Psicologia Sincera com Impmon
3 3ª Sessão: Não é um tutorial contra a procrastinação
Notas iniciais
A entrada de Lucas assustara Impmon que se quase saltou da cadeira ao vê-lo chegar perto trazendo um papel na frente e no verso sem praticamente nenhum espaço em branco.
— Seu filho da mãe! Não vem assim de repente! — reclamou o psicólogo-mor, em seguida olhando o resultado do seu joguinho online — Viu só? Por sua causa fiz somente 6500 pontos! Era pra hoje ser meu recorde do ano!
— Você é pago pra ouvir pessoas com problemas, achei que tinha fundado um centro de ajuda psicológica e não um playground particular. — disse Lucas, se sentando e tacando o papel na mesa.
— Vê como fala comigo hein. — disse Impmon, estreitando os olhos — Tá muito abusadinho pro meu gosto. Que foi? Alguém te acordou cedo com buzina de navio? Você paga essa bagaça pra falar dos seus problemas. Entrar como um ferrado e sair de alma lavada. Da próxima vez que se dirigir assim comigo, eu vou...
Lucas insistiu ao empurrar o papel, pouco se importando com a reclamação.
— Só temos cinco minutos né? Então vou ser generoso com você se não tiver saco pra ler agora: essa é uma lista completa com todos os meus afazeres adiados. Tem as datas, horários, não é um cronograma. Aliás, nunca estabeleço metas porque sou azarado demais pra vê-las se cumprindo.
— Sempre achei que pessoas canhotas são meio azaradas. — falou Impmon, pondo o óculos para ler alguns trechos. — Se ficar ofendido, pode ir e eu amasso esse papel pra jogar no ventilador de teto do consultório da Tailmon.
— Não esquenta, azarado pra mim é elogio. — disse Lucas, logo franzindo o cenho ao perceber que deixou algo passar — Espera... Como sabe que sou canhoto? Não pus isso na minha ficha.
— E eu te devo satisfação? Bora direto ao ponto aqui. — disse o doutor, rasgando o papel ao meio, o que deixou Lucas atordoado mas ele se deteve — Em primeiro lugar: Não precisava organizar essa lista, perdeu seu tempo, mais do que o normal pelo que li. E em segundo lugar: Com tanta coisa adiada, é bem óbvio que você é um daqueles que inventam desculpas para si mesmo e isso te cria um verme na mente, um parasita invisível, que suga sua produtividade fazendo você tolerar suas distrações. Quais são elas?
— Youtube, no geral. — disse Lucas — E olha que nem sou inscrito em muitos canais. Escrevo para um blog...
— Sim, eu sei, já dei uma olhada. Você devia apagar aquilo, tá passando vergonha. Um bom escritor necessita de um bom público.
— O meu PC tem data de validade, passou por três cirurgias na assistência técnica e não faço ideia até onde ele pode suportar... até onde eu posso suportar e não tenho condições de adquirir outro. Por isso programei as postagens e eu nunca tinha dado atenção a esse recurso antes.
— Bem, isso aí é lerdeza, não procrastinação. — disparou Impmon, meio entediado, com um cotovelo apoiado na mesa fazendo "círculos" com o dedo nela.
— Exato, concordo. O que foi programado até o presente momento não é o suficiente. E-eu... simplesmente não consigo parar de deixar pra depois, é um péssimo hábito que não tomo vergonha na cara de largar. Você é honesto comigo, ao seu modo e eu tolero, mas acima de tudo eu preciso ser comigo. Quero tomar jeito e dar um basta nisso de uma vez por todas.
Impmon ergueu o olhar intenso para Lucas como uma fera. Era bom se preparar para a bomba verbalizada pelo imprevisível doutor.
— E eu com isso?
— O quê? Essa é a sua solução? Podia imaginar, você não liga pra nada.
— A solução é por sua conta, idiota. Veio aqui achando que te daria uma fórmula mágica tirada da minha bunda? O meu grande intelecto não foi feito para criar resoluções que não estão sob minha responsabilidade. — afirmou, de braços cruzados e olhos fechados. — Sabe o Youtube? Escuta só: tenta ficar um dia, não... uma semana inteirinha, 7 dias, sem assistir nenhum vídeo, nem dos seus canais favoritos. Pra reforçar, é bom desativar as notificações.
— Já tentei, não adianta, é mais forte do que eu. Tem as notificações ocasionais e não tem uma vez que não sou tentado a clicar.
— Aí nesse caso é uma questão de exercitar sua resistência e não cair nessas armadilhas do cérebro feito um bobão. — disse Impmon, apontando para ele. — Se nesse caso não bastar, se desinscreve de todos os canais.
— Não!
— Sim! — retrucou Impmon, batendo as mãos na mesa num "duelo" de olhares fervorosos contra Lucas — Você se deixa fraquejar, então não reclame por se sentir fraco. A culpa é toda sua! O mínimo que você faz é tratar de se esforçar, mesmo cuidando de um blog fracassado, pois só você e somente você — se inclinou para o paciente fazendo-o espremer suas costas na cadeira em afastamento — é responsável por corrigir suas falhas e isso inclui hábitos ruins alimentados por pessoas que não confiam no seu taco.
— Sou organizado e confio na minha força. — disse Lucas, tenso.
— Não confia cacete nenhum. — redarguiu Impmon, voltando a sentar-se corretamente — Fosse o contrário, esse papel seria poupado dessa desgraça que você escreveu. Pobrezinhas das árvores.
— OK, Dr. Impmon, pode deixar comigo. Vou mudar minha vida, afinal é minha obrigação como jovem adulto. Ser um homem bem resolvido e que se adianta pra não sofrer no final.
— Isso aí. Se antecipa de verdade pra depois não ficar chorando como uma criancinha catarrenta agarrado num travesseiro e se culpando. Ah sim, a culpa você tem, só falta mesmo a coragem de mudar esse cenário deplorável.
O relógio de formato exclusivamente baseado no ínclito fundador marcou 10 horas, 5 minutos e 52 segundos.
— A gente se vê... noutro dia. — disse Impmon, voltando ao seu jogo. — Vamos lá, décima-nona fase pela quinquagésima vez consecutiva... — falou com tristeza no seu tom. Lucas, dado por satisfeito, andou até a porta. Mas parou ao tocar na maçaneta.
— Como assim noutro dia? Nossa terapia é semanal, então o certo é "até semana que vem, meu caro paciente, tenha um ótimo dia.".
— Também não força a barra com essa de "meu caro". Semana que vem é meu aniversário e não vou estar disponível pra secar as lágrimas salgadas dos meus clientes.
— E quantos anos você tem?
— Decidi que farei 30 anos. Os humanos geralmente dão muita importância a essa idade.
— Peraí, então quer dizer que não sabe e resolveu dar uma festa comemorando uma idade aleatória? Tá, tudo bem, digimons tem apenas faixa etária, não vou mais te perturbar. Fui. E feliz aniversário... antecipado!
"Finalmente ele vazou.", pensou Impmon, logo aproveitando para mudar a guia do navegador, abandonando o jogo que não passava de um disfarce.
Na tela do monitor mostrava uma imagem do quarto de Lucas sendo filmado por uma câmera oculta ligada a uma escuta instalada.
— Depois do confessionário, hora da espiadinha Hehehe...
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