. Sorri.

— E você deveria escolher melhor as cadeiras no qual amarrar alguém, parceiro. — e golpeei seu rosto com força.

Por meu braço ainda estar preso ao braço da cadeira, o golpe explodiu em um estrondo alto e seco quando fez contato com sua face, Natsu despencou, ainda consciente e gemendo de modo agoniante, não perdi tempo, ignorando a dor em meu cotovelo, soltei-me das pernas da cadeira que ainda continuavam inteiras e coloquei-me de pé, olhei para a arma de eletrochoque na mão de Natsu que tentava em se erguer, balbuciando meu nome, cogitei a ideia de pegá-la, porém desisti e corri para a porta, por mais tonto que o agente estivesse por conta da pancada, continuava a ser mais forte do que eu.

O segundo andar daquela casa não passava de um corredor estreito contendo três portas, duas dando para quartos e outra para um banheiro que vi estar preto de sujeira quando passei ao se lado, cambaleei até chegar ao topo da escada, não existia mais nenhum sinal do corrimão que um dia ouve ali, os degraus estavam quebrados e podres em diversas partes, e de um modo agourento, eles gemeram quando comecei a descer, com as costas coladas na parede e as mãos prontas para protegerem o rosto caso caísse.

— Onde pensa que vai, Lucy?

Estava quase no final da escada quando Natsu apareceu, metade do seu rosto estava encharcado de sangue, havia lascas de madeira perfurando a pele que já começava a inchar. Apesar da aparência dolorosa daquilo, ele tinha seu sorriso de lobo nos lábios.

— Pensei em tomar um ar. — falei e disparei pelos degraus restantes.

O agente veio atrás de mim. Toda a estrutura da casa pareceu tremer com seus passos pesados e a escada não aguentou o peso de duas pessoas, ela veio abaixo, levando nós dois e nos soterrando, como se só estivesse em pé por conta do apoio, a parede ao lado dela também ruiu e caiu sobre o entulho que já havia arrancado todo o meu fôlego e prendido minhas pernas. Uma espessa camada de poeira se ergueu, atrapalhando a visão e fazendo-me engasgar e tossir, desorientada, demorei para identificar cada membro e lembrar-me de como movê-los, com extrema dificuldade, comecei a afastar os escombros e a me libertar, ouvi o barulho de madeira deslizando em madeira há poucos metros a minha frente, apesar de ter recebido a maior parte do desabamento, por estar no início da escada, Natsu já começava a abrir caminho para vir me pegar, tomada pela adrenalina, chutei e me contorci, conseguindo deslizar para fora de toda aquela madeira e gesso velho, tentei me levantar imediatamente mas não consegui, minhas pernas tremiam e estavam incomodamente dormentes. Trinquei os dentes e soquei minhas coxas, para que o sangue corresse novamente por elas e me permitisse ficar de pé e cair fora dali.

Apoiando-me na parede do corredor, tropecei na direção da claridade que entrava pela frente da casa sem porta. Atrás de mim, Natsu se livrava dos escombros.

A primeira coisa que senti quando sai, foi o frio cortante, estava sem casaco e sapatos, e a neve se acumulava até acima dos joelhos, o céu cor de cimento cuspia grossos flocos e o vento era forte. E a segunda foi o choque macio no chão quando Natsu agarrou-me por trás.

Lutamos. O agente era bem mais forte mas estava ferido e eu, apesar dos meus próprios ferimentos, estava cheia de adrenalina que fazia minha força aumentar. Acertei-lhe e recebi seus golpes, o vermelho se misturou ao branco enquanto rolávamos selvagemente por todo o terreno, um tentando imobilizar o outro, a luta estava equilibrada até que o agente desferiu um soco forte e certeiro na boca do meu estômago, o ar faltou e o mundo girou e escureceu, enquanto lutava para me recuperar, Natsu pressionou seu braço em minha garganta e agarrou o pulso do braço bom, forçando-o para debaixo do meu corpo. Estava presa.

— Não dificulte mais as coisas, parceira. — Natsu arfou, em cima de mim. — Até onde você acha que conseguiria ir nessa tempestade?

O frio era tão intenso agora que já estava começando a não senti-lo. O que era um mau sinal. Encarei Natsu, os dentes a mostra em um sorriso feroz.

— Você deveria me matar agora enquanto pode. — cuspi as palavras, não fazendo o esforço para lhe socar pois o soco seria fraco por conta da fratura no cotovelo. — Já deve ter percebido como será difícil sair de Magnólia comigo, não?

Natsu riu e aplicou mais força em seu braço, cortando a minha respiração. Não lutei. Ele afrouxou o aperto.

— Você não pode lutar se estiver inconsciente. — e dobrando o tamanho do seu sorriso, começou a me sufocar lentamente, a escuridão começou a se fechar nos cantos dos meus olhos. — Quando acordar, estaremos em um lugar bem mais quente. — sua voz parecia vir de muito longe.

E o estampido do tiro também. Os gritos de dor do agente vieram abafados e tornaram-se mais claros a medida que eu tossia e engasgava, voltando a respirar sem o seu braço a me esmagar mais a garganta, havia sangue espirrado em meu rosto, quente, pisquei várias vezes e senti uma mão não muito firme me ajudar a levantar, olhei para cima, minha visão estava embaçada mas ela não me impediu de reconhecer os traços sérios de Gageel.

Gageel.

— Você realmente pensou que eu estava morto, não é? Pela sua cara. — falou, com um sorrisinho, enquanto me fitava. — Por sorte, o babaca aqui não verificou se tinha me matado mesmo, a bala acertou meu ombro, fez um estrago mas não me levou dessa pra melhor. — sinalizou o ombro esquerdo completamente imobilizado. — Terei dificuldades para mexer o braço mas isso é o de menos.

— Como...? — minha voz tremeu e eu me segurei para não esticar a mão e tocar seu rosto, para ver se ele era mesmo real.

— Não foi tão difícil assim. — respondeu, não precisando que eu completasse minha pergunta, olhou para Natsu que gemia baixo agora, encolhido na neve que tornava-se vermelha ao seu redor, pressionava a mão no seu ombro direito que sangrava profusamente. — Eu sabia que estava viva, quando acordei no hospital algumas horas mais tarde, estava grogue por conta dos medicamentos e da cirurgia pela qual tive que passar, fui impedido de sair pelos médicos que me disseram que eu nem deveria ter acordado, mas eu sabia que estava em perigo e que não podia perder tempo. Então... — deu de ombros.

Encarei-o.

— Espere... Por acaso você não fugiu do hospital, não né?

Gageel piscou um olho.

— Vamos deixar isso quieto, certo? — ele pareceu se divertir com a minha expressão chocada mas logo ficou sério novamente. — Os corpos de Gray e Zeref foram levados para o legista, no começo pensaram que foi um de nós a matá-los e no tiroteio eu saí ferido, mas logo perceberam que as coisas não aconteceram realmente assim, quando não conseguiram encontrar seu paradeiro. O corpo de hoje de manhã foi mais uma confirmação de que algo não estava certo, mas estavam de mãos atadas, pois não possuíam nenhuma pista ao qual seguir, eles não sabiam quem era o verdadeiro assassino. Apenas eu. E o lugar mais óbvio, depois do Parque Central, seria aqui. — ele encarou Natsu que se ajoelhava. — Isso não foi tão inteligente da sua parte, Dragneel.

O agente soltou uma risada alucinada e salpicada de dor.

— Eu deveria ter lhe dado mais um tiro, Gageel. — as palavras saíram quase como um rosnado.

— Sim, deveria. — Gageel me empurrou para trás. — Mas não adianta mais lamentar. Acabou, Natsu. Você será preso e julgado pelo assassinato de oito pessoas e pode ter certeza que será pena de morte para você.

Natsu ergueu-se, seu rosto não demonstrava preocupação ou medo, ele somente sustentava o sorriso de lobo.

— Isso não acabou mesmo. — disse com segurança, os olhos postos em mim. — Só Lucy pode acabar com isso. E ela sabe como, resta saber se ela tem coragem de fazer isso.

Não percebi quando toquei o ombro bom de Gageel, ele me encarou e eu sustentei seu olhar, sem nenhum consentimento, suspiro ou alguma palavra, ele me entregou sua Glock e eu a recebi, se afastou e eu tomei o lugar a sua frente, minhas mãos estavam dormentes, não conseguiam sentir direito a pistola, ergui-a, apontando-a para o rosto sorridente de Natsu.

— Tornará-se uma assassina como eu. — disse o agente, os olhos febris, estava se aproximando, devagar, por causa da neve alta. — Como Zeref.

Não fraquejei. Meu indicador se encaixou no gatilho.

— Você sabe que nada disso vai ir ao público, sim? — continuou, cambaleando um pouco. — Gray Fullbuster será o bode expiatório do FBI, pois seria uma vergonha, uma falha imensa em seu meio, admitir que um de seus próprios agentes era o Assassino das Cartas, que trabalhavam ao lado de um psicopata. — o sorriso tornou-se maior e maldoso. — Para todos, o seu melhor amigo será o assassino, que foi morto por um corajoso agente que acabou perdendo a vida no ato heroico para salvar seu colega e a Investigadora Lucy, apenas imagine as manchetes que isso dará! Como se sentirá sabendo que o assassino cruel de todas aquelas pessoas será falado pelos familiares como se fosse o herói que os vingou? Como será angustiante se manter calada, não? — ele estava perto agora, poucos centímetros separava sua testa do cano da pistola, ele acabou com essa distância, pressionando sua pele no metal frio da Glock. Sua mão pegajosa de sangue envolveu meu queixo. — Quão lastimável será sua vida depois de hoje, Lucy.

Não sentia nada e o sorriso que se infiltrou em meus lábios, era tranquilo.

— Te vejo no inferno, parceiro?

O sorriso de lobo continuou lá. Até o final.

— Com toda a certeza, parceira.

E apertei o gatilho.

***

Um mês depois.

O silêncio era ocasionalmente interrompido pelo assobio do vento entre os galhos nus das árvores e o esmigalhar de gelo fino sob meus pés enquanto caminhava com cuidado, o cemitério estava vazio a essa hora da manhã, o frio insistente e o sol que não tinha forças o suficiente para trespassar as camadas escuras de nuvens, espantava qualquer visitante. O terreno cheio de leves elevações estava tomado por uma fina camada de neve suja e os cinzas das muitas lápides despontavam por baixo da brancura maculada, galhos arrancados pelas tempestades de neve se acumulavam em montinhos junto com embalagens de balas e latas de cerveja abandonadas por algum grupo de arruaceiros, caminhei entre os mortos que descansavam, procurando os túmulos de todos aqueles que morreram pelas mãos de um assassino que era tratado como herói pela imprensa e pelos jornais. Assassino este que havia tido um enterro com honrarias.

Meus braços carregavam flores. Jacintos púrpuras que significam um pedido de desculpas.

Não foi difícil encontrar os meus mortos. Suas lápides estavam cheias de anéis de flores, portas retratos de seus filhos e esposas ou maridos, e por elas também terem as pedras ainda novas, recentes demais para acumular a sujeira, o lodo e o musgo que o tempo traria com o passar dos anos.

O túmulo que estava parada ao lado agora era o de Kevin Bristow. Havia apenas uma solitária flor, um Ciclame branco, afundado na neve suja, pensei em quem podia ter o colocado ali e a única pessoa que veio a mente foi Steve Dan, agachei-me e deixei meu próprio lamento.

Já havia visitado os túmulos de Tony Braxton, Roberto Sylvia e Oliver Moron, e em cada um deles, havia flores de todos os tipos e cores, o que dava um toque de vida naquele deserto cemitério e escondia o pequeno Jacinto que acomodei na pedra de cada um. Comecei a subir a baixa colina, à procura de Alex Harris, não existia caixão do tamanho da caixinha onde estava o bebê dela, então, os familiares o cremaram e suas cinzas foram espalhadas sobre a terra fofa do túmulo de Alex, mãe e filho descansavam juntos agora. Quando encontrei o que procurava, deixei a flor e fui em busca de Sam Fisher.

Demorei para encontrá-lo, seu túmulo estava bem afastado de quaisquer outros, ao lado do muro alto que cercava o cemitério, havia flores, não muitas, mas o bastante para eu saber que ele tinha parentes que ainda se importavam com ele, peguei o penúltimo dos Jacintos e o coloquei na neve, fiquei ao lado dele por alguns minutos, lembrando-me de um caso a muitos anos atrás, onde as vítimas haviam sido sua esposa e filha, mortas no que pareceu ao início ser um acidente mas que mais tarde foi descoberto ser um atentado contra sua vida, Sam deveria estar no carro naquele dia, à caminho do parque com suas mulheres, porém ouve um imprevisto e ele não pode estar lá. A polícia nunca conseguiu realmente provar a culpa do suspeito que tinham e por isso, o caso foi fechado com uma etiqueta NR colada em sua pasta.

O mandante fora seu antigo empregador, presidente da empresa que anos mais tarde Sam invadiu e levou-a falência.

Passei os dedos no topo da lápide, limpando a neve. E me afastei, indo a procura do último túmulo, o de Nora Willians, 30, a última vítima de Natsu, caminhei no frio por um tempo, o sol estava mais forte porém seu calor não era o bastante para aquecer meu corpo, quando por fim encontrei o que procurava, depositei o último Jacinto em meio a um mar de flores e dei as costas, indo na direção da saída do cemitério.

Não visitei o lugar onde Gray estava enterrado. O velório que acontecera há duas semanas atrás fora horrível e eu não queria ver o estado que sua lapide estaria agora, vandalizada por parentes e outras pessoas.

Quando sai, vi Gageel me esperando, encostado em um carro baixo e discreto. Seu ombro se recuperava bem mas agora ele não conseguia segurar algo com força sem todo o braço começar a tremer violentamente.

— Tem certeza disso? — perguntou-me mais uma vez, quando me aproximei.

— Sim. Não há mais nada aqui para mim, Gageel. — entrei no carro, no banco do motorista e esperei o moreno da a volta e se sentar ao meu lado. — Só tenho que passar em um lugar antes.

O agente me olhou.

— As estradas continuarão onde estão, Lucy.

Liguei o carro.

***

A lojinha de conveniência continuava abarrotada como antes, as estantes pesadas e meio encurvadas por conta de todo o seu conteúdo, o sino da porta ecoou alto quando a empurrei e entrei, trazendo o vento gelado para dentro da lojinha aquecida.

— Bem-vinda. — disse o velho sentado no banco alto e de pernas finas, o sorriso meio banguela ondulou em seus lábios quando me reconheceu e seus olhos castanhos brilharam. — Ah, minha filha.

Ele acariciou minha bochecha quando me aproximei do balcão, parecia prestes a chorar,

— Olá. — falei, pegando o dinheiro que havia faltado quando comprei um café e um pacote de pães de mel no que parecia ter sido há muito e muito tempo. — Aqui está, como havia lhe dito.

— Você perdeu para o seu monstro. — disse, sem olhar para o dinheiro que empurrei em sua direção.

Não consegui sorrir. Não sabia mais como o fazê-lo.

— Parece que sim, né? — peguei sua mão e a tirei do meu rosto, desviei os olhos, sem querer ver os seus cheios de lágrimas. — Mas cumpri o meu dever, então, está tudo bem. Tenho que ir agora. E obrigado por ter me vendido fiado.

Dei-lhe as costas e sai a passos rápidos da loja, sem querer ouvir o choro do velho que nem ao menos me conhecia direito.

***

Estava deixando Magnólia para trás.

Gageel falava ao celular ao meu lado enquanto eu diminuía a velocidade do carro para passar em um radar e voltava a acelerar quando o passei, o aquecedor estava ligado ao seu máximo, mas o frio já tinha se tornado parte de mim.

O moreno desligou e senti seus olhos em meu rosto.

— E Makarov? — não precisou de uma frase inteira para que eu soubesse o que queria perguntar.

— Ele entendeu. — respondi. — Agora, pare.

O agente suspirou.

— Você trabalhará para a agência que ocultou a verdade para seu próprio benefício. Porquê está fazendo isso?

Árvores passavam como borrões pálidos dos dois lados da estrada.

— Porque não há nada mais que eu possa fazer.

E com minha resposta fria ele se calou, olhei para o retrovisor. Não havia saudades a me despertar no peito pela cidade em que passei toda a minha vida, do lugar onde encontrei o amor e onde morri diversas vezes e de várias formas. Não sentia dor, nem ódio e fúria pelo modo como tudo havia terminado, não sentia tristeza.

Não sentia mais nada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!