Psicopata

19 Capítulo 19


Notas iniciais
Olá, queria desejar um Feliz Natal atrasado para vocês, queridos leitores, e um ótimo Ano Novo para cada um, festejem muito com suas famílias e amigos, só não exagerem muito na bebida, rs, obrigada à todos vocês por estarem acompanhando Psicopata, vejo-os ano quem vem! Rs. ☻

O apartamento de Kevin Bristow era no primeiro andar, a última porta passando por um corredor estreito e sem iluminação, o assoalho do chão estava esburacado e estalou ameaçadoramente quando o atravessei, afastei a faixa de Não Ultrapasse que interditava a porta e adentrei no moquifo que era a antiga moradia de Kevin, a sala era pequena e mal arejada, havia uma janela estreita na parede oposta que dava para o muro de tijolos de um beco que era vizinho do prédio, não havia sofás, mas um poltrona reclinável e torta em cima de um tapete empoeirado, uma estante e uma TV de tubo, não parecia haver um lugar certo para a cozinha já que a geladeira estava ao lado da estante e o fogão logo atrás da poltrona, havia somente mais uma porta no apartamento que era o banheiro e mais nada, parei antes de pisar na poça de sangue que pintava metade do chão da pequena sala, o corpo de Kevin Bristow estava estirado aos pés da poltrona, vestido apenas com uma bermuda, seus ralos cabelos brancos estavam enfeitados de pedaços de ossos e carne e seus olhos estavam abertos, fixos no nada, havia uma garrafa de cerveja ao lado da sua cabeça, meio vazia, agachei-me e olhei para a entrada da bala em sua nuca com os lábios comprimidos, era impressionante o quão pequena era, tombei a cabeça, comparado com a saída dela, o pescoço e toda a mandíbula de Kevin estava destroçado, parecia mais como se algo tivesse rasgado pele e carne de dentro pra fora com bastante violência, a bala havia arrancado o arco inferior de sua arcada dentária e metade da língua, rasgado a pele ao redor das bochechas e decepado o nariz, a bala também havia esmigalhado os ossos do pescoço, tornando-os fragmentos muito pequenos que quase desapareciam na poça de sangue ao seu redor.

Franzi o cenho por causa da visão nada bonita. Pelo tamanho do estrago que havia sido feito, o calibre da arma usada fora bem pesado.

Levantei-me, escutando meus joelhos estalarem, com pouco ânimo, olhei para frente, encostada na parede, logo abaixo da estreita janela, havia uma cadeira e algemada à ela o corpo de uma mulher, fui até ela, tomando cuidado para não danificar qualquer prova existente no chão ao seu redor, a cabeça desfigurada por rasgões que deixavam à mostra o branco do crânio estava pousada no colo do cadáver, o sorriso rasgado mostrando toda sua arcada dentária estava lá e os espaços vazios onde deveriam estar os olhos pareciam me encarar de modo zombeteiro, os seios da mulher haviam sido cortados foras e largados aos pés da cadeira, seu peito completamente aberto revelava seu conteúdo inexistente, os ombros pareciam estranhamente tortos, avaliei-os por alguns segundos, tanto eles quanto os braços e a bacia estavam quebrados, as costelas também não estavam inteiras, curvei-me, analisando os maiores cacos delas que pude encontrar, algo muito pesado havia sido usado para quebrar os ossos daquela mulher, estremeci, era bem fácil quebrar ossos resistentes aplicando força e crueldade em uma marreta.

Os vasos sanguíneos do pescoço cerrado da vítima ainda bombeavam sangue, o quê indicava que ela havia sido assassinada há pouco menos de 24 horas, um estreito riacho vermelho escorria do toco até pingar na cabeça em seu colo. Desviei os olhos, sentindo meu estômago vazio revirar.

Não havia nenhuma mensagem nas paredes daquele cômodo e o único que restava para contê-la era o banheiro. Dirigi-me até lá, saltando as poças frescas de sangue, a perícia ainda não havia chegado, parecia ter se envolvido em um engarrafamento causado por um acidente, então a cena do crime estava do jeito que foi encontrada, eu era a primeira a entrar ali, e por isso queria ser extremamente cautelosa ao andar e tocar em qualquer coisa, o banheiro não possuía uma porta de verdade, apenas uma tábua grossa de madeira que foi usada como substituta, eu não possuía nenhuma luva de látex então encaixei a ponta do meu tênis no pequeno espaço vago que havia sido deixado e empurrei a tábua com delicadeza, não querendo derrubá-la, quando teve espaço suficiente para que eu passasse, entrei no pequeno banheiro, a rala claridade do dia que entrava pela janela não iluminava muito bem o cômodo, acendi com o cotovelo o interruptor ao meu lado, uma vacilante luz amarela acendeu, pisquei e dei um passo para trás, horrorizada.

Os órgãos dessa vez não estavam dentro de uma panela, mochila ou caixa mas sim espalhados pelo chão sem azulejo do banheiro, a micro pia ao meu lado estava entupida por causa dos pulmões e o vaso sanitário lascado a minha frente estava decorado com os intestinos da vítima, todo o restante, incluindo os olhos castanhos, estava jogado no chão.

Fechei os olhos com força. Enjoada demais para reparar nas letras das paredes, apertei a mão na boca quando senti a bile subir e queimar minha garganta, dei outro passo para trás, decidida a respirar o ar frio do dia, recuperar o meu autocontrole e voltar para ler a mensagem que o maldito psicopata havia deixado, virei-me e bati o rosto no peito de alguém, abri os olhos e os ergui, apenas para deparar-me com o olhar gélido e rubro de Gageel Redfox.

— Você não deveria estar aqui, investigadora. — grunhiu, seus olhos apenas relancearam para a visão atrás de mim e depois voltaram a me focar. — Essa investigação não está mais ao seu encargo.

Não falei nada. Se abrisse a boca naquele momento, vomitaria qualquer coisa que meu corpo fosse capaz de expulsar.

Gageel arqueou uma sobrancelha e as rugas de irritação em volta dos olhos sumiram, ele pegou meu pulso e me puxou pra fora do apartamento, quando saímos para a rua, o vento frio soprou com força em meu rosto e afastou um pouco do mal estar que sentia, o agente me puxou para a lateral do prédio, para o beco, escondendo assim, nossa presença dos muitos curiosos e repórteres que enchiam a rua logo após a barreira que as viaturas dos policias faziam, encostei-me na parede suja do beco, secando o suor frio da minha testa com a mão trêmula.

— Não vou te agradecer, se é isso que está esperando, agente Redfox. — falei, depois de alguns segundos de silêncio enquanto ele me encarava, abri um sorrisinho afetado. — Antes de falar qualquer coisa, fique sabendo que já estou acostumada, trabalho há bastante tempo nesse nada agradável ramo criminal então essas coisas já não me chocam mais.

Era mentira, claro. Por mais que tenham sido muitas as vezes que me deparei com cenas grotescas de assassinatos jamais me acostumaria com elas, era impossível, a maldade que os humanos eram capazes de exercer contra seus iguais era assustadora e repulsiva, asquerosa de um modo que me fazia querer esfregar a pele até ela ficar em carne viva, já tive muitas conversas com esses seres que não deveriam nem serem chamados de humanos, depois que eles eram presos e encarariam ou a execução ou a prisão perpétua, as expressões deles não se alteravam em nenhum momento enquanto eu ou algum outro policial e investigador os interrogava, eram sempre as mesmas faces, vazias e frias, os mesmos olhos sem nenhum remorso.

Eram ocos de sentimentos empáticos. E isso os tornava tão medonhos quanto os monstros das histórias que escutava quando era criança, no entanto, os das histórias eram falsos, aqueles, eram muito reais.

— Não sou tão insensível quanto você acha, investigadora. — Gageel resmungou, tirando-me dos meus pensamentos, encarei-o quando cruzou os braços e virou o rosto. — Você está tão pálida que parece um defunto, pensei que seria melhor tirá-la de lá antes que caísse em cima de toda aquela porcaria.

As bochechas dele estavam um pouco coradas. Pisquei, surpresa, depois abri um sorriso que tirei dos lábios rapidamente quando ele voltou a me fitar, olhei para a rua parcialmente visível.

— Ora, que gentileza a sua.

Gageel estalou a língua e esfregou os longos cabelos, desarrumando-os ainda mais do que já estavam, ficamos em silêncio.

— Foi sério quando disse que você não deveria estar aqui. — começou o moreno. — Essa agora é uma investigação do FBI, você foi retirada dela não só por causa da mudança de jurisdição mas também para sua própria segurança, investigadora.

— Tenho direito de estar aqui, agente. Sou consultora de Natsu Dragneel.

Seus olhos se estreitaram a menção de seu colega, arquei uma sobrancelha.

— Então isso lhe dá acesso a tudo o que está acontecendo, bela jogada. — remexeu os ombros, inquieto. — Porém, não será bom que fique tão a mostra, você é o alvo desse assassino, e também há aquele que fugiu... Bennett, certo?

Prendi uma ponta solta da faixa em minha mão esquerda. A Beretta estava em seu coldre, carregada.

— Não sou de ficar sentada enquanto outros fazem o meu trabalho. — falei, indiferente. — Eu sou o alvo deles? Muito bem, que venham os dois, não vou fugir como um cachorro com o rabo entre as pernas.

Gageel me encarou por alguns segundos e depois me surpreendeu com um sorriso, a expressão sempre séria desaparecendo para dar lugar á ele, tão rápido quanto ele veio, ele se foi.

— Sim, você realmente não parece ser do tipo que foge. — ele olhou para a pistola em minha cintura, olhou para a rua. — Onde está Natsu?

— Não faço ideia. — falei, dando de ombros, o agente havia sumido depois de me deixar em frente ao prédio, pensei um pouco e decidi que minha curiosidade deveria ser saciada. — Você o conhece há muito tempo?

— Não muito. — respondeu sem nenhum olhar estranho na minha direção. — Ele foi transferido para o departamento em que estou há uns quatro ou cinco anos, somos parceiros há dois, antes desse tempo, eu nem conversava com ele, o agente Dragneel se mantinha afastado de qualquer um ou talvez eram as pessoas que se mantinham afastado dele, sua reputação não era a das melhores quando chegou lá.

Pisei em uma barata que se arrastava pra cima do meu pé, vinda das profundezas mal cheirosas das entulhadas latas de lixo perto de nós.

— O quê ele havia aprontado?

Gageel se encostou na parede ao meu lado.

— Não, não ele, algum parente seu havia se envolvido em algo complicado e foi preso. — franziu o cenho. — Parece que ele se excedeu e provocou uma confusão com seu antigo parceiro, não sei dos detalhes, ele foi bastante vago quando toquei nesse assunto, e por causa disso, ele foi transferido, tornou-se meu parceiro poucos anos depois e devo admitir que talvez as pessoas tivessem feito a coisa certa ao se manterem afastado dele.

— Porquê diz isso?

— Algo em Natsu Dragneel não funciona direito. — ele me olhou, sério. — Não é como se ele fosse um louco, não, ele é racional até demais, tem uma perspicácia que ajudou a dar um fim em muitos dos casos que nos foi dado, mas nos dois anos que trabalhos lado a lado, percebi que ele não sente nenhum incômodo com os casos mais pesados que pegamos. — parou de falar e encarou o muro do prédio vizinho. — Claro, existem muitas pessoas que não são facilmente afetadas porém ele nem ao menos estremeceu ou desviou o olhar quando encontramos o corpo de uma garotinha amarrado em uma árvore e estripado, somente encarou aquilo como algo normal.

Balancei meus dedos enfaixados, sentindo a pele queimada arder.

Havia uma explicação para o jeito frio de encarar as coisas que Natsu possuía, ás vezes, quando se trabalha muito na área criminal, algumas pessoas adquirem um distanciamento indiferente de tudo relacionado à ela, elas não se importam mais ao encontrar um cômodo tomado por sangue, não se afetam com o horror que é ao se depararem com corpos mutilados e nem ao menos piscam quando veem o desespero dos parentes quando vão dar a notícia que nenhum espera receber, essas pessoas simplesmente percebem que nada vai adiantar ser afetado por coisas como aquelas e decidem tratá-las como algo corriqueiro e normal.

Apertei as mãos.

— Esse parente ainda está na cadeia? — tive que limpar a garganta para conseguir formular aquela pergunta, parecia haver algo preso nela.

Gageel deu de ombros e observou uma janela do segundo andar do prédio a nossa frente se abrir e depois ser fechada com rapidez.

— Deve estar, não tive vontade de me meter na vida pessoal dele, então nem perguntei mais nada sobre esse caso nem investiguei por minha conta.

— Você nem ao menos sabe qual foi a natureza do crime que esse parente cometeu?

Dessa vez Gageel me lançou um olhar estranho.

— Não. Se você quer saber mais, pergunte à ele ou investigue. — olhou-me de modo zombeteiro. — Não é nisso que se especializou em fazer?

Abri-lhe um sorrisinho.

— A propósito, descobrimos o quê o assassino usa para pegar sua vítimas. — comecei e contei sobre as marcas de queimaduras nos três corpos e como uma arma de eletrochoque era capaz de fazê-los, Gageel ouvi tudo em silêncio, franzindo as sobrancelhas quando terminei. — Você já deve saber que um dos corpos ali dentro é de Kevin Bristow, certo? O interroguei quando a primeira vítima foi encontrada em um dos apartamentos deste prédio, mas ele deu um testemunho falso, ocultando que conhecia o dono do sangue no banheiro, Steve Dan, porém, não acho que aquele velho estava envolvido de alguma forma com o assassino, não, mas também não acho que ele foi morto apenas por um capricho.

Suspirei e troquei o peso do corpo para o outro pé, puxei o zíper do casaco mais para cima, o céu acima de nossas cabeças estava bem preto mas estava frio demais para chover, talvez, a neve não tardaria a chegar, o agente ao meu lado estalou a língua e colocou as mãos nos bolsos folgados de sua jaqueta cinza.

— Devo concordar com você, Kevin pode ter sido morto por ter visto o rosto do assassino quando o encontrou em seu apartamento... — se interrompeu, franzindo o cenho em confusão. — O que não entendo é: porquê o assassino matou sua quarta vítima aqui? No mesmo lugar que da primeira? E correndo o risco de ser flagrado como suponho que foi por Kevin?

— Tenho a impressão de que ele cometeu uma falha. — comentei.

— E que falha seria essa?

— A da planejação. Ele está impaciente e talvez por conta disso, tenha falhado em alguma parte dela, a morte de Kevin Bristow não estava prevista. — balancei a cabeça, concordando com meus pensamentos a medida que eles iam surgindo — Ele foi pego de surpresa por Kevin, porquê se não tivesse sido, o velho ainda estaria vivo e não com a cabeça estourada por uma bala, e esse é outro ponto que confirma essa minha suposição, porquê de repente matar Kevin com um método que não é o seu? Não faz sentindo ele matar aquela mulher do mesmo jeito que os outros três e depois fazer isso.

Virei o rosto para sustentar o olhar de Gageel.

— Está bem, isso faz sentido, mas porquê não matar Kevin do mesmo jeito que matou a mulher? Porquê optou por uma arma de fogo?

— Como eu disse, não estava planejado, tenho certeza que o assassino deve ter ficado furioso quando encontrou Kevin no apartamento.

— Espera, encontrou? Não deveria ser o contrário?

Afastei-me da parede e comecei a andar de um lado para o outro, minha mente frenética não permitindo que eu permanecesse quieta.

— Vamos supor isso: o assassino está carregando sua quarta vítima pelo corredor, abre a última porta com facilidade, já que ela não tem tranca, e se depara com Kevin sentado na poltrona, tomando um cerveja e assistindo TV, o velho se levanta de supetão, vai exigir que o desconhecido saia de seu apartamento e o dito cujo dá-lhe um chute na barriga, que o faz cair aos pés da poltrona, sem ter tempo de se levantar, recebe um tiro na nuca que lhe destrói todo o pescoço e a metade do rosto.

Parei em frente ao agente, respirando apressadamente. Gageel me encarou, atônito.

— É uma conjectura sem nenhuma base. — disse por fim. — Mas não posso dizer que está errada, precisamos de alguma prova que a torne consistente.

Arquei uma sobrancelha, surpresa por ele não ter dito que tudo era besteira. Talvez o agente especial Gageel Redfox não fosse tão odioso quanto eu presumia que fosse, voltei a andar, empurrando mechas de cabelos para longe do meu rosto.

— Sim, talvez a perícia encontre algum hematoma no corpo. — parei novamente, olhei para meus tênis e depois me virei para o agente que arqueou uma sobrancelha pra mim. — Acho que posso te contar isso...

Gageel apoiou um pé na parede.

— Desembucha logo, acha que tenho o dia todo?

Retiro o que disse, agente grosso.

— É sobre as fotos que foram encontradas no corpo de Oliver. — comecei e me encostei no muro oposto. — A quarta foto minha era a do topo do morro, ela foi tirada depois que Oliver foi descoberto, então, ela não teria jeito de ter parado dentro dele, há não ser...

— Que alguém da perícia ou algum dos policias que estavam cercando o terreno a tenha colocado lá, é isso? — completou, o semblante tornando-se sombrio. — Está querendo dizer que alguém do nosso lado é cúmplice do assassino ou é o assassino?

— Ele age sozinho. — falei, lentamente, estudando o rosto do agente à minha frente, em busca de algo que fizesse me arrepender de ter falado pra ele sobre a minha desconfiança. — É certeza isso, ele não têm nenhum cúmplice, e sim, estou querendo dizer que talvez o assassino esteja entre nós.

Gageel trincou os dentes e se desencostou da parede.

— Não é sensato dizer algo assim, em uma investigação tão séria, investigadora. Trará desconfiança para todos os envolvidos nisso e isso atrapalhará o andamento dela, por isso, mantenha isso entre nós dois, certo?

— Hã? Quer dizer que acredita no que eu disse?

— Infelizmente sim. — grunhiu, olhando para a rua ainda apinhada de curiosos, uma van branca estacionou atrás de duas viaturas e um grupo de quatro homens desceram dela, a perícia. — É fácil chegar nessa hipótese se pensar em como o assassino dribla todos os nossos esforços de identificá-lo, ele está brincando desse jeito conosco porquê possuí informações sobre cada um envolvido nessa investigação e sobre como ela está progredindo.

Mordisquei os lábios, sentindo um involuntário tremor sacudir meus joelhos.

— O que deveríamos fazer? — perguntei, aproximando-me dele, parei ao seu lado, olhando agora para um carro esportivo que estacionava atrás da van. — Se o assassino sabe cada passo que damos, jamais vamos pegá-lo.

Senti um toque em meu ombro, olhei para o lado, apenas para vislumbrar o outro sorriso raro de Gageel.

— Vai desistir, investigadora? — perguntou sarcástico. — Pensei que pegaria esse assassino.

Estalei a língua, sacudindo o ombro para tirar sua mão dele.

— Não vá tirando conclusões precipitadas, agente Redfox.

Ficamos em um silêncio cúmplice enquanto observávamos Natsu se aproximar, ele havia trocado de roupas, a calça jeans justa e a jaqueta dando lugar para uma calça mais folgada e uma blusa preta de gola alta e mangas compridas, o coldre de ombros com sua pistola batia em seu peito enquanto andava, seus cabelos estavam desarrumados e ele abriu um sorriso tenso quando reparou quem era a minha companhia.

— Olá Gageel, vejo que conheceu minha consultora. — seu tom era forçadamente calmo.

O agente ao meu lado aquiesceu com a cabeça.

— Sim, devo dizer que foi um ótimo jeito de manter Lucy na investigação.

O sorriso de Natsu tornou-se ainda mais tenso quando Gageel me chamou pelo nome, arqueei uma sobrancelha para o moreno que me chocou piscando um olho para mim, balancei a cabeça, porquê diabos ele parecia estar provocando Natsu?

— Vamos entrar, ainda não li o que nosso assassino deixou na parede. — falei, passando entre os dois e indo na direção do prédio.

Passei pelo corredor esburacado, ignorei os dois corpos na sala e os dois homens da perícia que estavam agachados perto deles, fui direto para o banheiro, a tábua havia sido retirada e posta ao lado do vão onde deveria ter uma porta, os outros dois peritos estavam dentro do pequeno cômodo.

— Podem nos dar licença, por favor? — pedi, encarando bem o rosto de cada um, por mais simples e inofensivos que eles parecessem, não desgrudei os olhos deles até saírem do meu campo de visão.

— O que foi isso? — Natsu indagou, se aproximando, Gageel estava logo atrás dele. — Porquê os encarou como se fossem suspeitos de algo?

Relanceei o olhar para o moreno atrás de si, que negou com a cabeça rapidamente.

— Nada. — respondi e entrei com cuidado no banheiro, temendo pisar em algum órgão, estreitei os olhos para enxergar as palavras escritas na parede à minha frente, o dia lá fora não oferecia mais nenhuma iluminação e a luz vacilante do teto parecia mais fraca que antes, encarei-as por algum tempo e trinquei os dentes, sentindo cada célula do meu corpo ferver em fúria e ódio. — Desgraçado!

Tão doloroso foi para essa mulher, que não morreu até ter sua cabeça arrancada. Tão azarento foi esse homem ao estar onde não devia estar.

Pobre Lucy, quando vai parar de andar em círculos?

E quando vai finalmente me encontrar?

Como pode ser tão incapaz de fazer o seu trabalho? Como pode demorar tanto para terminar este caso?

Vai falhar com essas pessoas... Como falhou com seu amado noivo?

Deixará mais mães sofrerem a perda de um filho?

Porquê, você sabe, o quão terrível, é essa dor.

Senti o gosto de sangue inundar minha boca, havia mordido a língua com força para não berrar em fúria por causa daquelas debochadas palavras. Parei de fincar as unhas nas palmas das minha mãos, ignorei o ardor furioso delas e respirei fundo, indiferente ao cheiro pesado de sangue.

Virei-me para Gageel e Natsu que estavam parados logo atrás de mim, os dois agentes me encararam intensamente, talvez, esperando um estouro da minha parte no entanto os surpreendi com um sorriso amplo.

— Nosso assassino é um poeta. — e soltei uma risadinha aguda e fria.