Psicopata

25 Capítulo 25


Notas iniciais
Olá, queridos leitores! Desculpem o atraso, esse foi o capítulo que mais tive dificuldade de escrever por ele ser o penúltimo. Sim, sim, Psicopata está acabando e enquanto escrevia esse derradeiro capítulo, dezenas de desfechos para essa história pipocaram em minha mente, por causa deles, escrevi e reescrevi até que consegui deixá-lo da maneira que queria, ufa, não foi fácil, rs. Então, sem mais falação. Aproveitem. ☻

Minha mente estava um caos.

E por conta dele e dos muitos pensamentos conturbados e contraditórios que se sobrepunham uns aos outros, minha cabeça latejava violentamente, encostei a testa nos joelhos, massageando as têmporas, tentando levar algum alívio a ela e parar aquela dorzinha irritante que não me permitia manter uma linha de raciocínio lógico, não funcionou, suspirando, voltei a encostar no banco e deixar minha cabeça pender no encosto deste. O céu parecia mais baixo que o normal, talvez por conta das nuvens gordas e cinzas, cheias de gelo, que escondiam o sol muito bem e faziam do dia quase uma noite.

O gelado vento queimava a ponta do meu nariz e orelhas, ele uivava forte entre as copas nuas das árvores da praça vazia, fazia as folhas persistentes que ainda não tinham caído, saírem voando para longe, também espantava qualquer pessoa que ousasse se aventurar para fora de seus carros e prédios e moviam as nuvens pesadas com rapidez pelo céu cor de cimento, o banco semi-congelado no qual havia me sentado já fazia alguns minutos era desconfortável, as roupas que usava não eram grossas o bastante e não impediam que o frio do metal se infiltrasse e chegasse a minha pele, apesar dos arrepios e tremores, da dor que somente o frio intenso era capaz de nos oferecer, não me levantei, continuei com os olhos fixos no céu acima à procura de figuras nas nuvens feias.

A gravação do assassinato de Sam não parava de se repetir a cada vez que piscava, hipóteses sobre qual motivo Zeref Bennett teria para ter cometido aquele crime também não paravam de surgir, todas fracas demais para se manterem por mais que alguns segundos em minha mente, criei razões baseadas em nada que poderiam levar Sam a contatar o Assassino de Damas, mas elas eram sem sentindo, pensei se de algum modo eles se conheciam mas esse pensamento era estúpido e foi descartado no exato momento que foi pensado, conjecturei coincidências, talvez eles tenham se esbarrado na rua ou se visto do outro lado da calçada, Sam poderia ter reconhecido Zeref e este, para não ser preso, o seguiu e o matou, porém aquilo não me inspirava confiança, não havia como o assassino saber que tinha sido reconhecido e coincidências aconteciam sempre mas basear um assassinato nelas era forçar uma razão para ele ter sido cometido, matutei por segundos se Sam não era a sexta vítima, impossível, se eu estivesse certa sobre a vingança de Zeref, sua sexta e última vítima seria eu. Então, cheguei nas ligações.

O latejar em minha cabeça piorou.

Havia duas rotas a seguir, a que, por eu ter entrado em contato com Sam, ter ido ao seu apartamento, ele tornou-se um alvo e foi morto para que sua morte me abalasse e aos meus pensamentos, que deixasse-me confusa e me fizesse perder tempo buscando o motivo para aquele assassinato ter ocorrido. E a que fosse uma queima de arquivo.

A segunda rota envolvia Natsu Dragneel, fora por causa dele que entrei em contato com Sam, na tentativa de descobrir mais sobre seu passado, havia entregado seu celular e esperado que algo mais fosse encontrado, também envolvia um possível relacionamento entre ele e Zeref Bennett, por que isso explicaria por que o moreno havia assassinado Sam. Porquê informações que não deveriam ser encontradas não seriam encontradas de modo algum.

Apertei os olhos com força pois a dor de cabeça havia chegado a eles, respirei pela boca, já que o ar gelado queimava o nariz e a garganta. Eu não queria pensar muito na segunda rota, era absurda demais, complicada e traiçoeira demais, ela somente traria ainda mais desconfiança e me deixaria ainda mais confusa do que já estava, então, a primeira seria bem mais aceitável, certo? No entanto, não descartei-a. Em uma investigação, jamais deveria deixar que seus sentimentos interferissem em seu trabalho, eles somente iriam lhe atrapalhar e lhe fazer buscas soluções alternativas que de nada prestariam.

Abri os olhos quando algo quente encostou em minha bochecha. Gageel estava acima de mim, olhando-me com uma sobrancelha arqueada.

— Não está congelando? — indagou, afastando o copo de café enquanto eu me sentava direito.

Dei de ombros, virando a cabeça de um lado para o outro devagar para que o pescoço estalasse. A dor de cabeça dificultava a tarefa de permanecer com o semblante vazio.

— Não muito. — menti, estendendo a mão para o copo.

O moreno me entregou e se sentou ao meu lado. Levantou-se segundos depois, estremecendo.

— Jesus, não muito? Você vai pegar uma pneumonia se continuar aí.

Tomei o café, ignorando os resmungos do agente a minha frente. O líquido quente ajudou a espantar o frio dos meus ossos e a relaxar um pouco a tensão do meu corpo, meu estômago doeu, lembrando-me que não comia algo consistente há quase 24 horas. Ignorei-o.

— Tome isso. — Gageel me entregou um saco pardo, estendi a mão sem pensar duas vezes, dentro, havia pães de queijo, macios e bem quentes. — Mesmo que isso não vá sustentar por muito tempo, coma todos, pelo menos vai te impedir de desfalecer a qualquer segundo.

— Obrigada. — agradeci com sinceridade.

Ficamos em silêncio enquanto eu devorava os pães, em um determinado momento, em minha pressa, me engasguei por ter colocado três ao mesmo tempo na boca, e o agente, mordendo os lábios para segurar uma risadinha, bateu com força em minhas costas, quase me jogando pra frente e de cara no chão. Quando acabei e o saco pardo estava amassado ao meu lado junto ao copo vazio, olhei para Gageel que estava encostado nas costas do banco, ao meu lado, terminando seu café e fitando a rua não muito movimentada.

— Você conhecia Sam. — não foi uma pergunta e o agente não a interpretou como uma, apenas me olhou por cima do ombro, não me dando uma resposta certa. — Você disse que tudo que estava no disco rígido foi apagado. Porém havia um backup. E todos os dados, junto com as gravações, foi parar em outro lugar seguro. Para o seu celular. — continuei o olhando e abri um sorrisinho satisfeito quando ele não desviou o olhar. — Há quanto tempo?

Gageel balançou o copo de papel e tomou o que restava do café, mirou e o lançou na direção do cesto de lixo a pouca distância. Ponto.

— Desde que fui colocado neste caso.

— Como o conheceu?

— Eu o procurei.

— E porquê?

— Porque fazia parte da investigação.

Estreitei os olhos.

— Qual? — o moreno me olhou com uma sobrancelha arqueada, em uma expressão de falsa confusão. — Não se faça de burro.

Um sorrisinho sarcástico apareceu em seu rosto.

— Tive ordens para lhe investigar, Lucy.

Não fiquei surpresa. Era o procedimento normal e obrigatório a se fazer quando em um caso, o alvo do assassino serial era um agente de qualquer tipo do governo. Porém, isso não significava que fiquei contente em saber que tive minha vida novamente investigada, meus passos e atos vigiados. E minha lealdade para com o bem dos cidadãos contestada.

— Creio que foi fácil, certo? — falei, a voz forçadamente neutra. — Não é como se meu passado fosse misterioso ou difícil de se encontrar, não? — já que era somente digitar meu nome no Google que em poucos segundos você descobriria tudo sobre a minha pessoa.

E caso necessitasse de mais informações, as que não eram encontradas no Google, bastava somente entrar no banco de dados da polícia com a merda de sua autoridade.

Gageel deu a volta e se sentou ao meu lado. Dessa vez ele não reclamou sobre o frio do banco.

— Sam entrou em contato comigo depois que você foi lhe fazer uma visita. — disse, me encarando atentamente.

— É? Que legal. — meu tom era ferino. Estalei a língua, espantando a irritação que sentia pinicar minha língua, assulando-a dizer besteiras. — Você o estava usando para me espionar ou esperava que em algum momento eu fosse procurá-lo e assim saber o que eu queria?

O agente passou os dedos nos cabelos rebeldes.

— Os dois. — respondeu sem nenhum pingo de vergonha. — Porquê o pediu para descobrir mais sobre Natsu Dragneel?

— Pelo mesmo motivo que você. Não foi você que o pediu primeiro? — abri um sorriso zombeteiro diante de sua expressão surpresa. — Não faça essa cara, está me ofendendo, não sou uma investigadorazinha tão medíocre ao ponto de não conseguir somar um mais um.

Ele sorriu.

— Jamais pensei nisso.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, encarando um ao outro.

— No início você pensou que eu estivesse de algum modo ligada ao Assassino das Cartas. E de um modo nojento, estou. — falei, lentamente. — Desconfiou que eu estivesse de parceria com ele e por isso você agiu como um verdadeiro babaca arrogante. — as pontas dos meus lábios se curvaram para cima, em um apagado sorriso desdenhoso. — Devo te elogiar, não são muitas pessoas que agem exatamente como elas realmente são.

Gageel enrugou o nariz, ofendido.

— As minhas ordens foram para lhe tratar como suspeita ou cúmplice até que eu possuísse provas concretas que provassem o contrário. — resmungou. — E não se engane, se sou um babaca arrogante, você é uma investigadora insolente que não tem papas nenhuma na língua.

Gotcha. Olhei para o céu, o tempo havia escurecido ainda mais e de tal maneira que as luzes dos postes foram acesas, no entanto, elas não eram poderosas o bastante para afastar a escuridão das quinas de prédios e becos. O frio se intensificou e eu tremi por baixo de minhas roupas, o agente ao meu lado se aproximou e meio relutante, deixei nossos braços e pernas esse encostassem, compartilhamos o calor que cada um possuía, esfreguei os dedos, observando as manchas deixadas pelas queimaduras que ainda estavam sarando.

— O celular foi levado? — não precisei especificar a pergunta pois o moreno sabia exatamente do que eu estava falando.

— Destruído. Encontrei os restos dele na caçamba de lixo atrás do prédio.

Esfreguei a ponta da bota no fino gelo que cobria a calçada, esmigalhando-o até virar água. Abri a boca mas a fechei, pensando melhor nas palavras que iria dizer, Gageel Redfox fora parceiro de Natsu por quase três anos, deveria haver pelo menos um pouco de camaradagem entre eles, levando em conta o modo como se tratavam, então, não seria uma boa escolha dizer que era possível que seu ex-parceiro estivesse envolvido em toda aquela merda macabra que era o nosso caso. Suspirei pesado, sentindo minha cabeça latejar com mais violência do que antes, massageei as têmporas, suplicando para que a dor fosse embora e me deixasse pensar direito.

— O que você acha de tudo isso? — perguntei por fim.

Demorou alguns instantes para que o moreno respondesse.

— Acho que devemos tomar cuidado com o que dizemos na frente de nosso parceiro a partir de agora. — o olhei mas Gageel estava encarando o nada a sua frente, concentrado demais em seus pensamentos. — Não sei como Natsu pode estar envolvido com tudo isso e também não sei se quero saber, mas o assassinato de Sam, a pessoa que tinha mais chances de descobrir alguma coisa sobre seu passado, e o assassino, que é Zeref Bennett, suspeito de ser o Assassino das Cartas e com um bom motivo para se vingar de você, nos deixa com um pé atrás. — esfregou o rosto e concentrou sua atenção em mim. — Existem incoerências demais nesse caso, e elas são como peças colocadas nos lugares errados de um quebra-cabeça complicado e muito grande, se as deixarmos onde estão, irão atrapalhar a resolução do enigma e nos deixarão ainda mais confusos.

Matutei por algum tempo o que ele havia dito.

— Isso significa que não confia em Natsu? — indaguei. — Vocês passaram muito tempo juntos, é impossível não confiar em seu parceiro de uma maneira que deixaria sua vida nas mãos dele como ele deixaria a dele nas suas.

Pensei em Gray e na profunda confiança que possuía por ele, uma pontada dolorosa no peito fez minha respiração falhar.

— Não tínhamos essa relação. — a voz de Gageel era baixa, quase como se estivesse relutante em deixar que as palavras saíssem. — Éramos bons parceiros, resolvíamos os casos sem tantas dificuldades graças ao nosso raciocínio rápido, mas era somente nisso que combinávamos, não somos amigos, apenas conversávamos sobre o caso atual que estávamos encarregados e só. Ele me deixava fora de sua vida pessoal tanto quanto eu o deixava fora da minha.

— Então... Foi por isso que pediu a Sam para investigar? Para saber mais sobre ele?

Gageel suspirou pesado e por estar perto, pude notar as olheiras escuras abaixo de seus olhos, frutos de uma noite mal dormida.

— Talvez, estava curioso e como tinha a disposição um hacker habilidoso, decidi sanar essa curiosidade. — deu de ombros. — Mas como você bem sabe, nada do que ele descobriu nos ajudou a saber quem realmente é Natsu Dragneel.

— E isso deixa espaço para a suspeita e a desconfiança. — completei com as minhas palavras. — Sem nada que nos prove que estamos errados, tudo que achamos ser possível torna-se possível.

O vento soprou forte e seu assobio e o som dos galhos das árvores nuas se chocando uns com os outros foi o único barulho ao nosso redor, carros passavam velozes pela rua com seus condutores escondidos pelos vidros fechados e escuros, puxei a trança que caia até um pouco abaixo do ombro, olhando para o céu que começava a cuspir pequenos flocos de neve.

— Se não irmos agora, chegaremos atrasados na reunião. — Gageel avisou, porém ele não se levantou.

— Acha que devemos contar a Inspetora Erza o que achamos? — murmurei.

Um floco pousou em meu nariz e derreteu antes que eu lhe desse um peteleco.

— Erza Scarlet é conhecida em nossa agência em levar tudo o que seus agentes dizem com muita seriedade. Se dissermos, ela deterá Natsu até que surgem provas que constatem nossas palavras. — ele me olhou, com a pergunta já em seus olhos. — Quer fazer isso?

Pensei. O que tínhamos para firmar a suposição de que Natsu estava envolvido com Zeref era a busca por informações sobre seu passado que acabou com o assassinato de Sam. Não era forte mas também não podia ser ignorada. Por alguns absurdos segundos, quase cogitei a ideia de esquecer sobre tudo aquilo e dizer a mim mesma que estava exagerando, encontrando suspeitas em lugares onde não havia nenhuma, mas eles passaram e deixei que qualquer parte sentimental e fraca minha fosse eliminada por minha parte profissional e fria.

— Quero. — o respondi.

E assim nos levantamos e caminhamos até onde a pick-up do agente estava estacionada.

Nos poucos metros que andamos, permiti que minha mente vagasse por pensamentos aleatórios, revisei novamente o caso, observei as fotos das vítimas e seus corpos devassamente mutilados, reli seus laudos e as cartas e mensagens do assassino, estudei por mais uma vez os modos como o psicopata assassinava e imaginei Natsu cometendo esses atos hediondos, lembrei-me perfeitamente do mapa com os círculos vermelhos demarcando os lugares nos quais os corpos das vítimas foram encontrados, o centro deles que deveria significar alguma coisa importante para mim e estanquei no meio da rua, com o choque e o horror congelando minhas pernas.

Nem mesmo a freada brusca de um carro seguido por buzinas e vozes irritadas, fez meu torpor ir embora, continuei paralisada, lutando contra a ânsia de vômito.

— Lucy? — assustei-me quando Gageel tocou meu cotovelo, ele me encarou, espantado com a expressão horrorizada em meu rosto. — O que descobriu?

Não consegui encontrar minha voz. O moreno me puxou, tirando-me do meio da rua e da possibilidade de uma possível briga já que outros motoristas foram obrigados a parar e acrescentar suas buzinas e vozes na do primeiro que teve que afundar seu pé no freio para não me atropelar.

O agente me encostou na lataria de seu carro e curvou a cabeça para que seus olhos ficassem no mesmo nível que os meus.

— O que foi? — perguntou com a voz calma.

Demorei a responder pois estava lutando contra o horror e a náusea de descobrir onde era o lugar que o Assassino das Cartas queria que eu descobrisse, havia um gosto azedo na língua e uma sensação quente e molhada na barriga, tive que olhar para baixo, para provar a mim mesma que não havia sido baleada novamente e agora estava sangrando e perdendo meu bebê. Que não estava assistindo a vida de Loki se esvair enquanto caia na inconsciência mais uma vez. E que não acordaria dias mais tardes e descobriria que havia perdido meus ambas as pessoas que mais amava.

Minha garganta se fechou e tive dificuldades para respirar direito.

— Lucy, calma — Gageel segurou minha cabeça com suas mãos, seus olhos me olhavam firmemente e eles tornaram-se cordas que me ajudaram a não afundar no pântano de pânico, ódio, horror e medo que meus sentimentos haviam se transformado. — Concentre-se em mim. Você é capaz disso, não é? — e abriu um sorrisinho irônico.

Levou alguns minutos para me achar novamente e me acalmar. Respirei fundo e abri um sorriso fraco para o agente que soltou minha cabeça.

— É claro que sou. — retorqui com a voz trêmula.

O moreno arrumou o cachecol para que ele voltasse a cobrir meu pescoço.

— Não duvidei por nenhum segundo. — disse, observou-me respirar profundamente por alguns segundos antes de continuar a falar. — O que causou isso?

Olhei para as minhas mãos. Trêmulas. Cerrei-as em punho, irritada por ter deixado que a descoberta me perturbasse tanto.

— O lugar entre os locais onde os corpos foram encontrados. — falei de maneira letárgica. — Eu sei onde é.

O agente continuou a me observar.

— O que você quer fazer?

Olhei para a Beretta, presa em seu coldre. Soltei o ar que não havia percebido que estava prendendo, estalei os dedos das mãos, estalei a língua e pisquei. O monstro de ódio que aquele velho da abarrotada loja de conveniência havia citado rugiu e o pântano de sentimentos conflitantes tornou-se um lamaçal grudento.

— Iremos até lá. — disse por fim, dando a volta na pick-up e abrindo a porta de passageiro. — Somente para averiguar o local, depois avisaremos nossos superiores.

Gageel não contestou, somente entrou e deu a partida.

***

O subúrbio onde havíamos entrado era pequeno e vazio, barracos com telhados desabados e lotes cheios de mato altos ocupavam uma extensão de terra esquecida pelo governo, os postes tinham tido suas lâmpadas ou quebradas ou roubadas e por isso, a escuridão reinava, lixo acumulava nas calçadas esburacadas e entupia os bueiros, as paredes ainda em pé de alguns barracos estavam pichadas e não mais havia vidros nas janelas vandalizadas, havia cercas de arames farpados isolando aquela área e isso obrigou Gageel a estacionar há alguns metros de distância, mesmo que algumas partes delas estivessem tão arrebentadas e amassadas que um carro do tamanho do agente passaria fácil.

Andávamos de modo silencioso, nossas botas afundando na rasa neve que rapidamente ocupava mais e mais chão.

— Esse lugar me dá calafrios. — Gageel resmungou, seus hálito tornando-se branco a sua frente.

Assenti com a cabeça. Ele me dava também. Com as pistolas nas mãos e os olhos estreitos para enxergar qualquer coisa suspeita a nossa frente, descemos o curto morro, deslizando no mato congelado, anos haviam se passado mas o caminho até a maldita casa estava bem claro em minha mente.

E ela continuava a mesma.

Aquela era a única construção mais intacta de todas as outras, as paredes se desfaziam, sim, mas ainda continuavam bravamente em pé, o telhado tinha um grande buraco na parte da frente e não se via mais as portas e as armações das janelas, somente rombos escuros e fundos, dando boca e olhos vazios a casa.

— Não sabemos se é seguro entrar juntos. — minha voz saiu baixa demais mas não ousei aumentar o volume dela. — Eu irei pela porta da frente, você dá a volta por trás e entra pela porta dos fundos.

— Como sabe que há uma porta atrás? — Gageel indagou, olhei-o profundamente e mesmo na penumbra, o vi franzir o cenho. — Esqueça, isso foi estúpido de se perguntar.

Não resisti em abrir um sorriso seco mas ele desapareceu assim que nos separamos. Com passos cautelosos, adentrei na casa, o cheiro de mofo e de madeira podre era forte e fez meu nariz coçar, apertei o cabo da Beretta, deixando que meus olhos se acostumassem com a escuridão, o hall de entrada era curto e a primeira porta que se via dava para um minúsculo quarto, o contorno de móveis velhos foi tudo que pude enxergar, continuei e meus passos fizeram o assoalho estalar tão alto que tive a certeza de que qualquer pessoa próxima dali havia escutado, trinquei os dentes.

A parca luz do lado de fora entrava pelo buraco no teto mas de nada ajudava, pensei em pegar meu celular e usar sua lanterna, porém lembrei-me de que ele estava perdido e me conformei em apurar minha audição, atenta a qualquer ruído que não fosse o meu ou o de Gageel.

A casa não possuía um segundo andar e sua sala era apertada e sufocante, notei um contorno no canto esquerdo que deveria ser a entrada para o corredor que dava para a cozinha e a porta dos fundos, olhei ao redor, não havia móveis ali, somente uma cadeira com um saco em cima desta, parei e encarei o saco, ele parecia se mexer a cada poucos segundos.

Ignorei os estalos barulhentos que provoquei ao correr até a cadeira.

— Gray. Gray. Gray. — a pele do moreno estava fria ao toque e úmida de algo que eu sabia ser sangue, sem me importar com mais nada, coloquei a Beretta no chão, ajoelhei-me e tateei no escuro, procurando as amarras que possivelmente prendiam os pulsos e tornozelos do meu amigo.

Não as encontrei.

Um zunido ecoou e uma luz vacilante iluminou todo o cômodo. Passos estalaram atrás de mim e eu senti todo o frio de um inverno rigoroso e implacável congelar meu sangue.

— Senti saudades, Lucy.

Olhei para trás e ali, encostado casualmente no batente da porta, estava Zeref Bennett, os cabelos negros mais longos e sem o cuidado de antes, a pele pálida, o rosto encovado e uma magreza onde existiam músculos, os quatro anos na solitária haviam lhe roubado a beleza que usava para seduzir suas vítimas, no entanto, o brilho doentio de seus olhos vermelhos ainda continuava o mesmo, não sendo apagado mas alimentado pelo tempo encarcerado.

O ódio sufocou o horror. Ele borbulhou e descongelou meus membros, estiquei a mão para a minha Beretta e encontrei apenas a aspereza da madeira.

Senti o cano da minha própria arma encostar em minha nuca. O ódio vacilou e a força que ele me deu desapareceu, meu coração batia porém tudo o que eu ouvia era um som oco ecoar dentro do meu corpo. Ainda ajoelhada, virei, o cano da arma deslizou frio em minha pele quente.

— Demorou um pouco, em? — disse Gray.

E o sorriso em seus lábios era errado e desconhecido por mim.