Psichopathic Mind
2 Capítulo 2 - Human Doll
Notas iniciais
Quando Susan acordou ela estava em um pequeno local escuro e abafado. Não conseguia ver absolutamente nada, e respirava com dificuldade.
\\n\\nImediatamente começou a chorar. Tentou se mexer, mas as mãos e o pés estavam amarrados por grossas cordas que, com a pressão, cortava-lhe os pulsos e tornozelos. Sem parar para pensar, jogou o corpo para a direita com toda a força; bateu contra uma parede aveludada. Repetiu o gesto para a esquerda para apenas ter o mesmo resultado. Esticou os pés e pode sentir a mesma parede. Era como se ela estivesse em uma pequena caixa aveludada, da mesma forma que ficavam suas bonecas novas na prateleira.
\\n\\nEla se sentiu uma boneca nova presa na caixa.
\\n\\nSusan tentou gritar, porém o único som que conseguiu emitir foi um gemido sofrido, uma vez que uma mordaça tampava-lhe a boca.
\\n\\nAs lágrimas escorriam por seu rosto desfreadamente, ela podia sentir seu gosto salgado.
\\n\\nEla se lembrou do pai gritando para que ela corresse; se lembrou de Átila rosnando debaixo do armário da cozinha; se lembrou do homem bruto com a adaga na mão; e indo mais além, se lembrou da última vez que vira a mãe, um dia antes dela ir embora. Sua pequena e ingênua mente infantil não podia processar tudo aquilo; o que estava acontecendo?! Onde estava seu pai, e onde ela estava? Ela não conseguia sequer imaginar porque aquilo tudo estava acontecendo. Era como se seu pior pesadelo tivesse se tornado realidade.
\\n\\nSem entender a situação e tampouco saber o que fazer, ela chorou. Se debateu. Gemeu como uma tentativa de grito. Nada parecia adiantar.
\\n\\nQuando as lágrimas secaram, as laterais da boca sangravam pela pressão da mordaça e o corpo cansado começava a desistir, ela ouviu passos do lado de fora do local onde estava, de sua caixa de boneca aveludada.
\\n\\nAlguém destrancou sua caixa e a luz invadiu o local, a princípio cegando seus olhos. Contra o sol ela pode ver o contorno de um homem forte e alto.
\\n\\nAntes que ela pudesse processar os detalhes, o homem a tirou de lá, jogando-a nas costas, como um saco de roupas sujar.
\\n\\nPode notar que o local em que estava era, na verdade, o porta malas de um carro velho com a lateral das portas um tanto enferrujadas. Mas isso pouco lhe dizia; o desespero travado na garganta dificultava-lhe a respiração.
\\n\\nDurante o percurso, Susan ficou olhando para o chão sujo e os calcanhares do homem. Ela não deixou de reparar que ele os conduzia em uma estrada improvisada de terra por uma floresta fechada de pinheiros, chegando a uma pequena clareira. E no meio desta, havia uma cabana antiga com as janelas quebradas.
\\n\\nO homem entrou na cabana carregando Susan de forma bruta, chutando a porta de entrada.
\\n\\nDentro da cabana, ele jogou Susan no chão e gritou:
\\n\\n-Nossa próxima mercadoria chegou!
\\n\\nUm grupo de pessoas apareceu, cada um vindo de uma porta, cercando a pobre menina.
\\n\\nNa cabeça de Susan veio uma imagem de uma matilha de lobos famintos cercando a presa. Ela se encolheu no chão frio.
\\n\\n-Mas olha que menininha bonita! Vão pagar caro por ela, estamos ricos! Estamos ricos!
\\n\\nFalou uma mulher feia e encurvada, com uma voz de gralha.
\\n\\n-Vá com calma, Josemara. Tem mais de uma utilidade para uma garotinha além de vendê-la, sabia?
\\n\\nSusan engoliu em seco, gotículas de suor apareciam em sua pele pálida.
\\n\\n-Eu sei que há, mas olhe para ela! Não vê o quanto pagariam por esses cachos negros? Ou por esses adoráveis olhos azuis? Ou por essa boca tão vermelha quanto sangue? Ou até mesmo por essa macia pele branca? Ela se parece uma verdadeira princesa! Coisa difícil de se achar hoje em dia. Vamos lá, Lavitcho, ela nos trará muito dinheiro, e uma boa reputação como ótimos vendedores no Mercado Negro também.
\\n\\nOs capangas que apenas observavam concordaram cheios de ganância.
\\n\\n-Não. Nós já temos boa reputação no Mercado, e dinheiro podemos conseguir com outras mercadorias. Sou eu quem mando aqui, faremos com a menina o que eu julgar ser o melhor.
\\n\\nRespondeu Lavitcho friamente.
\\n\\nOs outros o olharam bravos, mas deixaram-o falar.
\\n\\n-Como podem ver ela é nova, cheia de vida, com pouca informação na cabeça e muito a aprender.
\\n\\nJosemara olhou para o resto dos homens para se certificar se alguém estava entendendo alguma coisa.
\\n\\n-Aonde pretendes chegar, Lavitcho?
\\n\\n-Desde que o Papi Vito foi embora, pois cansou-se dessa vida criminosa, temos sentido falta de alguém em nossa..."família". Estamos em um momento no qual deveríamos aceitar de muito bom grado um novo integrante ao grupo. E essa menina... Nós podemos ensinar tudo a ela, será muito fácil fazê-la esquecer o que sabe e aprender nossos esquemas, uma vez que é tão jovem. Além de que, bonita do jeito que é, ela atrairá facilmente nossa "mercadoria". Ela pode usar um estilo que nenhum de nós pode usar, o poder da sedução. E quando ela crescer...bem, será ótimo ter uma mulher tão linda ao grupo.
\\n\\n-Sim, mas e se, ao crescer, ela passar a entender que o quão cruel pode ser o que fazemos visto de um ponto de vista...vamos dizer, ético? E se ela chamar a polícia ou qualquer coisa do gênero?
\\n\\n-Nos vamos ensiná-la nosso próprio ponto de vista, e se, desde já, ela ver esse mundo, ela vai crescer com a ideia de que o que fazemos não é algo ruim ou anti-ético. Para ela isso se tornará tão normal quando respirar e dormir.
\\n\\nJosemara fitou Lavitcho por um tempo, por fim desistindo de discutir e aproximando-se da menina.
\\n\\nAo ver a horrível mulher vindo em sua direção, Susan tremeu, dos pés a cabeça. Se encolheu o máximo que conseguia, desejando desesperadamente poder diminuir até sumir do mapa. Virar uma pequena molécula invisível a olho nu.
\\n\\nJosemara colocou-a de pé, puxando seus cabelos. Olhou bem nos seus olhos, avaliou sua pele, mexeu em suas roupas. Tirando a mordaça de sua boca, perguntou com sua voz de gralha:
\\n\\n-Qual seu nome, garota?
\\n\\nSusan se manteve em silêncio, com os olhos cheios de medo e terror.
\\n\\n-Eu perguntei qual o seu nome?!
\\n\\nFalou Josemara rudemente, dando-lhe um tapa na face.
\\n\\n-S — S — Susan.
\\n\\nGaguejou ela, meio choramingando.
\\n\\nVirando-se para Lavitcho, Josemara falou simplesmente:
\\n\\n-Aos meus olhos ela é completamente inútil, apenas um bebê chorão com medo de tudo. Mas você quem sabe, o problema é seu.
\\n\\nCom isso, ela se retirou da sala, seguida pelos capangas alertas.
\\n\\nAssim que a sós com a menina, Lavitcho puxou dois banquinhos, sentando-se no seu e ajudando uma Susan amarrada a se sentar no dela.
\\n\\n-Olá, Susan.
\\n\\nA garotinha olhou-o assustada. Era o homem que havia entrado em sua casa e.. Seus olhos se encheram de lágrimas ao se lembrar de papai.
\\n\\nLavitcho rapidamente percebeu as lágrimas da menina e as enxugou com os dedos firmes.
\\n\\n-Não chore, está tudo bem.
\\n\\n-Seu monstro! O que fez com o meu papai?!
\\n\\nGritou Susan de repente em um fôlego só, aproveitando uma onda calorosa de coragem que a atingiu. O rosto antes ingênuo, inocente e assustado agora convertido em puro ódio.
\\n\\nUm sorriso horrível se abriu no rosto de Lavitcho. Ele gostava do que via no rosto da menina, um ódio tão puro...e lindo em sua visão! Seria mais fácil ensiná-la ao saber que dentro dela havia um sentimento tão intenso e sombrio assim.
\\n\\n-Querida...acredite, eu te fiz um grande favor. Um dia você vai me agradecer. As pessoas são más e cruéis, tudo o que fazemos é responder sua maldade com a mesma intensidade, de uma forma mais...direta, obviamente. Mas não tenha ódio de nós, tenha ódio deles.
\\n\\n-Não! Você é cruel, e..e... Queria que você nunca tivesse nascido!
\\n\\nGritou Susan, cuspindo na cara de Lavitcho no final da frase.
\\n\\nO homem não pensou duas vezes antes de meter-lhe um soco de direita na maçã do rosto de Susan, fazendo-a voar da cadeira e cair com tudo contra o chão frio de pedra.
\\n\\nLevantou-se calmamente, como se nada tivesse acontecido e, antes de sair da sala, acrescentou a Susan que permanecia caída no chão:
\\n\\n-Tens muito a aprender, mas você tem um gênio forte, dramático, intenso. Gosto disso. Gosto muito mesmo.
\\n\\nAo abrir uma das portas, o filhote de pastor, Átila, saiu do quarto e correu até Susan. Um brilho intenso passou pelos olhos dela ao ver o seu filhote, porém esse brilho se apagou na mesma velocidade com que havia aparecido.
\\n\\n-Pensei que iria gostar de trazê-lo com você.
\\n\\nMurmurou Lavitcho sem ter certeza se a garota o escutava, logo após entrando no quarto e fechando com força a porta atrás de si. Deixando Susan caída no chão, apenas com Átila de companhia. O qual deitou-se ao lado da dona, com a cabeça encostada no braço da menina.
\\n\\nSusan choramingou baixinho para que apenas o cachorro escutasse:
\\n\\n-Átila... Eu quero ir para casa...
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