Psicologia Sincera com Impmon
4 4ª Sessão: Deixe que olhem, que falem, que riem e etc
Notas iniciais
Impmon analisava minuciosamente uma foto 3x4 de um sério Lucas franzino com 18 anos na cara.
— Quer mesmo saber minha opinião? — perguntou ele, só pra garantir.
— É remunerado pra dizer o que pensa dos clientes. — disse Lucas, sem se importar — Já levei muitos tapas na cara, figurativamente. O que você disser não vai me afetar tanto. Não quer dizer que subestimo sua sinceridade, só toma cuidado pra não ser ácido demais e extrapolar.
— Já te disse que não ligo se você sair por aquela porta e desistir da terapia, certo? Que se dane, preciso falar: Você não mudou praticamente nada. Porém... Sentir vergonha de si mesmo pela aparência é tolice e idiotice.
— Meu objetivo na academia é o que a maioria deixa em segundo plano: se sentir bem com a própria vida. Tantas vezes pensei que isso não servia pra mim, que eu não servia pra isso e...
— O seu problema é dificultar o que não precisa. — disparou Impmon. — Ir à academia pode ser optativo, mas larga-la por uma besteira que você alimentou na sua mente não é opção. Fui muito ridicularizado pela minha aparência um tempo atrás e sempre caguei e andei pro que diziam.
— Mas você é um digimon, então não é exemplo. — retrucou Lucas — É verdade, sinto medo de críticas, mas sempre digo a mim pra não baixar a cabeça pra ninguém. Então o que eu devia fazer?
— Manda todo mundo ir à merda! — disse Impmon, aborrecido — Ninguém não tem nada a ver com isso, afinal de contas. É a sua vida, o seu corpo, o seu biotipo, você nasceu assim e ninguém tem o direito de vir até você e tacha-lo de inferior apenas porque não corresponde a um padrão estético. Seja ovelha, não rebanho. Mas sabe qual é a verdade? A primeira pessoa que te inferioriza antes de todas é você mesmo!
— Isso é relacionável com o amor próprio, é claro. Se eu não me amar primeiro, ninguém fará me sentir amado.
— É a mesma coisa com a auto-depreciação. — disse Impmon, estralando os dedos — A imagem quebrada que constrói de si acaba passando a ser a que todos assumem de você. Mas como ninguém interage com você já que não desperta interesse, então fica difícil saber o que aquela pessoa realmente pensa ao seu respeito. Mas não necessariamente deve saber.
— É... você tem razão. — disse Lucas, finalmente concordando com o Dr. Impmon — Não ligo mais. Não sou igual, posso ser feliz sendo solitário e diferente, mas... é um caminho bem tortuoso, uma prova tão árdua.
— Achou que seria fácil só porque tem uma noção clara disso? Ingenuidade patética essa sua. — disse Impmon, apontando um lápis. — Vá e esfregue na cara de todos que você não precisa seguir a manada para se sentir bem. Os outros que se ferrem, vão pro inferno com seus padrõezinhos fúteis. Por favor, se for comentar no Twitter não coloque #sociedadelixo, vai parecer que é um adolescente reclamão de barriga cheia que se corta pra chamar atenção.
— Pessoas que se auto-mutilam não o fazem por atenção, doutor. — afirmou Lucas, insatisfeito com o comentário — Inclusive, já tentei isso.
— Por acaso generalizei? Carentes por atenção se deprimem quando não correspondidos e recorrem a esse método triste, querendo serem notados por uma prática horrorosa, não faz sentido algum, caramba!
— É melhor eu ir antes que tenhamos um debate bem acalorado. — disse Lucas levantando-se — Excedemos o tempo, só pra constar.
— Mas você nunca se cortou se sentindo um lixo humano e fraco?
— Só uns arranhões, nunca fui muito corajoso. — Lucas abrira a porta, saindo do consultório com seu casaco no antebraço direito. -Mas nem sempre é por falta de atenção. Ás vezes por cansaço... da própria existência. Ah e pra sua informação eu só tenho uma rede social, bem impopular, exatamente feita pra mim.
— Ainda bem que reconhece. — disse Impmon, pegando uma maça da sua cesta ao lado do monitor — Semana que vem trataremos desse assunto, tenho muitas considerações.
— Que medo. — disse Lucas, fechando a porta.
O interfone de Impmon — assemelhava-se a um identificador de chamadas — na sua mesa apitou com um bipe que torturava sua audição.
— Que é? — perguntou ele, rude.
— Sou eu, a Elisa. Dr. Impmon, eu preciso de ajuda. — a moça parecia estar num choro controlado.
— E quem nessa joça não precisa? Olha, faz o seguinte: Larga de sofrer por causa de homem traíra, o remédio pra diminuir o chifre não é a tal da Marília Manguaça.
— É Mendonça!
— Foda-se! — ele desligou tacando o dedo no botão até afundar.
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