Psicopata

4 Capítulo 4


O vento gelado da noite que já avançava pinicou meu rosto, envolvi o copo de café com as mãos, tentando esquentá-las um pouco, sentada no capô de uma viatura qualquer, observei quando dois policiais que transportavam o corpo ainda não identificado da vítima passavam pelos portões de grade do Parque Central, escondido dentro de um saco preto para que ninguém visse o horror que ele apresentava, centenas de flashes foram efetuados nos poucos minutos que levaram para colocá-lo dentro de um dos quatro compartimentos que a van que o levaria para o legista possuía, olhei, irritada, para a massa compacta de repórteres e cameramans que quase arrebentavam a faixa preta e amarela para conseguirem um bom ângulo para suas filmagens, além deles, havia muitos curiosos que tinham seus braços esticados por cima das cabeças um dos outros, suas mãos portando celulares, gravando e tirando fotos mórbidas para mais tarde postarem em suas redes sociais.

Estalei a língua, era bizarro a excitamento que algumas pessoas tinham quando viam um acidente ou assassinato.

Levantei o copo para tomar um gole de café mas fui interrompida por um barulho alto, seguido por ofegos coletivos e uma nova onda de flashes, virei o rosto na direção da van, apenas para encontrar a cabeça da vítima rolando no chão, deixando marcas escuras de sangue em seu caminho, o rosto desfigurado mostrando seu sorriso medonho, o saco preto estava caído aos pés dos policiais, o rombo pelo qual ela havia escapado permitia a visão de um pedaço deformado do corpo, deixei o copo cair quando me levantei num rompante, caminhei até eles, gritando ordens para que recolhessem logo a cabeça e levassem o corpo pra longe dali, eles acataram minhas ordens rapidamente, murmurando desculpas, um deles correu até onde a cabeça estava, envolveu-a num saco e colocou-a junto de seu resto, a van partiu segundos depois, respirei entre os dentes enquanto minhas mãos buscavam um maço de cigarros dentro do casaco que vestia, somente para se lembrarem que eu havia largado o vício há um ano.

Uma mão pousou no meu ombro direito, virei, Gray me encarava, sério.

— Tome, vai ajudar a passar a vontade. — me entregou um pirulito.

Abri um sorrisinho nervoso.

— Obrigada. — peguei e guardei no bolso. — Comerei quando estivermos no carro, não quero aparecer na TV chupando um pirulito logo após uma cabeça ter rolado pelo chão.

O moreno continuou a me olhar, abriu a boca, pensou melhor.

— Os dois garotos que passaram mal, já foram liberados do hospital, estão a caminho da delegacia agora. — disse depois de alguns momentos. — Os interrogatórios dos outros três já foram iniciados, como pediu, deixei claro aos policiais que qualquer coisa interessante que for dita, é para repassarem rapidamente para nós.

Confirmei, trocando o peso dos pés.

— A mochila de camping... Já chegou ao legista?

Gray enfiou as mãos nas calças jeans justas que usava, olhou para a imprensa que tentava a todo custo arrancar alguma informação dos policias que os impedia de ultrapassar a faixa.

— Sim, a carta também.

Olhei para o copo de café derramado no chão perto da viatura em que estava sentada, suspirei, ainda estava cheio.

— Iremos dar uma passada lá. — falei, estalando os dedos, já sentindo falta da cafeína. — Acha que Jellal conseguirá algo para nós ainda hoje?

Gray riu pelo nariz.

— Provavelmente, aquele cara é viciado no trabalho. — virou-se para mim. — Com certeza terá a identidade da vítima em mãos quando chegarmos lá.

— Espero que sim. — murmurei.

Gray colocou a mão no topo da minha cabeça e bagunçou meus cabelos, sua expressão suave endureceu quando olhou por cima dos meus ombros.

— O que ele está fazendo aqui?

Olhei para trás, Natsu Dragneel batia porta de um carro preto esportivo e caminhava na nossa direção, o terno preto moldando-se perfeitamente ao corpo alto e forte, os cabelos com sua cor chamativa impecavelmente penteados para trás, algumas mechas rebeldes caindo lisas em sua testa, parou a poucos metros de nós, observando-nos com atenção.

— Vocês são namorados? — perguntou de repente, sua voz grave não revelando nada, nem mesmo curiosidade, um tom neutro que por algum motivo me incomodava.

— Não. — respondi, carrancuda. — O que o senhor quer, agente Dragneel?

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Quero saber dos detalhes do crime. — disse, com um tom de voz que mostrava que aquela pergunta fora estúpida. — O que mais poderia querer?

Se intrometer. — Gray murmurou apenas para mim, tirando a mão de meus cabelos.

Mordi os lábios, escondendo um sorriso.

— Saberá deles amanhã, na reunião que foi remarcada. — falei.

Ele me olhou, ainda sem nenhuma emoção nos profundos olhos, olhei-o de volta, hostil, se ele estava pensado em usar seu cargo que era mais alto que o meu para me fazer falar, apenas estaria desperdiçando seu tempo, eu não seria intimidada tão facilmente por um intrometido agente do FBI.

— Então posso ver o local onde o corpo foi achado? — perguntou, desviando seus olhos dos meus para pousá-los em Gray por alguns segundos antes de voltar a me encarar, abriu um sorriso provocativo. — Ou irá fazer uma excursão por ele amanhã, na reunião?

Trinquei os dentes.

— Lá. — apontei para o portão do Parque Central. — Na lateral direita, logo depois que entrar, há uma trilha iluminada, siga até o final, encontrará o que você quer. — terminei, a contragosto.

— Obrigado. — disse, e passou por nós a passos rápidos e silenciosos, parou, virou a cabeça para trás e me encarou. — Se importa de vir comigo?

— Hã?

Seus olhos brilharam por algum motivo.

— Vir comigo, se importa?

Gray falou no meu lugar.

— Porquê? É fácil chegar lá, não precisa da Lucy.

Natsu o fitou por um tempo.

— O que é toda essa hostilidade? — perguntou, com um sorrisinho sem dentes. — Têm medo que eu sequestre sua parceira? Pode ficar tranquilo, eu não quero uma investigadorazinha simples como ela, meu gosto é mais exigente que o seu, policial.

O maxilar de Gray travou, vi uma veia saltar em sua testa e antes que ele pudesse responder com palavras não muito recomendáveis para se oferecer à um agente de alta patente, dei um tapa em seu ombro, ele me olhou, irritado.

Não.

Encaramo-nos por alguns minutos, seus olhos pretos nos meus castanhos, por fim, ele suspirou, virou de costas para Natsu, que nos observava, e deu um peteleco no meu nariz.

— Está bem, está bem. — resmungou, se afastou de mim. — Estarei esperando no carro com um grande copo de café. — olhou por cima do ombro para mim. — Não demore ou ele vai ficar frio.

— Com bastante açúcar! — gritei, enquanto ele ia para seu carro estacionado há alguns metros de distância, ele sinalizou com a mão.

Respirei fundo algumas vezes e me virei para Natsu, sem encará-lo, passei por ele com passos rápidos e ruidosos, não olhei para trás para ver se estava me seguindo, continuei a andar, entrando no parque e indo na direção da trilha que havia sido iluminada precariamente com ajuda de lanternas que haviam sido postas no chão de terra, a atravessei, desviando-me de alguns galhos.

— Vocês se conhecem a muito tempo?

Não me assustei com a pergunta inesperada feita por Natsu, apenas olhei e o vi caminhando bem atrás de mim, seus passos não provocando um ruído sequer, ao contrário dos meus, que esmagavam galhos e folhas secas ruidosamente.

— Não te interessa. — respondi, ríspida, não me esquecendo da investigadorazinha simples, saímos da trilha e a cena do crime surgiu a nossa frente, sem o corpo pendurado na grande árvore, quase não parecia que um assassinato macabro havia ocorrido ali, mas a terra ao redor das raízes grossas que estava suja de sangue seco e escuro mostrava a realidade, parei a poucos metros da árvore, cruzei os braços. — Aí está.

Natsu parou também, ao meu lado, com as mãos nos bolsos da calça social preta, observou o chão, a árvore e todo o lugar ao redor.

— Houve alguma busca no terreno? — perguntou, tombando a cabeça ao olhar para o galho mais grosso onde a corda que prendia os tornozelos da vítima havia sido amarrada.

Segurei a vontade de estalar a língua.

— Sim, 200 metros, não mais que isso, as árvores se tornam muito próximas das outras, impedindo tanto o assassino de passear por lá quanto as equipes de buscar alguma pista.

— Pegadas foram encontradas?

— Não, nem as do assassino nem as da vítima. — franzi o cenho, pensativa. — É provável que a vítima estivesse desacordada quando foi trazida até aqui, então, pedi que procurassem rastro de que um possível corpo possa ter sido arrastado, mas... — parei de falar, dando-me conta que estava contando os detalhes do crime.

— Mas? — insistiu, aproximando-se do sangue e se agachando para observá-lo mais de perto. — Termine o que começou, por favor, Lucy.

Arqueei uma sobrancelha, intrigada por ele ter me chamado pelo nome tão informalmente.

— Mas não encontraram nenhum rastro. — terminei, com má vontade.

Ficamos em silêncio, o vento forte fez a copa das árvores ao nosso redor se sacudirem, folhas secas flutuaram até o chão, o outono se encarregando de deixá-las nuas para o inverno que chegaria em breve, olhei pra cima, o negrume do céu aparecia entre os galhos grossos, era uma noite sem lua, com poucas estrelas e nuvens escuras.

— Me diga, porquê você odeia agentes do FBI?

Abaixei os olhos para Natsu, que havia se posto de pé e agora dava a volta na árvore, seus olhos perscrutando cada centímetro da madeira marrom.

— Eu não os odeio. — falei, prendendo um bocejo de cansaço. — Apenas não os suporto.

— E por quê?

— Porque são intrometidos, cheios de si, acham que podem meter seus bicos em qualquer caso que esteja ganhando espaço demais nos noticiários, tomá-los dos investigadores para finalizá-los e ganhar todo o crédito. — abri um sorriso falso quando seus olhos negros me fitaram. — Não estou falando que o encerramento do caso, com a prisão do culpado, seja ruim, claro que não. — parei de sorrir, ficando séria. — Só acho uma puta sacanagem com o investigador que teve um enorme trabalho, esforço e paciência, ter o seu caso tirado de suas mãos por um agente que irá apenas efetuar a prisão e fingir que descobriu a identidade do suspeito sozinho.

Natsu acabou de dar a volta na árvore e caminhou até mim, parando na minha frente, me olhou com um sorrisinho de lado.

— Tecnicamente, nós podemos sim meter nossos bicos nos casos que não estejam tendo resultados e avanços. — fez uma pausa. — Como o seu. — arqueou uma sobrancelha, seus olhos brilhando de escárnio.

Trinquei os dentes, não mordendo a isca.

— Já terminou? — perguntei, grosseira, já dando as costas pra ele e entrando na trilha, sem esperar por sua resposta. — Preciso ir ao legista ainda hoje.

— Precisa? Eu vou com você, então.

Estanquei.

— O quê?! — exclamei, virando-me pra ele, Natsu estava a poucos passos de distância, mas seu rosto não era muito visível, as fracas luzes das lanternas não o alcançavam. — Você não precisa ir!

— Claro que preciso. — disse, algo em seu tom de voz me fez perceber que ele estava se divertindo. — Faço parte da investigação agora, então, nada mais que sensato eu te acompanhar até o legista.

Apertei as mãos em punhos, furiosa, sem dizer mais nada, virei-me e comecei a andar, quase correr, saímos da trilha, atravessamos o portão de grade, a quantidade de pessoas já havia diminuído, mas os repórteres ainda continuavam lá, quando nos viram, gritaram perguntas, estenderam seus microfones e os cameramans seguiram-nos com suas lentes, não olhei pra eles, Makarov havia me ordenado a não falar uma única palavra sobre o caso e eu cumpriria a ordem com muita boa vontade.

Localizei a viatura de Gray e estava começando ir até ela quando uma mão pegou meu cotovelo, olhei pra trás.

— O que é? — chiei entre os dentes.

Natsu sorriu um sorriso vazio.

— Terá que me mostrar o caminho para o hospital, eu não conheço muito bem este bairro. — disse. — Porque não vem no meu carro?

Fiz uma careta.

— Não, obrigada. — puxei meu braço. — Você pode seguir a viatura de Gray... — dei uma risadinha malévola e completei. — Se você conseguir.

Dei-lhe as costas e corri até a viatura, abri a porta e me joguei no banco, Gray, que estava cochilando com a testa apoiada no volante, acordou assustado quando bati a porta.

— Lucy? — murmurou, sonolento.

Coloquei o cinto rapidamente.

— Vamos. — falei excitada, peguei o copo de café que eu sabia que era meu da embalagem de papelão em cima do painel do carro. — Pisa fundo nesse acelerador, faça-o comer poeira.

O moreno piscou, sem entender.

— De quem você tá falando?

Apontei para Natsu, que entrava em seu carro.

— Dele. — abri um sorriso. — Ele vai nos seguir até o hospital.

Gray fechou a cara, arrumou-se no banco, passando o cinto, girou a chave na ignição e o motor do carro ligou com um ronco grave.

— Não vai não. — murmurou, ferozmente.

E pisou fundo no acelerador, fazendo o carro pular pra frente e meu café quase saltar do copo.