Ps: I Love You

46 Capítulo 45 - Lost and Found


- Aonde você esta indo? — Kenna perguntou pela centésima vez.
- Já disse, tenho uma reunião da GDE na escola. — Júlia respondeu.
Kenna franziu o cenho, acompanhando a menina até a porta da sua casa.
- A Win vai chegar jajá, ela disse que vai fazer algo estranho de chocolate que eu não sei falar o nome, tem certeza que não vai querer provar? — a menina perguntou.
Júlia riu. Queria provar o doce da amiga, mas ela não podia faltar essa reunião, mesmo sendo férias.
- Não, desculpa Kenna, mas não dá. – ela riu, saindo da casa da amiga. – Mas diz pra ela que, até o fim da próxima semana, ela está intimada a ir fazer isso na minha casa!
- É quando vai ser o show dos meninos, não é? Digo, não nesse final de semana, no outro.
- É sim, por isso mesmo. – Júlia piscou – Como comemoração.
Ela despediu-se de Kenna e saiu andando sem pressa, demorando apenas uns vinte minutos para chegar na escola.
Ver aquele lugar tão vazio era algo absurdamente estranho. Naquele dia não havia nem ao menos funcionários lá, apenas os outros alunos do GDE.
Júlia deu bom dia ao porteiro, que diferente dos dias de aulas, estava para dentro da escola, e entrou, carregando consigo uma pasta azul.
A menina seguiu até o final do corredor e virou-o, encontrando uma parede revestida por armários.
Com facilidade e costume, achou o que era, na verdade, uma entrada para a sala secreta do GDE.
Montou a senha numérica e abriu a porta. Entrou no estreito corredor escuro e trancou o armário por dentro.
Estava ansiosa para essa reunião. Passara a última semana pesquisando sobre cada uma das normas da escola a procura de algo que lhe desse vantagem contra Leana e para a sua surpresa ela achara algo que lhe dava muito mais do que simples vantagens.
Júlia não demorou a chegar à sala, aonde à mesa, já havia a grande maioria dos alunos participantes do Grupo.
- Você esta atrasada, Walkins. – Juu ouviu a voz de Leana soar alta e severamente.

A menina corou, mas manteu o olhar sério e sentou-se ao lado de Andrew.
- Bom, Srta. Silver. – ela disse formalmente. – Eu peço perdão por isso, ainda que não deva, já que esse tipo de reunião é proibido pela escola em período de férias.
- Que tipo de reunião? – Leana perguntou irritada.
Júlia sorriu vitoriosa.
- Do tipo inútil, que se converterá em interesses exclusivamente seus para a escola. – ela disparou.
Leana olhou-a atordoada por um momento.
Deus, como alguém pode ser tão burro?
- Você não pode falar assim com ela. – Verity disse em defesa da ruiva.
- Tecnicamente, pode sim. – Andrew disse em seguida. Ele parecia muito mais seguro do que da última vez que estivera ali. – Não há nenhum protocolo de conduta oficializado para o Grupo, porque o último já perdeu a validade e você, Annie, nunca se preocupou em editar e re-oficializar outro.
Júlia sorriu, maldosa.
- Como você pode ver, graças a você, insultos aqui são perfeitamente permitidos.
Um burburinho percorreu a sala, deixando a ruiva aos prantos. Ela sabia que, se fosse a decisão de mais de setenta e cinco por cento dos integrantes do grupo, ela poderia sair do poder. Mas o que ela não imaginava – por nunca ter lido tal protocolo – é que, sem a validade nenhuma do mesmo, ela poderia ser tirada dali até mesmo se só cinco por cento do grupo a quisesse fora.
Júlia abriu a sua pasta e esparramou alguns papéis pela mesa.
- E se o protocolo de normas não existe ou não tem nenhuma validade, eu tomei o direito de mudar um pouco o assunto da reunião. Ao invés de discutirmos a construção de uma sala de beleza ou a instalação de aparelhos de ar condicionado, iremos discutir as opções para uma nova presidência.
Annie bateu as mãos na mesa com força, enquanto Júlia, sem nenhuma preocupação, rodava a mesa entregando folhas aos outros participantes.
- O que você pensa que está fazendo? O meu mandato dura até o final do ano que vem e só eu posso indicar os próximos candidatos! – ela exclamou, furiosa.

Júlia olhou para ela e sorriu, depois voltou a olhar para os outros participantes, se postando em frente a uma lousa branca. Era sempre ali que os integrantes discursavam sobre suas idéias, mas em geral, desde que Leana tomara a posse, era a primeira vez que alguém invadia o espaço que ela tinha tomado como dela.
- Bom. – Júlia disse educadamente aos outros participantes. – Quero que vocês atentem para o fato de que a presidenta que vocês colocaram aqui, não sabe nem mesmo as normas que ela deveria ter criado.
Os outros olharam com um olhar duvidoso para Leana, que sorriu amarelo.
- Srta. Silver, é preciso lembrar-lhe novamente que a senhorita deixou de re-oficializar um novo protocolo de normas? Era uma dessas regras que lhe dava plenos poderes de mandar um ano, bem como a exclusividade de escolher os futuros candidatos. – Júlia disse com muita calma e segurança. – Mas já que essas regras estão vencidas, e portanto não valem nada, então eu tenho todo o direito de indicar outros alunos que, diferente de você, sejam íntegros e possam conduzir o Grupo sem os seus deslizes.
Vários dos outros alunos presentes ali começaram a cochichar entre si.
- E essas folhas são para que? – Andrew perguntou, piscando de longe para a menina, que sorriu.
- Bom, elas...
- E você acha que vai indicar quem para presidente, sua nerdzinha? – Leana interrompeu.
- Faço das dela, as minhas palavras. – Verity retrucou, séria e mais educada.
Os outros alunos olharam para Juu, como se perguntassem a mesma coisa.
Ela não tirou o sorriso triunfante do rosto por nem um segundo.
- Nesses papeis, alem das regras de datas de expiração do protocolo, que evidenciam tudo o que eu disse, trago alguns nomes de alunos que, não segundo eu, mas segundo aos seus históricos escolares, são mais do que competentes para o cargo. – Júlia explicou.
- Realmente. – algum aluno ali se manifestou. – Realmente, as pessoas que estão na lista são, de fato, alguns dos melhores alunos do colégio.
Leana baixou os olhos para a sua cópia.

- Dammins... Folks... Cunningham? Patric Cunningham? – ela exclamou. – Vocês realmente acham que aquele loirinho aguado pode conduzir a direção do Grupo?
- Definitivamente. – alguém ali concordou. – O Cunningham tem notas ótimas... – a menina de olhos verdes e cabelos castanhos olhou para Juu. – Foi ele quem coordenou a última feira de ciências, não foi?
Júlia assentiu.
- E a feira foi ótima e super bem organizada, não foi?
Todos ali concordaram sem hesitar.
No segundo seguinte, Verity levantou um olhar maldoso para Juu, levantando-se da mesa.
- Vejo que ainda colocou Winter Pricolo como uma das opções. – ela comentou.
- Sim, eu, de fato, a coloquei. – Júlia sorriu.
Verity olhou para os outros participantes, com um olhar otimista.
- Vocês não acham estranho que ela indique justamente a melhor amiga dela? – a loirinha provocou. – Não acham que é muito conveniente para a nossa amiga Walkins ter a melhor amiga na liderança do grupo mais “poderoso” da escola?
- De fato, ela tem razão, Walkins. – um rapaz ali disse, olhando para Juu.
A menina suspirou alto.
- É uma pena que pensem assim. – ela disse, em lamentação. – Porque eu, em cinco longos anos de Grupo, nunca lhes dei nenhum motivo para que duvidassem da minha honestidade como uma integrante. As notas da Pricolo são altíssimas também e... – ela quase deixou uma risada escapar, olhando de rabo de olho para Leana. – Com o perdão da citação, muito melhores que as notas da atual representante.
Ela pode ver várias pessoas ali conterem as risadas, enquanto Leana ficava vermelha de ódio.
- Confiar a uma brasileira a liderança do Grupo é um despautério. – Leana disparou.
A expressão de Júlia rapidamente enrijeceu.
- E praticar toda essa xenofobia sendo presidenta de um grupo que prega, principalmente, o bom relacionamento entre todos os alunos dessa instituição de ensino é um disparate ainda maior. – a menina retrucou, com frieza na voz.
Annie olhou para ela piscando atordoada. Ela não sabia o que dizer.

Pronto, Juu pensou. O que eu precisava, já consegui.
- De toda forma, acho que não tenho mais o que discutir aqui. – ela disse, novamente com simpatia na voz. – Obrigada por me cederem esse tempo. Creio eu que vocês farão uma boa escolha sobre tudo isso. O papel eu deixarei com vocês, para que estudem as opções.
Ela recolheu apenas a própria pasta e agradeceu a todos os outros alunos.
- Espero que saibam escolher a pessoa certa. – ela disse uma última vez. – Aquela que saiba administrar, não só o Grupo como um segmento pedagógico, mas também em sua importância social, que creio ser ainda mais importante.
Sem mais nada a dizer, Júlia contornou a mesa em direção a saída. Ouviu um salva de palmas percorrer toda a sala, mas querendo demonstrar humildade, continuou a andar, sem olhar para trás.
Ela saiu pela porta do armário e foi andando pelos corredores, até ouvir alguém chamá-la.
- Srta. Walkins! – chamou o inspetor de alunos.
- Fred, o que faz aqui? – ela perguntou simpática. – Pensei que estivesse de férias.
- Ah, estou, mas passo aqui uma vez por semana para ver como andam as coisas. E você, o que faz aqui?
- Vim falar com o diretor sobre a volta as aulas a pedido da minha mãe. – ela mentiu.
O homem sorriu amigavelmente para ela.
- Bom, eu te chamei porque apareceu um DVD na seção de achados e perdidos.
A menina franziu o cenho.
- Mas eu pensei que tivessem devolvido tudo que tinha lá antes das férias.
- E devolvemos, por isso vim te avisar. É você a aluna representante da seção de achados e perdido, não é?
- Sou sim... Bom, pode deixar. Antes de ir embora eu vou lá dar uma olhada.
- Esta bem então, obrigado.
A menina esperou Fred desaparecer ao virar o corredor, e correu para a sala dos achados e perdidos.
Aquele lugar costumava estar cheio de tranqueiras, mas ela mesma havia devolvido tudo aos alunos antes das férias. Com a ajuda das serventes, inclusive.
Olhou para a cesta onde ficavam os objetos perdidos e viu que realmente havia um DVD ali, um único DVD e mais nada.

Ela pegou o DVD e leu a etiqueta, onde havia apenas uma data.
Por que aqueles números lhe eram tão familiares?
Os leu novamente, repetindo cada um deles para si mesma.
Depois pegou o celular e, ansiosa, ligou para Zacky. Chamou uma vez... Duas... Três, e finalmente ouviu a voz do amigo do outro lado da linha.
Prendeu o celular entre o rosto e o ombro, enquanto corria para a sala do zelado com o DVD na mão.
- Alô?
- Oi, Zacky! Sou eu.
- Juuuu! Meu ser inteligente favoriiiito! – ele disse, animado.
Ele a ouvir rir do outro lado da linha.
- Zacky, eu preciso te perguntar uma coisa.
- Ok... Ei! Você ta correndo? Parece que ta ofegando, sei lá... Cansada.
- É, eu to... Mas me diz, você alguma vez mencionou algum DVD do sistema de segurança da escola pra mim, ou eu to ficando louca?
Ela entrou apressada na sala do zelador, sem se preocupar muito se havia ou não alguém ali. A ansiedade lhe provocava um frio no estomago. Ah, se aquilo fosse o que ela estava pensando... Seria tão bom...
- Eu mencionei sim. – o menino respondeu, confuso. – Mas você prometeu não contar para ninguém.
- Eu não vou... – ela disse, enquanto ligava uma das televisões de segurança e colocava o DVD no aparelho. – Eu só quero saber, o que vocês procuravam nela?
- A Val tinha tido a idéia de assistir pra ver quem tinha colocado o gabarito das provas no armário da Win... E ver se conseguia descobrir quem colocou a senha dela na mochila do Jimmy.
BINGO! Eu achei! Eu achei!
A menina sorriu para si mesma.
As mãos suavam frio enquanto o vídeo começava a rodar a fita.
Ela já não ouvia mais a voz de Zacky. Seus olhos estavam grudados na tela, observando os primeiros movimentos dos funcionários que iam chegando.
Os números! Sabia que já tinha visto eles! São a data do dia que a Win foi pega no lugar de alguém.
Ela apertou um botão na televisão e acelerou o vídeo, até ter uma visão do primeiro alunos a entrar ali.

Seus olhos se arregalaram ao ver quem estava ali, mas não demorou a compreender que realmente fazia sentido. Não era quem ela esperava, mas ainda assim tudo se encaixava.
Eu só errei ao chutar quem havia armado a armadilha, mas não de quem a planejou.
Júlia abriu um largo sorriso no rosto.
- Zacky, está aí?
- To sim... Ta tudo bem, Juu,? To preocupado com você.
- Não poderia estar melhor... Eu vou ter que desligar, preciso fazer uma outra ligação.
- Está bem... Se precisar, me liga.
- Thank you... – ela disse e mandou um beijo, antes de desligar o telefone.
Enquanto voltava a fita no começo, discou um outro número.
- Juuuuu! – uma voz animada atendeu. – Sabia que você ia ligar pedindo o negócio de chocolate.
A menina riu sozinha, tirando o DVD do aparelho de vídeo e deixando a sala do zelador, tomando cuidado para não ser vista.
- Eu estou realmente ansiosa para comer esse doce aí. Você nem pode imaginar o quanto. – ela disse, mais para si mesma do que para a amiga.
- Então vem aqui... A gente ainda esta esperando esfriar um pouco.
- Eu adoraria, Kenna... Mas lembra que eu disse de vocês irem na minha casa.
- Sim, e daí?
- O que acha de adiantarmos pra hoje?
- Bom, por mim, pode ser. – Kenna disse displicente. – Levo a Win também?
- Se esquecer dela eu te mato.
- Aí, desculpa então, ela vai estar lá...
- Ás oito, ok? E a propósito, leve os meninos também... TODOS eles!
Kenna riu do outro lado da linha.
- Mas e se eu não conseguir falar com eles?
- Por favor, dá um jeito, Ke... É muito importante. Eu quero todos lá... Até o Jimmy.
Ela ouviu Kenna bufar.
- Será que ele vai querer ir?
- Se ele não quiser, mande o Matt levá-lo a força, nem que seja arrastando... Eu quero todo mundo lá.
- Juu, você enlouqueceu, amiga?
- Quase... Mas confia em mim... Faz isso que eu te falei e eu juro que você nunca vai comer um desse bruigadeirou com tanta satisfação, como vai comer esse.

Ela ouviu Kenna concordar e depois desligou o telefone, correndo para casa com um sorriso largo no rosto.