Notas iniciais
Por um momento, enquanto escondia os fragmentos do espelho, teve a impressão de ver algo refletido nos pequenos cacos, que estando lado a lado, como um quebra-cabeça, formaram a silhueta de uma pessoa. Por reflexo ele olhou para o teto e depois ao seu redor, mas apenas concluiu que deveria estar enlouquecendo.

Refletido

1998 – 11 anos depois.

Montreal, CANADÁ

Uma ruiva atravessou o pátio do Colégio Eileen Dork como um foguete ao encontro do namorado.

Ela pulou no pescoço do rapaz de cabelos castanhos e o beijou rapidamente, interrompendo sua conversa com os amigos.

- Oi Jeff, oi Pie, oi Chuck, oi Dave, oi Pat – ela voltou o olhar ao namorado. – Oi amor.

Ele apenas forçou um sorriso.

- Oi Annie – disse vendo uma cabeleira loira se aproximar correndo. – Oi Verity.

- Verity, querida, leve os meus livros para a classe, eu já vou. – disse Annie, ainda agarrada ao pescoço do namorado.

- Mas...

- Verity, pare, por favor, e vá logo se você quer que eu use a minha super popularidade para divulgar aquele seu teatrinho chato.

A loirinha abaixou a cabeça resignada e se pôs a caminhar em direção a sala de aula.

- Você não achar que é... Digamos, má demais com ela?

Annie não pareceu feliz com a defesa da “amiga”, mas manteve um sorriso falso no rosto.

- Ai Seb, deixa que com as minha amigas eu sei lidar. – ela reclamou.

O rapaz se soltou da namorada e começou uma caminhada pelo pátio, sem ao menos dizer “tchau”.

Os amigos o seguiram em silêncio.

- O que foi Seb, enjoou da Annie? – debochou Jeff.

Fosse “sim” ou “não” a resposta para aquela pergunta, o moreno se limitou a lançar um olhar irritado ao amigo, que se calou abafando risadinhas e entrando na sala de aula.

A aula foi super divertida para Jeff, Chuck, David, Pat e Pierre, que ficaram especulando vários apelidos para a professora de química (chegando a conclusão que o melhor era “lagartixa albina”).

Entretanto, para Sebastien Lefebvre, colegial do 2º ano, os minutos ouvindo horríveis explicações sobre reação atômica em cadeia haviam sido, provavelmente, tão ruins como os momentos chatos que não presenciava há dias.

A namorada, Annie, era o que muito chamavam de “patricinha-pé-no-saco”, poucos de “a-pop-mais-legal” e ele de “uma personalidade... Diferente”.

Ele não poderia dizer que sua vida era chata, contudo. Muito pelo contrario, ele sempre dizia ter a vida perfeita. Seus pais eram pessoas muito sensatas (na maioria das vezes), era popular, tinha amigos super fieis e namorava a garota mais popular do colégio, a qual os professores pareciam chegar a idolatrar.

Talvez, a única coisa que não pudesse dizer, era que amava sua namorada.

Não, isso Seb não se permitia fazer. Considerava-se novo demais para dizer um “eu te amo”, achava não ter conhecido ainda o significado de amor.

Ele não sabia, mas estava certo...

- E então, amor. – dizia Annie, grudando ao pescoço do namorado em frente à porta da sua casa. – Sábado nós vamos sair juntos?

O garoto sorriu e a beijou antes de responder.

- É, vamos sim... Sábado, só nos dois, sem falta.

- Então ta, beijo – deu-lhe um selinho e adentrou a própria casa.

Seb começou a caminhada que sempre fazia após a escola: Casa da Annie, Praça Loving Pie, Shopping Hope Spring e, finalmente, sua casa. Felizmente, era tudo muito perto, sua casa, a de David, a de Chuck, e a escola, sendo a da Annie, Pierre, e Jeff, mas próximas ao Shopping e a de Pat era, definitivamente, a mais distante de todas.

Ao chegar em casa, notou que os pais não estavam e, ao ouvir o telefone tocar no segundo andar, correu até seu quarto para atendê-lo.

- Alo?

- Alo! Seb? Oi, sou eu, David.

- É Dave, eu já conheço sua voz.

- Atah.

- Mas, então, o que foi?

- Você ainda tem aquele seu urso de pelúcia branco?

- O que você me deu de aniversário de cinco anos?

- É, esse mesmo.

- Olha, eu posso procurar, mas duvido que ele ainda exista!

- Ele precisa existir! – sua voz parecia ter um quê de ansiedade.

- Mas pra que você precisa dele?

- Pra fazer o projeto de ciências!

- O que? Você precisa de um urso de pelúcia para fazer um trabalho de anatomia?

- Viva e verá! Agora, pode ou não emprestar?

- Posso. Posso sim, eu vou procurar e se achar levo amanha na escola.

- Ah, brigadão Seb! Brigado mesmo.

- Ok, sem problemas, você pode até ficar com o urso, se quiser.

- Ok, até Seb!

- Até Dave...

Seb desligou o telefone e o voltou no gancho, em cima da cômoda do seu quarto.

Usar um urso velho de pelúcia em um trabalho importantíssimo de anatomia era exatamente o tipo de coisa que só poderia ser idéia de David.

Seb sorriu quando esse pensamento lhe passou pela cabeça.

O rapaz abriu o guarda-roupa que, por ser alto, possuía duas partes. Uma ocupava uma longa extensão quase até o topo. A outra, usada apenas para guardar quinquilharias, ocupava o pequenos espaço que sobrava na metade de cima do guarda-roupa.

Mesmo achando que o bendito urso não estaria ali.

Seb correu os olhos por entre as roupas ali penduradas; não havia nada.

Com um suspiro desanimado, ele abriu a parte de cima do guarda-roupa, esta estava uma bagunça.

Ali estava o urso, socado entre brinquedos antigos e coisas encaixotadas.

Tentar tira-lo dali sem derrubar tudo o que tinha em cima, foi impossível, o resultado dessa tentativa foi ouvido por toda a casa e aí, Seb já estava no chão junto a todas aquelas antigas tranqueiras.

Ele separou o urso para entregar à David e se pôs a arrumar todas as outras coisas no lugar.

- Seb? Seb, meu filho, você esta ai? – a voz de sua mãe ecoou pelo térreo.

- To no meu quarto, mãe!

- Venha almoçar, filho. – chamou seu pai.

O garoto tentou colocar rapidamente a ultima caixa no guarda-roupa, mas na pressa acabou deixando duas coisas caírem.

Uma era um pequeno espelho antigo de sua mãe que ao cair, mesmo que no tapete, acabou se espatifando.

O segundo era uma roupa. Um conjuntinho velho, de manequim pequeno, mas com uma característica que lhe chamou atenção: estava rasgado.

A base da camisa daquele conjunto estava incompleta. O pedaço de pano que faltava parecia ser estreito, mas ligeiramente comprido.

- Seb, o almoço já esta servido. – chamou sua mãe.

O rapaz puxou o tapete com o espelho quebrado para debaixo da cama sem sequer tocar nos cacos.

Por um momento, enquanto escondia os fragmentos do espelho, teve a impressão de ver algo refletido nos pequenos cacos, que estando lado a lado, como um quebra-cabeça, formaram a silhueta de uma pessoa. Por reflexo ele olhou para o teto e depois ao seu redor, mas apenas concluiu que deveria estar enlouquecendo.

Assim, pegou a roupa em cima da cama e fez o mesmo que fizera com o espelho sobre o tapete.

Estando o quarto novamente arrumado, desceu correndo ao encontro dos pais.