Psicopata

12 Capítulo 12


Acordei sentindo o mal estar de um pesadelo já esquecido atormentar meu estômago vazio, com mais cansaço do que estava quando deitei naquela cama, me levantei, senti um arrepio quando meus pés tocaram o chão gelado, a janela larga, logo ao meu lado, estava aberta, a cortina preta curta ondulando na brisa fria da manhã, esfregando os olhos, olhei em volta, fazendo uma careta para as paredes de um tom escuro de azul e para os móveis de carvalho de um marrom bem claro, o quarto era bonito e organizado demais, caminhei até o guarda-roupa alto, mancando um pouco por causa do tornozelo dolorido, e abri as portas compridas, camisas sociais de cores escuras, camisetas e paletós estavam muito bem passados e pendurados ordenados, fechei-as e abri as gavetas, encontrando jeans, bermudas, meias enroladas em seus pares certos, cuecas boxes e gravatas tão bem dobrados que quase me fez sentir vergonha ao lembrar que todas as minhas roupas se encontravam mais espalhadas no chão e jogadas na cama do que dentro do guarda-roupa. Quase.

Fechei-as também e fui até a cama, catando minha regata branca e manchada e meus jeans, substituindo a camisa larga e puída que Natsu havia me emprestado por elas, arrumei os lençóis bagunçados por meu sono agitado, terminando, fiquei alguns segundos perdida em pensamentos antes de me agachar em frente ao criado-mudo que estava ao lado da cama, um abajur grande ocupava todo o seu topo, abri a gavetinha estreita e vasculhei seu conteúdo, um óculos de leitura com uma lente trincada, alguns clips e cartões de visita, peguei um clip e o prendi na alça da minha regata, fechando-a, me levantei, estalando o pescoço que doía.

— Você não tem nem ao menos uma camisinha guardada aqui, agente Dragneel? — murmurei distraída, indo até a porta do quarto e destrancando-a.

O corredor que seguia até a sala de estar era largo, as paredes também azuis não possuíam nenhum quadro pendurado, sendo eles fotos ou paisagens, havia duas portas, uma na esquerda e outra na direita, andei com passos leves, mas o chão de assoalho escuro não gemeu com meu peso, o som abafado do chuveiro que vinha da porta à esquerda me atraiu, peguei e virei a maçaneta bem devagar, querendo me certificar que estava trancada, daria-me tempo o bastante caso ela estivesse, e soltei uma exclamação que abafei rapidamente com a mão quando a porta abriu, estalou baixo o bastante para que o barulho do chuveiro abafasse, fechei-a com delicadeza.

Com os dentes trincados e bochechas quentes, dei as costas pra ela, indo na direção da segunda porta, não tentei imaginar o que veria caso não tivesse escutado o som do chuveiro e a aberto.

Agachei-me em frente a maçaneta, virei-a apenas para me certificar que estava trancada, pela vaga lembrança de ontem à noite, Natsu havia me dito que ali era o escritório dele, então, qual outro lugar seria melhor para encontrar informações sobre o agente se não aquele cômodo? Retirei o clip e o moldei até formar um gancho, encaixei-o no buraco da fechadura, destrancar portas era muito fácil caso as trancas não fossem muito boas, grampos ou clips e paciência eram as ferramentas indicadas para quem não queria fazer barulho arrombando, mexi devagar, escutando com bastante atenção, esperando ouvir os pinos fazerem click um a um, virei a maçaneta enquanto girava delicadamente o clip, não se fazia força quando você estava tentando abrir uma porta com algo tão frágil, o audível click veio e a porta se abriu, sorri e entrei no escritório, encostei a porta, deixando entrar o som do chuveiro.

O cômodo não era grande, duas estantes altas uma do lado da outra ocupava toda a parede esquerda enquanto à outra estava apinhada de quadros, aproximando-me dela, percebi que não eram paisagens nem fotos mas sim recortes de jornais emoldurados em madeira preta, observei-os por alguns segundos, não tinha muito tempo, as datas dos recortes variavam muito e todos eram de assassinatos onde os assassinos não haviam sido identificados, não havia dois do mesmo jornal e nem a mais desse número na mesma cidade, li alguns bem rápido, capturando frases soltas e tentando entender o conteúdo da notícia enquanto lia outro recorte.

Um assassinato brutal, o corpo destroçado havia sido atropelado incontáveis vezes por um carro pesado, talvez uma van ou um jipe. Outro assassinato quase poético, um casal, o homem morto por veneno e a mulher por um tiro na cabeça, como Romeu e Julieta, porém ambos estavam amordaçados. O corpo enforcado e roxo de uma mulher abandonado em uma vala funda em uma estrada...

Virei o rosto, não tinha estômago nem tempo para ler aquilo, uma escrivaninha de aparência pesada ocupava o que restava do espaço, atrás dela, uma janela alta e estreita, sem cortina, fui até lá, puxei a cadeira de couro e de rodinhas, me sentando nela, olhei os poucos papeis que estavam sobre o tampo marrom da escrivaninha, eram cópias dos laudos do legista dos dois assassinatos que compunham meu caso, junto com os depoimentos de ambos, deixei-os e voltei minha atenção para as muitas gavetas, as que abriram, não revelaram nada que desse alguma informação sobre Natsu Dragneel, somente relatórios de casos antigos do agente e algumas fotos deles, li-os rapidamente, tentando achar algo de importante, mas tudo que continham eram especificamente sobre os crimes dos quais foram feitos.

Guardei-os no lugar, não permitindo mais que a curiosidade me fizesse esquecer as outras gavetas fechadas, antes de abrir qualquer uma, apurei os ouvidos, o som do chuveiro ainda entrava pela fresta da porta.

Continuei a abrir gavetas e revistar seu conteúdo, revistas velhas, livros que não tinham tido espaço nas prateleiras abarrotadas, materiais de escritórios, pastas que quando abri, ansiosa por alguma coisa, mostraram-se vazias, de cenho franzido pela impaciência, tentei abrir as duas últimas gavetas, trancadas, peguei o clip novamente e com dedos trêmulos de empolgação comecei a girar o gancho dentro da fechadura, demorei mais do que deveria e com o eco das batidas do meu coração abafando qualquer outro ruído, percebi, tardiamente, o silêncio do apartamento e o formigamento na pele, daqueles que você sente quando está sendo observado intensamente.

Estalei a língua e me ergui, olhando para porta onde Natsu estava encostado no batente de calça jeans escura e justa, sem camisa e com a toalha em volta do pescoço, o cabelo, agora de um rosa bem escuro por causa do banho, arrepiado.

Ele sorriu, um lento e nada amigável sorriso.

— Pensei ter trancado esta porta. — disse, acenando para a dita cuja do seu lado, seus olhos se acenderam, maliciosos. — Então, minha parceira sabe alguns truques.

Pisquei e abri um sorrisinho irritado. Mais alguns segundos e eu teria aberto aquela maldita gaveta.

— Eu sei de muitas coisas, Agente Dragneel. — falei, nem um pouco envergonhada por ter sido pega, literalmente, com a mão dentro do pote de biscoito, desfiz meu sorriso. — Deveria ter demorado mais algum tempo em seu banho.

Natsu piscou algumas vezes, surpreso, depois riu, quando parou, havia um sorriso de lobo em seu rosto.

— Não dará nenhuma desculpa ou inventar algo por eu ter te flagrado?

Dei de ombros.

— Nada do que eu falar vai ter algum sentido, então... — dei de ombros de novo, já incomodada com aquele seu sorriso.

Natsu entrou mais no cômodo, seus olhos passearam por meu corpo, detendo-se em minha regata por tempo o bastante para eu olhar pra baixo, indagando-me se havia alguma coisa nela, o pano branco era um pouco transparente, por isso, sempre que a usava, colocava um sutiã da mesma cor, entretanto, havia me esquecido de colocá-lo mais cedo e o contorno quase perfeito dos meus seios era bem visível. Cruzei os braços por cima deles, o rosto tão quente quanto um asfalto depois de um dia escaldante.

— Você é uma investigadora, não é surpresa ter se sentido impelida para uma porta trancada e gavetas que podem ter algo que lhe interesse. — seus olhos se desviaram do meu corpo para pousarem na parede repleta de recortes emoldurados. — Também sou assim... — voltou sua atenção para mim, se aproximou, deu a volta na escrivaninha e se curvou para mim, suas mãos agarraram os braços da cadeira e ele se tornou uma prisão. — Me mostre sua reação, Lucy... Eu te desejo.

Por alguns segundos, meu coração pareceu não bater, presa entre o encosto da cadeira e seu corpo, não tive nenhuma opção senão encarar seus olhos, fixos, intensos e assustadores, percebi o tremor em meus lábios e os mordi com força para que não ousassem continuar a mostrar meu espanto.

Voltei a respirar quando notei que estava prendendo o ar. Abri um sorriso frio.

— O que houve com a investigadorazinha simples? — indaguei, com a voz mais estável possível.

Ninguém mais, desde meu noivo, havia me dito aquelas palavras. Agora, ele estava morto. Natsu inclinou sua cabeça, preguei minhas costas na cadeira, tentando manter alguma distância entre nossos lábios, mas o agente a expulsou, seu rosto estava tão perto, que nossas respirações se mesclavam, ele os entreabriu e algo, acho que era meu coração, pareceu querer sair aos trancos e barrancos pelo meu peito.

— Ela ainda está aqui. — murmurou, a voz , grave, os olhos, famintos. — O que será que ela faria se eu a beijasse?

Meu corpo se enrijeceu, tentei pensar no que fazer mas minha mente era um caos.

— Ela... Te morderi...

Meus lábios foram tomados pelo os de Natsu com uma avidez que me fez arregalar os olhos, suas mãos imobilizaram minha cabeça, seus dedos afundando em meus cabelos e na pela da minha nuca, sua boca, macia, pressionava a minha, sua língua, provocava meus lábios, atraindo-os, chamando-os para se abrirem e deixarem-na entrar, senti seu joelho entre minhas pernas, seu corpo se avolumando para cima do meu, tudo nele me ordenava a ceder, me entregar sem ter esperança de ser resgatada de seu domínio, seus dentes morderam meus lábios, nada pacientes, agarrei seus cabelos e tentei afastá-lo, mas não consegui, tentei colocar uma perna entre seu corpo e o meu, dar um jeito de lhe aplicar um chute que o forçaria a se afastar, mas era como se tudo que aprendi nas difíceis aulas de Kickboxing tivesse escoado do meu cérebro como água nas mãos em concha.

De olhos abertos, Natsu me encarou com ferocidade, rosnou e mordeu com violência meus lábios, ofeguei de dor e ele usou essa oportunidade para invadir minha boca com sua língua, o beijo se aprofundou ao ponto de eu não conseguir saber onde começava os seus lábios e terminavam os meus, e quando pensei que desmaiaria por falta de ar, Natsu desfez o beijo com um selinho, o gosto de pasta de dente e de sangue impregnava minha língua.

— O que ela faria mesmo? — perguntou, passando o polegar no canto dos lábios, o sorriso de lobo estava de volta, maior que o anterior.

Com a respiração saindo em ofegos altos, tentei lhe dar um Directo, um soco direto que não necessitava de uma base firme, porém, Natsu o aparou com a palma da mão, agarrando meu punho, ele me puxou pra frente, usando a inércia ao meu favor, levei meu punho esquerdo ao seu queixo, o soco não foi forte o bastante para ele me soltar mas o grunhido que soltou me fez sorrir com selvageria, ele agarrou minha mão esquerda antes que eu tivesse chance de lhe dar mais algum murro.

Desgraçado.— grunhi a palavra entre uma respiração e outra, agora que havia espaço o suficiente entre nossos corpos, dobrei a perna direita e levei meu pé ao seu peito, em uma imitação fraca de um Pontapé Frontal.

O chute fez o agente se afastar mas antes que eu pudesse fazer mais alguma coisa, ele foi para trás da cadeira, torcendo meus braços e os imobilizando, chiei em dor e fúria, dando chutes inúteis no ar à minha frente.

— Que gata selvagem você é. — ofegou, enquanto lutava comigo para me obrigar a ficar quieta. — Não irá atingir nada portanto fique calma!

Rangi os dentes e parei de chutar. Meus pulsos, presos por suas mãos de ferro, começavam a ficar dormentes.

— Me solte.

— Para você voar em mim com suas garras? Acho que não.

Entortei a cabeça para tentar encará-lo, Natsu se curvou, permitindo-me ver seu sorriso indecente.

— Não conseguirá me manter desse jeito pra sempre, agente Dragneel. — as palavras soaram indiferentes mas carregadas de uma fúria reprimida.

— Será que não? — havia um quê de ameaça em sua voz e seus olhos tinham um brilho quase torpe.

A dormência havia se alastrado para os meus braços, com cuidado para o agente não perceber minha intenção, apoiei meus pés na escrivaninha, o toque do celular de Natsu chegou a nós abafado.

— Não irá atender?

— Quem quer que esteja ligando pode esperar. — o sorriso sumiu. — Não quero interromper nosso momento de confraternização, parceira.

O celular tocou até cair na caixa postal, segundos depois, voltou a chamar, estridente em seu toque impaciente.

— Deve ser importante... — comecei e abri-lhe um sorriso grande. — Deixe que eu atenda.

Empurrei a cadeira com apoio da escrivaninha e das rodinhas da mesma, pego de surpresa, Natsu foi empurrado pelo encosto e bateu as costas na estante com força, soltando meus pulsos, levantei-me em um rompante, afastando-me do agente que tirava a cadeira da frente e esfregava o ombro, alguns livros haviam caído de capas abertas no chão. Ele me encarou, com um sorriso.

— Você é traiçoeira.

Devolvi-lhe o sorriso como um esgar.

— Você nem sabe o quanto.

E sai quase correndo do escritório.